Filha de Apolo - Lights
21 Pena
*Isaac*
Fiquei parado na calçada, esperando em frente à uma construção retangular e alta de tijolos com muitas janelas, onde era possível ver algumas poucas cabeças e bolinhas de papel indo de um lado para o outro.
A rua estava vazia e o jardim bem cuidado na entrada da escola deixava um cheiro de grama recém cortada no ar. Depois de alguns minutos, pude ver a silhueta baixa e esguia dela no corredor.
Meu coração disparou assim que ela passou pelas portas duplas de vidro fosco, o sol ofuscante sendo reduzido a nada se comparado ao brilho audaz nos olhos dela.
Não consegui contornar, em meus pensamentos, que os quadris dela ficavam simplesmente hipnotizantes enquanto ela caminhava com certa graça em minha direção, os cachos cor de chocolate amargo constratando com a pele morena.
Meus dedos formigaram com a expectativa de tocar novamente a pele macia dela e resisti ao impulso de puxa-la para mais perto. Dayannya parou um metro a minha frente, de braços cruzados e olhar penetrante, os lábios carnudos crispados em sinal de aborrecimento e me encarando de um jeito que só ela conseguia fazer: era como se meus olhos fossem entrar em combustão se eu a irritasse.
—E então? — ela semicerrou os olhos bicolores e intensificou a encarada, querendo parecer intimidante. Alguma coisa em meu peito grunhiu, dizendo para que eu não resistisse mais. Mas o máximo que fiz foi tentar gravar novamente seu rosto em minha mente.
As sardas esparsas pareciam mais nítidas do que de costume. O nariz pequeno e ligeiramente empinado dava um ar de mesquinhez, que eu sabia não existir. Havia uma falha em sua sobrancelha direita, que era quase imperceptível se desse mais atenção aos olhos, cada um parecendo uma jóia brilhante e única. A corrente de ouro que fora da minha mãe brilhava em seu pescoço, junto ao colar de contas do acampamento, o pingente verde refletindo distorcidos os prédios atrás de mim.
—E então que você vai ter o resto do dia livre.
Os lábios dela estremeceram e suas bochechas ficaram vermelhas. Ela estava contendo um sorriso, um daqueles sorrisos que eu gostava muito de ficar olhando.
—Como você... — Dayannya mordeu a bochecha por dentro, sua voz mais aguda que antes — Quero dizer, a diretora...
—Um pouco de névoa, acho que charme natural... — apoiei-me na picape atrás de mim — e uma boa dose de paciência.
—Mas e quanto a Annie? — a alegria brincava nos olhos dela. Notei um risco cinza escuro na palma de sua mão — Ela levou uma detenção... Não que eu não aprove, mas...
—Ah isso. Sirena me disse que você não gosta dela — encolhi os ombros, como se mandar uma menina que eu nem conhecia para cinco horas de detenção não fosse nada de mais. Na realidade não foi mesmo, eu só precisei usar a névoa e dizer à diretora que ela não gostava de Anabel Genkies — Achei que você ia gostar se ela se desse mal.
Então ela sorriu. A coisa em meu peito rugiu de prazer e bolhas ácidas estouraram em meu estômago. Minhas mãos ficaram dormentes dentro dos bolsos do jeans, as palavras sumindo da minha cabela como raramente acontecia ou quando eu estava com ela em algum momento bom. O monstro dentro de mim rosnou insistente e senti uma imensa vontade de beija-la, como nunca aconteceu com outra garota. E aquilo doía. Doía pensar que eu nunca poderia te-la, mesmo que isso, talvez, fosse apenas algo que eu alimentava em minha mente. Eu não sabia o que era aquilo. Não sabia o que fazer. Nunca senti antes e, quando pedi a ajuda de Sirena, ela me lançou um sorrisinho besta e apenas disse que eu acabaria descobrindo. Claro, eu tinha minhas suspeitas, mas não sabia no que acreditar. Em quem acreditar.
—Tudo bem — Dayannya deu de ombros — Pelo menos não vou ter que fazer um poema sobre o Batman. Mas o que você está fazendo aqui?
Agora ela parecia preocupada, a testa franzida e os olhos me observando atentamente. De repente lembrei o porque de eu ter que ir até ela.
—Aquela poção que Darius me deu funcionou — comecei, sem conter a empolgação que sentia — Vi Vince e Elijah em um chalé na Bourbon Street. Mas não consigo lembrar onde essa rua fica.
Dayannya franziu a testa, a expressão interrogativa, enquanto encarava a sarjeta. Então seu rosto iluminou e ela deu um pulinho.
—Nova Orleans! — exclamou saltitando, a mochila de aparência pesada batendo com força nas suas costas — Em Louisiana, passei por lá quando estava me mudando para Nova Iorque!
Sorri esperando a alegria dela passar e ela se acalmar.
—Que memória. Tipo, você tinha cinco anos quando se mudou, né?
—Memória fotográfica é uns dos quase super-poderes que eu queria ter — murmurou e ri de novo com o comentário. Ela começou a balançar o corpo com leveza, fazendo o movimento sutil com os quadris igual a quando andava, e olhou pensativa para uma nuvem que passava rápido na frente do Sol — Isso e elasticidade
Ergui uma sobrancelha, desviando o olhar da cintura dela para um ponto mais distante, tipo a cerca viva que roçava em sua coxa.
—Pra ser mais alta? — olhei em seus olhos quando disse isso.
Ela sorriu maliciosa e meu coração deu marteladas fortes contra meu peito, parecendo ribombar por todo meu corpo.
—Também.
Dayannya olhou de relance para o carro atrás de mim, e um pouco de medo passou pelos seus olhos.
—Vai me levar para o Reformatório?
Um punho apertou meu coração ao ver a expressão de desapontamento em seu rosto, assim como o pavor. Eu já esperava isso, porém talvez não tenha me preparado de verdade.
—Só por um dia. Quero falar com o Erik, ver se consigo alguma informação. E também preciso que fique por perto. Ouvi Dakota dizendo a Sarah que Licáon foi visto de novo — umedeci os lábios, meus ombros rígidos enquanto eu continuava, esperando que Dayannya entendesse — Não posso deixar que corra esse risco.
—Isaac, eu... — ela mordiscou o lábio inferior, brincando com as contas do seu colar — Eu tive um sonho, foi... Horrível.
—O que aconteceu? — perguntei quase em um murmúrio. O rosto dela ficou branco feito papel, o terror parecia preso em seus olhos — Elijah de novo?
—Licáon... — e ela me contou o que aconteceu na caverna, sobre Nihal ter voltado e o acordo que aparentemente eles haviam feito — ... Isaac, eu... Eu estou com medo.
Senti pena. Sabia que não devia sentir isso, mas ela era durona e raramente expressava seu medo. Puxei-a para perto e a abracei. Era bom sentir o toque dela de novo. Ela deitou a cabeça em meu peito, respirando devagar, agarrando minha camiseta como se sua vida dependesse disso.
—Não vou deixar que nada aconteça com você — sussurrei fechando os olhos, sentindo o perfume doce dela. Passei os dedos pelo cabelo dela, seus cachos se enrolando em minha mão — Eu juro, Daya, isso vai acabar logo. Vou fazer de tudo para que eles não coloquem aqueles dedinhos nojentos e embolorados em você.
Ela riu e se afastou, os olhos marejados, mas pareceu relaxar, o rosto suavizando.
—Tudo bem — disse por fim e fiquei aliviado — Mas posso ligar para minha mãe antes?
Tentei não rir enquanto entrávamos no carro. Dayannya devia achar que a mãe dela me detestava, mas, na verdade, ela me achava uma graça. Claro que eu não comentei isso com ela, eu queria ver sua cara quando Eleanor fosse falar comigo.
Entreguei-lhe o celular e dei partida no carro. Dayannya jogou a mochila no banco de trás e aguardou com o aparelho na orelha. Alguns instantes depois ela começou:
—Mãe, sou eu... Não mãe, eu estou bem... — nesse ponto ela me lançou um olhar de esguelha, entretanto eu prestava mais atenção na rua — É, eu estou com ele... O que? Não!... Mãe!... Ele tá diriginado!...
Ela bufou e me entregou o celular de má vontade. Coloquei no viva-voz e larguei-o no painel.
—Senhora Garcia...
—Ah, Isaac, graças aos céus! — a voz de Eleanor parecia abafada do outro lado da linha. Dayannya arqueou as sobrancelhas e ficou encarando o celular — Ela está bem? Se machucou?
—Ela está ótima, sério. Só preciso que vá comigo para o Reformatório, acho que vou precisar de ajuda com alguma coisa.
—Elijah de novo? — murmurou Eleanor, exasperada — Aquele cachorro... Isaac, eu sei que posso contar com você. Me prometa que Dayannya vai ficar bem.
—A senhora sabe que coloco a vida dela antes da minha — respondi com total sinceridade. Respirei fundo e observei a rua, as árvores douradas e vermelhas com o outono e o clima chuvoso que sobrevoava a cidade. Tentei não olhar para Dayannya, mas sentia seu olhar agradecido queimando meu pescoço.
—Eu sei, mas é tão difícil. Bem, obrigada mesmo assim, Isaac. Você é um amor.
E desligou. Dayannya me encarava com uma mistura de incredulidade e admiração.
—Que?! — ela gritou, a voz mais aguda e estridente que nunca.
—Sua mãe não queria te contar, — falei me preparando para caso ela me desse um soco — mas conversamos enquanto você estava internada no Olimpo. E ela gosta bastante de mim. Me acha um cavalheiro.
Olhei de esguelha para Dayannya, porém ela parecia indiferente, o rosto sem expressão alguma.
—Vou pular desse carro.
Eu ri, mas, por precaução, tranquei as portas da picape.
Mexi em silêncio minha sopa, minha barriga roncando discretamente. Eu tentava disfarçar que estava sentindo uma fome imensurável.
Eu e Dayannya passamos em seu apartamento para ela pegar suas coisas e Gael, que jazia desmaiado no chão após devorar três quilos de bife mal passado. Havíamos chegado no Reformatório bem na hora do almoço e Sarah insistira que eu comesse pelo menos um pouco da sopa que tinha feito. Eu adorava a sopa que ela fazia, esse era meu ponto fraco.
Agora eu estava sentado à mesa, comendo o mais devagar possível, enquanto Sirena e Chris discutiam sobre alguma coisa e Dakota mastigava ruidosamente seus corn flakes. Ele era fissurado naquilo. Dayannya remexia numa prateleira alta, se esticando ao máximo para alcançar um prato e fazendo sua blusa fina se erguer revelando parte das costas lisas.
“Você tem pensamentos pornográficos”
Engasguei quando a voz de Dakota sussurrou em minha cabeça e chutei-o por debaixo da mesa, errando por pouco e atingindo a canela de Chris, que pulou na cadeira e me olhou assustado. Pedi desculpas e xinguei Dakota mentalmente, dizendo onde ele podia enfiar os pensamentos pornográficos.
Aquela era a desvantagem de ter um elo de empatia com Dakota. A maior parte do tempo ele sabia exatamente o que eu estava pensando. Quase um mês depois de termos feito a ligação, eu me arrependi.
Dayannya sentou-se ao meu lado e jogou a trança que acabara de fazer por cima do ombro. Ela olhou confusa de mim para Chris e então lançou um olhar nervoso a Elias, que brincava com uma rodela molenga de cenoura.
Sarah passou a mão no cabelo de Dakota, arrumando alguns fios fora do lugar. Ele rolou os olhos para o teto e encolheu-se na cadeira, fugindo das garras vermelhas da nossa supervisora.
—Mais algum relatório sobre Licáon? — perguntou ela dando um peteleco na orelha de Sirena, quando esta ameaçou bater em Chris.
—Não. A última coisa que as ninfas me disseram, foi que elas viram... — Dakota fez uma pausa, dando uma olhada rápida em Dayannya que prestava atenção ao que ele dizia — elas viram Licáon destroçando um... — ele limpou a garganta — bem, ele não estava feliz e queria saber sobre Dayannya. Só não sei o porque.
O rosto de Dayannya ficou verde, uma gota de suor escorreu por detrás de sua orelha.
—Ele não vai se contentar apenas com o amuleto — sussurrou Chris, muito concentrado em sua sopa — Ele quer poder ilimitado. E só vai conseguir isso — ele indicou Dayannya com um aceno de cabeça — com ela.
Dayannya afundou novamente na cadeira. Tive vontade de abraça-la e protege-la de qualquer coisa no exterior. Por baixo da mesa apertei seu pulso e ela entrelaçou os dedos nos meus. Senti o rubor subir para o meu rosto e me controlei para que ele não ficasse vermelho.
—Isso é ruim — ela murmurou apertando minha mão e quase esmagando meus dedos.
—Ruim? — exclamou Sirena histérica — É péssimo! — ela notou que Dayannya ficou ainda mais verde. Nesse ponto, minha mão estava roxa — Quer dizer... está na média.
Dayannya gemeu e me largou, remexendo a sopa em círculos. Suspirei de alívio e massageei minhas juntas trituradas.
—Podemos falar com Erik hoje. Algum dos contatos dele deve saber onde está Licáon — falei devagar e joguei uma cenoura para Gael que acordara e sentira o cheiro de comida — Se acabarmos com ele, podemos ir atrás de Elijah depois. Ele está em Louisiana.
—Nova Orleans? — Sirena franziu a testa, aturdida — Mas porque?
—Por isso mesmo — disse Chris no mesmo tom de voz de antes — Nós jamais pensaríamos em procurar Elijah num lugar tão animado e chamativo. Se quer se esconder, fique à vista.
—Eu adoro ter um filho de Minerva com a gente — murmurou Dakota enchendo sua tigela com mais corn flakes.
—Faz você se sentir mais burro? — perguntei displicentemente.
Sirena riu e Dakota começou a discutir com ela. Como Chris estava entre os dois, acabou se envolvendo na briga. Sirena e Elias tentaram separa-los. Eu assistia a tudo entretido quando Dayannya segurou meu braço.
Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas pareceu mudar de ideia. Por fim, disse:
—Você é inteligente, né?
Arqueei as sobrancelhas.
—Depende.
—Pode me ajudar com minha lição de casa?
O pedido foi estranho. Franzi a testa, pensando nas possibilidades. Eu ficaria sozinho com ela, poderíamos conversar de verdade desta vez, sem que ninguém atrapalhasse. E isso seria ótimo.
—Claro.
Ela sorriu e, com uma mudança repentina de semblante, se desviou de uma colher voadora.
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