Far Away
1 Grief
Notas iniciais

Dor (latim dolor, -oris) Sensação emocional ou psicológica que causa sofrimento.
Kuroko arregalou os olhos, levantando-se suado da cama. Seu corpo estava molhado, as mãos trémulas, a respiração distorcida. Os olhoscaíramum pouco, e ele parou de arfar, colocando as mãos molhadas no rosto, tampando sua face. Ele não gostava de pesadelos. A visão falhou, o mundo ficando borrado por alguns segundos. Tentou se lembrar de quem era, de onde estava, do que gostava— era uma maneira para esquecer os pesadelos.
Ele era Kuroko Tetsuya, um francês que havia mudado para aAlemanha para se proteger. No caminho, encontrou duas crianças— um par de irmãos, com não mais de 10 anos, que pareciam estar fugindo dos nazistas. Ele os acolheu, fingindo que eram todos franceses, e até então estava tentando proteger eles. Estava em sua casa, dormindo. Ele gostava de...o que ele gostava? Ah, sim. De seus protegidos, Kagami e Kise.
Ele já havia esquecido do sonho, a atenção dirigida para as perguntas. Elas pareciam mais difíceis do que o normal. Do que ele realmente gostava? Quem ele realmente era? Onde ele realmente estava? Tentou ignorá-las, mas elas eram piores do que seu sonho. Voltou a sua posição ao dormir, fechando seus olhos contra sua vontade, por mais que seu corpo ainda estivesse trémulo. Puxou a coberta sobre a cabeça, e forçou-se a dormir.
赤☂黒
— Kurokocchi, acordaaa~.— resmungou o pequeno loiro, balançando o mais velho com um bico.— Kurokocchiii~.— ele deitou-se no peito do mais velho, soltando um bocejo, enquanto Kagami observava a cena de longe, um avental no corpo.— Kurokocchi~!— o bico na face do pequeno logo se transformou em um sorriso inocente quando viu os olhos do azulado se abrirem lentamente.— Kurokocchi, Kagamicchi fez café-da-manhã para a gente~!
Kuroko esboçou um sorriso, levantando-se com cansaço da cama. Ele não tinha conseguido dormir bem— os sonhos continuaram a assombrá-lo, não importava quanto ele tentou se livrar deles. Os olhos estavam mais cansados do que o normal, e por mais que Kise não tenha percebido isso, Kagami percebeu.
Kise arrastou o maior para a sala animadamente, contando o que tinha acontecido antes dele acordar. O loiro havia parado na frente da mesa na cozinha, apontando-a para Kuroko, um sorriso animado no rosto, os olhos cintilando.— Kagamicchi fez um café-da-manhã delicioso só pra você! Tem leite da casa ao lado e tem até mesmo ovos!— Kuroko assentou-se na cadeira próxima a mesa, pegando os talheres preparados para ele, colocando cada pedaço cuidadosamente na boca.
— Kagami-kun. Venha aqui.— chamou-o, e o ruivo se aproximou, o rosto levemente corado. Kuroko sorriu para ele, pegando um pouco do ovo com seu garfo e entregando o mesmo para o ruivo, que abocanhou a colher com um pouco de vergonha.— Kise-kun, você também.— sorriu, e o loiro aproximou-se animadamente, pegando um pouco do ovo com suas mãos, abraçando o azulado logo em seguida.
— Kurokocchi, daisuki--— eles foram interrompidos pela batida da porta, a qual deixou Kuroko mais alarmado do que antes. Kagami estreitou os olhos, e Kise deixou escapar um guincho, apavorado.
O azulado dirigiu um sorriso encorajador para eles. O sorriso não era verdadeiro.— Vai ficar tudo bem.— ele dizia isso para si mesmo. Novamente, seus sonhos viam te assombrar. As mãos ficaram repentinamente trémulas quando a batida ficou mais forte. O rosto começou a ficar suado, e ele suspirou, contando até três, tentando deixar seus sonhos passarem.
Kuroko Tetsuya. Em casa. Kagami e Kise. Sua mente tentava enfiar as palavras em sua cabeça, mas nada parecia dar certo. Mentiroso. Ele estava realmente falando a verdade? E se não fosse a resposta certa? Mentiroso. A batida começou a ficar mais forte, ecoando na cabeça do azulado, até que ele despertou com a mão de Kagami segurando seu braço.
Ainda trémulo, ele se soltou do ruivo, dando passos lentos, que emanavam insegurança. As mãos pingavam de suor, mais trémulas do que de noite. E se tudo acontecesse de novo? E se seus sonhos virassem realidade? Mentiroso. E se essa não fosse a resposta certa? O que ele faria? Sua mão chegou próxima a maçaneta, e o azulado abriu-a, a mesma quase escapando de suas mãos.
Seus sonhos...e se fosse tudo verdade?
A sua frente, estavam três soldados alemães: dois de trás, como se guardando o que estava em sua frente. O cabelo dos dois era extremamente peculiar: um era roxo, e o outro, azul-escuro. Claro, ele não poderia negar que o seu era pior.
E ali, em sua frente, estava seu maior pesadelo— a figura baixa, porém mais alta que ele, os cabelos vermelhos espalhados pela cabeça, os olhos heterocromáticos fitando seu rosto com um ar superior. Sim, ele sabia quem era aquele. Akashi Seijuro, um dos mais novos recrutas. Ele dirigiu um sorriso quase que galante para o azulado, que fez os pelos de sua nuca se arrepiarem.— Ah, olá, Tetsuya. Vim checar, como sempre. Como vão Kagami e Ryouta?
Não, não, não...ele tinha que se acalmar. Mentiroso. Kuroko Tetsuya, casa, Kagami e Kise. Kuroko Tetsuya, Kuroko Tetsuya, Kuroko Tetsuya, Kuroko Tetsuya...
Quem ele realmente era?
赤☂黒
Akashi Seijuro adorava checar a casa do azulado. Primeiramente, ele gostava das reações de Tetsuya sempre que falava algo, ou sorria, ou ria alto. Segundo, ele era gentil demais. Quem sabe o que estava escondendo? E se os dois garotos que tinha, Ryouta e Kagami, fossem na verdade judeus?
Ele não poderia dizer que aceitava o que Hitler dizia. Mas também não conseguia negar— um país sem os fracos seria perfeito. Um país puro. Perdedores são negados, somente vencedores podem viver. Sim, isso é atrativo. Foi uma das razões porque se juntou ao exército.
E Tetsuya era uma das pessoas mais interessantes de se investigar.
Akashi conseguia ler seus sentimentos tão facilmente. Era tão divertido. Naquele dia, quando avistou o rosto suado e as mãos trémulas do azulado, teve certeza que ele tinha sonhado algo ruim. Tinha certeza que algo estava se realizando. Ah, que perfeito. Ele entrou na casa do azulado, sem se importar se foi convidado ou não, logo avistando Ryouta e Kagami.
— Ryouta, Kagami.— deu um aceno de cabeça para eles, abaixando-se para que ficasse na altura dos dois. Um sorriso tomava seu rosto, e ele pode perceber que Kagami encarava-o como se quisesse proteger alguém. Raiva. Isso, mais raiva, mais dor...ele queria isso. Seu sorriso se aumentou ao ver o olhar inseguro de Ryouta.— Como vocês estão? Eu estou bem. Vocês por acaso viram alguém escondendo algo? Se viram, podem falar comigo. Posso muito bem ajudar vocês.— mais dor, mais raiva. Mais, mais, mais, mais.— Pois bem. Parece que vocês não viram nada de suspeito. Preciso de falar com Tetsuya.— Muito mais. Ele sentiu a aura que Kagami emanava; raiva. Isso. Mais. Muito mais.
— Tetsuya. Venha comigo. Tenho que conversar com você.
赤☂黒
— Do que você precisa dessa vez, Akashi-kun?— Kuroko perguntou, a porta do quarto trancada no caso de alguém quiser ver o que estava acontecendo.— Você não veio aqui duas semanas atrás para a revista? Achei que só teria outra daqui a uma semana.— o azulado fez de tudo para disfarçar seu nervosismo, o que não pareceu funcionar, porque Akashi continuava com seu sorriso estranho.
O avermelhado abriu ainda mais o sorriso.— Você sempre me pareceu suspeito, Tetsuya.— disse, saindo da posição atual, encostando na parede. Aproximou-se cada vez mais de Kuroko, o qual sentia uma mistura de sentimentos. Quando o avermelhado estava próximodemais,deu uma risada baixa que arrepiou Kuroko por inteiro.— E interessante. Extremamente interessante. — as mãos do azulado começaram a tremer novamente, e ele tentou esconder isso, mas não passou despercebido por Akashi.— Você teve pesadelos essa noite, não teve? O que você faria se eles se tornassem realidade?— ele se afastou novamente, rodeando Kuroko com um sorriso no rosto.
Kuroko Tetsuya, Kuroko Tetsuya, Kuroko Tetsuya, Kuroko Tetsuya--— Eu...não foi nada de mais, Akashi-kun. Não se preocupe.— Kuroko Tetsuya. Mentiroso. — Eu já estou bem novamente.
— Porque suas mãos estão tremendo?— ele sussurrou próximo a orelha do outro, um sorriso maldoso no rosto.— Porque você está suando? Deve ter algo errado com você, Tetsuya, agindo tão estranhamente.— Kuroko estava prestes a explodir. Ele tinha medo de responder.
E se a resposta estivesse errada? E se fosse tudo uma ilusão? O que era tudo? Quem ele era? Onde ele estava? Do que ele gostava? Eu sou Kuroko Tetsuya, não sou? pensou, mas uma parte de sua mente ainda o interrogava. Será mesmo? Ele parou repentinamente de tremer quando Akashi riu novamente. Ouviu o barulho da porta abrindo, e os passos do avermelhado foram lentamente se distanciando.
— Quem é você?— ele gritou de longe, sorrindo mais abertamente, e Kuroko questionou a si mesmo se ele estava sonhando ou se Akashi estava lendo sua mente.— Adeus, Tetsuya. Voltarei diariamente a partir de hoje.— Kuroko ouviu a porta fechar, e caiu de joelhos, tremendo mais do que antes. Estava totalmente molhado, suas roupas chegavam a colar em seu corpo. Como somente uma pessoa conseguia mexer tanto com sua mente?
A questão ainda tamborilava em sua mente, por mais que tentasse esconder. E logo o modo de se acalmar virou um dos jeitos de entrar em desespero.
Quem eu sou?
Fale com o autor