Fiat Ignis
18 Capítulo 17 ou “Bernard protesta diante de obscenidades”
Notas iniciais
Bernard se movia de forma descoordenada e distraída pelo escritório, lançando de tempos em tempos olhares ressentidos para Charles. Ele deslocava pilhas de livros de um lado para o outro, fingindo que as organizava por categorias, mas, efetivamente, o resultado da “organização” estava ainda mais caótico do que a disposição inicial. Charles, no entanto, o ignorava de forma solene, olhos fechados, sem fazer nenhum de seus comentários perspicazes habituais. A indiferença do felino às suas tentativas de contato frequentes estava deixando o rapaz cada vez mais frustrado.
Por fim, Bernard resolveu romper o silêncio, ignorando todos os sinais de que seu companheiro não queria manter um diálogo.
— Mestre Charles, estou exausto. Quando você vai voltar a me contar sua história para eu espairecer?
Fazia dias que Charles se recusava a continuar sua narrativa sobre a vida de Abigail, mas, para Bernard, parecia que mais de um ano já havia se passado, tamanho era seu anseio para ouvir os próximos atos.
Charles levou algum tempo para responder à pergunta, o que resultou em pequenos bufos desconcertados vindos da direção de Bernard.
— Hoje não. — Disse ele, enfim.
— Você diz isso já faz dias. — O garoto rebateu, persistente.
— Então pergunte de novo amanhã. Tenho certeza de que minha resposta será diferente. Ou não.
— O que há de errado? Você parece melancólico. — Percebendo que talvez sua abordagem ao problema fosse muito direta e desagradasse o companheiro, ele completou em um tom mais brincalhão, porém um pouco ressentido: — Ou talvez essa seja sua nova forma de se divertir às minhas custas?
Era fato que Charles parecia mais cansado nos últimos tempos, até mesmo um pouco abatido. Ele passava muito tempo em um silêncio meditativo, e a frequência de seus comentários sarcásticos havia diminuído drasticamente. Bernard, que já havia se acostumado com a falta de privacidade decorrente da companhia do velho Meowstic, estava começando a se sentir solitário. Aos poucos se formavam sinais de preocupação no jovem, por não saber o motivo exato daquele afastamento repentino.
— Você acha que alguém com a minha idade teria disposição para brincadeiras desse tipo?
— Acho.
Charles, para a revolta do jovem discípulo, permaneceu em silêncio ignorando a resposta atrevida. Aceitando a derrota, Bernard se jogou languidamente em uma poltrona, e, sem postura nenhuma, começou a folhear o livro que estava mais próximo de suas mãos. Na capa de couro, lia-se “Herbarium bestiae: Tractatus de proprietatibus medicamentis”*. As páginas continham descrições detalhadas e enfadonhas de usos medicinais de partes de animais do tipo grama e veneno.
No entanto, depois de mais algum tempo calado, Charles abriu os olhos e encarou Bernard com uma expressão indecifrável.
— Creio que me lembrei de uma parte da história que irá agradar seu gosto.
Ao ouvir essa resposta, o jovem atirou para o lado o livro em mãos, e sentou-se aprumado na poltrona, o rosto se abrindo em um largo sorriso.
— É mesmo? Deixe-me pegar meus pergaminhos.
—---
Elise percorreu o corredor de forma decidida, porém sem pisar com mais força do que o costume, movendo-se com sua leveza natural até se encontrar diante de uma porta de madeira escura fechada. Sem hesitar, ela encostou sua mão na maçaneta de ferro e escancarou a porta abruptamente.
Do outro lado havia um quarto, e, sentados sobre a cama, estavam Vincent e mais um outro rapaz. Vincent encarou a porta surpreso, mas, ao perceber quem era, estampou um sorriso zombeiro no rosto. Elise analisou a cena com olhos afiados como duas lâminas. A mão Vincent estava pousada na parte interna da coxa do jovem ao seu lado. Elise o reconhecia, tratava-se de um dos guardas do castelo que havia entrado em treinamento recentemente, junto com o grupo contratado para reforçar a segurança durante o festival da colheita. O garoto provavelmente tinha dezessete ou dezoito anos, era magro e desajeitado, tinha sardas no rosto, cabelos loiro-escuro ondulados e volumosos, e olhos amendoados. E, pela experiência de Elise, não parecia particularmente inteligente.
Ela continuou encarando a cena em silêncio, com julgamento e escárnio estampados em seus olhos, vendo a expressão do jovem guarda se torcer em aflição e passar de um sobressalto inicial para uma clara manifestação de pânico. Vincent manteve sua mão no mesmo lugar por alguns segundos, olhando diretamente para Elise em um claro gesto de provocação. Então, ele afastou-a do rapaz, quebrando o silêncio.
— Não se preocupe, ela sabe.
A frase não pareceu surtir efeito, pois o jovem guarda continuava olhando apavorado para Elise.
— Eu achava que você gostava de garotos mais novos, de procedência nobre, com cabelo preto e olhos azuis. — Disse a garota estreitando os olhos, num tom desdenhoso.
— Eu gosto de variar, ao contrário de certas pessoas. — Vincent não parecia incomodado com a provocação. — Você não sabe bater? Nós estamos ocupados.
— Talvez você devesse trancar a porta, então. — Pela suave flutuação do tom de voz da menina, Vince pôde perceber que ela estava bastante irritada. Apesar disso, tirando o olhar afiado, a expressão dela continuava agradável e insondável como sempre, e um observador pouco atento não seria capaz de captar outras emoções na sua voz polida.
— Nós estamos no meio da madrugada, não tem ninguém acordado. — Disse ele dando de ombros. E continuou, num tom rude: — O que você quer?
— Charlotte acabou de voltar de mais um dos passeios noturnos, sozinha, com um braço esfolado. Ela disse que caiu da Rapidash.
— Há. Isso eu acho altamente improvável. Ela nunca cai. — Vincent se espreguiçou longamente, e colocou o braço em volta do ombro do jovem ao seu lado. Prosseguiu levantando uma das sobrancelhas enquanto mantinha o contato visual com Elise numa expressão de desdém: — E o que eu tenho a ver com isso?
O garoto ao seu lado estremeceu com o contato. Alguém atento poderia ter visto um breve lampejo de sorriso malicioso passar pelo rosto de Elise, antes dele se fechar novamente em uma expressão neutra, com os lábios relaxados e as sobrancelhas levemente arqueadas. Era, certamente, um rosto belo e austero, digno de seu status de nobreza.
— Não quero saber dos seus truques, Vincent. — Sua voz, ao responder, soava como uma mãe esbravejando com o filho mais velho por largar o irmão mais novo sozinho em algum lugar perigoso. — Eu disse que você deveria acompanhá-la. É apenas questão de tempo até alguém ver esses passeios como uma oportunidade para pedir um resgate gordo pela filha do marquês.
Vincent franziu o cenho.
— Escuta, eu prometi para você que ia acompanhá-la até a taverna, mas ela não foi fazer isso hoje. Na verdade, ela mencionou algo sobre treinar para o torneio que está por vir. Eu não faço ideia do que ela aprontou, mas não é culpa minha. E você sabe que ninguém pode controlar ela. Qualquer um que tentar está fora do juízo, e o meu vai muito bem, obrigado.
Elise estreitou mais os olhos, fato que não passou despercebido pelo garoto acuado que observava a cena em completa confusão. Vincent, entretanto, não parecia intimidado. Após alguns segundos de tensão, o olhar da menina novamente abrandou um pouco, e ela abriu um sorriso suave.
— Alex? Não... Allen? — Disse ela, agora encarando o menino ao lado de Vincent.
Allen tremeu ao ouvir seu nome. Nunca em sua vida uma mulher o havia assustado tanto, além, é claro, de sua mãe.
— S-sim. Você... me conhece? — Ele conseguiu responder com receio.
— Eu conheço todos os guardas do castelo. Você sabia que Vincent é um flertador compulsivo? Além disso, ele tem uma doença gravíssima no...
Vincent atirou uma almofada na garota, que quase a atingiu no tórax, interrompendo a frase.
— Já chega. — Dessa vez sua resposta soou ríspida, perdendo o tom debochado prévio.
Mas a garota não parecia interessada em parar.
— Eu não sei o que ele te prometeu, mas é tudo mentira, eu já vi o acessório dele e é muito decepcionante.
Vincent levantou-se da cama, agora irritado, e a empurrou para fora do quarto.
— Eu já entendi, ok? Vou vigiar ela da próxima vez, só vá embora, pelo amor de Deus.
Enquanto Allen via Vincent tirar Elise do quarto à força, ele pôde ouvir a voz da garota ecoar no corredor, num tom de escárnio.
— Cuidado com as camas que escolhe para se deitar, Allen.
Vincent fechou a porta e virou a chave, deixando escapar um suspiro aliviado enquanto se virava e encostava as costas na superfície de madeira. Depois, caminhou de volta à cama com uma expressão exausta.
— Nunca confie no que aquela garota diz, ela é um demônio. Ouviu? Um demônio! Não se engane por aquele rostinho bonito.
— Bem, eu não a culpo. — Respondeu Allen, ainda com os ombros tensos. — Se eu estivesse no lugar dela, também teria aprendido um truque ou dois.
— É, mas ela não precisava fazer isso até com os amigos. — Ao perceber que o companheiro ainda estava tenso, Vincent acrescentou: — Mas não precisa se preocupar, ela não vai contar para ninguém. Ela não ganharia nada com isso.
— Tudo bem...
Allen deixou seus ombros caírem um pouco, aliviando a tensão que os retinha contraídos. Seu rosto, no entanto, ainda parecia preocupado.
— Droga, acabou totalmente com o clima. — Reclamou Vincent, se jogando de costas na cama.
— Eu não me importo. — Respondeu Allen.
— Não?
O menino loiro corou um pouco, o que fez suas sardas ficarem mais aparentes, mesmo que iluminadas apenas pelas velas acesas dentro do quarto. Vincent o observou interessado.
— Allen... Você já fez isso antes?
Allen desviou o olhar de Vincent e mudou de posição, apoiando os cotovelos nas pernas e escondendo seu rosto nas mãos.
— Não. Pelo menos não c-com um h-homem...
Vincent sorriu, mas aquele não era seu sorriso zombeiro de costume. Era, provavelmente, o que havia de mais próximo de uma expressão de afeição em seu semblante debochado. Quase. Ele segurou a mão de Allen e afastou de seu rosto.
— Bem, não se preocupe. Faremos o que você quiser.
—---
— Mestre!
Bernard interrompeu a narrativa, sua voz escandalizada.
— O que?
— Você me fez esperar todos esses dias para... para... contar obscenidades!?
— Não é nisso que você pensa o dia todo?
— Absurdo! — Protestou o garoto, atirando uma pena na mesa e cruzando os braços em um gesto quase infantil. — Qual a pertinência disso para a história?
Charles parecia estar se divertindo pela primeira vez em vários dias.
— Quem decide a pertinência ou não sou eu. Além disso, se você reage assim só com isso, imagino como será adiante...
— O que!?
— Volte a escrever, seu ingrato.
—---
O dia começava a amanhecer. Allen estava deitado de lado na cama, de costas para Vincent e apoiando a cabeça sobre um de seus braços. Vincent acariciava seu cabelo loiro enquanto observava, no escuro iluminado apenas por uma pequena vela, o contorno do pescoço e dos ombros despidos do garoto. Seus dedos escorregavam devagar, de cima a baixo pelos fios, enquanto ele apreciava a sensação com satisfação estampada no rosto.
— Eu gosto do seu cabelo. — Disse, por fim, com uma voz jovial.
Allen respondeu com um resmungo constrangido, que podia ser algo como um “obrigado”, mas era difícil de saber.
— Logo você precisa ir, seu turno começa cedo. — Continuou ele, parecendo um pouco aborrecido.
— ...Sir Vincent? — Allen falou, depois de mais algum tempo em silêncio.
— Vince, Allen. Eu já te disse. Nós estamos nus na minha cama, não tem motivo para esse tratamento.
— ...Ok. Vince. — Allen se virou, para encará-lo no escuro. — Você costuma fazer isso com frequência?
— Isso o que?
— Isso... – Ele gesticulou apontando para si mesmo — Trazer homens para seu quarto.
— Ah. — Vincent continuava com uma de suas mãos sobre a cabeça do outro, e com seu outro braço por baixo dela, mas interrompeu o movimento de acariciar o cabelo de Allen. — Bem, confesso que já fiz isso algumas vezes. Mas não muitas. Bem menos do que você deve imaginar. É difícil achar alguém disposto, e também é arriscado procurar sem discrição por pessoas interessadas. — Ele levantou o queixo, brevemente pensativo, e acrescentou: — Eu também tenho meus critérios de seleção, não é como se eu estivesse satisfeito com qualquer um.
Allen assentiu, entendendo o que ele dizia sem precisar de mais detalhes, e um pouco constrangido com a última frase. Satisfeito, Vincent voltou a seu agradável exercício de acariciar o outro de forma lenta e sugestiva.
— E garotas? — Perguntou ele, novamente.
— Não, de jeito nenhum. Não tenho interesse. — Vincent respondeu, se ajeitando no travesseiro e soltando um bocejo. — E você? Com garotas.
— Só uma vez. — Falou Allen, em voz baixa. — Ela era bonita e estava interessada. Eu achei que deveria tentar. Mas a coisa toda foi bastante...
O resto da frase desapareceu em seus lábios. Ele parecia estar tentando encontrar a palavra correta.
— O que?
— ...Tediosa.
— ...Ah.
Vincent deixou sua mão escorregar para baixo do cobertor, e tocou o peito de Allen com a ponta dos dedos.
— E comigo? Foi tedioso?
Allen corou, mas Vincent não podia ver seu rosto, já ele estava virado de costas para o jovem nobre.
— ...Não. — Vincent ouviu a resposta abafada, e deixou escapar uma risada baixa.
Os dois permaneceram em silêncio por mais alguns instantes, ouvindo a respiração um do outro e os primeiros sons que acompanhavam o início da manhã. A luz do dia começou aos poucos a invadir o quarto.
— Vince? — Chamou Allen, pela terceira vez. Havia algum receio em sua voz. — Você está apaixonado pelo filho do marquês?
Ao tomar coragem para fazer tal pergunta, Allen esperava que Vincent reagisse de forma negativa ou se enfurecesse. Mas ele apenas sentiu a mão que o acariciava tremer um pouco.
— Lis me entregou, não é? — Foi a resposta que ele recebeu, coberta por um tom resignado.
— Desculpe. — Allen conseguiu dizer, constrangido.
Vincent deixou escapar um longo suspiro.
— O verbo está no tempo errado. Não é “está”. Eu sempre estive. Desde que me lembro. – Vincent esfregou seus olhos, aparentando cansaço. Allen não sabia se era por conta da noite em claro ou do tópico delicado. — Mas eu sei que não tenho nenhuma chance. Ao contrário da Elise, que parece querer continuar se agarrando a um amor não correspondido, eu não faço questão de sofrer para sempre. Quero conhecer outras pessoas, tentar encontrar alguém que eu goste, e seguir com a minha vida.
Allen se sentiu grato por ter recebido uma resposta honesta para aquela pergunta bastante invasiva, mas não conseguiu encontrar nenhuma palavra que parecesse adequada para responder, e por isso permaneceu quieto refletindo sobre a situação.
— Ah. — Vincent interrompeu seus pensamentos. — Não pense que eu estou te usando para tentar esquecer dele ou algo do tipo. Eu realmente me interessei por você. — Sua voz flutuou para um tom mais baixo e melodioso, apenas um murmúrio quase inaudível próximo da orelha de Allen — Principalmente as sardas.
O garoto tremeu, reação que pareceu agradar a Vincent. Ele abriu um largo sorriso, afastou sua mão de Allen e falou em um tom agora mais alto e descontraído:
— Agora vamos, levante-se, você não quer se atrasar. O capitão da guarda é um homem desagradável e tem um bafo terrível. Você não vai querer ele gritando na sua cara.
Resignado, Allen sentou-se na cama e suspirou. Ao levantar-se, sentiu que estava se afundando cada vez mais em novas sensações que rapidamente sairiam de seu controle. Seu estômago se contorceu em movimentos estranhos, mas ele ainda assim apanhou suas roupas que estavam atiradas no chão, e começou a se arrumar para sair.
Em pouco tempo estava pronto, lavando o rosto na bacia de água ao lado da cama, e, em seguida, se despedindo de Vincent com o rosto ainda ruborizado, sem conseguir olhar diretamente para ele, pois o jovem nobre ainda permanecia nu na cama e acompanhava os movimentos dele com olhos interessados. Por fim, se retirou.
Vincent rolou na cama, se espreguiçando, sua expressão um pouco aborrecida, como uma criança que acabou de perder um brinquedo interessante. Ele olhou para os lados, como quem procura algo, até encontrar uma listra vermelho alaranjada flutuando sobre a cabeceira da cama. Ainda deitado, com uma expressão entediada, cutucou um aparente espaço vazio acima da listra.
No lugar “vazio” surgiu o corpo verde de seu Kekleon, que não parecia feliz por ter sido acordado. Ele abriu um enorme bocejo, deixando sua língua comprida pender para fora da boca de um jeito idiota. Vincent riu, agarrou o companheiro com as duas mãos e o puxou para um abraço. Seu Kekleon se espreguiçou com uma expressão mau humorada.
— Zig-zag, eu te amo tanto! — Vincent ria enquanto o abraçava sobre seu peito.
Zig-zag não parecia compartilhar do sentimento, encarando seu treinador de forma ressentida.
Vincent o largou em cima da cama, levantou-se, vestiu uma calça e foi em direção à janela. Seu Marshtomp estava dormindo no chão abaixo da janela, com a barriga para cima, uma longa faixa de saliva escorrendo pelo canto da boca que já formava um princípio de uma poça no chão. Uma faixa de luz entrava por entre as cortinas, iluminando a barriga arredondada dele, que subia e descia ruidosamente enquanto ele roncava satisfeito. Vincent coçou a barriga do companheiro, riu mais um pouco e se debruçou no parapeito, abrindo as cortinas, e pensando “se ele continuar dormindo desse jeito, vai inundar o andar de baixo”. Sua janela dava para o pátio de treinamento do castelo, e ele pôde ver Allen correr em direção aos outros jovens guardas que, bocejando, se aprumavam para o início de mais um dia árduo.
Ele permaneceu ali por um tempo, com o peito ainda despido, um sorriso suave nos lábios e uma expressão de quem não possui nenhuma preocupação na vida. Por fim, pareceu dar-se por satisfeito, e foi lavar o rosto na bacia de pedra que se encontrava ao lado de sua cama. Ele esfregou diligentemente o rosto com uma toalha limpa, ajeitou seu cabelo castanho em um rabo de cavalo baixo, e começou a se vestir enquanto cutucava seu Marshtomp com o pé para acordá-lo.
— Vai Bolha, já tá na hora.
Bolha não parecia interessado em acordar. Ele se revirou, colocando a barriga para baixo, e soltou um enorme bocejo.
— Todo dia vocês me decepcionam. — Disse Vincent sorrindo.
Ele se olhou no espelho, avaliando sua própria aparência. Ele vestia uma camisa branca de algodão sobreposta por um colete de couro marrom escuro, e uma calça de montaria, junto com suas botas justas que subiam até pouco antes dos joelhos. Sua vestimenta era simples, mas de boa qualidade. Seu cabelo estava bem arrumado, e seu rosto não entregava a noite em claro, o que sugeria que ele já estava acostumado com esse tipo de coisa. Vincent não se achava particularmente bonito, mas gostava de sua figura, considerando seu aspecto como o de um jovem bem apessoado, atlético e saudável. Satisfeito, acenou positivamente com seu rosto antes de se afastar do espelho. Então, passou pela cama, agarrou Zig-Zag e o jogou sobre seus ombros. Assobiando para Bolha, usou o último recurso efetivo para fazer o companheiro acordar:
— Bolha, café da manhã, vamos logo.
Finalmente o pesado Marshtomp se levantou com enorme preguiça, esfregando os olhos e lambendo o resto de saliva que havia se concentrado nas laterais de sua boca. Vincent saiu do quarto, cantarolando distraidamente.
Ainda era cedo, mas o castelo já havia acordado. Havia criadas andando pelos corredores, havia o som de espadas de madeira se chocando no pátio de treinamento, havia o som de pássaros voando de um lado para o outro carregando mensagens para dentro e fora do castelo. Vincent caminhou pelos corredores sem pressa, passou pela cozinha e apanhou vários pães recém assados, e continuou andando e atirando pedaços da comida para Bolha, até chegar nas escadas em espiral que subiam para a torre da biblioteca. Suspirando, começou a subi-las. Ele sempre se questionava sobre a escolha de colocar os livros do castelo em um lugar tão alto. Bolha parecia compartilhar da preguiça de subir vários lances de escada, se arrastando com uma aparência miserável.
A torre da biblioteca era dividida em diversas pequenas salas, com livros e arquivos organizados por temas diferentes. Havia, também, um salão principal oval, com janelas de todos os lados, algumas mesas e cadeiras, além de uma estante com estoque de pergaminho, tinta e penas. O local era chamado de scriptorium*.
Lá dentro, para a surpresa de Vincent, já se encontravam duas pessoas. Christophe estava sentado em uma mesa perto da janela, com seu caderno de desenhos aberto diante de si, parecendo um pouco aflito. Arken estava sentado perto de seus pés, numa postura austera, como um guarda-costas da nobreza; por sua vez, Emilie se encontrava, como sempre, aninhada no capuz da capa sobre os ombros do menino, segurando mechas do cabelo comprido com suas pequenas mãos; Melissa estava sentada tomando sol distraidamente perto de uma das janelas. Ao seu lado, Abigail lia um livro com as sobrancelhas franzidas em uma expressão de concentração, com Archimedes empoleirado em cima de sua cabeça. A boca da menina se dobrava em um leve bico, como se ela estivesse aborrecida com algo. Charles parecia entediado, observando as duas crianças em sua diligente tarefa de babá.
Ao ver Vincent entrar no scriptorium, Chris o cumprimentou educadamente, mas Abigail não levantou os olhos de seu livro. Vincent o cumprimentou de volta com um sorriso, e se deslocou para uma porta que levava à sala onde os mapas da região eram armazenados. Pouco tempo depois, voltou com os braços cheios de rolos de pergaminho e os atirou na maior mesa da sala. Abigail continuava o ignorando, mas Chris observou com curiosidade enquanto Vincent abria um dos mapas diante de si, concentrado.
Abigail virou uma página do livro em sua frente, quase sem fazer nenhum som. Chris voltou sua atenção a ela, examinando a menina com preocupação. Fazia dois dias que Norbert retornara de sua expedição, e desde então Abigail se encontrava em um estado permanente de humor taciturno. Chris não havia conseguido trocar muitas palavras com ela, mas permaneceu a observando de perto e fazendo companhia durante todas as longas horas que ela passou lendo livros na biblioteca.
O menino tinha suas próprias preocupações, também, além de zelar pelo estado de espírito de Abby. Afinal, desde o dia em que Leon apareceu de madrugada nos portões do castelo, Chris não o havia mais visto. O desaparecimento do amigo o afligia diariamente, mas ele não fazia ideia de onde poderia procura-lo, e não queria deixar Abigail sozinha para se aventurar em ruelas desconhecidas do vilarejo.
A porta do scriptorium se abriu novamente, e Frederick entrou com passos largos e decididos, carregando em seus braços uma pilha de pergaminhos. Ele os depositou na mesa diante de Vincent, cumprimentando-o e se sentando em uma das cadeiras.
— Eu reuni todos os relatórios das últimas semanas. — Disse, sem se preocupar com conversas triviais para começar o dia.
Vincent olhou para Frederick e fez um gesto inquisidor em direção a Christophe e Abigail, como se questionasse se a conversa poderia progredir na presença das duas crianças.
— Estamos mais seguros aqui com eles do que em outros aposentos isolados, onde pareceríamos mais suspeitos e correríamos o risco de sermos vigiados. — Disse Frederick de forma decidida.
Vincent acenou a cabeça concordando, e olhou para Chris disfarçando um riso que se formava no canto da boca. Frederick não percebeu o gesto, mas Chris, que estava sempre atento ao seus entornos, quase conseguiu ouvir o que Vincent pensava a partir de sua expressão: “seu irmão anda muito neurótico com teorias da conspiração, não acha?”. Ele retribuiu o olhar, e rapidamente levantou o caderno que estava em sua frente para esconder uma risada.
— Ótimo. Veja isso aqui. — Vince apontou algo no mapa que estava diante dele, e os dois começaram a conversar sussurrando. — Eu mapeei as regiões onde nós encontramos os buracos nos relatórios da inteligência. Se você reparar, elas seguem uma linha mais ou menos uniforme a partir oeste, começando na região do Chateau Dreux, em direção ao território do marquês. A flutuação dos relatórios, cronologicamente, é condizente com uma progressão uniforme no território, se aproximando cada vez mais daqui.
Frederick assentiu, franzindo as sobrancelhas numa expressão bastante séria:
— Mas esses territórios são áreas desabitadas.
Vincent balançou a cabeça, parecendo frustrado.
— Também são áreas sem estradas. Por isso os relatórios da região já eram escassos e ninguém percebeu a diferença. — Ele apontou para três pontos no mapa. — Essas regiões são montanhosas, o que dificultaria muito o deslocamento de grupos grandes. Seria possível mover pequenos grupos furtivamente, mas não tropas maiores. Acho difícil um ataque em larga escala. Alguma chance desses furos serem apenas por conta do deslocamento de recursos decorrente do festival da colheita?
— Ainda assim, tem algo de estranho. — Disse Frederick. — A progressão uniforme das regiões sem relatórios é suspeita.
Os dois olharam um para o outro em concordância, e se voltaram para analisar os documentos que Frederick havia trazido. Assim permaneceram por algum tempo, concentrados em suas leituras. Por fim, Frederick interrompeu o silêncio.
— Há alguns relatórios indicando tremores nas regiões habitadas mais próximas dos locais suspeitos.
— Terremotos?
— Tremores pequenos, não parecem ter causado danos. Veja. — Ele apontou para um dos documentos. — Aqui e aqui também. São vilas nas regiões montanhosas que você encontrou.
— Havia tremores nessas regiões antes?
— Creio que não.
— Os relatórios dos tremores são compatíveis com a cronologia dos furos na inteligência?
Os dois rapidamente compararam as datas anotadas por Frederick em um pedaço de pergaminho, com as datas dos documentos encontrados. Reconhecendo um padrão, trocaram olhares ainda mais preocupados.
— Você... Acha que deveríamos reportar isso para seu pai? — Vincent interrogou, num tom baixo mas alarmado.
Frederick pensou por alguns instantes antes de responder.
— ...Não. Nós não temos provas de nada. Podem ser só ocorrências naturais. Se nós o incomodarmos com hipóteses infundadas, ele ficará irritado.
— Ainda assim...
Mas Frederick balançou a cabeça de um lado para o outro, fazendo Vincent se calar.
— Creio que seria importante primeiro investigar mais a fundo.
— Mas como nós vamos fazer isso? Não é como se você tivesse recursos para enviar batedores às regiões e investigar. Seu pai perceberia.
— Sim. Precisamos fazer algo que esteja a um alcance mais próximo.
— O que, por exemplo?
Frederick fechou o semblante, mostrando um rosto maduro e decidido, que poderia parecer austero demais para seus dezesseis anos. Vincent sabia que o amigo havia desenvolvido essa expressão para mostrar às pessoas mais velhas a sua volta que ele era um jovem competente e digno de consideração. No entanto, ele raramente a usava perto de Vincent, o que indicava que, nesse momento, Frederick estava inconscientemente tentando apontar a gravidade da questão e sua intenção de investigar o problema de forma diligente.
— Investigando o Visconde de Dreux.
— ...Investigar? Como assim?
Frederick baixou mais ainda o tom de voz:
— Eu quero dizer... Vigiar. Ele está aqui no castelo, não é mesmo?
— Você quer seguir ele escondido?
— Alguma ideia melhor?
— Não sei? Isso parece muito complicado.
Na realidade, Vince havia pensado “isso parece muito insano”, mas decidiu moderar as palavras.
— Nós podemos usar seu Kekleon, não?
— Zig-zag? Sem chances, ele é um idiota folgado. — Zig-zag, ainda em seu ombro, fez uma careta desrespeitosa, mas não ficou claro se ela se dirigia à Vincent ou Frederick, ou aos dois. — Além disso... Estamos falando do Visconde de Dreux. Ele tem aqueles fantasmas horríveis. Espionar é a especialidade dele. Como nós vamos enganar um mestre no assunto?
— Existe outro jeito de conseguir informações no castelo.
A voz surpreendeu os dois jovens, que estavam discutindo em sussurros, com os rostos muito perto um do outro. Christophe, do outro lado da sala, estava falando com eles. Frederick levantou o rosto e olhou para o irmão com uma expressão desconfortável, como um adulto que se irrita pelas crianças da casa estarem prestando atenção em sua conversa. Vincent o respondeu intrigado:
— Que outro jeito?
Christophe estava sorrindo, com uma expressão radiante.
— É só perguntar para as criadas.
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