Filho das Sombras
1 Prólogo: A Fortaleza no Deserto
O deserto de Nassarad engole quase toda a região Norte do continente de Elleria, com exceção de uma pequena região a leste, uma faixa estreita onde se localizava uma densa floresta fechada de árvores altas e copas cheias, terreno úmido e chuvas constantes. Dizia-se nas cidades ao Sul que o deserto só existe porque a pequena floresta impedia a chuva de chegar até ele, e que um dia, num passado muito distante, mais distante do que qualquer pessoa viva poderia se lembrar, talvez até mais antigo do que o próprio homem, aquele deserto fora um lugar paradisíaco e mágico.
Mas hoje, sabe-se lá quantos milhares de anos depois, o deserto era enorme, se estendia de horizonte a horizonte, em uma travessia de pelo menos cinco semanas, sem água, repouso ou estalagem para dormir. Apenas sol, calor, areia e morte. E era nesse local, sem nenhuma chance de se salvar com vida que Askam Ipotes estava.
Askam estava sobre a corcova de um camelo, e até mesmo esse sentia-se fraco e desidratado pelo calor excessivo e o Sol escaldante sobre a cabeça durante tantos dias. Askam pendia, também fraco. Estava no deserto pelo terceiro dia, e a sua água havia acabado na manhã anterior. Não morra agora, pensou, ainda não. Você precisa avisá—los! Askam sentia um forte desejo de se largar do camelo, cair na areia quente e ficar ali de vez. Isso com certeza acabaria com seu sofrimento. As bolhas na pele e queimaduras por baixo dos panos e do couro de sua armadura já não o incomodavam mais. A queimadura na mão, que adquiriu quando tentou segurar a espada para livrar-se dela e do peso, parecia anestesiado.
Havia largado a espada no primeiro dia de viagem pelo deserto. O peso e o calor atrapalhavam sua jornada, e a decisão de largar a espada havia sido dura. Sabia que se o encontrassem iriam matá-lo, e ele não teria como se defender, mas precisava arriscar. Sua única missão era avisar a eles, nada mais importava, nem mesmo sua vida. Se conseguisse, morreria como um herói, e se não conseguisse, bem... No final não haveria mais ninguém para lembrar-se dele mesmo, então não faria diferença. Mas eu preciso chegar até lá! Eu preciso avisá—los!
Já havia passado do meio dia, mas o Sol ainda estava alto no céu. O camelo parecia diminuir a velocidade lentamente, como se perdesse suas forças.
— Anda, camelo maldito — Disse ele, enquanto dava um tapa de leve no pescoço do animal — Não falhe comigo agora. Aguente só mais um pouco! Estamos quase lá!
Askam se esforçou para abrir os olhos e olhou ao redor. A areia brilhava sob a luz do Sol e quase o cegava. Conseguiu avistar no horizonte, a algumas horas de viagem, uma pequena sombra negra, trêmula com o calor que levantava do chão. Estamos quase lá, só mais um pouquinho!
— Aguente firme, amigão — Askam falou com o camelo — Estamos chegando.
Andaram pelas areias por mais algumas horas, que pareceram uma eternidade. Pouco a pouco a sombra no horizonte se tornava mais escura e densa, tomando a forma de uma enorme fortaleza de pedra negra. Já era fim de tarde quando conseguiu identificar a Fortaleza de Nassarad a frente. Ainda faltava mais meia hora de caminhada até lá. E foi nessa hora que as patas do camelo se dobraram e derrubaram Askam no chão quente de areia escaldante. O camelo respirava ofegante, até que não respirava mais. Seu corpo ficou rígido e imóvel e ele morreu ali, a poucos metros de sua salvação. Sinto muito, pensou Askam olhando o corpo morto do camelo, eu preciso continuar. Sem olhar para trás, Askam se pôs de pé e continuou sua jornada até a Fortaleza.
Ele conseguia sentir a areia quente entrando por seus sapatos e queimando a sola do seu pé. A jornada de meia hora se tornou mais longa. Ele não conseguia olhar para nada além da Fortaleza que crescia diante dele. Ainda estava longe, mas já era possível ver o quão magnífica ela era. Completamente negra em contraste com a areia clara do Deserto. Fria e escura em meio á tanta luz e calor. O símbolo perfeito para o motivo pelo qual havia sido construída: resistência.
Askam conseguia ver os portões agora, e sentia que se aproximava. Um passo de cada vez, e a única coisa que conseguia pensar era que precisava avisar a eles. "Chegou a hora, Askam", havia dito o seu mestre, dias atrás quando partira do conforto do castelo em direção ao Deserto. "Você precisa ir agora. Pegue água e alimento e vá. Não beba a água toda antes de chegar ao Deserto! Não perca tempo, não desvie o caminho e não pare pra nada. Eles precisam saber o quanto antes." Askam devia ter ouvido o seu mestre, mas como ele iria imaginar o quão longe era a Fortaleza. Um passo de cada vez, Askam, você consegue! Ele sentia-se fraco e suas pernas pareciam que iam falhar a qualquer momento. Um passo de cada vez. Askam deu mais um passo em direção á Fortaleza, a sola do seu pé, em carne viva, doía insuportavelmente. Um passo de cada vez... Ele deu mais um passo na direção do castelo. Sua visão começava a turvar-se e os movimentos ficaram mais lentos. Não, não, não... Askam, idiota, só mais um pouco. Você está quase lá! Ele deu outro passo, mas suas pernas fraquejaram e ele caiu na areia. Ele respirou fundo. Sentia como se fosse chorar, mas as lágrimas secaram antes mesmo que saíssem de seus olhos.
Askam levantou-se da areia com dificuldade. Câimbras horríveis e dolorosas tomavam seu corpo inteiro. Ele olhou para a Fortaleza e deu mais um passo. Ele precisava chegar lá e avisar, depois poderia morrer em paz, mas não antes. Havia chegado até ali, eu vou conseguir, pensou.
Mas tornou a cair. Sentiu sua perna tremer sob seu peso, que apesar de não ser muito, era o suficiente para derrubar, de tão fraco que estava. Não... eu não posso morrer agora. Por favor... Tentou novamente se levantar mas já não conseguia. Ele levantou a cabeça e olhou para a Fortaleza. Precisava chegar lá. Colocou o braço na frente de seu corpo e se puxou. Foi se arrastando pela areia e lentamente avançou na direção da Fortaleza de Nassarad. Seu destino estava logo ali, precisava conseguir. Mas não conseguiu se arrastar por muito tempo. Aos poucos sua visão foi se escurecendo. A sede o derrotava, a desidratação o matava. Por favor, agora não...
E então ficou cego. Ele podia sentir a morte chegando aos poucos, se aproximando sorrateira. Ficou deitado ali na areia quente pelo que pareceu uma eternidade. A morte o dominava, o abraçava e fazia companhia. Quem diria... Não irei morrer sozinho, pensou.
Naquele momento, pode sentir uma sombra se erguer diante dele, e mesmo cego sentiu o alívio na pele, onde o Sol não podia mais tocá-lo diretamente. Foi a melhor sensação que poderia desejar no momento de sua morte. Não era capaz de ver, mas sentia que havia alguém ali ao seu lado.
— Me dê o cantil — Falou uma voz seca de homem. Askam não podia vê-lo, mas sentiu uma pontada de esperança em ouvir aquela voz. Ele precisava avisá-lo. Tentou falar, mas sua voz não saiu. A sede havia secado sua garganta. Ele sentiu quando o homem encostou o cantil em sua boca e a sensação da água descendo por sua garganta foi um êxtase que nunca sentira na vida. Ele conseguia sentir a água preencher e refrescar lentamente cada centímetro do seu pescoço, tórax e estômago. A água até machucava sua garganta quando descia, mas ele não se importou, aquilo era incrível. E parou de repente.
— Se beber demais pode passar mal, você está muito desidratado. — Explicou o homem — Precisa beber aos poucos.
Askam tentou novamente falar o que precisava falar. A garganta molhada facilitou o som de sair dessa vez, mas a voz era irreconhecível para ele mesmo.
— Avisar...
— "Avisar"? — Perguntou o homem da água — Avisar o que?
Askam tentou falar de novo.
— Começou... Preciso... Avisar....
O homem não falou nada. Askam ainda podia sentir sua sombra. O homem parecia ter perdido a reação.
— Volte pra Fortaleza, avise ao Comandante Norris que o homem é um mensageiro. — O homem da água falou com o companheiro. Askam ainda não havia percebido que eram dois homens, mas ficou claro pra ele naquele momento.
— Senhor, qual é a mensagem?
— Cavaleiro, — O homem dirigia-se a Askam — Todos os sinais foram constatados?
Askam balançou a cabeça para o lado, negando. Por favor, acreditem! Pensou ele. Eles precisavam acreditar em Askam.
— Vá agora e diga que "o garoto nasceu e que precisamos levantar caravana urgentemente para a constatação dos sinais". Partiremos em um dia.
Askam ouviu enquanto passos de camelo se afastavam dele, amassando a areia em direção á Fortaleza. Ótimo, pensou, Eu consegui. Consegui avisar a eles. Agora posso morrer em paz. Askam sorriu enquanto sentia seu corpo relaxar. Estava permitindo que a morte o viesse buscar. Sentiu enquanto sua consciência se esvaía e perdia controle sobre seu corpo. Aos poucos a morte o alcançava e ele iria de bom grado, como se fossem velhos amigos. Afinal ele havia conseguido cumprir sua missão. Havia entregue a mensagem.
Agora sua missão havia chegado ao fim...
E então veio a escuridão.
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