Notas iniciais
Provavelmente estou gabaritando a lista de pecados escrevendo essa história, ou não, depende de quem lê. Basicamente não tenho intenção de ofender quem acredita na bíblia, esta pequena história vem da ideia da existência do ser que é menos provável de receber a misericórdia do divino acompanhar presencialmente boa parte do desenrolar da história bíblica e o crescimento da humanidade,mas, não tenho planos imediatos de continuar então é apenas uma introdução sem grandes esperanças de continuação.

Seu filho ia morrer, ele sabia disso, em tão tenra idade o segundo filho de Caim havia caído doente de forma repentina, sem nenhuma aparente melhora independente dos esforços de sua mãe que lhe dava toda sorte de chás e o melhor dos alimentos da terra para lhe fortalecer, e permaneceu orando ao Criador sem cessar.

Eram tempos difíceis ou apenas os desígnios do Criador, lamentava sem realmente lamentar Caim, em sua condição de marcado, diante de seu homicídio intencional contra a única criatura que lhe olhava com nada mais que a mais pura ternura.

Ele sabia que Abel o amava como o bom irmão que ele era, mas, ele retribuiu esse amor fraterno com fúria cega e invejosa, e resultou em seu irmão desfalecido no chão, seus olhos vazios lhe encarando com nada mais que surpresa, tristeza e traição, mas, nenhum vestígio do ódio borbulhante e vicioso que Caim tinha em si, e ele não se arrependia do que fizera, embora entendesse como o peso de sua ação recai sobre si, e sabia que no fundo Abel não morreu lhe odiando, e isso de certa forma ampliava sua fúria interna.

Agora seu filho desfalecia e convalescia em sua enfermidade misteriosa, Kelaya que fazia juz a seu nome não era exatamente o mais produtivo ou esperto de seus filhos, pelo contrário, era uma criança aluada e distraída que vivia sonhando acordado pelos cantos em silêncio, era facilmente enganado pelos irmãos e precisava estar sobre o olho de Caim para ficar longe de problemas, ele não era como Enoque que era abundante em bom senso e inteligência, ou entusiasmado e carismático com a menina Areli que conquistava bons olhares por onde passava por sua atitude, embora Kelaya fosse uma criança alegre e com certo carisma ele era introvertido demais e muitas vezes estando ocupado com seus pensamentos se auto isolava em silêncio e sua ausência não era notada até que se ouvissem seus lamentos por ter tido sua paz perturbada pelos seus irmãos ou pelas outras crianças do vilarejo em que viviam.

Os grandes olhos de Kelaya eram castanhos e amendoados, passando uma imagem de tristeza que não combinava com a personalidade tranquila e geralmente alegre do menino que não reclamava quando ele mandava que ele permanecesse ao seu lado e realizava os trabalhos sem reclamar, separando a melhor parte de suas refeições para ele Caim como forma de mostrar respeito ao pai.

Isso era familiar demais para Caim tolerar mas, lidar com a constante presença de seu falecido irmão lhe atormentando, na forma de lembranças, era algo que Caim teria de lidar até o fim de seus dias.

Porém diante da morte iminente de seu filho, a quem Caim a sua maneira aprovava, algo vinha lhe deixando inquieto e no mínimo desconfiado.

Caim notou que alguns dias antes do súbito adoecimento Kelaya chegou perto de si após sair debaixo de uma árvore onde ele costumava cochilar, assustado e pálido como cera, afirmando que um homem estranho e assustador tinha lhe falado coisas que ele não entendeu e desapareceu.

De início Caim pensou que ele dormiu e acordou assustado com um sonho ruim, acalmou a criança e lhe mandou se limpar para a refeição que estava quase pronta mas, decidiu ir ao local averiguar o que aconteceu de fato, acreditando que talvez despertando do seu sono Kelaya tenha visto alguma ave noturna e estando meio acordado confundiu a aparência e trinado da criatura com uma pessoa e se assustou.

Porém ao recolher a flauta do filho, ao qual ele vivia esquecendo por aí, Caim sentiu-se incomumente observado.

Nas folhas da árvore ele viu o que parecia ser uma silhueta familiar e por uma fração de segundos um par de olhos incomuns lhe encarou por alguns instantes antes de desaparecer.

Aqueles olhos não eram humanos, eram cortantes, frios e tinham uma malícia quase que maníaca, uma falta de vivacidade e uma maldade intensa de uma forma que Caim, mesmo ele sendo um assassino, não soube explicar exatamente.

Voltando para casa, Caim baixou a ordem, Kelaya não poderia estar desacompanhado de nenhuma forma, ele lhe deu mais trabalhos e responsabilidades a cumprir com Enoque e estabeleceu que se ele não estivesse com ele ou sua mãe deveria permanecer com seus irmãos.

Aqueles olhos eram o puro mal encarnado, e mesmo em sua natureza homicida, Caim pela primeira vez em muito tempo sentiu medo por saber de forma inconsciente que algo ruim estava por vir.

Diferente de seu irmão, que estava resguardado na memória e favor do criador mas, cuja lembrança ainda lhe atormentava, Caim viveria o suficiente para ver o que lhe atingiu, através da trama maquiavélica daquele que é pai da mentira e mãe da perversidade e do pecado.

O dono dos olhos de fato era o mal encarnado, e estava em dores de parto, prestes a dar a luz a concepção de um maligno plano cuja intenção era fazer a humanidade, a criação tão querida de Deus, se auto destruir em uma chacina violenta de ódio e profanação do propósito divino.

Uma maldição, ele iria amaldiçoar a segunda cria de Caim para que ele se tornasse um ser maligno e sanguinário, que tornaria outros semelhantes, se utilizando de suas mentiras o maligno daria a entender que Deus estava punindo Caim em dobro amaldiçoando sua prole, para que eles se destruíssem odiando seu criador.

Ele não tinha escrúpulos em atingir uma criança, muito menos em lhe dar o fardo de lhe tornar o primeiro monstro sanguinário da humanidade.

Caim poderia ser o homicida e portador da maldição mas, ele já era amaldiçoado por si, e mesmo com sua ação cruel e profana, Caim não atraía tanta atenção, era um secundário por natureza, mesmo que sua arrogância lhe dissesse o contrário.

Abel era seu alvo primário, sendo fortemente odiado pelo maligno pela sua fé e vontade de se aproximar do criador, diferente de seus pais inúteis e agora imperfeitos.

Ele visava amaldiçoar os filhos de Abel para destruir a fé que ele tinha no criador, e em seguida todos encontrarem seu fim uma geração de amaldiçoados que varreria a vida na terra mas, Caim em sua fúria de inveja e rancor patético foi mais rápido e deu cabo no pastorzinho iluminado.

Ele realmente se rejubilou com a morte do tolo mas, com o fim de sua existência foram necessárias mudanças de plano, e embora o sofrimento tenha lhe trago uma boa sensação, o maligno não ficou feliz por Caim ter ousado interromper seus planos.

Então para mostrar que Caim nunca seria o escolhido e lhe punir por ser um tolo que interrompe os planos alheios, nada melhor que utilizar seu segundo filho o que mais tinha boas possibilidades além de Enoque, como o vetor da maldição.

Entretanto, ao se aproximar da criança tola que dormia como o insetinho indefeso que era, algo fez o menino despertar e ter a assustadora visão do Diabo em uma forma transitava entre um disfarce humano e sua verdadeira forma, que ainda era angelical.

A mente da criança era simples demais para entender a forma do opositor, o trauma o adoeceu de tal forma que nada lhe fazia melhorar mas, o maligno não estava disposto a permitir que o pirralho morresse a atrapalhasse seus planos.

Ele não poderia dar vida ou trazer alguém de volta do descanso da sepultura mas, sua maldição prendia a alma do ser vivente em seu corpo não permitindo que ele expirasse mas, ele também não estaria vivo, por isso para não apodrecer, precisaria se alimentar periodicamente do alimento que representa a vida em sua mais pura manifestação, o sangue.

E assim ele o fez, em um momento de distração, o menino Kelaya estando sozinho por alguns instantes, tremendo com sua febre sem fim, arregalou os olhos ao ver o seu algoz e abriu a boca para gritar por socorro mas, foi subitamente silenciado com um par de mãos com força além do humano e diante dos olhos ferozes e destrutivos teve sua alma presa ao corpo no momento em que daria seu último suspiro antes de morrer.

Caim que estava acompanhando a esposa que tinha cozido um caldo com os melhores ingredientes para expurgar a febre contínua de Kelaya, sentiu um súbito ímpeto de correr ao quarto do menino, sentindo que aquela sinistra presença tinha retornado.

Adentrando o quarto rapidamente ele viu a coisa repugnante segurar seu filho no ar por alguns instantes antes de desaparecer subitamente, e o menino cair na cama em um baque surdo.

Sua esposa chegou logo atrás gritando por seu menino desesperada pelo som, ela o recolheu nos braços lhe verificando mas, a febre tinha sumido e a doença não mais existia, ela chorava emocionada agradecendo aos céus pela misericórdia intercedida eles mas, observando Kelaya de longe, Caim observou no menino que algo estava fora do lugar.

O que aconteceu não era loucura de sua cabeça, ele viu aquela coisa segurar seu filho como quem segura um boneco. E ele sabia que Kelaya não era mais o filho que ele costumava ter, ele se comportava com a criança que era antes mas, algo em seus olhos revelava que ele já não era mais humano.

Notas finais
Basicamente é isso. Tenham uma boa vida.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!