Fate

18 Esvaindo


Notas iniciais
O pior já passou, mas ainda tem chão pela frente... https://youtu.be/CcsFlNB55V4?t=1m43s

“When she's asleep the air she's breathing is for you, you’re why she wants to live she's not got that much more to give”

Uma hora se passou e a enfermeira foi ao quarto checar meus ferimentos para dar as instruções que eu deveria tomar a partir dali, ao receber alta. Kagami e Aomine não me deixaram por um instante sequer, incluindo na hora de ir para casa. Ambos se instalaram na minha pequena residência e ficaram ali no restante da madrugada.

Como era uma sexta-feira cedo, dia de escola, eles entraram em um acordo para ver quem ficaria comigo em casa já que eu estava de atestado para o dia, decidindo que Aomine seria a melhor escolha. Isso não seria novidade para Daiki que matava aulas com tanta frequência, e se o ruivo faltasse no mesmo dia que eu as pessoas iriam desconfiar. Desse modo, Taiga teria que ir a aula e ao treino normalmente sem levantar grandes suspeitas, deixando o outro ser responsável por mim por um dia.

Também concordamos em não contar nada a ninguém. Na verdade, eu fiz com que eles aceitassem essa minha condição. Os problemas que poderiam surgir disso eram muitos para que eu pudesse raciocinar de uma só vez, então foi fácil de convencê-los de que seria melhor assim.

Estávamos na sala, eu deitada no sofá maior, Aomine sentado no outro e Kagami ajoelhado ao meu lado acariciando meus cabelos. Ele estava de saída, considerando que o dia amanhecera e ainda teria que passar em casa para se aprontar para a aula.

– Desculpe não poder ficar aqui com você, Ina... – o ruivo comentou triste

– Ei não se preocupe, o garanhão aqui dá conta do recado – respondi esboçando um pequeno sorriso, mas tossindo logo em seguida.

– Não se esforce demais, ok? – ele disse um pouco cabisbaixo, dando um beijo em minha testa e se afastando.

Aomine o levou até a porta e posso jurar que vi eles cochichando algo inaudível pra mim. A essa altura do campeonato, eu já não fazia questão de saber o que era. No momento eu estava mais incomodada com minha condição precária.

Dessa vez estava sendo diferente de quando eu fiz a operação no joelho. Lá a minha perna era a única coisa que me impedia de ser eu mesma, me reconstruir, me fazendo acumular extrema raiva e frustração dentro de mim, ao contrário de agora. As limitações físicas eram a última coisa que importava e o problema maior estava na minha cabeça, o medo de que talvez eu não voltasse a ser a pessoa que eu era antes.

De todos os meus machucados, um dos que mais que incomodava era a garganta. Toda vez que eu falava começava a tossir, ficar rouca ou simplesmente perdia a voz por alguns minutos. O pior de tudo era que os meninos percebiam minha dificuldade, e sempre que ela aparecia se entreolhavam com pesar, mesmo que discretamente.

Em segundo lugar, eu tinha bastante problema com qualquer coisa que exigisse muita força abdominal. Eu tomava muitos remédios para a dor, já que era praticamente impossível não usar o tórax, como para respirar ou mudar de posição.

O moreno voltou para seu lugar em silêncio, e eu nunca senti tanta falta de um som antes. O clima estava pesado e a cada minuto que se passava eu ficava mais agoniada e imersa em sentimentos ruins. Depois de um tempo, eu queria tirar toda a sujeira do meu corpo de uma vez só, quem sabe assim eu conseguiria limpar um pouco da conturbação da minha mente também.

Anunciei minha intenção e em um pulo Aomine já estava ligando a banheira e separando a toalha, assim como as roupas que eu iria usar. Quando tudo estava no jeito, ele me guiou até o pequeno banheiro em questão, tomando cuidado extremo a cada passo que dava. Assim que chegamos, me virei a tempo de ver uma feição de dúvida em seu rosto.

– Quer ajuda para...? Você sabe... – Daiki perguntou com seu tom de voz preguiçoso, coçando a cabeça e olhando para o lado oposto que eu me encontrava.

– Não precisa, só vou me sentar, não tem mistério. – respondi

– Tudo bem, mas vou deixar a porta destrancada. Caso precise de alguma coisa, é só me chamar.

Assenti e o observei sair do banheiro, fechando a porta. Esse lado atencioso dele me chamou a atenção por ser totalmente contrastante com sua habitual pose de indiferença. Era como se eu tivesse acabado de conhecer o Aomine versão caseira, me fazendo indagar quantas pessoas já haviam visto esse lado.

Baixei os olhos e respirei fundo, me encarando no espelho pela primeira vez depois do que aconteceu. Retirei minhas roupas vagarosamente, no ritmo que agora teria que me acostumar a usar nos próximos dias. Ao ficar completamente nua e sem os curativos usados, me pego franzindo o rosto.

Meus machucados ainda estavam vermelhos e preenchiam minha barriga quase que por inteiro, além dos meus pulsos e braços que tinham pequenas faixas de roxo espalhadas. Minhas pernas estavam praticamente normais fora alguns ralados, mas o pior de tudo era minha face.

No maxilar o inchaço já diminuía, dando vez a um hematoma oval que combinava com o resquício de força que fora usada do outro lado do rosto, também marcado pela cor. O supercílio cortado já estava cicatrizando e apenas uma linha vermelha era vista. Mais abaixo no pescoço, um único traço grosso estava visível, marcando certeiramente o local que mais doía em minha garganta.

Visto que minha regeneração era boa, provavelmente todos os vestígios estariam sumidos em breve, além de serem facilmente escondidos com maquiagem. Mas será que eu conseguiria voltar ao normal depois dessa experiência horrível?

Internamente, eu tinha medo de virar uma maluca com pavor de pessoas ou quem sabe de esportes. Precisava me fortalecer mentalmente, ficar segura de algum modo em meu mundo pessoal, fortalecer minhas paredes.

Suspirei fundo pela segunda vez, deixando esse pensamento para mais tarde.

Olhei para a banheira e coloquei a mão para medir a temperatura. Entrei cuidadosamente na água morna, relaxando aos poucos com a sensação de limpeza que me cercou. Depois de longos minutos de higiene, dei por concluído meu banho.

Entretanto, ao levantar fui impedida por minhas próprias limitações subestimadas.

Uma dor horrível se alastrou assim que forcei meu abdômen, me fazendo agarrar a cortina em um impulso e caindo de volta na banheira, arrancando o tecido que desabou sobre mim. O barulho do baque foi tão grande que Aomine abriu a porta urgentemente, sem hesitar.

– Ina, o que houve? Posso entrar? – não respondi de imediato, o que o motivou a adentrar de vez, desviando o olhar para o chão.

– Pode olhar, eu não me importo mais. – respondi com a voz rouca e tomada por frustração

Eu apoiava uma das mãos em meu rosto pressionando meus olhos com força, enquanto a outra, já sangrando pela agitação e falta de curativo, eu mantinha apoiada na borda da banheira. A cortina já molhada me cobria parcialmente, se é que a essa altura isso significava alguma coisa ainda.

Em silêncio o moreno levantou seu olhar e observou meu estado, sua expressão de preocupação desaparecendo instantaneamente como se estivesse medindo as emoções que expunha. Ele suspirou fundo enquanto passava os braços pelo meu corpo, me retirando de lá no mesmo segundo.

– Segure firme, Ina. – sua voz soava arrastada de maneira forçada, parecia tentar me acalmar com um tom normal e indiferente, relevando a situação sem criar alarde.

– Não é como se eu tivesse outra escolha – murmurei irritada

Reparei Aomine tencionar seus braços, resultado de algo que eu não fazia ideia que se passava em sua mente. Ele me levou até o quarto, me colocando na cama com cuidado e depois me trazendo toalhas para que eu me secasse.

– Vou te deixar a vontade, estarei ali fora. – ele começou a dizer, mantendo distância dos meus olhos.

– Por que ainda está aqui? Eu não tenho nada pra te oferecer, em nenhum sentido! – me dirigi a ele, interrompendo sua ação.

– Quer que eu vá embora? – ele perguntou estreitando os olhos com o sentimento de culpa

Ponderei internamente antes de respondê-lo. Eu queria que ele fosse? Seria melhor enfrentar isso sem envolvê-lo além do necessário? Como um clique minha mente me apresentou com um sentimento forte e, através dele eu fui capaz de ter certeza do que disse a seguir.

– Seria egoísta demais dizer que... – suspirei fundo, me preparando para admitir aquilo para mim mesma – Não?

No mesmo instante ganhei sua atenção. Em seu olhar vi o reflexo do meu, um alívio enorme e de certa forma reconfortante. Foi assim que criei coragem pra botar pra fora o que eu tinha a dizer

– Ina...

– Você me faz perceber que ainda estou aqui mesmo eu não me encontrando mais. É em você que está minha essência agora e preciso que fique comigo para me preencher com ela novamente. Não posso te obrigar, mas fica, por favor...

Dito isso uma fina linha de lágrimas começou a cair, me fazendo abaixar o rosto e cobri-lo com a mão saudável. Minha respiração era ofegante e eu me controlava ao máximo para não soluçar de tanta dor que sentia no meu peito. Admitir isso foi mais difícil do que eu pensava.

Justo no meio da minha jornada para me fortalecer, encontro uma pedra desse tamanho, me fazendo aos pedaços e totalmente dependente. O que o destino estava fazendo comigo?

Daiki havia sentou-se na cama comigo e se aproximou, mas foi demais para o meu estado atual. Ele colocou uma mão sobre a minha, tentando abrir caminho para meu rosto, mas ao sentir seu toque um arrepio me percorreu, e não era dos bons.

Instintivamente eu empurrei sua mão com força e me afastei, batendo com as costas na cabeceira da cama. E de repente, era como se o botão pânico tivesse ativado, trazendo uma aura negativa consigo. Quando dei por mim, já estava com as mãos na boca chocada com o que eu tinha feito. Aquilo não estava certo...

Novamente nossos olhares se encontraram e dessa vez era o susto estampado neles. Para nossa surpresa, eu realmente havia mudado, e no momento qualquer tipo de contato fazia um lado agressivo meu entrar em cena. Era como se um simples encostar de mãos desavisado me fizesse voltar àquela quadra com os dois vermes que me prenderam lá.

Eu abri a boca, mas nada além de gaguejos saiam dela. Meu medo estava se tornando realidade e as marcas do que aconteceu estavam mais fundas do que eu pensava. Percebendo meu desespero interno o moreno suspirou e por fim me dirigiu a palavra, mantendo certa distância de mim.

– As coisas vão voltar a ser como antes. – ele falou sério.

Não era uma frase qualquer, mas sim uma afirmação, pra não dizer uma promessa. Com essas palavras eu soube que ele realmente faria de tudo para me ajudar a reerguer e, no momento, era o melhor que eu podia ter.

Aomine se levantou, pegou uma muda de roupas e colocou-a ao meu lado, se retirando em sequência. Ele não precisou dizer nada, eu sabia que iria voltar mais tarde e estava me dando um tempo pra respirar. Na verdade, eu já sabia tudo o que ele iria dizer e fazer, me acostumei com o jeito que ele estava me tratando e entendia que ele me respeitava acima de tudo.

Vagarosamente, sequei meu corpo e vesti as roupas que me foram escolhidas, separando a cortina do banheiro para o lado. Ao olhar para a cabeceira notei que ali estavam diversas pomadas, uma para esterilizar ferimentos e a outra para anestesiar e amenizar os hematomas, além de gazes para refazer o curativo na minha mão e supercílio, os únicos lugares que ainda não haviam estancado o sangue.

Após terminar de cuidar dos machucados acabei pegando no sono, se é que podia chamar aquilo de descanso. Assim que percebi, estava no meio de um pesadelo que tinha como roteiro as cenas da noite anterior. Haizaki e Hanamiya me cercavam de forma selvagem, rodeando sua presa como lobos famintos.

Acordei num espasmo de forças levando meu braço rapidamente para onde antes estava o rosto marcante e sinistro, desferindo um soco em seu queixo, igual havia feito naquela outra noite.

Pisquei algumas vezes para ter certeza da merda que eu acabara de fazer.

Aomine recuou com o golpe, segurando seu maxilar atingido com uma das mãos. Fiquei estática. Eu havia o acertado em cheio.

– D-Desculpa. – consegui dizer com a voz trêmula e falha.

Me encolhi e a vontade de chorar era muito grande, quase incontrolável. Eles se infiltraram na minha cabeça, tomavam meus pensamentos e minha sanidade sem aviso prévio, do mesmo modo sorrateiro que entraram naquela quadra. Tentei engolir aquele sentimento de angústia, mas ele não descia facilmente, ele não me pertencia.

O moreno ao meu lado nada respondeu apenas se sentou na cama comigo, sem se aproximar demais. Notei seus olhos inchados e olheiras fundas marcando seu rosto e me senti horrível por ser a causa disso.

– Você tem que tomar esses remédios, Ina – ele pegou um copo de água que estava na cabeceira, junto com alguns comprimidos, e me entregou.

Sem ânimo algum, ingeri-os respirando fundo várias vezes para então deitar novamente. Pela janela, a luz do dia se esvaía demonstrando o entardecer, o único sinal de que o tempo havia passado. Recapitulei os acontecimentos do dia, lembrando que passei o dia todo na cama sem reações.

Mais cedo, Aomine havia me preparado uma sopa semi-pronta para o almoço e esse foi o único alimento que me sustentou pelo dia. No começo o moreno ficava na sala, me dando privacidade e checando meu estado com frequência. Porém, ao que tudo indicava, eu tinha muitos pesadelos porque sempre era acordada por ele no auge do desespero.

Parecia que Daiki não queria deixar que eu me machucasse mais com meus devaneios inconscientes e pelo visto eles deviam ser bem expressados enquanto eu dormia. Depois da terceira vez, ele se instalou no chão do quarto para me atender mais prontamente no que fosse preciso.

De volta ao presente, olhei para o lado a tempo de ver o semblante entristecido do rapaz, recém-deitado em seu leito improvisado. Ele franzia a testa mordendo o lábio inferior discretamente, mas o suficiente para eu reparar.

– Daiki... – sussurrei, fazendo-o se virar imediatamente.

Respirei fundo, tomando coragem para enfrentar o monstro do medo em minha própria cabeça. Estendi a mão saudável buscando encontrar com a sua. Assim que o fiz, entrelacei-as segurando firmemente e trazendo para perto de meus lábios, dando um pequeno beijo nas costas de sua mão.

Olhei rapidamente para o moreno que me observava com um olhar indecifrável. Um pouco surpreso por eu ter tomado uma atitude repentina e ao mesmo tempo agradecido por eu finalmente o procurar por vontade própria, dando um sinal de que o meu eu antigo ainda estava presente.

Sem perceber meus olhos cerraram outra vez e minha mente se acalmou, aproveitando do calor originado daquela mão colada na minha para me desligar por completo.

Não tive sonhos nem pesadelos dessa vez. Só despertei quando escutei um pequeno barulho vindo da sala identificado como a porta de entrada se fechando, seguido de algumas vozes. Suei frio com a possibilidade paranoica que me veio primeiramente à cabeça devido à baixa consciência de meu estado sonolento, mas logo me tranquilizei e reconheci quem falava.

– Idiota, mais cuidado! Assim vai acordar ela! – Kagami deu a bronca o mais baixo que conseguiu

– Foi mal – a voz sonolenta do moreno respondeu

Pude ouvir o ruivo suspirar pesadamente se jogando no sofá e soltando algo no chão, o que deduzi ser sua mochila. Internamente meu coração falhou uma batida, tamanho o alívio de reconhecer aquelas vozes e não as que meus devaneios supuseram.

– Tudo certo lá na Seirin, ninguém desconfiou de nada. Mas tenho certeza que Kuroko é exceção para essa regra, ele questionou demais sobre a Ina depois de ver meu desânimo no treino.

– Depois falamos com ela sobre isso, talvez seja melhor contar ao Tetsu antes que ele dê algum fora com sua desconfiança toda.

O barulho do ponteiro dos segundos do relógio que eu tinha ditava a continuidade do momento, relembrando o tamanho da pausa que se seguiu. Um longo silêncio perdurou, sendo finalmente quebrado pela voz de Kagami em um tom de tensão.

– Você não conseguiu dormir por causa daquilo, né?

– Hoje foi horrível. – o outro murmurou relutante – É quase como se eu estivesse lá também, Taiga...

Um silêncio se instaurou e depois disso eu parei de escutar a conversa que poderia sair deles. Estava mais imersa no diálogo que tinha com minha própria consciência, tentando entender o que aquilo poderia significar.

Então não eram só os pesadelos? Ou, pelo menos, não só na minha cabeça já que a dupla parecia tão afetada por eles quanto eu. Eu precisava saber o que estava acontecendo, o que eu causava a eles.

Rapidamente voltei a minha posição de dormindo, pois escutei passos vindo até a minha porta. Lentamente ela se abriu e um pequeno feixe de luz preencheu o quarto, rodeado por duas sombras bem familiares.

– E como ela está agora? – Taiga perguntou, sussurrando.

– Dormindo. Os remédios da última dose eram bem pesados... – Daiki informou, usando o mesmo tom de voz.

– Diga a ela que eu estive aqui. Kuroko está me esperando para treinarmos alguns passes, por sorte consegui despistá-lo dizendo que teria que passar em casa antes. Mas amanhã cedo eu já apareço aqui pra te dar um descanso. – senti o pesar que ele proferia essas palavras, imaginei como estava sendo difícil toda essa situação pra ele sem poder estar presente.

– Não se preocupe, já avisei em casa que não dormiria lá hoje de novo.

– Obrigado por tudo que está fazendo por mim e também por ela. Sei que com sua ajuda logo tudo voltará ao normal.

Aquelas palavras... Ele não estava só me ajudando, mas a Kagami também. Como eu pude ser tão tapada e egoísta? Os dois tinham vidas pessoais e eu estava interferindo nelas com minha incapacidade física e mental do momento, isso não era certo.

Ambos se afastaram e escutei a porta de entrada sendo fechada depois de alguns minutos. Esperei pacientemente o que eu sabia que viria, o moreno entrando novamente em meu quarto. Antes que ele pudesse se esvair do assunto recém-conversado, resolvi me pronunciar.

– Sobre o que estavam falando? – questionei, fixando os olhos em sua direção e o pegando de surpresa.

– Não sabia que estava ouvindo. – respondeu indiferente, desviando do assunto.

– Eu tenho o direto de saber o que estou causando a você, Daiki, não tente me convencer do contrário e muito menos desconversar – proferi séria e impaciente.

Aomine me fitou com a mesma seriedade, notando que eu não deixaria aquilo de lado. Com um suspiro longo ele se sentou na cama, ficando de lado para a minha visão frontal. Seus olhos vagavam o cômodo, procurando meios que pudesse utilizar para colocar seu pensamento em palavras da melhor maneira possível. O que quer que fosse, ele tinha receio de me contar, e muito.

– Você... Grita... – ele começou, me observando pelo canto de sua visão.

– Quero detalhes, Daiki, por favor – supliquei, percebendo seu olhar desviar do meu.

– Eu tenho um áudio. Kagami ficou preocupado com o que eu contei e pediu pra eu mostrar.

Dito isso o moreno pegou seu aparelho e selecionou a mídia em questão. Após, entregou-o pra mim, deixando a meu critério apertar o play ou não. Taiga preocupado com algo que ele nem chegou a ver? Que história era essa? A cada segundo eu ficava mais tensa e apreensiva. Pensei mil vezes, mas acabei fazendo o que meus instintos me pediam, afinal de contas eu tinha que saber a verdade que se passava ali.

Não... Por favor... Me deixa sair... Me dei...

Um som de choro e soluço tomou conta do ambiente da gravação, sendo interrompido por uma voz embargada que eu reconheci sendo a minha daquela noite. De relance, notei que Daiki apertava os olhos parecendo reviver o que tinha presenciando enquanto eu continuava a escutar aquilo.

Daiki, cadê você... Me ajuda... Não! Me larga!...

– Eu não falei nada disso naquela noite – disse, pausando o áudio do celular na hora que gritos começavam a ecoar no quarto.

– Mas pensou – ele guardou o aparelho, passando as mãos pelos seus cabelos – Eu devia estar lá... Eu tinha que estar lá, Ina! – ele apertava com raiva seus fios, comprimindo os olhos com força.

– Para com isso... – pedi tentando alcançar suas mãos lentamente, mas ele se esquivou.

– Se eu não tivesse saído naquela hora... – continuou tencionando o maxilar a ponto de uma veia temporal saltar

– Se você não tivesse saído naquela hora eles teriam me encontrado em outro momento! – tentei me impor, mas ele nem sequer ouviu.

– Você não estaria assim – ele apontou com os olhos para meus ferimentos no rosto – Está toda marcada.

E então a ficha caiu. O motivo de ele me evitar olhar nos olhos, de mudar de expressão repentinamente e até mesmo sua postura rígida. Ele estava encarando justamente algo que se sentia extremamente responsável, praticamente recebendo uma facada cada vez que observava um hematoma em mim.

– Não, meu rosto tem apenas resquícios. É aqui que estou marcada – apontei para minha cabeça – O que tem aqui dentro não vai simplesmente sair como as marcas do meu rosto. O que tem aqui dentro vai me consumir se eu não for capaz de superar, me destruindo aos poucos e a você também.

– Ina...

Estava cansada daquele tom fúnebre, não só da conversa, mas de todo o tempo desde que havíamos voltado pra casa. Eu não era assim e nem ele, então por que nos tratávamos desse jeito? Claro que eu não estava pra piadinhas ou cantadas, mas a cada tom de voz esquisito que ele usava eu me sentia mais e mais distante de quem eu sempre fui, e isso me aborrecia.

– Eu não quero que você fique comigo por causa disso – levantei a palma da minha mão cortada para que ele a observasse – Quero que fique por causa de mim! Então, se você estiver aqui porque se sente culpado é melhor ir pagar seus pecados em outro lugar.

– Não tem nada a ver com isso. – seus olhos me fitavam em choque, ele realmente não esperava minha reação tão direta de uma hora pra outra.

– Então o que é, Daiki? Qual o seu problema comigo? – gritei com raiva, assustando-o – Você tem nojo de mim? Aqueles caras encostaram em mim e deixaram marcas por todo o meu corpo, é nojo o que você está sentindo agora? – insisti

– Não! É claro que não, Ina. – se apressou em responder

– Você tem medo de mim? – continuei, ignorando sua reação – Eu bati naqueles caras, machuquei você no hospital e, se eu não estou enganada, até te acertei um soco enquanto eu ainda dormia.

– Isso não tem nada a ver. – ele repetiu, negando com a cabeça.

– Está surpreso porque eu demonstrei um lado agressivo?

– Não! – respondeu, demonstrando sinais de impaciência crescendo.

– Então o que é? – explodi usando toda a força de voz que eu conseguia, para depois começar a tossir incessantemente.

– Ainda não acredito que eu fiz tamanha idiotice essa noite para que a pessoa mais forte que eu conheço estar nesse estado.

Parei, pasma, ainda ofegante depois de trocarmos tantas hostilidades verbais. Meus olhos estavam arregalados com a sinceridade que ele expôs tão diretamente. Enquanto eu processava a informação, notei que a feição do moreno havia mudado de agonia para desamparo em um piscar de olhos.

– Daiki, quero que você me escute agora. – comecei, apoiando minha mão em seu ombro – Me desculpe.

Eu tenho que te desculpar? Até parece – ele soltou um suspiro debochado de reprovação, mas ao menos virou seu olhar pra mim.

– No hospital eu te agredi, não podia ter feito isso. Na verdade, o que eu tinha em mente naquela hora era a mesma coisa que você está sentindo aqui, se chama impotência. É quase um desespero que não tem pra onde se manifestar e acaba por ressaltar os outros sentimentos. É estar amordaçado nas próprias atitudes e não poder sair de si mesmo. Mas isso está errado. Nós não somos impotentes por causa do que aconteceu. A culpa não é nossa.

Fiquei parada, retomando o fôlego e dando um tempo à minha garganta depois de tanto falar. Observei atentamente as reações que o moreno exibia e por incrível que pareça, depois de tanto o estranhar, finalmente reconheci sua feição. Ele estava mais calmo e decidido, respirando em intervalos espaçados e me dirigindo um olhar que definitivamente tinha sua assinatura.

– Eu vou te ajudar a melhorar, Ina, é uma promessa. – disse pousando sua mão sobre a minha, me passando toda a confiança que ele tinha em sua fala.

Ficamos em silêncio por um curto tempo. A sessão descarrego estava nos unindo de novo, reavendo aos poucos o que tinha sido esquecido. Quem sabe assim seria daqui pra frente, mais sinceridade e menos frustrações...

Rapidamente algo veio a minha cabeça e, depois da conclusão que eu havia acabado de chegar, tive que desabafar ou então a dúvida me consumiria. Procurei as melhores palavras para expressar o que queria e então tomei a coragem de finalmente perguntar, pronta para encarar a resposta que fosse.

– Aquele dia... Você... – comecei hesitante, mas seu olhar me encorajou a continuar – Você encontrou com ela, não foi?

– Oi? – questionou, surpreso com o rumo que a conversa tomou

– May te chamou para ir atrás dela, não precisa esconder... – respondi, baixando o tom de voz inconscientemente.

– Sim, ela chamou, mas eu não fui. – ele disse, calmamente.

– Como assim? – franzi a testa, percebendo que havia um furo na minha versão da história.

– Eu precisava de um tempo pra pensar numas coisas que ela tinha dito. – começou, mas eu o interrompi, afobada.

– Mas, suas roupas... Você tava todo desarrumado!

Naquele momento o moreno na minha frente tomou uma postura diferente, como se processasse o que eu havia dito e tentasse assimilar de acordo com o meu ponto de vista. Quando as coisas fizeram o sentido que eu havia proposto, ele começou a negar com a cabeça, fechando levemente os olhos.

– Você pensou que eu.... –disse erguendo o rosto novamente e me fixando o olhar – Não, Ina! Eu jamais faria isso estando com você! Assim que saí daquela quadra eu fui perambulando a cidade enquanto pensava e acabei dormindo em um banco qualquer até receber a mensagem do Kagami.

Aomine ficou estático, observando cada feição que eu colocava à mostra, sem dizer nada. Meus olhos deveriam exibir algo que nem eu era capaz de traduzir, já que eu não fazia questão de controlar minhas expressões mais. Algo dentro de mim dizia que aquela era a verdade. Talvez naquele momento eu estava alterada demais pra pensar direito, com lógica, mas agora as coisas começavam a se encaixar.

Então era isso? Aomine Daiki não era o que eu pensava. Ou voltou a ser o que eu imaginava que ele fosse antes, longe de ser apenas um babaca qualquer. Como foi que eu pensei algo tão ruim de alguém que eu julgava conhecer, tudo por causa de uma garota que deu as caras no momento errado? Prometi a mim mesma que nunca mais deixaria um ciúmes besta interferir nos meus conceitos.

Foi aí que a curiosidade bateu de novo, e na minha cabeça só se passavam as mil probabilidades do que ela havia dito pra ele naquela noite. Respirei fundo e comecei a rever os fatos mentalmente, percebendo que havia ficado uma coisa pra trás. Ao que parece, a menina plantou uma semente da discórdia, mas ele resolveu pensar mais sobre o assunto. Então...

– E qual foi a conclusão que você chegou? – perguntei, transparecendo minha dúvida.

– Percebi que você e suas intenções eram boas e não era um palpite idiota dela que me faria deixar de gostar de você.

Eu estava pasma, diversos pensamentos rodeavam minha mente. Ele tinha acabado de admitir que gostava de mim, mesmo depois de toda essa bagunça. Em um súbito ataque de ansiedade tentei falar tudo de uma vez só, mas só consegui tossir várias vezes fazendo com que rapidamente meu enfermeiro de improviso aparecesse com um copo de água.

Ele sempre estava ali pra me ajudar, cada detalhe, gesto e pequena reação demonstrava isso. Não era como se ele tentasse fazer as coisas por mim, se aproximava mais de um apoio. Aomine me dava forças para que eu pudesse fazê-las por mim mesma, sendo todo o suporte que eu precisava. Se eu tivesse parado pra pensar teria chegado a essa conclusão antes, afinal de contas desde o começo tudo o que ele fez foi estar ao meu lado e eu nunca retribuí a altura.

– Obrigada, Daiki – consegui dizer com rouquidão.

Depois disso, encarei-o demoradamente e me aproximei de seus braços o envolvendo num abraço desajeitado. Fechei os olhos assim que o senti retribuir, aconchegando meu rosto entre seu pescoço e ombro a tempo de reconhecer o perfume que eu tanto gostava.

Nos desvencilhamos devagar e um meio sorriso familiar apareceu no canto de seus lábios, a medida que eu corava com a intensidade daquele contato. Parecia que há séculos não o tinha por perto, ou talvez só estivesse redescobrindo o efeito que ele tinha sobre mim. Estava minimamente voltando a ser quem eu era, podia sentir isso.

– Você precisa descansar, Ina. Está tarde e, além do mais, deveria aproveitar que seu próximo medicamento é só daqui algumas horas.

Ele estava certo, pra variar. O coquetel de remédios que eu tomava me deixava com uma exaustão inimaginável, como se ele centrasse todas as minhas energias em curar meu corpo da forma mais rápida possível. Apenas assenti e vagarosamente retomei meu aconchego debaixo das cobertas, observando seu amontoado de almofadas no chão ao meu lado.

– Podemos dividir a minha cama, a sua não parece nem um pouco confortável. – sugeri em meio a um bocejo

– Não se preocupe comigo, eu não quero correr o risco de te acordar durante a noite – Aomine comentou, terminando de me cobrir e ajeitando meus travesseiros – Além do mais, eu já dormi em lugares muito piores, isso aqui é quase um acampamento de luxo pra mim.

– Como assim? – perguntei, fitando o teto e ouvindo ele se aninhar em sua cama improvisada.

– Quer a versão curta ou a longa?

– A longa. Considere uma história de ninar, então capriche. – falei com um tom brincalhão, arrancando uma gargalhada dele.

– Tudo bem, você que pediu... – ele pigarreou e engrossou a voz – Era uma vez, um nem tão pequeno garoto de cabelos azuis chamado Aomine Daiki.

– Esquece a parte da história de ninar, apenas conte – falei, esboçando um pequeno sorriso

– Pra começar, eu não morei sempre aqui na cidade grande. Na verdade, eu cresci no interior com minha família, morávamos todos numa casa de campo com meus avós, ele era marceneiro e ela cultivava ervas medicinais. Enfim, quando eu era criança, eu e meus primos costumávamos inventar umas aventuras doidas como dormir em galhos de árvores ou construir tendas de folhas de todos os tamanhos. Com o tempo eu acabei acostumando minhas costas a qualquer tipo de terreno, literalmente.

Enquanto ele contou sua pequena história eu permaneci de olhos fechados, criando um cenário onde recriava as cosias que me eram ditas do modo como eu as imaginava. Na maioria delas Daiki aparecia sorrindo, o que me trazia o mesmo em meu próprio rosto.

– Posso... Te pedir uma coisa? – perguntei, incerta com a ideia que eu tive.

– O que foi, tá faltando algum travesseiro? – ele ergueu-se imediatamente, já checando com os olhos tudo o que me cercava.

– Não é isso... Eu queria saber se... Será que você pode contar mais histórias suas?

– Mais histórias? – ele arqueou uma das sobrancelhas, curioso.

– É, eu... Não sei explicar, mas me sinto mais leve quando você fala sobre coisas boas que já te aconteceram. – disse, tentando escolher bem as palavras pra não soar tão esquisito assim.

Pra minha sorte, ele concordou em fazê-lo sem mais perguntas. Na verdade, a única reação que ele teve foi dar um sorriso contido e logo em sequência já começar a contar mais coisas a seu respeito. Parecia contente de compartilhar aquilo comigo, aumentar nossa proximidade.

E assim eu fui me acalmando, ao som de aventuras de um pequeno Daiki e seu sorriso contagiante. Foi naquele momento que eu descobri que aquele simples esboçar de alegria nele me fazia sentir viva novamente, e eu faria de tudo para que ele aparecesse mais vezes no rosto do moreno.

Chega de me lamentar e ficar no banco. Já estava mais que na hora de voltar ao jogo.

Notas finais
Quem diria, tendo que pensar no garanhão pra conseguir dormir... https://youtu.be/CcsFlNB55V4?t=1m43s She Falls Asleep é divina, recomendo muito que escutem independente do contexto daqui! O próximo capítulo vai ser mais animado, não se preocupem ^^ Beijocas.