Festa na Cobertura
1 Capítulo 1
Alto, sim ali era muito alto.
Frank podia sentir o vento fustigar-lhe os cabelos, deslizando-os por seu rosto cobrindo os olhos esverdeados e as lágrimas que ainda teimavam em cair. Porque aquilo tudo tinha de acontecer com ele? Uma criança ainda, e já tinha sofrido tanto na vida sem nada ter feito para merecer isso. Pássaros passaram por ele fazendo-o desequilibrar e com o susto cair no chão, ainda para dentro da cobertura, infelizmente. Sentou recostando sua cabeça ao pequeno degrau que ali tinha antes da grande queda livre que o esperava.Por que a vida tinha de ser tão difícil, tão complicada? Todos a sua volta pareciam tão felizes, com suas roupas de marca e sapatos caros, conversavam e riam alto enquanto bebiam taças de champagne caro, tudo tão fútil para Frank. A mãe ainda com cara de nojo andou bem alinhada em direção a ele, trazia o nariz empinado e em sua face podia ser visto repugnância de longe.-não dá para você tentar ser normal uma vez na vida? –perguntou ela chegando perto dele.-ser normal? –levantou-se. –se ser normal é ser igual a vocês, NÃO! Não dá.-qual é o seu problema garoto?-vocês são o meu problema. –disse Frank dando de costas observando a rua movimentada lá em baixo.-mas, o que você quer mais? –ela o fez virar e notou que o filho tinha lágrimas nos olhos. –nós damos tudo o que você pede, tudo o que precisa.-menos amor, carinho. –ele limpou as lágrimas. –tudo o que eu mais precisava. –e tentou sair de perto da mãe sentindo-a segurar-lhe o pulso.-vai correr para o seu namoradinho imundo não é? –perguntou ela com certo nojo identificado na voz. –vai lá dar o rabi...Mas Frank a interrompeu com um tapa na cara, sabia que havia feito errado, mas a homofobia dos pais sempre o irritaram e agora ainda mais, afinal eles não sabia que Gerard estava morto. Morto por causa de uma séria doença a qual ele também estava infectado, AIDS. A mãe ainda incrédula deixou a taça escorregar por entre os dedos, a marca da mão de Frank ainda vermelha e ardida em sua bochecha direita, segurando discretamente Frank pela orelha, sussurrou em seu ouvido: -pode deixar que quando a festa acabar você vai ter o seu merecido castigo. –e saiu limpando as mãos que havia sujado ao encostar-se ao filho.Este sentiu novamente o mundo desabar, estava realmente muito farto da família e sua grande luxúria achando que dinheiro poderia comprar o amor dele. Queria só poder abraçar Gerard novamente, senti-lo perto de si o confortando e acalmando, queria poder ouvi-lo novamente sussurrar ao pé de seu ouvido que tudo ficaria bem, que um dia os dois iriam fugir e ter uma família, que eles ficariam juntos para toda a eternidade. Mas, como? Gerard agora estava morto, enterrado, em meio a terra e insetos, é claro que ele havia mentido para o pequeno e inocente Frank, eles nunca iriam ficar juntos, afinal agora ele estava morto e Frank ainda era obrigado a viver naquele mundo frio. Queria tanto poder se juntar a Gerard, sumir para toda a eternidade e junto dele ficar. Mas, sabia que isso seria impossível a não ser que...Olhou novamente para a movimentação dos carros lá em baixo, a trinta e dois andares abaixo pessoas andavam na calçada distraidamente sozinha ou acompanhada, ninguém ali poderia saber que algo extremamente ruim estaria para acontecer em breves minutos. Frank subiu no pequeno degrau, novamente o vento bagunçou-lhe os cabelos jogando-os contra a face agora encharcada de lágrimas, o peito doía e imagens de momentos com Gerard vinham a sua cabeça fazendo-o odiar o dia em que Gerard não apareceu para buscá-lo, morreu antes de entrar no carro. Olhou para trás, ninguém naquela festa parecia notar que ele estava pronto para cometer um suicídio ou coisa parecida, todos estavam entretidos no mundo superficial que o dinheiro comprara. Uma pontada no peito seguida de outra na cabeça, algo estava dando errado, ele nem tinha posto um de seus pés para fora do degrau em direção ao nada e já sentia o corpo mole desfalecendo. No final do horizonte onde o Sol se punha para o descanso final Frank pode ver o rosto de Gerard, sentia seu perfume se espalhar aos poucos com o vento e ouvi-o dizer:-eu não falei que ficaríamos juntos? –a voz de Gerard que vinha de dentro da cabeça de Frank perguntou. –pois bem, venha, eu vim te buscar, não tenha medo, eu lhe seguro.Frank sentiu o coração apertar mais uma vez, a respiração aos poucos começava a falhar e a visão se perdia na face de Gerard no final do horizonte, esticando uma das mãos sentiu o pé alcançar o nada, sem chão o corpo caiu lentamente, sentindo cada vez mais dores, as quais de repente param e foram substituídas pela segurança ao abraçar Gerard que se encontrava lá em baixo na calçada, segurando a mão do mais velho Frank seguiu-o para o fim de tudo, e o início de uma nova união que agora nada poderia separar ou atingir, agora era só eles.~**~-Senhora Iero? –uma voz grossa perguntou ao que atenderam ao telefone.-ela mesma. –a voz de Linda soava fraca e desumana, triste e desamparada.-temos o resultado dos exames do legista, sobre o corpo de seu filho.-como se todos não soubessem que ele se jogou da cobertura, que se suicidou.
-na realidade Senhora, o que matou seu filho não foi à queda.-como pode? –ela voltou a chorar ao relembrar as imagens desfiguradas do filho todo ensangüentado na calçada a frente do prédio. -foi descoberto que seu filho tinha AIDS em um estágio preocupante, e de acordo com os exames ele morreu da doença antes do impacto com o chão.Linda deixou cair o telefone de suas mãos, a cabeça rodopiava e o estômago embrulhou, seguiu para o quarto trancado do filho, pegando a chave e abrindo entrou vendo o quão organizado Frank fora, sentou a cama do rapaz colocando as mãos na barriga, e prometeu a si mesma que não faria à mesma coisa que fez a Frank ao bebê que estava por vir.
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