Fidedigno
1 Fidedigno
Notas iniciais
Havia malícia nos olhos azuis. É provável que estivesse ali desde sempre, disfarçada na figura angelical da menina pálida e loira. Ainda assim, por trás da falsa inocência, Rita Skeeter tinha uma mente venenosa. Aprendera desde cedo a enxergar o pior nas pessoas e a se fascinar com o que havia de mais sombrio na personalidade humana. No início, não era intencional, crescera vendo a família se deliciar com os escândalos da vida alheia e assimilara o comportamento. No entanto, isso não fazia dela inocente.
A garota nascera com um tipo raro de astúcia, que se combinava perigosamente com sua curiosidade e imaginação fértil. Sempre gostara de ouvir e criar histórias, se perder em outro mundo ou na vida de um personagem qualquer. Gostava de como aquilo lhe fornecia um escape de sua existência tão tediosa e medíocre.
Rita sempre quis mais do que podia ter. E sequer estava pensando em poses ou riquezas, embora essas sempre fossem bem-vindas. A moça desejava aventura, desejava paixões, desejava intriga. Almejava uma vida que nunca seria sua. Uma vida na qual seria a mais bela, talentosa e inteligente e todo o mundo giraria ao seu redor. Queria ser a protagonista das histórias que lia, queria não ser tão absurdamente comum.
Mais do que desejar ardentemente, a moça sabia que merecia muito mais do que lhe fora dado pelo acaso das circunstâncias. Qualquer outra pessoa acharia que a jovem não possuía motivos reais para reclamar. Filha única de um casal de sangue puros, com capital suficiente para uma vida confortável, sempre teve tudo o que desejou. Talvez aquele houvesse sido o problema, fora mimada e criada para acreditar que era a mais especial das criaturas. Seus pais provavelmente desconheciam o monstro que alimentavam ao nutrir o ego de uma narcisista em potencial.
Tudo isso, fazia Rita sentir-se insatisfeita. O que tinha simplesmente parecia pouco ou ordinário. Fora feita para muito mais que a vida comum de uma moça de classe média. Uma vida que poderia ser definida como uma rotina incessante, um carrossel que nunca parava de girar, a condenando a sempre retornar ao mesmo ponto e ver a mesma paisagem todos os dias. Tedioso de todas as formas possíveis.
Talvez o tédio fosse o maior de seus pecados, porque era o que abria a porta para que todos os seus demônios se manifestassem. De repente, a vida de qualquer outra pessoa parecia mais interessante que a sua e Rita se pegava desejando desesperadamente ser uma mosquinha, para conseguir descobrir os segredos mais escusos daquele outro tão magnífico. Não conseguiu ser uma mosca, mas, após anos e anos de tentativa, descobriu aquela que seria a fórmula de seu sucesso: a capacidade de se transfigurar em um besouro. Dessa forma, conseguia obter informações que ninguém mais conseguiria.
Ainda assim, como humana, era limitada e incapaz de saber tudo. Para sua criatividade, no entanto, não havia limites e em segundos ela seria capaz de preencher os buracos em sua história das formas mais sórdidas possíveis. A moça julgava que seu tom pessoal tornava tudo muito mais interessante. Muitas pessoas, contudo, acreditavam que aquilo fazia dela uma grande mentirosa. E era. Mas não era.
Veja bem, Rita Skeeter acreditava fielmente na verdade. Como jornalista queria levar ao público histórias que o interessassem e fossem reais. O grande problema é que era narcisista demais para o trabalho que se propunha fazer e tinha um péssimo hábito de fazer suposições maldosas sobre tudo e todos. Preenchia, então, suas matérias com situações reais, apuradas de forma suspeita, é verdade, e cobria suas lacunas com suas próprias impressões e suposições, com os desfechos e teorias que criara em sua mente. Escrevia o que julgava ser real. Cada uma de suas palavras era verdade. Para ela. Porque Skeeter era presunçosa o suficiente para achar que sua interpretação estava correta e sua verdade era absoluta.
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