Feliz Ano Novo
1 Capítulo Único
— Vamos, Ruby! Que demora. — Yang reclamou alto.
Ela estava na entrada de sua casa, usava um casaco esportivo de mangas longas e grossas, calça e botas, o figurino perfeito para a noite de inverno na ilha de Patch.
Não que a pequena ilha onde ela nasceu e vivia há vinte e dois anos tivesse o clima realmente frio. Localizada mais ao sul, Patch era conhecida por ter um clima temperado e agradável o ano todo, com verões quentes e invernos amenos onde raramente chegava a nevar.
Mas claro que o que fazia Patch ser “famosa” era suas plantações de morango. Tanto que a prefeitura da única cidade que havia na ilha chamava a economia de “mercado do morango”.
— Ruby, o que você tá fazendo aí? Vem logo, vamos perder os fogos assim! — Yang gritou impaciente com a demora de sua irmã.
Elas já tinham combinado há um mês ir até o mirante para ver a queima de fogos do ano novo.
— Já tô aqui. Como você é chata!
Ruby apareceu na porta. Ela estava com um short jeans e meia-calça de fio grosso e de cor preta. Na parte de cima ela usava um moletom vermelho aberto onde se via uma camisa preta por baixo.
Toda a irritação que Yang sentia se dissipou no segundo que a viu.
— Deus do céu, o que você tava fazendo que demorou tanto? — Yang perguntou não verdadeiramente brava com sua irmãzinha.
— Tava pegando uns lanchinhos pra gente. — Ruby bufou e cruzou os braços fazendo um beicinho.
— Eu não sei como alguém tão pequeno pode ter uma barriga tão grande... — Yang riu descansando seu braço no topo da cabeça de Ruby sabendo que ela odiava isso.
— Minha barriga tem tamanho normal! E você sempre come mais do que eu! — Ruby empurrou o braço de Yang para longe a fazendo rir.
— Nós duas sabemos que isso não é verdade! — cantarolou Yang balançando seu cabelo loiro de um lado para o outro.
— Duh! Chata! Não era você que tava apressada? Vamos logo!
— Ah, verdade! — Yang olhou para seu relógio de pulso. — Já são onze horas.
— Então vamos logo! — Ruby se adiantou pegando o braço de Yang e arrastando na direção da moto da irmã.
— Vai com calma, Ruby, segurança primeiro. — Yang deu a sua irmã um capacete aberto vermelho que Ruby rapidamente colocou.
Yang colocou seu próprio capacete aberto só que de cor amarela. Ela montou a moto esportiva e logo sua irmã se juntou a ela passando os braços por sua cintura para se firmar no local do passageiro logo atrás dela.
Ruby ajeitou a mochila com os pacotes de lanches em suas costas enquanto se equilibrava no momento que Yang arrancou pela estrada. Ela segurou a irmã em um abraço apertado e enterrou o rosto no meio de suas omoplatas.
Sua casa ficava distante da cidade, mas a estrada que cortava a ilha encurtava o caminho. Por mais que Ruby adorasse ficar abraçada a Yang enquanto andavam de moto, ela estava mais empolgada com os fogos hoje e, assim que o veículo parou no mirante, ela pulou para fora.
— Não se afaste muito. — Yang disse enquanto estacionava sua moto.
— Eu conheço um lugar incrível para a gente ficar! — Ruby se animou. — Vem, Yang! — Ela nem deixou a loira guardar os capacetes e saiu arrastando a irmã agarrando ela pelo braço.
— Ah, Ruby? Você tá se afastando muito. — Yang disse meio preocupada ao perceber que estavam entrando na floresta e ficando cada vez mais distantes do local aonde as pessoas estavam ajeitando suas toalhas de piquenique.
— Eu disse que eu conheço um lugar, confie em mim! — Ruby se virou para ela e sorriu, e Yang não podia dizer não para ela.
A loira viu a borda do mirante ficar para trás, não dava mais para ver as pessoas, só ouvir o murmurinho das conversas. Claro que ela confiava em Ruby, mas no caminho que elas estavam indo, Yang duvidava que conseguiriam ver a queima de fogos em um lugar como aquele.
— Ruby, é melhor não irmos tão longe, assim não vai dá para ver os fogos.
— Vai dar para ver sim, confia em mim. — Ruby respondeu toda otimista e Yang riu.
— Certo, mas… — A loira se calou quando as duas passaram pela linha das árvores e deram de cara com uma vista perfeita para a praia. — Nossa, que lugar incrível!
— Eu falei! — Ruby encheu o peito, orgulhosa. Ela tirou a mochila das costas e logo puxou uma toalha de dentro.
Yang se aproximou mais da borda do mirante, uma queda proeminente a fitava na borda bem vertical da montanha. Nada além de escuridão. Mais à frente dava para ver a praia à distância, quase toda a cidade tava lá na areia meio acasacados e com piqueniques montados. A maioria preferia a praia para a passagem do ano.
Sua família também, por isso sempre se juntavam na areia na noite do último dia do ano. Mas aquele ano só era Yang e Ruby em casa.
— Yang? — Ruby chamou e quando a loira se virou, viu sua irmãzinha sentada no chão em cima de uma toalha, ela estava lhe sorrindo com uma caneca fumegante na mão. — Você não quer se juntar a mim?
Yang sorriu e se sentou a seu lado e Ruby lhe entregou a caneca, depois encheu outra ao pegar a garrafa térmica. Yang levou o líquido aos lábios enquanto observava de perto sua irmã menor.
— Você que preparou esse chocolate quente? — Yang perguntou já sabendo a resposta, mas Ruby respondeu contente de qualquer forma.
— Sim, queria beber com você aqui e ver os fogos! — Ela disse deixando de lado a garrafa e encostando sua cabeça no ombro de Yang, que a recebeu contente.
Elas ficaram assim por um tempo, só apreciando a presença uma da outra e o sabor adocicado do chocolate quente. Depois de alguns minutos, Yang sentiu sua irmã se mexendo a seu lado, quando virou-se para olhar, Ruby estava a encarando muito de perto.
— Yang… — Ela murmurou fechando os olhos e se aproximando.
— Ruby? O que você tá fazendo? Não! — Yang colocou sua mão no ombro dela a impedindo de sair do lugar.
— Por que não? — Ruby perguntou com uma voz arrastada. — Não tem ninguém aqui, estamos sozinhas.
Yang engoliu a seco e olhou em volta, realmente era um local bem isolado. Apesar de ouvir as pessoas a distância, não dava para ver ninguém.
— Só porque não tem ninguém aqui agora, não significa que não pode aparecer! — Yang argumentou e viu o rosto de sua irmã ficar aborrecido.
Apesar de Ruby ter vinte anos de idade, ela ainda conseguia ter suas feições infantis quando resolvia fazer sua “cara de criança que não ganhou o que queria”. E era exatamente isso que ela estava fazendo, não seria uma grande coisa se Yang simplesmente pudesse ignorar, mas ela era incapaz de fazer isso.
Yang suspirou alto e largou sua caneca no chão se virando para Ruby de frente. Ela colocou as duas mãos no rosto da irmã.
— Temos de ser cuidadosas, Ruby. Eu sei que isso é muito chato, você acha que eu também não sinto vontade de te beijar? — Yang acariciou suavemente as maçãs de sua face com as pontas de seus dedos e Ruby fechou os olhos apreciando o carinho. — É complicado, a cidade é pequena, todos nos conhecem, se tivemos o azar de alguém ver… nossa vida estará arruinada. Você entende, não é?
Ruby respirou fundo e colocou suas mãos sobre as da irmã que ainda emolduravam seu rosto.
— É claro que eu sei, mas o motivo que eu trazer a gente aqui foi para podemos ficar a sós.
Yang se surpreendeu, como ela não tinha percebido que era isso que Ruby queria desde o começo? De repente ela se sentiu culpada por negar o beijo para a irmã. Ruby pensou em tudo para lhes dar uma noite perfeita. Conseguiu um local afastado, preparou a comida e, ainda assim, Yang estava pensando apenas em suas preocupações. Ruby tinha razão, não tinha ninguém ali e as chances de aparecer alguém eram pequenas. Por que Yang tinha de ser cautelosa justamente quando se tratava de alegrar sua irmã?
— Você fez isso por nós? — Yang fez a última pergunta redundante do ano e Ruby apenas balançou a cabeça confirmando. — Eu te amo, sabia.
— Sabia… — Ruby respondeu com uma voz pequena e carente.
Yang apenas sorriu e se inclinou a beijando nos lábios. Ruby logo zumbiu contente e jogou seus braços ao redor dos ombros fortes de sua irmã. Yang segurou sua cintura enquanto Ruby se arrastou para seu colo se sentando sobre suas pernas meio de lado.
Ela soltou um pequeno gemido quando as mãos de Ruby acariciaram sua nuca puxando delicadamente alguns fios de seu cabelo. Com um reflexo inconsciente, Yang apertou mais suas mãos ao redor de sua irmã, pressionando a base de suas costas e a trazendo para mais perto ainda.
Quando enfim se afastaram, seus rostos estavam corados e a respiração meio descompassada. Yang traçou um caminho nas costas de Ruby de baixo para cima de forma reconfortante e sorriu para a irmã.
— Feliz agora?
Os olhos de Ruby estavam brilhando e o sorriso enfeitava seu rosto bonito. Ela colocou suas mãos nas bochechas de Yang e disse:
— Sim, muito.
Quando Ruby ia se inclinar para beijar novamente uma explosão a fez saltar.
— Veja, Ruby!
Ruby se virou para o precipício e bem a sua frente os fogos de artifício coloridos estavam explodindo no céu escuro da meia noite. Flores de várias cores pintavam a paisagem anunciando o ano que acabava de entrar.
— Feliz ano novo, maninha. — Yang falou em seu ouvido, sorrindo, e terminou beijando sua bochecha carinhosamente.
Ruby riu e se virou para Yang.
— Feliz ano novo, mana e… — Ela beijou seus lábios rapidamente e descansou sua testa na da loira roçando seus narizes junto. — E eu também te amo.
~FIM~
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