O frio passava pelas frestas da porta, então acho que não faria diferença se estivéssemos dentro ou fora do bar.

Dava para sentir o ar gélido circulando em volta das minhas pernas e corpo, que tremia disfarçadamente. Quando achei que ia começar a bater os dentes, Isaac sentou-se ao meu lado do balcão e tirou a jaqueta, colocando-a sobre os meus ombros.

–E você? – perguntei passando os braços pelas mangas. A jaqueta ficava gigante em mim.

–Vou sobreviver – ele segurou meu pulso e senti mais frio ainda – Você está congelando. Está tudo bem?

–Está – eu não olhava para ele. Não queria admitir que não estava nem um pouco bem. Desde que peguei o ônibus com Sirena, eu era atingida por náusea de quando em quando. Eu me segurava ao máximo para não vomitar e parecer que precisava de um médico. O que eu precisava.

Isaac estreitou os olhos intensos e me vi obrigada a olhar para ele. Meu lábio inferior tremeu e minha língua ficou pesada em minha boca. Uma gota de suor escorreu pelo meu pescoço enquanto algo se mexia em meu estômago. Parecia que minha cabeça ia entrar em combustão, até que Isaac se levantou e foi para o corredor atrás do balcão.

Suspirei de alívio e fechei o zíper da jaqueta. Eu não sabia qual era o material, mas era confortável, preta com detalhes prateados. Ficava bem em Isaac, porém eu devia estar parecendo uma menina de rua, com uma blusa pelo menos três números acima do que eu usava. Se não, maior.

Um minuto depois Isaac voltou, conversando com Sirena. Darius vinha atrás segurando uma taça de Martini como se fosse uma bomba atômica. Um líquido rosa balançava ali dentro.

–O que é isso? – perguntei quando ele a colocou no balcão e Sirena e Isaac se sentaram um de cada lado meu.

–Uma poção que acabei de ver em um livro – Darius parecia totalmente despreocupado ao colocar um palito com três azeitonas na taça.

–Você nunca fez antes?

–Não – Darius esticou a mão na minha direção e antes que eu lhe desse um tapa ele pegou algo no ombro da jaqueta. Um fio de cabelo preto, curto e liso demais para ser meu – Mas se eu tiver feito certo, Isaac não morre – ele colocou o fio na poção – Pelo menos não hoje.

Franzi a testa e encarei Isaac. Ele olhava para a taça com um pouco de receio.

–É uma poção de rastreamento.

Ia perguntar o porquê quando Darius ergueu os braços com entusiasmo e gritou:

–Voilá! – um cogumelo de fumaça pink se ergueu da taça e desapareceu com um Puf! – Seja rápido. E a poção só vai fazer efeito por dois dias.

Isaac torceu o nariz e tomou o conteúdo rosa de uma vez. Depois ele engasgou, os olhos lacrimejando.

–Tem gosto de quê? – Darius tinha o queixo apoiado nas mãos enquanto olhava para Isaac, os olhos brancos brilhando animados. Ele continha um pequeno sorrisinho estampado no rosto.

–De Vince – a voz de Isaac estava rouca. Ele olhava com nojo para a taça vazia.

–O que? – exclamei. Isaac parou de tossir e explicou o que aconteceu no bar minutos antes, como Vince havia se juntado a Elijah e Peggy.

–Isso é ruim – Sirena escarava os pés – Muito ruim.

Eu não sabia o que dizer. Sentia uma dor de cabeça terrível e tudo ao meu redor girava. Minha testa parecia estar pegando fogo.

Nesse momento ouvi algo do lado de fora do bar. Uma sombra se moveu em frente à janela.

Isaac se levantou e foi para fora, rápido como uma pantera. Um grito estrangulado veio de lá e me joguei para fora da cadeira em que estava. Quando sai do bar – quase caindo com a cara na calçada – encontrei Isaac segurando um menino pelo pescoço. Havia um gorro verde caído aos seus pés, e de sua cabeça brotavam pequenos chifres cor de avelã.

A pele do garoto tinha o mesmo tom que a minha, moreno claro. O cabelo preto, curto e liso, estava penteado em um moicano pequeno. Ele se contorcia tanto, tentando livrar-se de Isaac, que seus tênis caíram revelando cascos fendidos. O garoto não devia ter mais de doze anos. Os olhos cor de mel tinham as pupilas em fendas, como um bode.

–Me solta – gemeu ele se contorcendo. Isaac o segurava firme pela gola da camiseta, as sobrancelhas claras arqueadas. Ele não parecia fazer muito esforço.

–Porque estava nos espionando? – Sirena sacou uma faca do cinto – Está com Elijah também?

–Não! – o garoto exclamou, os olhos arregalados. Ele usava jeans rasgados e uma jaqueta grande e esfarrapada. A camiseta verde musgo dizia: “Instituto de caridade de NY” – Eu só queria saber o que estava acontecendo – ele ergueu a cabeça e sorriu, olhando para Isaac – Por Pã, eu não acredito que você está quase me enforcando. Demais!

Isaac abriu a boca e olhou para mim. Eu apenas encolhi os ombros. Não tinha ideia de quem era aquele sátiro e o porquê dele estar ouvindo nossa conversa. Isaac o soltou e om garoto foi logo colocar os tênis de volta. Dentro de cada sapato havia um pedaço de isopor com um buraco no formato de um casco.

Quando o sátiro terminou, ele colocou-se de pé e guardou seu gorro no bolso de trás da calça.

–Meu nome é Elias – disse ele espanando a poeira da roupa – Mas todo mundo me chama de Eli. Bem, todo mundo que não me espanta dos lugares e grita: — ele fez uma careta e apontou o indicador para o outro lado da rua – “Eu ainda te pego, garoto! E vou colocar esses seus chifres de enfeite na minha parede!”.

Quando terminou de falar, Darius surgiu à porta com a cara fechada.

–Elias – resmungou. Pareceu o cara de um filme de faroeste, onde o tal cara encontra seu inimigo.

–Ele é uma dessas pessoas! – disse Eli com um pulinho. Ele olhava para Isaac com certa admiração.

–Vou fazer uma linda caneca de cerveja, e usarei seus chifres para segurá-la – murmurou Darius com maldade.

–Eu gosto cada vez menos de você – murmurei me apoiando no vidro da janela. Senti um enjoo fortíssimo. Minhas pernas tremiam.

–Ah não, querida, não sou sempre assim.

–Você ainda não disse o que estava fazendo – a voz de Isaac parecia abafada. Eli começou a explicar alguma coisa, gesticulando muito, mas eu não entendia nada. Parecia o chiado de um rádio antigo entrando e saindo de sintonia.

Sirena foi para junto deles, me deixando sozinha e afastada alguns metros. Minhas costas escorregaram pela parede áspera da construção e sentei-me na calçada. Fechei os olhos e respirei fundo.

“Pense em coisas boas” disse uma vozinha na minha cabeça “Unicórnios, gatinhos...”.

“Gatinhos?” rebateu outro lado da voz “Isso é hora de pensar em gatinhos?”.

“Eu gosto de gatinhos!”

–Garota? Você está bem? – a voz era de Darius. Abri os olhos e o vi sentado ao meu lado, parecendo confuso.

Assenti. O movimento me fez sentir marteladas na nuca. Levei a mão à corrente de ouro que Isaac me dera e apertei o pingente na palma da mão. Fazer aquilo sempre fazia eu me sentir um pouco melhor.

–Porque White Rabbit? – perguntei tentando mudar de assunto.

Pensei que estivesse tendo alucinações por causa da dor de cabeça, porque Darius mudou de forma. Filetes de névoa o envolveram e ele diminuiu, até estar do tamanho de um roedor. Quanto a névoa de dissipou, me vi encarando um coelho branco com olhos vermelhos, o narizinho rosa tremendo.

Fiz o mais sensato.

Gritei.

Isaac se aproximou e pegou Darius, o coelho, pelas orelhas compridas. O animal guinchou indignado.

–Você podia ter avisado antes – ralhou e estendeu a mão para mim. Ergui-me com sua ajuda.

–Como... — eu nã consegui completar a frase. Estava assustada demais.

–Ele é filho de Hécate — resmungou Isaac.

De repenti senti uma onda de enjoo me atingir. Minhas pernas cederam e Isaac me agarrou pela cintura, impedindo que eu caísse. Ele soltou o coelho que voltou a ser um velho magro e careca com olhos brancos, antes de atingir o chão

–O que foi?

Tentei responder, mas não parecia ter forças nem para isso. Elias e Sirena se aproximaram, preocupados. Engasguei quando uma voz conhecida sussurrou em minha cabeça, me fazendo congelar.

“Finalmente” cochichou a voz masculina, fria como um bloco de gelo “Finalmente tenho você sob meu controle. Não vai escapar dessa vez.”.

Darius fez um som de engasgo no fundo da garganta. Seus olhos estavam arregalados, amedrontados. Ele ouvia tudo.

–O que é isso?

–Elijah – foi a única coisa que consegui dizer antes da escuridão me envolver.