Fascínio
36 Repulsa
Notas iniciais
A dor havia passado para dar lugar a outro tipo de sofrimento. Eu havia matado Kate, havia feito aquilo com a pessoa que eu mais amava depois de minha mãe e sentira prazer em tudo isso.
Eu escondia meu rosto com as mãos, envergonhada demais para encarar o corpo vazio dela, com ódio de mim mesma. Se eu pudesse me matar... Por que não esperei pela morte ao invés de mordê-la? Porque fui fraca demais para suportar.
Eu escutei a porta sendo aberta no topo da escada e me contraí ainda mais contra aquele canto imundo. Eu não queria vê-lo, não queria que ele me tocasse ou sequer chegasse perto de mim. Ele era a causa de tudo isso, eu não sei o que faria agora que eu me sentia forte o bastante para chutá-lo para o outro lado do mundo.
Eu senti suas mãos segurarem meus braços e me puxarem colocando-me de pé.
– Me solta! – Disse para ele que agiu como se eu não tivesse dito nada. Alisou minhas costas com uma mão enquanto que com a outra segurou meu queixo e o puxou para um beijo. Eu me afastei antes que nossos lábios se tocassem, mas seu braço permaneceu envolvendo minha cintura, com força de forma que não pude me afastar muito.
– Não fique triste. Aconteceu como deveria acontecer. Se não fosse tão teimosa eu não teria te forçado a fazer isso. Espero que tenha aprendido a lição.
– Vai para o inferno.
Ele suspirou nada satisfeito.
– Venha comigo querida. – Envolveu minha cintura ainda mais forte e me arrastou para longe daquele porão. Eu deveria ter ficado um dia inteiro lá dentro, pois já era fim de tarde do lado de fora. Era estranho, porém mesmo eu não vendo o lado de fora eu sabia com exatidão a posição do sol naquele instante.
Ren fechou a porta do porão quando passamos por ela. Sabia que seria ele que teria de se livrar do corpo de Kate. Eu queria tanto chorar, mas lágrima alguma surgia.
– Você arruinou tudo. – Sussurrei enquanto o conde me arrastava escada acima para o seu quarto. Senti-me tão suja, uma puta por saber o que viria a seguir. Mais castigos à moda conde. Eu não podia fazer nada. Mesmo sentindo-me poderosa, ele ainda era mais forte do que eu. Quanto mais me mexia tentando me desprender de seu aperto, mais presa me sentia.
Na porta do seu quarto estava Lanore. Quando entramos ela fechou e nos trancou pelo lado de fora. A escuridão no quarto do conde era total, mas eu enxergava lá dentro ainda com mais clareza do que na luz.
– Quando chegar a hora certa, você lembrará o quanto me ama e tudo ficará bem, até lá tenho que me contentar com a Anne mimada e teimosa que está reprimindo minha esposa.
– Eu não sou sua esposa!
– Ah, querida... Você é sim. Quando bebeu meu sangue tornou-se tão minha esposa quanto Isabela e a vadia da Ilona.
Franzi minha testa. Ilona era esposa dele? E Lanore e Dábria?
– Não querida, somente Ilona, e não me orgulho disso. – Ele sussurrou no meu ouvido, um sorriso dançava em seus lábios eu podia sentir. – Vocês duas foram as únicas que eu permiti trocarem sangue comigo. – Ele mordeu minha orelha em seguida causando-me arrepios.
Que inferno! Eu não queria que meu corpo reagisse deste jeito ao dele! Eu queria poder fazer com que ele pagasse por tudo que fizera a mim. Eu queria fugir para minha casa, para Finn, pedir desculpas por tudo, ter minha vida de volta!
O conde me jogou na sua cama e eu girei imediatamente, ficando de barriga para cima e depois me sentando. Um sorriso atrevido dançava em seus lábios enquanto ele tirava a camisa puxando-a por cima da cabeça – que corpo...
Chega! Nada disso.
Levantei-me, mas ele me empurrou de volta, logo em seguida subindo em cima de mim colocando uma perna sua de cada lado da minha cintura.
– O que tem de teimosa tem de bonita. – Ele resmungou antes de se inclinar sobre mim e seus dentes descerem direto para a veia ao lado do meu pescoço. Eu gritei surpresa pela mordida. Porém desta vez eu não senti dor quando meu sangue subiu direto para a boca deliciosa de Vlad, eu senti prazer. Meus olhos reviraram de tanto gosto, meu corpo inteiro se contraiu com a sensação maravilhosa. Um gemido involuntário subiu pela minha garganta e o conde parou de me sugar para rir. Revirei os olhos agora com raiva e impaciência. Não podia mais controlar meu próprio corpo?
De repente tornei-me profundamente consciente das pernas de Vlad ao redor da minha cintura e do seu peito nu e perfeito sobre mim. Caramba, como eu o queria. Ao mesmo tempo em que eu o desejava morto para que eu pudesse viver novamente, eu anseio, o quero desesperadamente dentro de mim.
Impaciente o empurrei e giramos de forma que desta vez quem ficou por cima foi eu. Arrastei minhas unhas pelo seu peito contente por sentir sua pele rígida enquanto descia até seu abdômen. Seu peito era o que mais me hipnotizava naquele momento e senti como se pudesse compreender o que Vlad pensava. Não era como seu eu pudesse escutar palavras, somente que queríamos a mesma coisa. Eu mordi seu peito, em cima de onde deveria bater um coração e quando senti seu sangue tocar meus dentes o suguei direto para minha garganta fazendo nós dois gemerem alto. Arfando continuei sugando o liquido quente e maravilhoso para mim. Era impressionante como aquilo me viciara no mesmo instante.
Enquanto o bebia, Vlad rasgava as costas do meu vestido e o deslizava pelos meus ombros. Eu sabia o que viria logo, e me envergonhava por ser fraca a ponto de querer aquilo como a cadela que eu era.
– Você não é uma cadela amor. – Ele sussurrou no meu ouvido. – Você é minha. Sempre e para sempre.
Eu deixei de mordê-lo para gemer quando senti suas mãos subindo pelas minhas pernas até minha virilha. Ele estava perto, eu não devia permitir que ele chegasse lá. Olhei para porta do quarto, sabia que ela estava fechada e não poderia saltar pela janela. Ainda havia sol do lado de fora.
– Eu te odeio. – Reclamei.
– E eu te amo. – Ele me beijou levando sua língua até o céu da minha boca enquanto eu a chupava. Vlad segurou as partes de trás dos meus joelhos e os puxou de modo que minhas pernas ficaram abertas ao redor de sua cintura. Ele sentou comigo em seu colo. Terminou de puxar meu vestido por cima da minha cabeça deixando-me nua, somente de meias sobre ele. Perguntava-me aonde havia ido parar minhas roupas íntimas. A risada dele me deu uma resposta. Mais uma vez sabia o que ele estava pensando, não as palavras, mas a ideia. O cretino havia as tirado antes mesmo de eu acordar e ser levada até o porão com Kate.
Vlad segurou minha cintura e empurrou meu corpo contra seu membro já rígido. Deixou de me beijar para me morder novamente, desta vez sobre meu seio, onde ficava o coração. Que sensação... Era inexplicável. Tudo que me restava era fechar os olhos e relaxar, me entregar a ele de corpo e alma. Apertei sua cabeça ainda mais contra mim enquanto era sugada. Ele parou e sorriu para mim. Seus olhos eram brasas, atraentes e envolventes.
– Diga. – Vlad falou enquanto mordia meus lábios inferiores. – Diga que me deseja tanto quanto eu a desejo.
As palavras que ele queria que eu dissesse eram aquelas três, muito clássicas. Meu sexto sentido dizia que eu não deveria dizê-las nem sobre tortura.
– Não. – Olhei dentro de seus olhos com a mesma intensidade, porém ao invés de calor tentei lhe passar frieza.
Primeiro confusão e depois raiva. Ele me empurrou de cima do seu colo, me jogando com toda força na cama. Tive a sensação que os estrados da cama se quebrariam com o impacto do meu corpo. Ele atravessou um braço diante da minha garganta me pressionando mais contra o colchão. Não conseguia respirar e, apesar de começar a me desesperar, sentia que isso não me faria falta, eu era imortal agora.
Ele aproximou seu rosto até ficar a menos de um centímetro do meu.
– Diga. – Ele exigiu.
– Nunca. – Consegui dizer mesmo sem respirar.
Ele se afastou só para me apertar ainda mais forte.
– Eu não vou soltá-la até que você diga.
Ri. Que vontade miserável de rir daquela cena. Eu estava com medo e ao invés disso estava rindo na cara dele. Agora entendia porque Ilona estava sempre sorrindo e zombando das desgraças à sua volta, era a forma dela de demonstrar medo? A minha com certeza era.
– Eu tenho quase certeza que se me forçar a dizer algo que eu não sinto não terá o mesmo efeito.
Sua raiva pareceu aumentar e então seu aperto relaxou. Ele saiu de cima de mim, afastou-se até a janela coberta por cortinas muito grossas. Eu ainda sentia que alguns raios de sol escapavam no horizonte. Pensei no que aconteceria se eu puxasse aquelas cortinas. Será que ele morreria? O sol daquele horário seria o bastante para matá-lo?
Vi uma capa grossa e pesada, tão longa que se arrastaria no chão até usada por um cara alto como Vlad. Luvas de couro penduradas e botas perto da porta do seu quarto. Parecia que ele ainda dava um jeito de sair no sol.
– Sabe o que aconteceria se admitisse seus sentimentos por mim?
– As memórias de Isabela voltariam? Eu me tornaria sua escrava? – Eu tentava adivinhar.
Arrastava-me para fora da cama. Meu vestido estava rasgado no chão – merda. – Olhei para a capa tentada a colocá-la. Eu tinha a desculpa de que meu vestido estava rasgado. Com ela eu poderia saltar pela janela, para o sol, e fugir.
– Nada disso. – Ele se virou para mim. Temi que ele tivesse lido meus pensamentos, mas na verdade estava falando sobre meus sentimentos ainda. Comecei a pensar o quanto sentimentos eram inúteis. Eles não me impediram de matar minha prima. Meus sentimentos me levaram a procurar o demônio quando me magoei com Finn. Sentimentos nos tornavam criaturas fracas, presas fáceis.
Ele sentou-se ao meu lado.
– Eu só ficaria contente por saber que mesmo nesta vida sua alma ainda lembra da minha.
– Isso é tão...
– Patético? – Ele adivinhou. – Eu sei. Mas, não sei se sabe disso, um dia Isabela me fez uma promessa. Disse que sempre voltaria para mim, e acho que foi por causa de sua promessa, do nosso pequeno pacto que eu tive a oportunidade de me tornar imortal e esperar por ela.
– Como me encontrou? – Isso me fez lembrar. – Quero dizer... Como sabia que eu estava aqui em Nova Orleans e veio para cá?
– Eu não sabia. Vim a convite de Alan. Eu também tinha comprado esta casa há um ano e finalmente ela havia ficado pronta para que eu pudesse habitar nela. Sabe, por séculos eu busquei por você até descobrir que no momento que eu deixasse de procurá-la, você simplesmente apareceria, viria para mim. E deu certo. Vi-te pela primeira vez na festa do duque, soube que era você por causa dos olhos. Sua aparência não é nem um pouco parecida com a de Isabela, nem mesmo a voz – ele se inclinou para mim e disse – que, à propósito, é muito mais atraente.
Revirei os olhos.
– Mas os olhos. – Vlad continuou. – São idênticos. O mesmo formato e cor. Dizem que os olhos é o reflexo da alma, e eu agora acredito nisso. Você e Isabela tinham a mesma alma. – Ele sorriu. – E suas lembranças comprovam isso.
Encarei a capa mais uma vez e me levantei sem pedir permissão. A vesti, deixei as luvas e as botas de lado porque não queria que ele soubesse o que planejava. Queria que pensasse que estava vestindo aquilo somente para não ficar sem roupas. A capa era muito grande para mim, arrastava no chão, as mangar ficavam muito além das minhas mãos. Puxei meus cabelos que estavam grudados nas costas para cima do capuz e sorri para ele.
– Por que não saímos daqui?
– Porque eu quero ficar aqui. – Ele se levantou e veio até mim. Envolveu minha cintura com delicadeza e me beijou ainda com mais carinho. Era impossível não reagir àquilo. Retribuí o beijo, mas abri um olho para encarar a janela. Será que poderia quebrar os vidros com meu próprio corpo? Sim, sentia que podia fazer de tudo. Mas e se eu me quebrasse toda e não pudesse correr? Que tipo de dor seria?
Respirei fundo enchendo-me de coragem. Precisava tentar.
– Por que não tira esta capa e começamos de onde paramos? – Vlad envolveu o lóbulo de minha orelha com a língua e depois o mordiscou de leve. Como aquilo era bom, mas não me deixaria levar desta vez. Tinha que usar o sol a meu favor.
Comecei a andar o empurrando comigo até a cama. O empurrei com toda minha força focando meus pensamentos em coisas sacanas e extraordinárias que poderíamos fazer naquela cama. Ele caiu deitado já rindo aprovando completamente meus pensamentos.
– Vem para cá, agora. – Ele mandou.
Eu balancei a cabeça, sorrindo da forma mais diabólica e confiante que pude.
– Hoje não querido. – Me virei em direção à janela e me joguei com toda força.
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