Fear, Why...
2 Floresta de Pólvora
As luzes mornas dos lampiões tremulam preguiçosamente na casa em ruinas. Em um ritmo de estalos constantes e compassados o fogão de lenha toca a musica de fundo da noite desta família solitária na floresta.
Sobre uma montanha de livros, Milles revisa pela última vez os planos para a caçada do dia seguinte, sua amada Puella cozinha observando preocupada o pequeno Nauclero se divertindo testando as presas cruéis das Aratacas, atando firme o nó da Esparrela e armando agilmente a mortal Conibear nunca testada.
– Preciso do menino amanhã. Diz Milles. Nos rostos observam-se reações instantâneas e opostas, o de Puella enche-se do mais puro pavor, o de Nauclero, fascínio. É muito esperto e sabe tudo sobre as armadilhas.Continuou.
– Você vai matar nosso filho... Mais do que ninguém sabe o que é essa floresta, um mar de inimigos visíveis e invisíveis, não conseguirá protegê-lo lá. Você vai matar nosso filho... Puella deixou a fogão e chorou ao lado das chamas que escondia seu rosto amedrontado.
– É essa maldita enchente, arruinou a terra, espantou os animais se continuar assim morremos de fome. O menino devorou a Enciclopédia de Armadilha de Oregon, e eu sou o maior caçador dessa terra, juntos vamos fazer estoque antes que tudo se acabe!
Ao perceber o desespero e fúria do seu marido, Puella desarmou-se. Voltou a cozinhar em silêncio, Milles sabia que Puella tinha entendido mas não aceitado, era um sinal verde, pois um acordo silencioso entre o casal dizia: “a razão teria que se sobressair, a razão era a sobrevivência.” E nada mais foi dito naquela noite.
Na manhã seguinte Puella deixa os mantimentos para a viagem na porta do quarto e se tranca, não queria ver, sofrer, sentir aquela angústia, resolveu se dedicar unicamente a pensar, iria criar uma alternativa e salvar seu filho e marido da floresta predadora.
Nauclero carregava sua mochila, chegava a ser quase o dobro do seu tamanho, mas ele era forte, a confiança lhe dava toda a força que seu corpo precisava. Iria ver suas adoradas obras em ação, aprender com isso, depois faria se tornarem melhor, sua mãe ficaria orgulhosa e a tristeza acabaria.
Milles se sentia estranho, um formigamento inexplicável nas mãos, seus sentidos estavam aguçados. Algo vai acontecer, vai ser divertido, eu sei. Disse para si mesmo.
–Colt M 16, Kahl P 380, L115A3, ok. Vamos moleque. E partiram para a floresta desafiadora e tenebrosa como sempre.
Fale com o autor