Fernando
1 Capítulo Único
As luzes do bar fechavam ao nosso redor. Eu só via minha mãos abraçando o copo de requeijão com os últimos goles da quarta rodada que pedimos. Só sentia em minhas palmas frio e em meu rosto calor vindo de seu sorriso ensolarado que me fitava de cabeça baixa. O relógio ja batia tarde e as mesas se silenciavam enquanto o bar se esvaziava.
A saudade mantinha meu olhar abaixado e medroso. Procurava a coragem no fundo de meu copo para procurar seu rosto, mas a certeza de que você não estaria lá me dizia para manter sua face apenas em lembrança.
Saímos daquele último litro direto para a estrada no seu Corsa em mal estado, porém nunca abatido. No som nossas músicas de viagem tocavam alto, mas eu só ouvia melodias lentas baixas que vibravam em meu estômago afogado em álcool e nostalgia.
Sua presença me esquentava por dentro mas minhas mãos continuavam frias. Você continuava frio, sua pele tocando meu joelho não era a mesma. A nostalgia se revirava dentro de mim, girava e girava me deixando enjoada. Ela virava falta e começava a corroer, ela virava solidão e buracos já estavam abertos. Tentei alcançar sua mão mas ela ja estava há muito tempo debaixo da terra. Puxei seu braço da direção e o abracei segurando um mar nos olhos. Sinto seu olhar sair do para-brisa e pousar em minha cabeça na tentativa de acalentá-la. Olhei para cima e não conseguia nem mais lembrar seu rosto.
Abri os olhos assustada com a buzina alta que ficava para trás. Meu caminho se abria com a luz branca e ofuscante dos faróis. A mata crescia ao lado da estrada seguindo seu curso escuro. Virei rápido invadindo a grama alta e segui com o rumo mais incerto possível.
Desliguei o carro e saí acendendo meu cigarro. O capô me convidava para ver as estrelas contigo, aceitei o convite e descansei meu peso no para-brisa
—Você sabe que odeio esse hábito...
—Desculpa.
as curvas que a fumaça toma em minha frente
como meu paladar é dominado pelo sabor amargo do tabaco
veneno esguio
veneno entra e sai veneno
mas sempre estava lá
junto com minha amiga cigarreira
atrás da fumaça
você
tragar com a esperança daquelas curvas em pleno ar suspenderem minha saudade
mas ela só pesa
mas abraça
trago veneno, sopro veneno
luto tolo e egoísta que me possui
choraria pois se foi
mas choro pois não está comigo
entretanto
inspiro, expiro
sorrio pois já esteve
—Mirtsu
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