Filha De Hécate
1 Acampamento de história com garotos de armaduras.
Não sei se ser filha de uma deusa menor é uma bênção ou uma maldição.
Meus pais sempre me entenderam, quando as crianças me chamavam de esquisita eles diziam que eu era diferente, até quando eu dizia que via monstros rondando minha escola eles diziam que eu não precisava me preocupar. Agora que eu tenho quatorze anos eles estão me expulsando de casa.
– Vai ser só nesse verão. – Mamãe disse calmamente do banco do passageiro, ela é loura e eu já fiquei mais alta que ela. Meu pai olhou um mapa, pigarreou e disse:
– Nós vamos fazer uma viagem filha. Precisamos que fique no acampamento e fique com seu colar. – Segurou o volante com mais força. Todos dizem que somos parecidos, no jeito. Observei meu colar, uma corrente de ouro com uma chave verde.
– Por quê? – Perguntei começando a riscar ainda mais minha calca jeans escrevendo frases dos meus livros favoritos nela, meus pais odiavam isso, mas não importava. Minha mãe respondeu:
– Porque vamos viajar já te dissemos. – Ela se virou no banco para ver qual a minha reação – O que eu disse sobre ficar riscando suas calças?!
– Eu nem tenho mais musica para ouvir. – Mudei de assunto, enquanto guardava o mp3 que ficou sem bateria – Que beleza. Ei, cadê meu celular? – Procurava na mochila arrumada pela minha mãe, mas apenas alguns livros e umas poucas calças e shorts jeans.
– Filha, – Disse meu pai – Chegamos.
– Ótimo, quando vocês voltam para me buscar? – Falei, enquanto saia do carro.
– Nós viremos filha. – Eles me abraçaram forte enquanto caminhamos até uma colina – Até lá se divirta. – E me deixaram olhando para um pinheiro e ao lado dele, uma caverna. Meu colar pesava e queimava.
– Desça a colina! – Meu pai gritou do carro – Encontre Quíron, ele vai lhe explicar tudo. – Meus pais gritaram juntos. – Nós te amamos filha.
Eu ainda absorvia essas palavras quando dois adolescentes apareceram, eles estavam de capacete e espadas, com uma armadura por cima de uma camiseta laranja e calças jeans. Tudo bem, esse pessoal não é muito normal.
– Preciso encontrar Quíron. – Eu lhes disse. Um deles de virou e começou a descer a colina, eu o segui.
Enquanto descia eu vi um casebre, uma quadra de vôlei, alguns armazéns, uma dezena de casas, campos de morango, uma praia, um bosque, e... Aquilo é uma parede com lava? E construções gregas? Chegamos à porta da pequena casa. O garoto pediu que eu me sentasse e esperasse. Concordei, e me sentei em uma cadeira de balanço. Peguei um livro na mochila e comecei a lê-lo. De repente ouvi a porta abrir, me levantei em um sobressalto. Um homem de meia idade em uma cadeira de rodas veio rindo junto com o garoto, ele tinha o cabelo meio bagunçado e parecia gentil. Ele olhou o livro em minhas mãos e deu um sorriso divertido, como se tivesse contado uma piada a si mesmo. Virou-se para o garoto e disse:
– Joe, pode ir agora e não se esqueça de proteger o velocino, já mandei alguns campistas procurarem o dragão. – O garoto se virou e subiu a colina. – Bem vinda ao acampamento meio-sangue. Prazer, Quíron. – Esticou sua mão para me cumprimentar, demos um aperto de mãos. – Sente-se, posso ver? – Disse apontando para o livro. Sentei-me e respondi:
– Claro, mas tenha cuidado. É um dos meus favoritos. – Quando entreguei o livro em suas mãos ele começou a folhear. – Meu pai me disse que você vai me explicar tudo então, por que os adolescentes usam espadas aqui? – Perguntei olhando ao redor. Ele me olhou e seu sorriso diminuiu.
– Foi seu pai que a trouxe? – Perguntou me devolvendo o livro, intrigado. Eu assenti. – Isso sim é novidade pra mim, e isso que eu tenho muitos anos de experiências com heróis.
– Heróis? Você é tipo um professor de história?– Eu não era boa em história, nem de longe. Imagina se esse acampamento fosse sobre história, isso explicaria os adolescentes com roupas de batalha, eles poderiam estar encenando uma que aconteceu uns mil anos atrás, no qual muitos morreram e blá, blá, blá.
– Na verdade, os heróis existem. Você mesma é uma.
– Eu? Uma heroína? Como?
– O que você sabe sobre os deuses gregos?
– Quase nada, só o que li nos livros de mitologia e na odisséia. Sei que são muitos. – Me senti estranha com essa pergunta, mas Quíron falava tão calmamente que eu apenas respondia.
– Vou te fazer uma pergunta simples. Você aprende rápido?
– Sim. – Respondi.
– Os deuses e deusas gregas existem. Às vezes eles se encontram com mortais e tem filhos. Os semideuses. Você e quase todos desse acampamento são metade deuses e metade mortais. Aqui é o único lugar seguro contra os monstros.
– Então por isso meio-sangue. Mas e esses monstros? – perguntei
– Você nunca foi atacada por um monstro? – disse Quíron surpreso.
– Não, não que eu saiba, já vi alguns e eu vejo muitas coisas, mas não fui atacada e eu tenho uma mãe e um pai e nenhum é um deus grego. – Quíron estava pensativo em sua cadeira de rodas, me observava. Era até possível imaginar as engrenagens girando dentro de sua cabeça.
– Agora eu me surpreendi de verdade, seus pais lhe trouxeram para cá, você nunca enfrentou monstros, não tem dislexia e nem déficit de atenção e hiperatividade. Isso sim e é incomum.
– Sou só anti-social, e os livros me ajudam com isso. Acho que meu lugar não é aqui Quíron. – O sol já se punha, quanto tempo tinha passado desde que meus pais me deixaram ali, uma ou duas horas. Tudo isso? Não pode ser. Quíron pigarreou:
– Claro que é, seus pais não te deixariam aqui se não fosse seu lugar não acha? Agora vamos para a fogueira. Espero que sua mãe ou pai divino te reivindique.
Passamos por dentro da casa que era enorme nem parecia o pequeno casebre que eu vira enquanto descia a colina. Do outro lado uma adolescente e uma mulher conversavam: uma loura de cabelos curtos e olhos cinzentos por de trás dos óculos e outra ruiva com o cabelo muito longo.
– Violet e Rachel, esta é... Agora que me ocorreu que eu não perguntei seu nome ainda. – Ponderou Quíron.
– é Mia, quero dizer Hérmia. Meu pai gosta muito daquele livro...
– Sonho de uma noite de verão. – Disse a loura enquanto me fitava.
– Isso. – Eu fiquei sem jeito, a garota me olhava como se eu fosse um problema de matemática que ela não conseguia resolver.
– De qualquer maneira bem-vinda Hérmia – Disse a ruiva segurando em minhas mãos, enquanto a loura descia as escadas à nossa frente. – Vamos pra fogueira, já perdemos o jantar mesmo. – Ela disse a ultima parte com tanto pesar que eu tive de segurar o riso. Ela tinha, não sei 20 ou 21 anos. Mas parecia bem mais jovem. – Não ligue para Violet, ela é uma filha de Atena. Tem de saber de tudo.
Nesse instante aconteceu uma coisa inimaginável, Quíron chegou à beirada da varanda e se levantou da cadeira de rodas. Primeiro as patas dianteiras, depois as traseiras e ali estava um centauro. Metade homem, metade cavalo. A parte equina de Quíron era branca.
Seguimos até um campo contornado com várias casas estranhas, no centro uma grande fogueira com vários adolescentes em torno dela. Havia uma garota sentada bem perto do fogo, como ela não se queimava? Eu não faço a mínima idéia. Mesmo assim quando ela me olhou eu acenei e ela retribuiu com um sorriso. Chegamos perto dos outros campistas. Fiquei meio afastada, eu sabia que à noite as pessoas mantinham ainda mais distancia de mim. Era uma linda noite de lua nova. Vi alguns garotos louros tocando e cantando de um lado da fogueira.
Já estava me acostumando com aquele lugar, algumas moças andavam entre as arvores brincando de pega-pega com meninos metade bode, sátiros é o termo correto eu acho. De repente a musica parou e todos começaram a olhar para mim, olhei para as minhas mãos que pareciam um holograma e uma luz roxa como meus olhos pairava em cima de minha cabeça.
Quíron sacudiu a cabeça como se quisesse afastar um pensamento ruim. Por fim disse:
– Semideuses eu lhes apresento Hérmia, Filha de Hécate.
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