Fenda Mesozóica
2 [2/4] – Capítulo II
Limpando a roupa, que se encontrava encharcada e cheia de folhas, e tentando se manter de pé Isabela encarou maravilhada tudo ao seu redor. O dinossauro a sua frente, um provável Broquiossauro, se erguia imponente por entre as árvores, com sua cabeça pequena mordiscando um chumaço de folhas verdes.
Outros gigantes pré-históricos voavam errantes no céu anil e o som agudo que percorria toda a floresta se reverberava, num chamado único.
Isabela ainda estava estática observando tudo isso quando um farfalhar próximo a fez sobressaltar-se, voltando-se, assustada, para arbustos próximos. De lá saiu um garoto, o mesmo do dia anterior, e ela não soube se ficava aliviada ou não.
— O que diabos você está fazendo aqui?
Ele parecia surpreso e ao mesmo tempo cético. Os olhos tom de mel olhavam a garota de cima a baixo, ora deslizando por seu corpo, ora pelo fato dela estar ali, naquele lugar, suja e molhada.
— O que diabos está acontecendo aqui? – ela lhe devolveu a pergunta, quase alterada
— Me diga que aquilo ali na minha frente não é um dinossauro, pelo amor de Deus.
O rapaz respirou fundo com a confirmação de que ela estava realmente ali. Era difícil prever que alguém acharia a entrada para aquele lugar, ainda mais uma garota como ela, tão urbana.
Mas lá estava e o mesmo sequer pensou nessa possibilidade depois que a viu ir embora no dia anterior.
— Por favor, fique calma – ele fez movimentos lentos com as mãos – aqui não é lugar para essa conversa, vamos voltar.
Desespero cruzou os olhos esverdeados.
— Voltar? – ela riu nervosa – Não temos como voltar. A entrada foi bloqueada por rochas.
As palavras da garota fizeram o rapaz travar. Logo ambos estavam visivelmente com medo nos olhos e nenhum plano de fuga, e de uma coisa Isabela tinha certeza: dinossauros e humanos em um único lugar era algo que não dava certo.
O Broquiossauro que jazia próximo ameaçou se movimentar e as outras patas, antes escondidas, surgiram aumentando ainda mais o medo nos olhos da garota. Ela fitou o jovem ao seu lado numa súplica silenciosa e ele prontamente a respondeu, agarrando seu braço com uma só mão e a puxando para perto da caverna.
Escondidos parcialmente pela escuridão da gruta eles suspiraram juntos e se entreolharam em seguida, com Isabela inquisidora e ele apreensivo.
— Pode começar a me explicar isso aqui? – os braços dela englobaram a parte exterior da caverna.
O dono dos olhos cor de mel encarou Isabela e em seguida a paisagem verde fora dali, respirando fundo depois da quinta revezada de olhar.
— Nós estamos na Era mesozoica.
Isabela riu com desdém.
— Sério? Não me diga! Aquele dinossauro de dezoito metros de altura deixou isso bem explícito.
O jovem entortou a boca pensando o quão difícil seria manter um diálogo com ela. Antes que o mesmo pudesse falar novamente Isabela soltou um guincho e cobriu o rosto com as mãos, agachando-se.
— Isso daqui parece a merda de um daqueles filmes de Jurassic Park.
Ele a olhou cético e com um sorriso divertido, mas a garota sequer notou.
— E eu odeio eles!
— Nós precisamos ter calma, tudo bem? – o rapaz se agachou na frente dela – O que aconteceu na entrada da caverna?
Os olhos se encontraram quando Isabela levantou a cabeça e tomando um longo fôlego, misturado com alguma coragem, ela focou nos do garoto.
— Começou a chover do nada, uma chuva muito forte, as rochas começaram a vacilar e caíram. Água inundou a caverna e me arrastou até aqui.
Ele assentiu, atento nas palavras da garota. Isso explicava o aspecto molhado que ela trazia nas roupas, que, ainda que ele não quisesse reparar, saltava e muito o corpo da mesma, já bem explícito pelo short jeans.
— O que você estava fazendo na caverna?
Isabela franziu os lábios antes de responder.
— Eu estava andando e acabei indo pegar abrigo da chuva.
— Ora se não é a garota me-perco-todos-os-dias-na-minha-floresta?
— Desde quando você é o dono dessa floresta?
Eles se encararam raivosos, prontos para iniciarem uma briga, mas um som alto e agudo desviou a atenção dos mesmos para fora da caverna, mais especificamente para o gigante espinheiro que atravessava as árvores próximas.
— Anquilossauro... – a voz do garoto soou baixa, mas Isabela pôde entendê-lo perfeitamente.
Os olhos da mesma caíram cansados sobre a criatura esplêndida ao longe e ela suspirou.
— Estamos perdidos...
— Ei...
— Estou presa num mundo pré-histórico – choramingou – com um maluco por dinossauros.
O jovem desistiu de acalmá-la e caiu sentado ao seu lado, fazendo a água que ainda cobria o chão da caverna respingar em Isabela.
— Tudo bem, temos que pensar positivo – disse quase que para si mesmo – a entrada está bloqueada, ok. Não somos os únicos com acesso a esse lugar. Tem outras entradas, só precisamos procurar.
— Não – Isabela se desequilibrou e caiu sentada ao lado dele – não, não, não. Você não está sugerindo sairmos daqui e irmos lá pra dentro – apontou para o dinossauro gigante do lado de fora – está?
Os olhos dela imploravam para ele dizer o contrário, mas com um sorriso de desculpas ele assentiu, roubando um guinchado de indignação.
— Nós vamos morrer, é isso! – exclamou desesperada.
Desta vez o garoto riu e Isabela o olhou pronta para reclamar, mas ao vê-lo tão leve no meio daquilo tudo, desistiu, abrindo um sorriso para a risada dele.
Ele estava parcialmente diferente do dia anterior. Vestia uma roupa leve, assim como a dela, numa mistura de bermuda e blusa sem manga, que mostrava, com maestria, seus poucos músculos, e a garota suspeitava que fossem decorrentes do uso do machado.
Os cabelos negros, ela notou, eram encaracolados e combinavam perfeitamente com o tom dos olhos dele, que a fitavam atentamente. Isabela se sobressaltou ao perceber que ele a encarava e cruzou os braços tentando manter sua pose.
Falhando miseravelmente.
— Não precisa se preocupar – ele disse lentamente, como se Isabela fosse uma fera e pudesse atacá-lo a qualquer momento – eu conheço bem esse lugar, sei onde podemos ir para tentarmos encontrar outras saídas.
— Você conhece outras saídas?
— Não propriamente – se adiantou – a única que usei até hoje foi essa, mas sei que existem outras próximas, só precisamos saber onde achar.
Isabela assentiu aturdida.
Num só movimento o garoto levantou, limpando a roupa escura do lodo do chão, e em seguida estendeu a mão para a jovem. Isabela encarou a mão do mesmo e levantou sem tocá-lo, o imitando na limpeza.
Quando o jovem iniciou uma saída meio desajeitada da caverna, em direção a floresta logo a frente, as palavras do mesmo se processaram na cabeça de Isabela.
— Você já veio aqui antes?!
Um sorriso divertido surgiu nos lábios do garoto que voltou-se para ela na entrada da floresta.
— Se quiser saber, vai ter que me seguir. Ou pode ficar aí sozinha – ele atuou um passo a frente – se quiser morrer de fome, sede, ou atacada por um dinossauro.
Ela ergueu as mãos em rendição.
— Tá certo, você venceu.
Isabela correu da entrada até ele, fazendo um sorriso ainda maior e mais satisfeito surgir no rosto do garoto.
— Vou ir com você por enquanto – disse relutante – e é melhor saber para onde estamos indo.
O jovem riu e piscou para a mesma, que se pegou quase retribuindo ao gesto.
— Pode deixar, e aliás, me chamo Thiago.
Ela o fitou de lado.
— Sou Isabela.
— Muito prazer.
— Deixe as formalidades para quando sairmos – eles adentraram entre as árvores – se sairmos – sussurrou o final.
Thiago adiantou-se e Isabela correu para alcança-lo.
— E pode começar a explicar direitinho a história de “essa foi a única entrada que usei até hoje”, “sei que existem outras” e “conheço isso muito melhor do que você porque sou bonzão em tudo”.
— Ei, eu não falei isso.
Ela deu de ombros.
— Interpretação.
O garoto sorriu com a resposta da mesma saltando sobre uma grossa raiz protuberante no solo repleto de folhas secas. Ele a esperou ficar ao seu lado para limpar a garganta e começar sua pequena explicação.
— Esse lugar é, para nós, uma falha no espaço tempo. A caverna que passamos é uma fenda que nos conecta a isso tudo e existem muitas outras dessas por todo o planeta. Nós não sabemos a origem delas, nem como ou por que surgiram, mas a única certeza que temos é que esse tempo e esses animais são tão reais quanto você possa imaginar.
Com as palavras de Thiago Isabela revirou os olhos pela paisagem ao seu redor e notou, finalmente, o quão altas eram as árvores. Muito maiores do que todas que ela já havia visto.
— Nós só tomamos conta desse lugar e tentamos manter as pessoas longe, como você.
— Vou ignorar a última parte por enquanto. – Isabela desviou de um galho baixo – Você é como se fosse um guardião dessa fenda então, certo?
— Isso.
— E porque você fala “nós”? Existem outros? Quantos?
— Uma pergunta por vez – ele riu – minha família é responsável por guardar essas passagens. Não é uma obrigação de verdade, nós apenas nos dispusemos a isso.
— Altruísmo – resmungou a mesma estalando a língua.
— Exatamente isso. – o garoto a rebateu –
Houve uma época em que muitas pessoas desapareciam por causa dessa facilidade de transporte entre épocas. Não é como se essas pessoas vissem os dinossauros de primeira – seu tom se tornou mais carregado – elas entravam maravilhadas com a flora desse lugar.
Os olhos esverdeados captaram uma expressão de pesar passar pelo rosto do garoto, que observava, numa contemplação silenciosa, as árvores e flores que surgiam no solo fértil logo a frente.
— E encantadas elas eram surpreendidas por eles, não é?
Thiago a fitou com surpresa por ela completar sua fala, mas assentiu com um sorriso triste.
— Sim, e foi assim por muitos anos, até minha família decidir dar um basta nisso.
— Você é parente de Leôncio?
Ele a ficou confuso com a pergunta. Como ela sabia de seu parentesco com o velho?
— Sim – murmurou em resposta – ele é meu avô.
Isabela balançou a cabeça confirmando suas suspeitas. A casa imponente que havia encontrado era a casa dele, vizinha a de sua avó. Mas algo ainda a inquietava em relação aquilo tudo.
Será que sua avó sabia desse lugar?
Para ela havia sido difícil acreditar que eram dinossauros de verdade na sua frente, em carne, osso e dentes afiados. Será que sua avó sabia da entrada e da família do garoto?
Que loucura era tudo aquilo!
Desistindo de tentar decifrar as expressões engraçadas que Isabela fazia enquanto pensava sobre isso Thiago puxou uma flor exótica que cruzou o seu caminho, de um tom violeta vivo, e entregou-a nas mãos da jovem que num passe de mágica despertou de seus devaneios, lançando um olhar confuso para o mesmo.
— Combina com você.
Ela revirou os olhos.
— Que clichê.
— Venenosa – completou com um sorriso divertido.
Isabela lançou desajeitada a flor para longe e o garoto desatou a rir. Se recompondo ela o deu um soco no ombro, tão fraco que só aumentou a risada do mesmo. Sem conseguir impedir ela sorriu para a cena e fez uma careta.
— Você parece conhecer bem a flora daqui – disse tentando mudar de assunto.
Thiago concordou, se recuperando da risada.
— Sim, eu e meu pai catalogamos muitas das plantas daqui. Aquela vermelha ali na frente, por exemplo, serve para tirar dor de cabeça, acredita?
Isabela observou surpresa a singela flor que balançava tímida com o vento. Era tão pequena em comparação ao todo ao seu redor que a jovem sequer repararia nela se não fossem as palavras do garoto.
— E aquelas ali de cima – ele apontou para o alto – a branca é medicinal para ferimentos e a azul para alergias.
Os olhos esverdeados seguiram os comandos de Thiago e brilharam ao verem duas flores tão bonitas, enroscadas uma na outra, se mantendo suspensas sobre um galho fino. Era como se elas exalassem algum tipo de brilho próprio e Isabela sorriu ao constatar que elas realmente o exalavam, mas não era brilho, era pólen.
— E aquela ali? – perguntou apontando para uma amarela mais ao longe.
Thiago sorriu ao ver a animação no rosto da garota e, pomposo como era, imediatamente se pôs a detalhar as eficiências médicas que cada uma possuía. E foi assim por um bom tempo, com cada novo arbusto de flor ou fruto sendo devidamente catalogado pelo mesmo.
O pequeno discurso de Thiago sobre uma fruta parecida com amoras foi interrompido apenas quando eles se aproximaram de um riacho cristalino. Isabela sorriu maravilhada com ele, vendo na água límpida alguns poucos peixes seguindo a correnteza.
Há quanto tempo não via a natureza tão nua e crua?
Se ela pudesse realmente contar naquele momento diria que faziam muitos anos. Havia parado de visitar a avó em seus quatorze anos e se arrependia amargamente disso, ainda mais da sensação boa de caminhar com ela no verde da natureza, ouvindo os pássaros e parando, vez ou outra, nas pequenas cachoeiras que rodeavam a cidade.
Mas lá estava ela num cenário tão bonito quanto, só que em vez de sua avó tinha como companhia um garoto estranho e desconhecido, e o canto dos pássaros dava lugar a estridentes e rítmicos chamados animalescos dos dinossauros no outro lado da margem.
Isabela quis voltar para a caverna no instante em que seus olhos pousaram sobre as figuras despreocupadas do outro lado, mas o olhar de Thiago ao seu lado a manteve no mesmo lugar, transparecendo uma silenciosa segurança.
— Eles são herbívoros – explicou o garoto – e, em sua maioria, são calmos e mansos.
— Você não me convenceu no “em sua maioria”, Thiago.
Ele sorriu em resposta, sentindo-a apertar avidamente seu braço com um das mãos enquanto a outra segurava uma garrafa vazia e amassada.
— Veja só – o garoto se afastou, recebendo de Isabela um olhar de súplica para que não o fizesse.
Em passos calculados ele entrou no raso riacho. Por questão de segundos um pequeno grupo de dinossauros baixinhos se aproximou, não passavam dos joelhos do garoto e com a respiração suspensa Isabela observou o mesmo remexer em seus bolsos da bermuda.
De lá ele tirou algumas frutas já parcialmente amassadas e, chamando-os para a margem em que a jovem se encontrava, depositou as mesmas no chão. Os pequenos se aproximaram velozes e atacaram sem dó nem piedade as pobres frutas.
Thiago riu ao ver a expressão de espanto de Isabela com a cena de massacre herbívoro ao seu lado e se aproximou dela com a mão esticada. A garota o rebateu com um olhar ávido de negação, pronta para empurrar a mão convidativa dele se fosse preciso, mas num só olhar ele a desarmou.
Erguendo a sobrancelha para ela e reforçando o chamado Thiago foi surpreendido quando a garota o aceitou, descendo cautelosa da margem para o rio.
— Você é louco. Eles podem te atacar.
— Herbívoros não comem carne – ele a respondeu com um risinho – nós somos carne, então estamos fora de cogitação.
Isabela entortou a boca com a explicação vaga e voltou seu olhar para as criaturas na beira do riacho, que após terem acabado a refeição, encaravam o garoto a espera de mais.
Eles eram baixinhos demais para parecerem perigosos e quando Isabela se pegou pensando no quão bonitinhos eles eram, olhou imediatamente para o garoto ao seu lado.
Thiago revirou o bolso novamente e depositou mais frutas na mão de Isabela, que balançou a cabeça em negativa três vezes antes de quase jogar a comida na beirada. Mais que rapidamente os dinossauros se lançaram sobre as mesmas e a garota riu da falta de jeito deles.
Eles eram desengonçados como seu irmão.
O pensamento pegou Isabela de surpresa. E se eles não conseguissem sair dali? E se ficassem presos? Como ficaria sua família? Seu pai, sua mãe e seu irmão? Suas amigas?
Matheus?
Os olhos de Isabela caíram entrando em desespero sobre o garoto ao seu lado, mas todo o sentimento e nervosismo evaporou quando ela viu a expressão e o sorriso ínfimo que ele lançava aos animais. Era terno e cheio de carinho.
— Eles são Heterodontossauros – explicou Thiago – são baixinhos e bastante levados – sorriu mais abertamente – comem muita fruta e correm quase o dia todo.
Os olhos cor de mel foram na direção de Isabela e por um momento Thiago esqueceu o que ia falar. Ela o olhava atentamente, com um sorrisinho inconsciente no rosto, e as maçãs levemente avermelhadas.
— E você, obviamente, fica aqui o dia todo para observar isso, estou certa?
Ele lhe sorriu em resposta.
— Errada. Tenho uma vida fora daqui – deu de ombros – mas passo boa parte do tempo livre aqui sim.
Isabela assentiu.
— Vamos? Ainda temos um pedaço até acharmos a fenda mais próxima.
Novamente a garota concordou e se surpreendeu quando ele tomou seu braço no dele a puxando contra a correnteza e para longe dos pequenos e dos grandes na outra margem. Mas nada disse, chegando até a achar confortável o calor que seu corpo emitia.
— Não que eu não confie nos grandões ali – ele se explicou quando estavam longe o suficiente para alcançarem uma margem vazia – mas prefiro ficar longe de patas gigantes que possam me esmagar.
— Pela primeira vez concordo com você.
Ambos sorriram e saíram do riacho, Thiago com a bermuda parcialmente molhada e Isabela com o short cheio de respingos.
— Você realmente gosta disso daqui, não é?
A pergunta saiu despretensiosa, mas o garoto a fitou surpreso pela mesma.
— Sim, gosto. Venho aqui desde que era pequeno e meu pai me ensinou muito sobre os dinossauros que vivem aqui. É meu melhor hobby.
Isabela concordou com a cabeça.
— Eu nunca gostei muito de dinossauros – Thiago a olhou surpreso – mas agora talvez eu goste um pouco – murmurou baixinho.
O sorriso do garoto a fez retribui-lo automaticamente.
— Na verdade, eu tinha um cachorro. Ele não parava quieto um só minuto. Viva correndo de um lado para o outro, mordendo coisas e pessoas a seu bel prazer – ela sorriu às lembranças – até que um dia ele sumiu. Ninguém sabia disser para onde ele tinha ido e eu chorei uma noite inteira.
Isabela fez uma pausa no conto e fitou o garoto ao seu lado. Ele a olhava atento, prestando plena e total atenção em sua história, e ela sorriu consigo.
— Ele parecia um dinossauro – disse simplesmente, dando de ombros.
— E me contou isso tudo por que...
— Porque eu quis, oras.
Thiago sorriu.
— Eu também tive um animal de estimação – ele se pôs ao lado da mesma – ele se chamava Dragão.
— Ele se parecia com um dragão?
— Na verdade – o garoto quis rir – o nome dele era Dracorex.
— Ah não, mais um dinossauro?
Thiago riu fazendo-a sorrir.
— Eu vinha aqui desde pequeno então tudo isso é muito comum pra mim.
Isabela assentiu desviando de uma árvore alta.
— Meu irmão ia adorar isso daqui – ela sorriu o imaginando ali no meio dos grandalhões – ele adora essas coisas.
Thiago a fitou curioso.
— Você tem um irmão?
Ela o respondeu com um olhar de obviedade.
— Não, claro que não, eu chamo o meu dinossauro de estimação de irmão.
O sorriso irônico que Isabela lançou ao garoto o fez sorrir em contrapartida.
— Você é sempre tão ácida assim ou sou o eleito para receber suas ironias?
Isabela pensou em retrucar, mas ao invés disso suspirou, descendo o olhar até o chão fofo sob seus pés.
— Eu... não sei – disse baixinho.
Thiago encarou atento a expressão de confusão e tristeza que tomavam a garota.
— Não sei – repetiu mais alto – eu simplesmente não sei.
— Ei, eu falei brincando.
— Mas é verdade – ela voltou-se para o garoto e no mesmo instante ele se sentiu derreter ao encarar os olhos dela – eu sou sempre chata, insuportável, antipática e...
Sem conseguir achar mais algum adjetivo Isabela grunhiu.
— Essa definição foi muito boa – brincou Thiago.
A garota sorriu, mas suspirou em seguida.
— Às vezes me pergunto quando me tornei isso daqui.
— O que quer dizer com isso?
As palavras do jovem saíram pausadas e ele parou o caminhar fitando a garota ao seu lado. Isabela deu de ombros, o acompanhando na parada, e mirando nos olhos do mesmo.
— Eu sou... – resmungou baixinho – na verdade, minha família é complicada.
— Todas as famílias são – ele lhe sorriu compreensivo – é normal.
— Talvez – ela entortou a boca – é só que, com o tempo eu acabei me fechando para todos os problemas que apareciam nela, sabe? E aos poucos...
Isabela suspirou de novo, retomando a caminhada, com Thiago em seu encalço.
— Gosto de pensar que meu jeito é esse porque criei uma casca entre mim e minha família. O único problema é que ela se estende para além deles – ela fez gestos com as mãos – afeto até minhas amigas às vezes, assim como estou fazendo com você.
— Eu não desgosto desse seu jeito – disse o garoto com sinceridade – e não retiro minha culpa pela péssima impressão que deixei em você ontem.
Isabela sorriu.
— Nisso vou ter que concordar.
O garoto fez uma careta em divertimento.
— Eu acho que você só tem que ser você – ele deu de ombros – independente do jeito que você é agora, só seja sincera consigo mesma e tudo vai dar certo.
— Ainda que eu acabe machucando onze a cada dez pessoas do meu convívio?
— Aí nós vamos ter que reformular essa autenticidade.
Eles se entreolharam e riram.
— Mas sem brincadeiras – ele olhou para dentro da vegetação – faça o que você sente. Se acabar machucando alguém, vá lá e peça desculpas, corra atrás dos seus erros e conserte-os. Se a pessoa realmente te aceitar vai lhe entender.
Isabela balançou positivamente a cabeça.
— Espera aí, não estamos falando de algum namorado seu, estamos?
A pergunta pegou a garota de surpresa, ainda que carregada de divertimento em seu tom. Em resposta Isabela corou e negou com a cabeça.
— Não, eu não...
As palavras sumiram da boca da mesma quando ela se lembrou de Matheus. Do cretino que jogou fora, sem mais nem menos, os poucos meses que estavam juntos. Com uma expressão de raiva ela aumentou o passo.
— Falei algo errado? – ele a questionou, baixinho.
Isabela estava pronta para descontar nele a raiva que começava a subir dentro de si, mas ao ver aqueles olhos, suspirou, fazendo um maneio com a cabeça.
— Não, é só... nada, eu não tenho namorado.
— E que reação foi essa? – ele ergueu uma das sobrancelhas.
A garota levou o olhar do chão para ele.
— Na verdade, eu estava com alguém. Agora não estou mais.
Ele assentiu.
— Ele pisou na bola?
Isabela o respondeu numa expressão afirmativa.
— Demais.
Novamente Thiago concordou com a cabeça.
— Por que estamos falando disso mesmo? – ela subiu numa raiz alta e sobressalente
— Quanto tempo falta até a próxima fenda?
Thiago entendeu o recado para mudar de assunto e esquadrilhou a vegetação ao seu redor, numa procura por sua localização atual. Após segundos nessa busca ele fixou o olhar sob a base de uma encosta próxima.
— Acho que estamos chegando perto de uma das torres de observação da minha família.
— Vocês tem torres de observação por aqui? – Isabela saltou da raiz para o chão, parando ao lado do garoto com um olhar de animação.
O jovem quase riu ao ver os olhos da mesma brilharem.
— Sim, nós temos. E lá deve ter alguma localização para as entradas.
— Então vamos logo, o que estamos esperando?
Isabela sorriu empolgada em poder ter uma visão panorâmica de tudo que existia ali e sequer percebeu o olhar que Thiago a lançou junto a um sorriso.
•••
Pouco depois de longos minutos de uma caminhada recheada de conversas aleatórias Isabela já podia elevar a posição do garoto de desconhecido para agora sei que ele gosta de lasanha e vôlei. Thiago não era irritante e idiota como a mesma achou que seria e isso a surpreendeu imensamente.
Principalmente porque já o tinha colocado, após a ótima apresentação que tiveram, na sua caixinha de odiados a primeira vista.
Mas ali, no meio de uma selva desconhecida, ela gostava de sua companhia. Da forma que falava orgulhoso dos dinossauros e da flora, das explorações e dos feitos de sua família. Isabela até mesmo chegou a rir de algumas histórias cômicas que ele lhe havia contado.
Mas além de tudo, e o que mais ela tentava negar, era que gostava da forma com que o cabelo dele balançava no terreno desregular, a maneira com que aqueles olhos a hipnotizavam a cada olhar e o sorriso que ele lhe lançava a cada bendita frase.
Foi com esse misto de certezas que eles chegaram na torre de observação. Isabela correu pela escada em espiral até chegar em seu topo, sendo seguida de perto pelo garoto que ria da euforia da mesma.
— Isso é incrível! – exclamou extasiada.
A visão dali de cima era simplesmente fantástica. Isabela conseguia ver a tarde chegando em seus raios avermelhados, a floresta abrindo espaço para uma área rochosa e um riacho largo, talvez o mesmo que haviam encontrado, cortando os dois terrenos.
Era simplesmente demais.
— E não é? – Thiago se pôs ao seu lado – Essa era o planeta antigamente.
Isabela assentiu sem tirar os olhos da paisagem, encantada com tantas cores e sons. Seus olhos conseguiam captar os seres incríveis voadores deslizando pelo céu e migrando de um lado para o outro.
Via também os de grande pescoço saírem pelas copas e na parte de relva os mais baixinhos com chifres e escamas passearem calmamente.
— Aqueles ali são pequenos grupos de Triceratops e os mais ao longe e em grande quantidade são de Coritossauros.
A garota soltou um chiado de afirmação.
— Eles vivem bem entre si, não é?
— Sim, cada um no seu espaço.
Ele se apoiou no parapeito que os separava de uma queda bastante perigosa.
— Onde estão aqueles grandões que rugem, matam e destroem os outros?
Thiago sorriu com a descrição.
— Que forma inusitada de perguntar pelos carnívoros.
A garota o respondeu com uma careta.
— Eles vivem longe daqui. Os vi poucas vezes e geralmente eles vem só para se alimentar. São extremamente perigosos e rápidos, melhor tomar cuidado.
Nessa altura da explicação Isabela já estava virada completamente na direção do garoto com uma expressão de medo que o fez rir.
— E só agora você me diz isso?
— Eles raramente vem aqui.
— Isso não me deixa menos nervosa.
O garoto riu sendo repreendido por um olhar de seriedade da mesma. Sem qualquer aviso ele tomou as mãos dela para si e olho no olho as apertou suavemente.
— Vai ficar tudo bem, nós não vamos encontrá-los.
Isabela não sabia se se afastava, o afastava ou permanecia ali, com o calor suave que aquelas mãos ásperas lhe transmitiam. Mas decidindo por ela Thiago a segurou e puxou para dentro da pequena cabine do observatório circular, cobrindo, em suas costas, o rubor que a garota trazia consigo.
— Precisamos achar o mapa das entradas – disse soltando suas mãos para abrir um armário de gavetas – ele deve estar em algum lugar por aqui.
Isabela assentiu sentindo com relutância a falta do calor que ele lhe proporcionava. Quase que imediatamente ela afastou os pensamentos e se pôs a procurar, junto com o garoto, qualquer coisa que se parecesse com um mapa e tivesse algum indicativo de fendas de espaço-tempo.
Por um bom tempo eles permaneceram ali revirando gavetas e mais gavetas até que, ao encontrarem o pequeno mapa das entradas, o sol já se despedia dos mesmos no horizonte fazendo piscar e acender as lâmpadas automáticas.
A cabine estava um caos, com escrivaninhas e armários abertos e revirados. Parados no centro do cômodo eles comemoraram, batendo as mãos ao encontrarem a localização das fendas, e se entreolharam instantaneamente.
O ar pareceu sumir dos pulmões de Isabela naquele breve momento e tentando retomar a compostura ela se aproximou de uma das escrivaninhas.
— Já passou tanto tempo assim? – a voz dela saiu baixa, tentando focar em algo além do garoto dentro da sala.
— O horário de lá e daqui são diferentes.
— Diferentes quanto?
Thiago ameaçou fazer uma careta.
— Eu não sei te dizer, realmente. Varia muito.
— Varia muito? – perguntou pausadamente.
O corpo da garota se encostou a escrivaninha e ela o encarou nervosa.
— Pode passar apenas algumas horas ou minutos... geralmente quando venho pra cá não passa de poucos minutos no nosso tempo, mas nunca fiquei mais de um dia aqui.
O fôlego que Isabela prendeu saiu num único suspiro.
— O que faremos agora? – perguntou subitamente – Encontramos o mapa, mas lá fora...
Ambos os olhares caíram na imensidão negra que cobria o céu, preenchido de cintilantes pontos luminosos. Eles deslizavam exuberantes formando as mais diversas constelações, que prenderam, momentaneamente, os olhos esverdeados da garota.
Mas além da beleza noturna das estrelas e da lua que iluminava as árvores imponentes, o que mais a preocupava era a escuridão.
A noite na selva era perigosa, foi o que sua avó lhe ensinou.
— Podemos ficar aqui até amanhecer – sugeriu – não temos muito o que fazer na verdade – acrescentou.
Os olhos novamente se encontraram.
— E não se preocupe – sorriu divertido – os dinossauros daqui não costumam se aventurar em construções gigantes durante a noite.
Isabel quis sorrir, mas toda a sua atenção foi tomada por um som agudo que irrompeu do lado de fora do observatório. Juntos eles se aproximaram do parapeito que cercava a cabine e admiraram, encantados, a cantoria única e noturna dos animais.
Os dinossauros mais altos pareciam lançar seus sopros nasais para cima enquanto os mais ao longe e pequenos se uniam em grupos e soltavam, em uníssono, sua singela contribuição.
Isabela não sabia com o que podia comparar aquilo e sorrindo inconscientemente fitou o garoto ao seu lado, que também o fazia, fascinado.
— É lindo – disse a mesma, após segundos de contemplação.
— Sim, é. Nunca vi nada igual.
— Não é você que sabe tudo sobre dinossauros? – ela lhe lançou um sorriso divertido.
— Desta vez você me pegou – Thiago ergueu os braços – pode falar.
— Não vou falar nada – a garota bateu seu ombro no dele, desfrutando minimamente do contato – não sou tão má assim.
— Sei que não.
Isabela o fitou com a sobrancelha levantada.
— Retiro o que disse.
Ambos riram. Lado a lado e num silêncio gostoso eles continuaram ali, observando a noite e os sons daqueles animais. Ao menos até ele acabar e assuntos aleatórios surgirem entre os dois.
Isabela descobriu que Thiago era o filho do meio de uma linhagem de três irmãos e sofria, assim como ela, uma pressão absurda vinda da sua família em relação a estudos e futuro. Morava desde pequeno na cidade e conhecia muito pouco do que ele esnobava da cidade grande.
O garoto, por sua vez, ouviu atento a história de Isabela, sobre sua mãe, seu pai e seu irmão. Riu das aventuras dela na cidade em que morava, em escolas e ruas do subúrbio com suas amigas.
Isabela quase chegou a se identificar com ele quando o mesmo comentou sobre as dificuldades de cuidar de um irmão mais novo, mas riu quando Thiago descreveu uma criança problemática e egocêntrica. Caio nunca havia sido assim e além das brigas comuns entre irmãos, ele era um bom garoto.
A lembrança dele a fez se sentir parcialmente triste pela distância, mas Thiago, contando suas histórias, a ajudou e a cada risada, sentados e apoiados na parede exterior do observatório, ela se sentia particularmente em casa.
Foi com esse pensamento que a mesma abriu um tímido sorriso e bocejou, sentindo os olhos pesarem.
— Pode dormir, eu cuido da gente.
Isabela assentiu fracamente e se acomodou no ombro do garoto, surpreendendo-o. O cheiro que ele trazia era predominante de um suor agridoce, misturado a um estranho e forte perfume, que ela não achou nem um pouco ruim.
— Obrigada por me ajudar.
Thiago sorriu e sem poder fitá-la encarou as estrelas logo acima de suas cabeças.
— Estamos juntos nessa, não precisa me agradecer.
— Espero que consigamos ir embora amanhã – sussurrou sentindo as pálpebras fecharem.
— Eu também – bocejou – eu também, Bela.
— Não te dei intimidade – resmungou o beliscando sem força – mas posso pensar no seu caso.
O garoto aumentou o sorriso com as palavras da mesma e lentamente desceu sua cabeça sobre a dela, sentindo os cabelos da mesma em sua bochecha. Ali ele fechou os olhos e, ainda que tivesse dito que tomaria conta dos dois, adormeceu sob o aroma doce que Isabela trazia em seus fios cacheados.
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