Pov Bianca

Eu estava começando a me sentir em casa no Acampamento. Nada mal. Eu estava numa luta em tempo real com o tal de Percy Jackson, ele exibia uma habilidade incrível, apesar de eu bloquear os golpes dele. Estranho, nunca havia lutado. Num dos golpes que eu não bloqueei, a lâmina passou pelo meu braço esquerdo e fez um corte razoável. Começou a sangrar imediatamente. Annabeth me levou até a enfermaria. Lá um carinha asiático enrolou meu ferimento.

–Isso não é tão grave – ele falou batendo de leve nas bandagens – a menos que infeccione, então caso precisar de mais ajuda com ele ou eu estou no chalé de Hermes ou aqui na enfermaria. Você não chegou hoje? Então está no chalé de Hermes? Já foi lá? – fiquei olhando pra ele. Cabelos rebeldes negros, pele morena, traços indianos e olhos escuros, quase negros. Ele era pequeno perto de mim.

–Claro. Inclusive já fui vítima de uma das pegadinhas dos Stolls. Vinte anos e nenhuma maturidade.

–Bem vinda a minha vida – ele falou – Acho que provavelmente eles já roubaram... Quero dizer providenciaram um saco de dormir pra você. Os dois chalés estão sempre lotados, enquanto têm muitos dos outros vazios. – ele consultou o relógio – preciso ir pra aula de grego antigo. Até a janta. – ele saiu apressado.

–O que deu nele? – perguntei.

–Ele está aqui há um mês e ainda não foi reclamado. O nome dele é Leon, tem 14 anos. Ele pode ser filho de Ares, é agressivo, e é sombrio como os de Hades. Também tem muita habilidade com o arco, e com os pégasos. E por que ele fica assim perto de garotas mesmo. Se apressa ao máximo para sair de perto delas. É bem tímido. Ainda não sabemos nem se é a mãe ou o pai dele que é ausente. Ele não fala com quase ninguém, a menos que seja extremente necessário.

–Reclamar? O que é isso?

–Sim, saber qual deus ou deusa é seu progenitor – Annabeth falou levando-a para fora – Você vai ser reclamada logo, com sorte. Ainda bem que Percy fez um acordo com os deuses de reclamarem seus filhos o mais cedo possível. Antes disso, alguns campistas esperavam realmente muito para serem reclamados.

Eu mexi nas bandagens pensando nisso. Parece que Percy era realmente muito importante nesse acampamento. Teve um papel importante e tem um papel importante agora. Resolvi perguntar uma coisa que tinha me incomodado até agora:

–O que o Percy fez de tão importante?

Annabeth riu, como se ela fosse um cachorrinho que tinha vindo pra ela:

–Ele só derrotou o Senhor dos Titãs e salvou o mundo, ai depois ele derrotou a mãe do Senhor dos Titãs e salvou o mundo outra vez. Sabe, nada demais, só coisas que um adolescente normal faria. Ele segurou o céu, lutou contra um Minotauro duas vezes, explodiu um cruzeiro cheio de monstros, lutou contra os gigantes anti-deuses, sobreviveu a uma missão na terra fora do alcance dos deuses... Viajou no Mar de monstros... Dá pra ter uma idéia, não é?

–Sim. – falei – é por isso que você o ama tanto?

–Sim. Nos conhecemos desde os doze, lutamos juntos várias vezes, sabe? Agora não fazemos mais isso tanto quanto antes. Sabe, pelas minhas condições.

–Suas... Ah, sim – então notei que ele estava grávida. – De quantos meses?

Ela pensou um pouco.

–Uns seis ou sete meses.

–Acha que vai ser garota ou garoto?

–Eu não sei. Não tinha pensado nisso antes. Pra mim tanto faz. Vai ser meu filho do mesmo jeito – ela sorriu pra mim.

–Ah... Claro... – agora eu estava sem jeito – Acho que dá pra voltar pro treino agora, certo?

–Sim, pode ir. Acho que agora a aula de Artesanato.

Fui até a oficina. Seria uma oficina normal, se é que ter espadas e motosserras em uma oficina é normal. Lá um garoto começou a me ensinar como fazer esculturas de pedra. Eu desisti por que eu não conseguia dar forma a pedra sem acabar quebrando ela. Depois teve a janta. Eu conversei com Leon. Ele respondia o que eu dizia com Sim, claro, uhum, não. Eu desisti de falar com ele e comecei a prestar atenção nas mesas em volta. Algumas mesas estavam cheias, e outras, completamente vazias. Travis e Connor faziam um campeonato de piadinhas ridículas. Leon se levantou e saiu de lá, claramente desanimado. Acabei rapidamente de comer e segui-o. Ele foi até o chalé de Hermes. Lá, deitou no saco de dormir e tirou uma foto do bolso. Ele ficou olhando para a foto.

–Quem é na foto? – entrei de repente e ele se assustou. Ele se levantou rapidamente.

–Ninguém que te interesse – ele disse com raiva – por que me seguiu?

–Por nada. Eu precisava pegar umas coisas aqui no chalé e... Sabe, tenho que escrever uma carta pra minha mãe, e também tomar banho. Mas bem sério quem é na foto?

Ele suspirou e se sentou num dos beliches.

–Minha família. Pai, madrasta e meia-irmã mais velha. E agora eu soube que vou ter mais um irmão. Eles esconderam isso de mim até umas duas semanas atrás. – ele balançou a cabeça – eu preciso voltar pra casa logo. Eu acho que pegaram o cara errado. Só pode. A única coisa que eu sirvo direito aqui é cuidar dos feridos. – ele deu um soco no beliche, e pareceu nem sentir dor – Mas aqui é melhor do que na minha casa. Semideuses sempre têm problemas com os padrastos ou madrastas. Eu tenho problema com a minha meia-irmã também. Ela quer me mandar o tempo todo. Minha madrasta briga comigo pelas expulsões e problemas na escola. Meu pai... Ele até é legal comigo, quando está em casa.

Eu mudei o peso de um pé para o outro sem jeito.

–Por que está me contando isso? – falei.

–Eu não sei. Estou te confiando esse segredo. Você não vai falar isso pra ninguém. Se não eu... Ah, vai logo toma teu banho. – Ele falou saindo do chalé. – é só um aviso.

Depois da janta um bando de garotas chegaram. Elas se denominavam “Caçadoras”, e outra garota, Ártemis, que era uma deusa, a chefa das Caçadoras disse que as Caçadoras precisavam de um castigo por que algumas andaram saindo fora da linha(ou seja desobedecendo, elas não pareciam felizes com ficar ali no Acampamento) e uma Caçadora resolveu começar a falar comigo. Seu nome era Thalia, ela era a comandante das Caçadoras. Ela falou muito comigo e no final ela disse:

–Você gostaria de se juntar as Caçadoras?

Olhei para ela:

–Você conversou tanto comigo para me chamar para as Caçadoras?

–Não. É uma idéia boa. – ela baixou a cabeça – você ia gostar, pelo menos acho. Eu gostei – agora a voz dela estava quase em um murmúrio.

–Ah sim. – falei – eu vou pensar nisso. Parece ser... Legal.

–É muito legal – ela sussurrou – acho que eu... Eu preciso ir pro meu chalé – ela se levantou e saiu correndo.

Fiquei lá pensando o que tinha feito ela ir. Que estranho. Leon me puxou pro lado e falou pra não contar pra ninguém o que ele tinha dito.

...

Em alguns dias eu já estava acostumada com os treinamentos, apesar de ainda sentir dores no corpo inteiro ao deitar e acordar, e minha pele estar cheia de marcas roxas. Eu só não tinha me acostumado com ficar apertada naquele chalé e ficar ouvindo piadinhas sem graça dos Stolls o tempo todo. Eu conversava às vezes com Thalia e com o Leon. Thalia não parava de tentar me convencer a entrar pra Caçada. Nem sei por que ela ainda insistia nisso. Mas eu estava gostando de ficar ali. Mandei cartas pra minha mãe, mas ela ainda não respondeu. Eu às vezes tirava o colarzinho em de ampulheta que tinha mãe tinha me dado quando eu fiz dez anos e ficava olhando, pensando no significado dele. Não imaginava o que poderia ser. Ficava olhando a areia correr de um lado ao outro, pensando em nada. Tempo. Eu adorava ampulhetas. Tinha uma em casa. Também um relógio d’água. Essas coisas antigas que marcavam o tempo. Minha mãe também gostava delas, e eu nunca perguntei o motivo.

Leon começou a conversar mais, muito mais comigo. Eu era a única pessoa que ele conversava direito.

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