Filha de Apolo - Lights
17 Pesadelo
Notas iniciais
*Isaac*
Assim que o ônibus sumiu de vista, me virei e abri a porta do bar, minha mão apertando com força a maçaneta.
–Darius Lafaiete! — rosnei batendo a porta atrás de mim com raiva.
Darius engoliu em seco e encolheu, desaparecendo atrás do balcão. Avancei e agarrei as orelhas aveludadas do coelho branco que guinchava e esperneava, tentando morder meus dedos.
–Abre o bico — murmurei encarando os olhinhos vermelhos do coelho. O peito peludo dele subia e descia depressa. Soltei-o e antes que desse com o focinho no chão, voltou a ser o Darius — O que você sabe sobre Gael?
–Só sei o que vi na cabeça dele — começou Darius espanando a poeira do casaco com as mãos — aquele dia que vocês dois vieram aqui. O garoto é bem perturbado.
–Garoto? — Sirena tinha prendido os cabelos pretos e lisos em um rabo de cavalo alto. Ela estreitou os olhos castanhos e se aproximou de Darius.
–Ele não nasceu lobo — Darius balançou a cabeça — É só isso que eu sei.
Bufei e passei a mão no cabelo. A poção que Darius me dera já tinha começado a fazer efeito, e estava me dando dor de cabeça. Por um instante, tive medo de que a dor fosse por causa de Elijah.
–Você devia ir para casa e dormir — Darius se inclinou no balcão e arrancou uma carta de baralho da mão de Eli, que olhava para ela com fome — A poção só vai funcionar realmente quando estiver sonhando.
–Eu sei — resmunguei apertando os olhos e passando a mão na testa — Eli, você vem com a gente?
O sátiro ficou paralisado. Ele pensou por um momento antes de me dar a resposta.
–Vou.
–Porque? — exclamou Darius com a testa franzida.
–Porque vamos usar ele — minha ideia era mais simples do que parecia. Assim que eu soubesse onde Vincent estava, mandaríamos Eli para lá e ele agiria como nosso pequeno espião.
–O q-bééé!? — gritou Eli. Parecia que até os chifres dele tremiam.
–Explico mais tarde — peguei Sirena pelo pulso — Vamos.
–Sarah vai te matar — disse ela agarrando Eli pela gola da camisa.
–Eu sei — resmunguei os puxando para fora — Mas se vou ser morto, vai ser de um jeito irritante.
Eli respirava com uma força exagerada, de frente para a porta de entrada do Reformatório. Eu só não sabia se era emoção ou desespero.
No tempo em que Dayannya esteve dormindo tive várias conversas como o Eli e acabei descobrindo que ele sabia quem eu era, apesar de trabalhar no Acampamento Meio-Sangue durante o verão. Ele disse que se inspirava no que eu fazia, mas não tinha certeza se estalava se referindo ao terremoto que causei. Enquanto todos no Acampamento Júpiter fingiam que eu não existia, Eli se coçava para contar para alguém no Meio-Sangue, especialmente para o filho de Poseidon.
–Espero que seus cascos estejam polidos — disse Sirena com as mãos nos quadris.
–Porque? — Eli tinha a testa franzida, a olhando de um jeito estranho.
–Sem querer ofender — comecei a destrancar a porta -, mas nossa supervisora não gosta de animais.
–Ah — Eli torceu o nariz — Prometo que vou ficar sempre com os meus pés falsos.
Sorri e entrei na casa. A sala estava vazia, mas eu podia sentir a raiva de Sarah como uma armadilha exposta que fosse me atingir se eu fizesse qualquer movimento brusco.
Subi as escadas e parei no corredor do terceiro andar. Eli estava atrás de mim, tremendo de nervosismo e mordiscando as unhas. Havia vozes por detrás da porta da biblioteca.
–Pronto? — sussurrou Sirena.
Assenti e caminhei devagar até o meu quarto.
Era meio triste não ter Gael ali, abanando o rabo alegremente e esperando que eu trouxesse sua tigela de comida. Senti um aperto no peito. Parecia que ele não ia mais voltar, mas eu sabia que não seria para sempre.
Abri o armário e troquei de camiseta, colocando uma blusa preta com gola alta para que cobrisse as marcas remanescentes em meu pescoço. Depois fui em direção a biblioteca, empurrando as portas de madeira pesada.
Sarah estava na área entre os três sofás, dispostos em um triângulo amplo, andando de um lado para o outro. Chris e Dakota a observavam, sentados em um sofá, e assim que me viram com Sirena e Eli arregalaram os olhos como se dissessem: “Agora ferrou tudo”.
Sarah parou de caminhar, suspirando meio exasperada meio aliviada. Os olhos dela me encaravam com uma mistura de preocupação e raiva.
–Onde você estava? — perguntou caminhando em nossa direção, os cabelos escuros balançando atrás dela.
–Eu precisava tomar um ar — falei um pouco surpreso quando ela me abraçou. Vivíamos brigando, mas ainda assim ela era minha família e mesmo assim raramente mostrava afeto físico. Na maior parte do tempo, quando eu fazia algo idiota e ela de algum jeito aprovava, ela balançava a cabeça em sinal de decepção e sorria, contradizendo o primeiro gesto.
–Pensei que tivesse mais juízo — ela disse para Sirena, que deu um soco em meu braço. Como se fosse minha culpa ela ter me seguido.
–E quem é o garoto? — Sarah olhou Eli de cima a baixo. A camiseta verde musgo tinha algumas manchas parecidas com terra, e o rosto estava sujo de fuligem. Ele havia colocado seu gorro, cobrindo os chifres e ocultando a prova de ser um sátiro. Não se parecia com alguém que pudesse andar pelos carpetes da Sarah.
–Elias Rosalez — murmurou o sátiro olhando em volta. A luz do lustre deixava seus olhos mais claros — Não sou importante.
–Se não fosse importante não estaria aqui — rebateu Sarah. Eli abriu a boca, querendo argumentar, mas pareceu mudar de ideia. Sarah se voltou para mim. Ela e Sirena eram muito parecidas com o mesmo cabelo preto e liso e os olhos castanhos puxados. Sarah também era semideusa, uma filha de Minerva, o que fazia dela meia irmã do pai de Sirena, que era mortal — Onde está Dayannya?
–Hum — mordi o lado de dentro da bochecha, tentando pensar em uma boa desculpa — Eu... Mandei ela pra casa.
–O que?!
–Gael está com ela — disse Sirena, me defendendo.
–Não — Sarah colocou as mãos nas têmporas — Não, não, não, você tinha que ficar de olho nela, Isaac!
–Então adivinha! Eu não vou... — senti meu rosto esquentando. Eu estava começando a ficar com raiva, mas tinha que me acalmar — Olha, ela foi para casa, mas Gael está tomando conta dela. Eu fiz isso porque não posso ficar sem sair nas missões e ela não pode ficar trancada aqui dentro! — respirei fundo, querendo me controlar, e continuei com a voz calma — Dayannya vai vir para cá nos fins de semana. Por garantia. Eu fiz uma promessa e vou cuidar dela, não importa o que aconteça. Mas não fiz essa promessa por sua causa.
Sarah me fuzilou com o olhar por alguns segundos. Dakota tinha uma expressão confusa e assustada. Era comum eu me dirigir à Sarah daquele jeito, não sabia o porque daquela cara de espanto.
–Porque vocês trouxeram esse garoto? — Sarah disse, seca, enquanto caminhava de volta para os sofás.
–Fala pra ela — resmunguei me dirigindo ao sofá de costas para a entrada da biblioteca e me sentei ao lado de Chris.
Eli começou a explicar tudo, desde o convite de Vincent até o que aconteceu no bar e Elijah tentando controlar Dayannya. Ele narrou tudo diteito, pulando partes como Vincent ter comentado sobre minha mãe. Aquilo me fez gostar mais do garoto.
–Puta merda — murmurou Dakota para si mesmo depois que Eli terminou, e mesmo assim todos escutaram.
–Dakota!
–Desculpe, Sarah — Dake passou a mão no cabelo comprido e fez uma careta. Eu sabia exatamente o que ele estava pensando. E tenho quase certeza de que aqueles palavrões não podem ser escritos aqui — Como Elijah... Entrou na cabeça dela? Assim, do nada?
–Eu não sei — conti um suspiro e estiquei minhas pernas. A frustração inflava em meu peito e minha cabeça doía mais a cada segundo. Eu não conseguia pensar direito — Magia, algum deus fora da lei. Eu... — expirei com força — Eu preciso dormir.
–O que? — foi a primeira vez que Chris falou. Os olhos cinzentos dele estavam carregados de sono e o óculos pendia torto na ponte do nariz.
– Ryna, explica para eles — pedi e me levantei. Sirena tinha o olhar levemente preocupado.
Sai da biblioteca, minha cabeça girando. Respirei fundo e fui ao meu quarto, trancando a porta assim que entrei. Encostei a fronte na porta, meu rosto suando. “Ótimo” pensei “Agora estou com febre”. Tirei a blusa e coloquei a primeira que vi no guarda-roupa, uma camiseta cinza e larga. Depois deitei na cama e apaguei.
O sonho começou como todos os outros.
Um corredor escuro e frio, o vento forte vindo de todas as saídas, desde buracos nas rochas das paredes até as saídas dos dois lados do corredor. Fechei os olhos, apenas esperando e um grito soou em todas as direções, assim como o vento que ferroava minha pele.
Minhas mãos tremiam ao lado do meu corpo. Eu sabia que não iria chegar a tempo, mas a voz dela retumbava em minha cabeça. Involuntariamente comecei a correr, ofegando enquanto mudava repentinamente de lado para seguir por um novo corredor. O grito ficou mais intenso, mais doloroso, e quando avistei a caverna tudo desapareceu.
Me vi parado diante de uma porta velha. A névoa pálida varria o chão e envolvia meus pés como cobras. Eu respirava com força, ainda sob a adrenalina da corrida e com o gosto do medo na minha boca. Apesar dos únicos sons serem um pio distante de uma coruja e o sussurro da brisa, a lembrança do grito dela fazia os pelos dos meus braços e nuca se eriçarem.
Do outro lado da porta vozes murmuravam e coisas eram batidas em madeira. Antes de entrar, olhei a minha volta. Uma rua larga e suja se estendia em três direções, se bifurcando a minha direita e se perdendo nas sombras. A porta pertencia a um chalé, perdido em meio às lojas e edifícios iluminados com néon. Ripas de madeira se entrecruzavam formando as paredes do chalé e tijolos vermelhos cobriam o teto baixo e ligeiramente triangular. Não havia janelas. A rua estava estranhamente vazia.
–E a garota? — ouvi uma voz masculina conhecida dizer de dentro do chalé. Coloquei a mão na porta e ela atravessou a madeira como se fosse feita de água. Prendi a respiração esperando que gritos viessem assim que percebessem uma mão passando pela porta.
–Não estava com ele. Deve ter ido para lá depois — outra voz, também familiar, continuou a conversa. Prendi a respiração, chegando a conclusão de que ninguém me via, e atravessei completamente a porta. Foi como passar por uma cachoeira, mas sem a pressão da água ameaçando te esmagar.
–Ele deveria cuidar dela — disse um homem nas sombras, o primeiro a se pronunciar. Tinha a voz rouca e áspera, quase um rosnado — Porque deixaria ela sozinha? Deveria ter pensado nisso e ido para o Reformatório! Você é um inútil como todos os outros!
–Desculpe, senhor — murmurou um rapaz em frente à uma mesa. Tinha cabelos escuros caindo no rosto magro e pálido. O olho direito estava quase totalmente fechado. Vincent.
–Desculpas não vão reverter o que você fez — repreendeu o homem nas sombras — Ou melhor, o que você não fez. Porque não o matou?!
–O feiticeiro estava lá — Vincent parecia horrorizado. Suas pernas tremiam ligeiramente e ele as troca de posição inquieto, o rosto se contorcendo de dor a cada movimento. Fiquei satisfeito com isso — Era arriscado...
–Arriscado?! — berrou o homem perdendo a paciência e saiu para onde a luz de uma lâmpada o alcançava — Sabe quantas coisas arriscadas já tive de fazer?!
Meu estômago embrulhou. Um dos lados do rosto do homem estava desfigurado e vermelho, como uma queimadura. Usava um terno de grife novo, parecendo sob medida. O cabelo cor de piche estava penteado com gel a perfeição. Contando isso e o corpo magro e terrivelmente pálido, junto com os olhos raivosos multicoloridos, ele parecia um empresário do mal.
–Senhor...
–Chega! — interrompeu Elijah. Tive uma breve impressão de que a veia em sua testa iria estourar — Tenho que fazer tudo sozinho, e mesmo assim... Argh!
Ele passou a gritar em grego antigo se aproximando com ódio de Vincent. Enquanto e observava, as paredesdo chalé se dissolviam em névoa. Engoli em seco. Eu ainda não sabia onde aquele lugar ficava, precisava de uma referência. Deixei os dois de lado e atravessei a porta de novo, saindo para a rua.
Corri até uma placa na esquina que se dissolvia lentamente. Bourbon Street. Já ouvi falar dessa rua antes, mas não me lembrava onde ficava exatamente.
Eu tinha que me recordar daquele nome. Mesmo que o grito dela continuasse ecoando em minha cabela, repeti o nome da rua várias vezes em minha mente.
Tudo se dissolveu em névoa.
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