Felicidade Clandestina
1 Capítulo único
Notas iniciais
Boa leitura.
Sua rotina era sempre a mesma; acordar durante a manhã, preparar o café com a água filtrada do poço artesiano, sentar-se em sua cadeira de balanço enquanto lê a um bom livro, tricotar, regar suas hortênsias e violetas e rever as antigas fotos de sua família, as quais foram retratadas antes de seu marido falecer por um mal súbito e sua filha, Mariana, a abandonar.
Sua filha... Até hoje não compreendia porque ela havia saído de casa. Não conseguia recordar-se de alguma situação a qual tivesse a ofendido ou deixado-a magoada e a fizesse partir. A última vez que a vira, ambas estavam devidamente bem com suas companhias.
Certo dia, porém, após fechar o álbum de fotografias e secar seus olhos marejados de saudade, iludindo-se na esperança que àquela tarde a sua Mariana retornaria, a velha senhora pôs-se a cozinhar o seu favorito bolo de laranja.
Faltando apenas alguns ingredientes para a cobertura, a senhora vestiu suas sandálias e rumou ao mercadinho em seu bairro. Ao virar a esquina, eis que seu coração dá um salto e seus olhos, instantaneamente, lacrimejam. Ajoelhada diante de um homem caído ao chão, abaixada sobre ele, estava Mariana, com seu vestido preto sujo e manchado de sangue. Assim que reconheceu sua figura, num compasso, a senhora caminhou em sua direção.
Como se somente agora houvesse notado sua presença, fosse devido a sua proximidade e ao seu tom de voz exasperado, fosse pelo calor de seu corpo corcunda e o odor de seus hormônios, Mariana virou-se lentamente na direção da velha, e tornou seus passos rápidos em sua direção, como se somente agora sua mãe tornara-se o foco de sua atenção.
Estendendo os braços em sua direção, como para um grande abraço de reencontro, a velha agora pôde perceber sua pele em tom acinzentado, assim como seus cabelos desgrenhados e olhos infeccionados e os estranhos grunhidos que fazia, parecendo não ter discernimento sobre este.
Sem o tempo necessário para compreender a criatura que sua Mariana havia se transformado, eis que ela a ataca com uma mordida no ombro, jorrando sangue de imediato, simultânea à dor excruciante.
Pouco tempo depois deste fato, assim como seu bolo agora queimado dentro do forno, a velha senhora, que não percebera que o fim do mundo havia chego num apocalipse zumbi, acabou por tornar-se esquecida ao restante do mundo, com suas mãos sem vida presas ao vestido preto de sua filha.
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