Filho do fim do mundo

1 Morte, destino e renascimento.


Notas iniciais
Este é somente um trecho experimental de um dos muitos capítulos em produção para a história que originalmente criei. Em breve, e provavelmente irei postar este meu trabalho com ordem. Boa leitura.

Meus olhos lutam contra a claridade do ambiente em que misteriosamente estava. A sensação é vazia, onde para todo canto que se olha é de um branco sólido e nem mais uma ponta de vida, apenas branco. A não ser, é claro, por mim. Tenho medo do que pode vir. Seria este o céu? É o que venho me perguntando desde que abri os olhos. O paraíso é representado de tal forma em meu mundo. Iluminado, bom, reconfortante. Apesar de que... não me sinto bem, e menos ainda confortável, até que, de imediato uma cor distinta do cenário pinta por ali. É pequeno, negro e felpudo. Seus olhos amarelos são como duas lantrnas acesas para me indicar o caminho.

Aproximo-me deste, mas o felino só faz me observar com tranquilidade. Algo nele sim me traz conforto, talvez familiaridade. No ato de me abaixar e dobrar os joelhos, meus dedos correm por entre as orelhas do bichano, e o animalzinho se diverte com o carinho, ronronando.

— E agora, este lugar parece confortável o bastante para você? - Indagou o gato, fato este que não me surpreendeu. É como estar em um sonho, coisas malucas acontecem, mas são suas loucuras representadas em imagens, então não há nada de estranho com isso. É você.


— Não... - Respondo - O lugar não. Mas você, sim -


— E como está se sentindo? - Ele faz menção à ferida com a patinha— Ela ainda dói? -


— Se você não tivesse perguntado, eu nem me lembraria dela - E de fato teria me esquecido do rombo no abdômen e a camisa aberta em uma fenda, bem no meio do peito.


— Não acha irônico ter se esquecido do motivo de estarmos aqui? — E expressou uma reação que mais se assimilou a um riso humano— Você resume toda a humanidade em si, Azrael -


— Não sei o que isso quer dizer, afinal. E nem por que me chama por este nome -


— O homem, seja na Terra ou em Eather se esquece por quais motivos está nesses lugares. Esquece-se que carros, casas, dinheiro, poder, habilidade... só os separa um dos outros, quando na verdade eles estão sozinhos no mundo e não há mais nada vivo além deles ali. Estão muito mais preocupados com o que têm que com a coexistência - Dizia a negra bolinha de pelos — Assim como você, que se esqueceu do motivo de estar "aqui" -


— E o que de fato é este lugar? — É a pergunta que me incomoda como uma pulga atrás da orelha — Estou sonhando? Ou estaria mesmo morto? - A verdade é que, se estivesse morto, a única grande preocupação em mim seria Hope ainda estar lá fora, lutando contra meus assassinos. É assustador eu não me assustar com a morte?


— Ambos. Este é o lugar onde vivem suas memórias, sensações. Um espaço onde rua existência é resumida - Disse

— E você? O que faz aqui já que este é um espaço tão meu? - A arrogância fora um mero acaso da questão ser tão franca.


— Isso nos leva ao seu objetivo aqui... - Seus olhos se comprimem por um momento enquanto a boca por baixo do focinho cor-de-rosa não para de se mexer — Eu sou quem te criou, e também quem concebeu o mundo no qual foi assassinado, há alguns segundos atrás... -


— E qual é o seu nome? - Pergunto com ainda mais entusiasmo.
O gato deu um passo para trás, balançou sua calda e me encarou firmemente nos olhos

— Meu nome é Shyra... - Algo em seu nome me acende — Estamos devidamente apresentados. É um prazer, por mais que tenhamos nos encontrado em outras ocasiões durante sua vida, mas é claro que não irá se lembrar -


— Então, você seria minha mãe? — Não havia sentido em perguntar algo como aquilo para um gato, só que nada mais fazia sentido para mim.


— Não, Azrael, não sou um felino... - Sibilou, aparentemente lendo até meus pensamentos — Esta forma, este animal foi sua última lembrança de Eather, quando era somente uma criança e foi levado daqui para a Terra dos homens, onde cresceu. Você não se lembra dele com clareza, mas o pequeno esteve em sua família por muitas gerações -
Tais revelações ainda não se encaixam em minha cabeça, o que me deixa apenas com mais dúvidas

— O que você quer dizer, Shyra? O que tudo isso significa -


— Você, Azrael, é mais parte de Eather do que imagina - De imediato me recordo do episódio entre mim e Hope na fogueira, quando dizia a ela que este mundo não era minha casa. Nossa conversa é interrompida por uma névoa densa que ganha tamanho e avança em nossa direção aos poucos. Aquela massa escura não me deixa com a sensação de que algo bom esta por acontecer, mas ao contrário de mim, Shyra não se mostra impressionada, aparentando já esperar pelo evento — Entendo... - Murmurou o bichano — Não temos mais tempo para conversar, meu filho amado. Mas deixo a ti com uma escolha, e esta deve ser respondida com absoluta certeza... - Meu olhar migra novamente para ela, mas sem me esquecer da névoa que promete chegar até nós.
— E o que seria? - Pergunto com cautela.


— Se desejar ficar comigo, você deixará de existir no mundo dos homens, e até mesmo Eather. Seu espírito se juntará ao mundo das almas, onde repousam aqueles que perderam suas vidas -
— Céu? -
— Pode se dizer que sim - Conclui
— E se eu não quiser seguir contigo? - Talvez a resposta não fosse a que eu queria. Shyra transpira bondade e conforto, e estar diante de ti é tão prazeroso que o mundo carnal me parece bem mais imundo e repugnante agora.


— Nesse caso, você irá com ele... - Uma óbvia menção a névoa — Que é nada mais que... Você. Se escolher Você, poderá retornar ao mundo dos vivos, e também conhecer sua real identidade, algo que eu mesma escondi de si próprio por muito tempo. Em suma, você irá se tornar quem desejar ser -
— O livre arbítrio... - Sussurrei intimamente.
Ela ri novamente, dessa vez mais intensa que antes — Com melhorias - Sugeriu.
Pensei por poucos segundos, e levaria mais tempo se a névoa e sua aproximação não fosse tão intimidadora — Hope corre perigo, e neste momento ela luta sozinha, e, o fato de eu poder viver a vida que não vivi me atrai. Eu quero conhecer a mim mesmo, quem eu deveria ser... É um ponto a se levar em conta -


— Está certo de sua escolha? - Perguntou ela no que parecia a última vez.
— Sim— Juntei nossos olhares — Eu preciso voltar!—


— Pois bem— Ela me pareceu calma, e mais uma vez sem se surpreender — Antes de te deixar com ele preciso te dizer uma coisa... — Neste ponto a massa escura já estava perto o bastante para que o ar em nós ficasse denso — Azrael, a vida que escolheu é difícil. Você vai chorar, se machucar, e ser triste, bem mais triste do que feliz. Vai conhecer o mundo como ele é e não como quer que ele seja. Apesar de tudo é a sua vida e de mais ninguém, assim como este lugar aqui. Faça dela apropriada para si mesmo, meu menino... - A névoa finalmente nos abate, e me esforço para permanecer ali, perto de Shyra, logo que ela me puxa para longe do gato — Não lute contra quem você é— Sorriu ela — Azrael, eu te amo - Então tudo se apaga.

Notas finais
Trecho experimental do capitulo de mesmo nome. Qualquer dúvida entrem em contato, aceito críticas construtivas e também conteúdos para o encorpamento da trama. Outros trechos possivelmente serão postados antes de vir a história completa. Obrigado por ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!