A garota ao meu lado me observava, esperando que eu começasse, mas eu estava tão assustada, com medo de decepcioná-la com o meu som que acabei paralisando. Fechei meus olhos, sentindo meu medo, ela era a pessoa mais incrível que eu conheceria em toda a minha vida, no mínimo deveria tocar algo legal para ela.

Minha mãe costumava me dizer que o medo era comum quando nos importávamos com algo, mas me pergunto se ela repetiria isso agora, afinal, eu não era mais uma criança de seis anos com medo do primeiro dia de aula. Talvez o medo não fosse mais comum.

A verdade é que agora eu tinha medo de não ter a melhor voz, a melhor rima, de não fazer o melhor som pra ela. O que ela pensava da música que eu estava prestes a tocar me preocupava tanto que eu acabaria decepcionando-a, com ou sem música.

Respirei fundo, sentindo o cheiro dela, que era tão masculino para uma garota tão pequena e delicada. Mas ela nunca foi "convencional" e a partir dos doze anos começou a usar o perfume do pai. Quem vê cara não vê coração, ela repetia sempre que questionada. Ah, e como eu gostava do perfume dela, que sempre faz com que eu voltasse na época em que tudo estava bem. Na época em que minhas mãos não transpiravam só de vê-la e eu não sentia o coração acelerar, isso sem falar nas borboletas no estômago... Nada era tão difícil naquela época, nada importava, pois esses sentimentos eram desconhecidos, deixando apenas lugar para os puros.

Porém, o tempo passou, os sentimentos mudaram e toda vez que eu a vejo sinto vontade de beijá-la. Agora, eu estou sentada em uma rodinha na praia, os olhos fechados, esperando a coragem me abraçar. Nós duas não estamos sozinhas, mas parece que o mundo para e só nossas respirações podem ser ouvidas.

Abro os olhos, vendo todos me encarando, já me viram tocar antes, inclusive ela, então não entendem a minha hesitação. Nem eu entendo.

Fixo meus olhos nos dela, tão escuros como a noite, e ela me encoraja com o olhar, o que é suficiente para eu parar de me segurar e não me importar com nada. Me inclino em sua direção e lhe roubo um beijo rápido, o simples encostar de lábios, mas existente, que lhe deixa com as bochechas coradas. Ela sorri, e eu retribuo o sorriso, voltando a fechar os olhos.

Eu enfim começo a tocar e finalmente encontro o melhor som.

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