Por Anastácia Steele:

O dia na empresa parecia estar tenso. Todos estavam trabalhando frenéticos. José, meu colega estagiário, parecia estar para estourar a qualquer momento. Christian passou pela recepção da empresa umas três vezes, parecendo estar nervoso.

– Essa empresa hoje está parecendo um hospício — José disse — Tenho até medo de me direcionar ao Sr. Grey e tomar uma patada em resposta. Imagina o que ele vai dizer quando souber que o Sr. Fernando não enviou a arte para a gráfica.

– José querido, Christian não é um monstro — disse após pensar em tudo que passamos ontem, e na forma com a qual ele me tratou — se quiser, eu falo com ele.

– Adquiriu intimidade com o chefe? — ele riu — Ouvi dizer que ele despediu um funcionário sem motivo algum, só por estar “estressado”.

– Christian não é louco — ri em resposta — Obviamente ele teve motivos. Lembra do corte de gastos? Diminuição de equipe? Eu vou falar com ele.

Levantei-me da minha cadeira tranquila, e me direcionei até a porta da sala de Christian. Estava tranquila até então. Apenas fiquei apreensiva ao ouvir Christian gritar ao telefone com um dos fornecedores de materiais. Estava nervoso, era óbvio, mas não seria suficiente para destratar uma funcionária que apenas lhe quer ceder uma informação, certo? Espero que eu esteja certa.

– Sr. Grey, posso entrar?

– Entra — senti seu tom de voz ríspido.

– Senhor, não vou tomar muito tempo, apenas vim lhe avisar que o Sr. Fernando ligou, e pediu para avisar que se recusa a levar a arte para a gráfica.

– Me liga com aquele babaca, por favor Anastácia.

– Sim, Sr. Grey — disse e sai fui até a porta.

– Anastácia — ele disse antes que eu saísse — Eu já disse que você pode me chamar de Christian. Agora feche a porta, por favor.

O entendimento passou longe de mim. Não entendi muito bem o motivo dele ser tão paciente comigo, e tão agressivo com outras pessoas. Mas não me importei. Apenas fiz o que ele pediu. Telefonei para o Sr. Fernando e transeferi a ligação para ele.

– Ele te xingou — José riu — Qual grosseria ele lhe disse?

– Está maluco, José? — sorri — Ele não foi grosso comigo, apenas pediu para que eu ligasse para o Fernando e transferisse a ligação.

– Ele não foi grosso com você? — ele disse — Isso não é bom.

– O que? — ri, mais de nervoso do que qualquer outra coisa — Como assim? Está doido José? Como isso não é bom? Isso é ótimo. Eu não gostaria de ser alvo das grosserias do chefe.

– Minha doce Ana, você não está entendendo — ele riu com ironia — Christian é muito conhecido por “pegar as secretárias”.

– O quê? — disse incrédula — Isso não é possível. Não, não é possível.

– Nossa, Ana — ele riu — Você está pálida.

– Eu não… — levantei-me da cadeira — Já volto.

De tudo que eu podia pensar era “por que ele está sendo tão gentil comigo?”. Se for isso que o José disse, este babaca está mentindo para mim. Eu me recuso a ser mais uma que ele pegou. Porra, ele dormiu na minha casa ontem. Ele me deu um beijo no canto da boca. Era tudo um plano. Como eu fui idiota, nossa.

Voltei para minha mesa depois de ter tomado um copo d’água para me acalmar. José tinha seu lado homossexual acentuado nesses momentos. Ele era louco por um homem engravatado, admito, mas não seria capaz de inventar uma coisa dessas. Quando me sentei em minha cadeira apenas vi o semblante curioso de José, que foi logo embora quando a porta do elevador se abriu.

– Olha, Ana — ele apontou para o elevador — A rainha dos chifres.

– O quê? — eu disse com o raciocínio lento, devido ao baque que levei — Como assim?

– Corna — ele apontou para a morena que acabara de sair do elevador — Namorada do Christian.

– N…namorada? — agora o meu semblante era de dúvida — O Christian tem namorada?

– Você ainda se surpreende? — ele riu — Em que mundo um homem daquele seria solteiro? Lindo, moreno, forte e p-o-d-r-e d-e-r-i-c-o — ele riu — É claro que ele tem namorada, Ana — outro riso — Mas ela é a maior corna existente. Christian vive rodiado de mulheres.

– Qual é o nome dela? — perguntei tentando mudar o semblante para parecer menos revoltada.

– Suzana — ele riu — Mas eu não tenho pena dela não. Corna ela é, mas também é uma verdadeira bisca.

– Você é o ápice — eu ri — Como você sabe disso tudo?

– Há alguns meses atrás, quando você ainda nem sonhava em estar trabalhando aqui. Eu flagrei a Suzana tendo uma grande discussão com o chefe na sala dele, acho que era porque ele tinha pegado uma antiga secretária. Uma que trabalhava com ele, como você — ele riu — A Suzana saiu da sala dele bufando, tamanha era a raiva dela. Ela entrou na sala do Muller e… Bom, acho que você deve imaginar.

– Para falar a verdade eu não imagino — disse ainda incrédula — Essa empresa é mais movimentada do que eu imaginava.

– Agora fala a verdade — ele riu — Você está na mira dele, né?

– Claro que não, querido — disse — Eu não sou uma bisca que qualquer um pega — eu ri.

Eu poderia dizer que em momento algum me passou pela cabeça estar na cama do chefe, mas isso aconteceu ontem, quando o chefe estava na minha cama. Pode não ter acontecido nada, mas tivemos uma aproximação muito íntima, e eu decidi que nunca mais deveria acontecer. Para isso eu precisava deixar claro para o chefe, que eu não estava disponível no mercado.

Levantei da minha mesa e fui até o almoxarifado. Nem percebi estar sendo seguida, mas quando entrei na pequena sala escura, com cheiro de papel velho, foi impossível não perceber a presença de mais alguém ali.

– Está procurando alguma coisa? — a voz não me soou parecida — Prazer, meu nome é Ethan.

– Oi — cumprimentei-o — meu nome é Anastácia. Eu só vim buscar algumas amostras para o Sr. Grey.

– Claro, o Grey — ele riu — Aquele babaca não podia pegar sozinho? — ele riu novamente.

– Acho que não — sorri — Você não gosta dele?

– Para falar a verdade, aquele babaca é um dos meus melhores amigos — ele riu.

– Ah, então devo considerar que o senhor é um dos… Chefes? Opa! —ele riu.

– Não tenho a autoridade do todo poderoso Grey — debochou — Mas sou um dos sócios.

– Entendi — sorri — Foi um prazer conhecê-lo, mas tenho que levar isso aqui para o Sr. Grey, antes que ele resolva ter um ataque.

– Vai lá — ele riu novamente — Foi um prazer.

Bom, eu acho que deveria ser proibido eu trabalhar em uma empresa onde o chefe é um gato, e todos os funcionários são lindos. Ethan é moreno, a estatura pouco menor que a do Christian, mas ele é forte e tem os olhos castanhos escuros. José, apesar de ser gay, também é lindo. Loiro dos olhos azuis, uma verdadeira tentação. Outro sócio, Elliot, também é maravilhoso.

O dia passou tão devagar que eu podia sentir meu corpo todo se tencionar em busca de uma cama. Cheguei em casa às sete da noite, e me deparei com uma mãe louca revirando meu apartamento de cabeça para baixo.

– Mãe? O que você está fazendo? — perguntei.

– Arrumando né minha filha — jogou um pano para mim — Passa esse pano nos móveis porque eles estão cheios de poeira.

– A poeira não me incomoda, mãe. Eu estou muito cansada — Me joguei no sofá, desarrumando as almofadas, que tenho eu a certeza, de que mamãe passou horas arrumando.

– Cansada de que? — ela disse jogando a bolsa que eu larguei em cima da mesa no sofá.

– Trabalho, mãe.

– Se não tivesse ficado até tarde namorando ontem, não estaria tão cansada — seu semblante deu a entender que ela queria ter comigo “aquela conversa”, e caramba, eu tenho 22 anos.

– Mãe, eu não fiquei “namorando” até tarde. Além do mais, se eu quisesse eu poderia, certo?! Tenho 22 anos, moro sozinha, tenho meu emprego… Preciso de alguém comigo, não acha?

– Mas algo me pareceu estranho com aquele rapaz… — ela disse séria — Minha filha, a quanto tempo vocês estão juntos? E por que não me falou dele por telefone?

– Christian e eu estamos juntos há dois meses mãe, nós dissemos isso ontem. E você o achou estranho porque ele é o primeiro namorado que lhe apresento.

– Pode ser — se deu por vencida — Mas tome cuidado com os homens, minha filha.

– Eu sei me cuidar, Dona Carla — dei-lhe um beijo na testa e me tranquei no quarto com um livro e a paz que eu merecia.

Eu merecia paz, certo? Trabalhei o dia todo. Conciliei meu tempo estudando para um concurso público. Segurei a onda do José. É, eu merecia paz. Infelizmente merecer, não é receber.

– Fala — peguei o telefone com impaciência.

– Três palavras — Kathe disse animada do outro lado da linha — homem, sexy, restaurante.

– Não — respondi. Não havia a menor chance de eu me levantar da cama para qualquer coisa que fosse.

– Não te dei opção, Ana — ela riu do outro lado da linha, o que me deixou puta de raiva.
– Katharine, você não manda na minha vida — disse séria e ouvi que os risos haviam parado — Não vou sair com ninguém.

– Vou interpretar isso como um “estou cansada demais para falar com você, que me irrita tanto” — tenho certeza de que ela rolou os olhos do outro lado da linha — boa noite.

– Kathe — chamei-a antes que desligasse — desculpa, eu realmente estou decidida a não sair de casa hoje, mas seria adorável se minha companheira de vida viesse me fazer companhia.

– E por que eu iria? — Kathe disse relutante — depois da minha companheira de vida ter sido absurdamente grossa comigo, espero que ela tenha realmente motivos muito fortes para me fazer subir o elevador, já que acabo de estacionar na garagem do prédio dela.

– Pipoca, refrigerante e uma temporada de Castle — disse.

– Abra a porta — ela riu — estou aqui.

Abri a porta e vi uma sorridente mulher com braços abertos. Abracei-a, e beijei-lhe a bochecha. Kathe ser a minha melhor amiga não a dispensa de suas obrigações. Apresentei-lhe uma nota de 10 reais, e ela fez sua melhor cara de aborrecimento e insatisfação.

– Te espero em cinco minutos com 3 litros de refrigerante e se quiser pode gastar o troco com você mesma. Suponho que você esteja louca para esperimentar sabores novos de camisinha — ri ao receber um tapa.

– Se você fosse no mínimo gentil, me convidaria para entrar — resmungou.

– Querida Kathe, eu tenho uma mãe para despachar — dessa vez nós duas rimos.

– Volto em cinco minutos — ela disse, chamando o elevador — Espero que você já deixe a cama preparada, para eu simplesmente cair com um balde de pipoca, e um Nathan Fillion para eu admirar.

Ela saiu, o que me permitiu olhar para trás e ver minha mãe ingerindo uma pilula, que provavelmente, a faria dormir. Ótimo, menos uma preocupação. Não seria nada agradável uma sessão de interrogatório da Dona Carla para com a queridíssima Kathe. Mamãe tem instinto. Se ela não “foi com a cara do Grey”, certamente ele não é o homem que vai ficar comigo. E, certamente, ela interrogaria minha melhor amiga.

– Já vou dormir, minha filha, quer alguma coisa? — mamãe perguntou — Amanhã eu vou sair cedo. Tenho que ir até Guarulhos visitar a sua tia, aliás, quanto tempo você não a vê, Ana?

– Uns seis ou sete — empurrei minha mãe até o quarto.

– Meses? — minha mãe me lançou um olhar de desaprovação — Por que está me empurrando?

– Anos — respondi deixando-a incrédula — Não estou te empurrando, só estou te acompanhando até o quarto. Boa noite, mãe.

Fechei a porta, pensando apenas em fazer pipoca e colocar o dvd da segunda temporada de Castle. Quando ia passando pela sala com um balde de pipoca em mãos, ouvi a campainha.

– Cinco minutos atrasada — ela me olhou como quem queria dizer…
– Para de reclamar, vagabunda. Eu ainda fui comprar esta merda, não reclama — ela não apenas lançou o olhar, como disse. — Espero que meu lugar já esteja devidamente aquecido. E você sabe, gosto de usar três travesseiros.

– Você sabe onde é o quarto, não é? — entreguei-lhe a pipoca — pode ir começando. Sem babar na Stana, por favor.

– Impossível, Ana — ela riu.

– Assista com cautela, Kathe.

Por Christian Grey:

– Eu juro, Elliot, a vontade que eu tenho é de dar uma porrada no babaca do Fernado. Ele vai foder com a concessionária, anota o que eu estou dizendo.

– Christian, será que dá para relaxar? — sentou-se na poltrona — Toma uma dose de uísque. Vamos falar de coisa boa.

– Que coisa boa, Elliot? Nada, absolutamente nada foi bom hoje. Acho que é porque ontem foi bom demais.

– Bom demais? — Elliot perguntou — O que teve de tão bom?

– O que não teve, né? — alterei a voz — Desculpa, cara. Sei que você não tem nada com essas merdas que tão acontecendo com a empresa, muito menos com a invasão da Suzana à minha sala.

– Suzana? — perguntou — Ela não estava viajando?

– Felizmente estava — disse — Infelizmente voltou, e pior, voltou paranóica.

– Por que? — perguntou.

– Porque ela estava viajando. Chegou ontem à noite e não me viu em casa — disse — botou na cabeça que eu tenho outra, vê se pode.

Elliot não conteve e gargalhou, sendo repreendido por mim.

– Olha, Christian — ele disse — Todo mundo sabe que você não para sem uma mulher.

– Mas que caralho Elliot — virei o copo de uísque — Não é bem isso, você sabe.

– Vamos fingir, Christian — ele riu — E falando em mulheres. Como vai sua secretária?

– Eu sei lá — me levantei da poltrona em que estava — Não estou com cabeça para isso. Vou tomar um banho

Por Anastácia Steele:

– Ele tem o que? — o semblante da Kathe me fez rir.

– Namorada — repeti e tive que dar um tapa na Kathe para ela parar de rir.

– Cretino — ela disse contendo um riso merecedor de outro tapa.

– Não importa isso — me levantei da cama e peguei o balde de pipoca vazio — Quer mais pipoca?

– Não — ela riu — estou cheia… E por cheia, quero dizer cheia de problema. Quero desabafar.

– Ah não — ri da cara dela e fui atingida por um travesseiro — fala.

– O Elliot — suspirou apresentando um semblante receoso — me pediu em casamento.

– E você disse o quê? E desde quando um pedido de casamento vindo de um cara como o Zé é problema?

– Desde que eu não tenho intenção de me casar — respondeu — O problema é que eu não quero magoar o Elliot, tadinho.

– Katharine, você vai falar a verdade para ele. Você não vai deixá-lo acreditando que você vai aceitar, para no final você dispensá-lo.

– Você fala com ele para mim? — perguntou.

– Óbvio que não — respondi incrédula — Seria o ápice eu dizer “então Elliot, sabe a Kathe? Ela disse que não vai casar com você”.

– É, eu acho que você tem razão — ela riu

– Você acha? — acompanhei-a na risada.

– Amiga — disse — Quanto ao seu chefe gostoso — ela riu ao receber um tapa — O que você vai fazer?

– Eu tenho que fazer alguma coisa? — perguntei.

– Claro — ela respondeu — Ou você acha que ele não vai tentar te pegar?

– Você fala como se eu fosse uma cachorra, que qualquer um pega.

– Você é uma cachorra — ela riu e tomou outro tapa — Uma cachorra virgem — riu mais ainda.

– Vai se foder, Kathe — rimos juntas — Eu não vou “ser vítima” dele.

– Vai fugir dele? — ela riu — Cadê a mulher que disse “eu vou ser esposa dele”?

– Eu tava zoando, sua babaca — rimos juntas — E isso foi antes de saber que ele era um tremendo cretino.

– Awwwn — ela riu.

– Que foi? — perguntei.

– Você estava com esperança dele ser o seu príncipe — ela riu — Awwwn que fofinha.

– Eu te odeio — joguei-lhe uma almofada.

– Ana, é isso — ela riu — Você está decepcionada porque tinha esperanças com ele.

– Não, não e não — eu disse — Não é porque ele me pareceu ser um príncipe, que gosta de teatro e lanches de fast-food, que eu achei que ele era o homem da minha vida.

– Aham, Ana — ela riu — Você mesma acabou de utilizar a palavra “príncipe” como um adjetivo para descrevê-lo.

– E vou utilizar o adjetivo “ridicula” para descrever você — disse e fechei o semblante.

– Okay, okay, não está mais aqui quem falou — ela riu — Agora chega pra lá que eu quero dormir.

– Você nem é folgada né? — disse enquanto apagava a luz.

– Boa Noite Ana.