Filha de Apolo - Lights
25 Desejo Ardente
Sentei-me na cama, ofegante.
Tinha acabado de ter um pesadelo, mas não me lembrava do que. A lembrança de um enorme cão infernal invadiu minha mente, bloqueando todos os pensamentos. Eu não enxergava nada no quarto, e não fiquei com medo. Simplesmente não tive vontade de me levantar correndo para acender a luz.
Passei a mão pela minha testa suada, meu coração acelerado. Alguma coisa me despertou completamente, uma vontade repentina de ver Isaac. Meus braços tremeram, a lembrança do cão infernal sendo substituída pelo beijo dele, um desejo ardente de senti-lo de novo queimando em meu íntimo.
Minha garganta ficou seca e olhei para onde devia estar a porta. Seria errado chama-lo, falar com ele? Eu poderia dizer que não conseguia dormir, afinal, isso era verdade. Levantei-me e caminhei lentamente até a porta, não me importando com o escuro. Tive medo ao pousar a mão na maçaneta, medo do que encontrar. Ele podia me rejeitar de novo.
Abri a porta, a luz amarela e fraca iluminando brevemente o corredor. O quarto de Callum ficava bem em frente ao meu. Esfreguei minhas mãos, com receio do que iria fazer. Mas Callum não saberia, né? E além do mais, eu só queria falar com Isaac.
Me dirigi ao quarto ao lado e bati com fraqueza. Depois de uns segundos ouvi as molas do colchão se movendo, um som baixo de dobradiças e a porta se abriu. Isaac franziu a testa, surpreso, a katana em sua mão brilhando à meia luz.
—O que você vai fazer com isso? — sussurrei apontando para a arma, mas sem desviar minha atenção dos olhos dele. A luz fraca incidia na íris azul, tornando-a um tom intenso de dourado.
—Não sabia que era você — ele murmurou e recuou um pouco para pendurar a katana na parece ao lado da porta — O que aconteceu?
—Tive um pesadelo — respondi fracamente, torcendo minhas mãos. Isaac ergueu uma sobrancelha — Eu não... Não consigo dormir.
—E você quer o que? — os lábios dele tremeram, prestes a exibir um sorriso — Que eu leia uma história?
Revirei os olhos. Ele era irritante quando queria.
—Eu posso... Dormir com você?
Ele paralisou no lugar, os olhos arregalados. O cabelo dourado estava bagunçado, de um jeito sexy. Então ele ergueu os olhos de mim para o quarto de Callum, depois novamente para mim. Notei o medo e a satisfação em seus olhos.
—Mas e ele? — perguntou num sussurro, indicando a porta de Call com o queixo.
—Eu quero você — soltei um suspiro de surpresa. Não acreditava que fosse ter coragem de dizer isso, de dizer a verdade que eu reprimia há tempo.
Isaac pareceu estupefato por um segundo, até se inclinar e me beijar lentamente. O calor se espalhou pelo meu corpo, minhas pernas pareceram ficar fracas. Abracei-o pelo pescoço e abri os lábios, aprofundando o beijo.
Quando me dei conta Isaac havia trancado a porta, me levando para dentro do quarto com ele. Gemi quando ele mordeu minha boca com força, sem me machucar, e apertou meus quadris. Eu queria poder estar com ele sem me preocupar há tanto tempo, que me esqueci totalmente de Callum.
Isaac me empurrou para a cama e deitou-se comigo, me dando beijos cada vez mais urgentes. Puxei-o pela nuca, querendo mais, minhas pernas envolvendo sua cintura.
Ele se afastou apenas o suficiente para colocar os lábios em meu pescoço. Joguei a cabeça para trás, a respiração falha, meu coração martelando no peito junto ao dele. Quando Isaac levou suas mãos para baixo da minha camisa, pronto para tirá-la, notei que havia alguma coisa errada. As palmas dele estavam lisas, quando deviam ter cicatrizes de horas atrás.
Desesperada, enfiei a mão por dentro da camiseta dele e apalpei a lateral de seu tronco em busca de uma cicatriz grossa e permanente, que jamais se curaria. Ao invés dela, toquei apenas a pele quente e macia do seu corpo.
Empurrei-o e me arrastei até a outra beirada da cama, encolhendo minhas pernas e passando a mão pelo pescoço onde ele havia beijado, ainda sentido o toque da boca dele.
—Está tudo bem? — ele murmurou, ofegando, os olhos assustados me percorrendo com fervor a procura de alguma marca, com medo de que tivesse me machucado.
Engoli em seco, tremendo, e reuni forças para murmurar em meio ao pavor:
—Você não é real.
Pulei na cama, chutando os cobertores e suando frio.
Me levantei o mais rápido que pude para acender a luz. Pisquei sob a claridade excessiva, penteando meu cabelo com os dedos e tateando a cômoda em busca do despertador.
—Duas da manhã — falei para mim mesma enquanto bocejava. Quando estiquei os braços e as pernas, minhas juntas estalaram -Boa, Daya.
Pensei no sonho que acabara de ter e corri a mão pelo meu pescoço. Estava quente e úmido de suor, minha artéria pulsando fortemente. Porque tive aquele sonho? Nunca, jamais, sonhei com nenhum garoto em minha vida, muito menos um sonho tão íntimo. Eu ainda sentia as mãos dele em meu corpo e estremeci ao pensar nisso.
“Ele te rejeitou” disse a mini Daya em minha cabeça “Só te vê como amiga. Duvido que tenha sonhos eróticos com você”.
—É — sussurrei — Você tem razão. Ele não me quer.
“Mas você quer ele”.
Umedeci os lábios, respirando com força. Olhei para a porta do meu quarto. A de Callum estava bem em frente. Eu precisava conversar com alguém, precisava me esquecer de Isaac. Callum era meu melhor amigo...
“E namorado”.
—Sim — assenti, franzindo a testa ao perceber que estava falando sozinha. Encarei a porta novamente. Eu precisava de Callum.
Apaguei a luz e saí correndo para o corredor, tomando cuidado para não fazer barulho. O quarto se Sarah era ali perto. Eu nem conseguia imaginar o que ela faria se soubesse que eu estava indo para o quarto de um dos garotos, no começo da manhã.
Resisti ao impulso de olhar por cima do ombro, para a porta de Isaac. Suspirei e dei passos largos até Callum, batendo em seguida. Uma série de resmungos se seguiu e então ele abriu a porta. O cabelo castanho estava amassado de um lado e havia olheiras fundas sob seus olhos, que se arregalaram ao focarem em mim.
—Da-D-Daya?
—Oi — mordi o lábio tentando não rir com a expressão de surpresa dele.
—Você está bem? Algum pesadelo? — ele perguntou passando a mão apressadamente pelos cabelos, deixando eles ainda mais emaranhados.
—É, eu... — minha voz falhou. Eu normalmente não descreveria o que acabei de passar como pesadelo, mas devido às circunstâncias e o medo que eu sentia... — foi. Foi, sim... Posso entrar?
Callum engasgou com as palavras, o rosto vermelho e aterrorizado. Revirei os olhos, finalmente sorrindo.
—Por favor, Call, não vai ser a primeira vez que dormimos na mesma cama.
—É, mas... — ele engoliu em seco, mudando de posição impaciente — Temos dezesseis anos, estamos juntos, e você tá...
—Gostosa?
Ele assentiu freneticamente, desviando o olhar para o teto. Ri e puxei-o pelo braço, lascando um beijo em sua boca.
—Como se você nunca tivesse sonhado com isso.
As faces dele ficaram tão coradas que pareciam estar em chamas na luz dourada.
—Talvez.
—Vou ter que tomar a iniciativa?
—Depende — ele deu de ombros, claramente embaraçado — Se for apenas uma sessão de amassos, então acho que não.
Ergui uma sobrancelha.
—O que mais você espera que a gente faça?
—Ah... — Callum se sobressaltou, então percebeu que eu estava brincando — Ah, cala a boca.
—Você é muito inocente, Callum White — sussurrei passando por ele e entrando no quarto. O abajur sobre o criado mudo estava aceso, iluminando brevemente o recinto. Sentei-me na cama e Callum sentou do meu lado.
—Com o que você sonhou?
—Nada importante — falei devagar — no momento.
—Então porque você não consegue dormir? É algo preocupante?
—Depende das circunstâncias — arqueei as sobrancelhas e sorri de lado — Você está tentando me tranquilizar?
—Estou conseguindo?
Balancei a cabeça enquanto ria.
—Um pouco.
Callum se aproximou e me beijou, me empurrando com delicadeza até eu estar deitada. Aquilo era a vida real, totalmente diferente. Callum estava mais calmo, menos necessitado do que o Isaac do sonho.
“Pare se pensar nele!”
Bufei e puxei Callum para mais perto, até ele estar em cima de mim. Ele foi um pouco desajeitado até se arrumar, se impondo mais nos beijos. O travesseiro afundava sob minha cabeça, e eu tentava me arrumar à toda hora.
Callum parou por um momento e me olhou nos olhos, confuso.
—Que foi? — perguntei, meu coração disparado.
—Isso... Nada, deixa pra lá.
—Fala.
—É que... Não parece certo, entende?
—Não parece certo... — franzi as sobrancelhas — O que?
—Não sei, parece... Parece que tem alguma coisa faltando.
Arqueei as sobrancelhas e encarei-o, incrédula.
—Você quer transar?
—O que? — Callum quase gritou, arregalando os olhos — Não, eu... Tipo, não é que eu não queira dormir com você, mas... Ai, droga, ficou pior... Bem, o que quero dizer, é que agora esse não é o caso.
Franzi o cenho, olhando para ele na luz fraca. Meu coração falhou uma batida ao pensar que ele me dispensaria.
—Então qual é o problema?
—Você está pensando nele, não é? — a expressão de Callum ficou ressentida, os lábios crispados — Eu só estou aqui para te distrair.
—O que!? Call, não! — parte do que eu disse era verdade. Mas eu também sentia que havia alguma coisa faltando. Callum era familiar demais, era como se eu precisasse de algo novo, mais excitante e... Impulsivo. Mordi a língua com força, tentando distrair esses pensamentos com dor física.
—A gente pode só dormir? — Callum ainda parecia chateado — Eu estou com sono.
—Claro — Não senti decepção, nem desapontamento quando ele se virou e deitou do meu lado. Abracei-o e deitei a cabeça em seu braço. Me senti um pouco desconfortável quando ele começou a alisar meu cabelo de um jeito romântico, e não afetuoso como fazia antes. Ao mesmo tempo, ele parecia dividido entre o irmão que sempre vi nele e o namorado que pensava que ia me perder.
—Eu te amo.
—Também te amo — sussurrei. Fiquei acordada por um tempo, sentindo a respiração dele em minha cabeça, até que a mão dele ficou imóvel, os batimentos cardíacos mais calmos. Ele havia dormido.
Ergui meu corpo, devagar, e saí da cama. Call continuava dormindo, e roncava de vez em quando. Eu sentia minha garganta seca, precisava de um copo d'água. Fui para o corredor e desci as escadas. No primeiro degrau ouvi o som inconfundível de um piano, a música clássica chegando abafada aos meus ouvidos.
Esqueci da sede e segui o som. À direita das escadas havia um corredor curto. Um conjunto de portas duplas de magno estava encobrido pelas sombras. A música vinha dali de dentro, uma das portas entreaberta. Eu sabia que Isaac estava lá, ele me disse uma vez que sabia tocar piano.
Empurrei um pouco mais a porta, que não fez barulho, e espiei lá dentro. Isaac estava de costas para mim, tocando uma melodia doce e rápida. Meu coração falhou uma batida quando ele errou uma nota, ficando visivelmente tenso.
—Porque você sempre acorda tão cedo?
—Não consigo dormir.
Ele olha por cima do ombro, os olhos azuis me inspecionando.
—Pesadelo?
Abri a boca, surpresa. Fiquei impressionada com o fato deles saberem exatamente o que estava me perturbando. Assenti e olhei para o piano.
—Você toca bem.
Ele ficou novamente de costas para mim e fechou a tampa do instrumento.
—Será que você pode falar comigo? — exclamei quando ele se levantou e foi para outro canto da sala. Isaac estacou no lugar e virou-se nos calcanhares descalços.
—O que quer que eu diga?
—Quero que você me explique isso — ergui a mão, mostrando o anel de prata que ele me entregou. Isaac mordeu o lábio inferior e franziu o cenho.
—Não quero falar disso agora, está bem? — ele murmurou se aproximando de mim — Pergunte qualquer coisa, menos isso, porque senão você pode ir embora.
O tom de voz dele me atingiu como uma facada na garganta. Cruzei os braços sobre o peito e baixei a cabeça. Isaac suspirou, parecendo arrependido, e ergueu meu queixo. Evitei olhar em seus olhos.
—Desculpe — murmurou me soltando — Eu também tive um pesadelo. Não consigo dormir.
Relaxei meus braços e torci a barra da camiseta, encarando o piano. Após alguns segundos de constrangimento, apontei para ele.
—Tocar te ajuda? — perguntei baixinho.
Ele sorriu e colocou as mãos nos bolsos do moletom.
—Ajuda — Isaac se sentou no banquinho do piano e sentei do seu lado, erguendo a tampa do piano. As notas estavam gastas, algumas arranhadas, mas tirando isso estava em ótimo estado de conservação.
—Porque?
—Quando eu era pequeno tinha medo do escuro. Uma das criadas do meu pai tocava piano para mim, e isso me acalmava. Então eu quis aprender, e sempre que me sentia mal, eu tocava.
Inspirei com força, parecendo olhar para Isaac pela primeira vez. Nunca imaginei que ele pudesse ter medo. Agora eu o via como uma armadura vazia de sarcasmo, arrogância e audácia. E, lá dentro, um pequeno núcleo prevalecia, cheio de ternura e sensibilidade e medo. Era como se o núcleo ficasse cada vez menor, cada vez mais vulnerável, e a única coisa que sobraria dele seria a armadura, enferrujada e gasta.
Estendi a mão e segurei a dele.
—Eu não fazia idéia.
Ele riu baixo, de um jeito quase imperceptível.
—Não tinha como saber — aquele pequeno núcleo brilhou frágil nos olhos dele. Isaac virou a cabeça para um pequeno rádio em cima do piano e então de volta para mim, sorrindo divertido — Acho que você me deve uma dança.
—Não — murmurei ficando nervosa. Limpei a garganta quando tentei continuar e minha voz ficou aguda demais — Não, eu não sei dançar.
—Eu te ensino — ele se levantou, me levando junto e fechou as portas. Depois ligou o rádio que tocou uma música baixa e lenta. Meu rosto esquentou quando ele me puxou para mais perto — Pelo menos você sabe o que fazer agora, né?
—Sei. — Eu ri e coloquei as mãos em seus ombros. Eu tinha que me esticar bastante.
—Pode subir nos meus pés, não tem problema — Isaac riu quando bufei de frustração e subi nos pés dele. Ele começou a se mover devagar, nós dois olhando para baixo. Quando ergui a cabeça, nossos rostos estavam perigosamente perto.
—Isso é bom — murmurei.
—Mesmo? — ele se afastou e me girou. Abri a boca, surpresa, quando nos juntamos de novo. Depois comecei a rir.
—Não acredito que você fez isso!
—Posso fazer de novo — ele agarrou minha mão, me ameaçando, e apertei seus ombros.
—Não, por favor, me deu dor de cabeça.
—Está bem, não vou repetir.
Ele riu e de repente meus olhos queimaram. A sensação de estar com ele era ótima. Lembrei de horas atrás e o sorriso em meu rosto sumiu. O anel de prata em meu dedo parecia arder. Isaac percebeu isso e diminuiu ainda mais o ritmo, assumindo o semblante preocupado.
—O que foi?
—Posso te perguntar uma coisa?
—Pode.
Engoli em seco e deitei a cabeça em seu peito, o coração batendo sonoramente sob meu ouvido. A música foi abafada pelos meus pensamentos, que berravam em minha cabeça.
—O que você quis dizer na ponte? Quando meu deu o anel?
Isaac parou repentinamente. Ele se inclinou e beijou minha cabeça demoradamente, e quando se afastou, me abraçou com força e o respondi. Eu sentia meus olhos queimando, sabia o que estava por vir.
—Eu vou morrer, Daya. E não adianta torcer para que isso demore.
Fale com o autor