Fantasma - Faces do Espírito
3 O homem marcado
Notas iniciais
– Quando era rapaz, na minha terra natal, conheci um sujeito que o viu. – Começou Carlos.
– Na Espanha? – ironizou Pedro.
Carlos deu um sorrisinho forçado enquanto murmurava um “Quase isso” revelador.
– O nome dele era Rúben, quando eu o conheci já devia ter uns cinquenta anos, mas ainda estava em ótima forma, trabalhava na construção civil, carregava sacos de cimento como se fossem travesseiros. Uma vez eu o vi separar uma briga apenas levantando os dois sujeitos no ar. Não era um cara com quem você gostaria de ter problemas. Dizia que tinha viajado o mundo todo trabalhando em navios, mas se contava à boca miúda que ele tinha sido mesmo era um desses piratas modernos, sabe? Desses que abordam navios de carga e desviam da rota pra pilhar e vender no mercado negro.
– Ele tinha uma marca esquisita, bem aqui no rosto. Eu era muito novo na época, por isso nunca olhei ela de perto, ficar encarando um cara daqueles podia ser perigoso, mas tinha muita vontade de saber que marca era.
– Um dia, sem nenhum motivo especial, ele me chamou pra uma cerveja, sendo que já estava várias garrafas à minha frente. Ele bebia rápido. Parava olhando pro nada com um ar meio aéreo, como se estivesse muito longe dali. Falamos de futebol, de mulheres, do governo e de outras coisas. Então de repente ele me olhou e disse muito sério: Você tem vontade de ganhar o mundo, não é? É sim. Dá pra ver nos seus olhos, dá pra ver que você não se contenta com essa vidinha.
Eu também já tive essa ânsia de ir. Já fui jovem e fiz muita besteira. Não me olhe com essa cara de inocente, todo mundo sabe o que eu já fiz nessa vida, mas vou te dizer uma coisa que ninguém sabe, vou te dizer porque voltei pra cá.
Estávamos abordando um navio de carga no Golfo do Áden, éramos em 13; já tinha perdido as contas de quantos desses serviços eu tinha feito. Era sempre a mesma coisa: seguir aqueles navios grandes e lentos numa pequena lancha, ir à bordo, render a tripulação, colocar os caras num bote e levar o navio com carga e tudo.
Estava tudo nos conformes, eu e mais dois estávamos com a tripulação na cabine de comando enquanto os outros vasculhavam o navio. De repente ouvimos tiros e o rádio explodiu com todo mundo gritando ao mesmo tempo, pedindo socorro, pedindo misericórdia... uma a uma as vozes foram se calando até que só restou silêncio...
Olhei pra fora e vi um sujeito com uma roupa esquisita de pé num dos contêineres no outro extremo do convés. Antes que pudesse apontar a arma, ele desapareceu, como se tivesse se desfeito no ar...
Aí um dos caras que estavam comigo, um somali, começou a dizer “Fantasma” “Fantasma”... foi nessa hora que a porta abriu e lá estava ele! Deu pra entender? O cara atravessou o navio todo como quem atravessa uma rua e entrou pela cabine a dentro! Ia atirar nele, mas a metralhadora voou das minhas mãos antes que eu notasse que ele sacara suas armas!
O somali se ajoelhou com as mãos pro alto e o outro, que estava mais perto da porta foi lançado longe. Eu fui pra cima daquela... daquela coisa disposto a parti-lo ao meio... mas cada soco que eu dava só encontrava o vazio enquanto ele ia se esquivando mais rápido do que seria possível pra um homem... foi aí que senti minha cabeça explodindo e tudo ficou escuro...
Quando voltei a mim, estava amarrado com os outros e com essa marca no rosto...
– Foi aí que finalmente olhei bem pra marca que ele tinha no rosto: era uma CAVEIRA!
Por mais que eu viva com dificuldade, posso até estar morto de fome, nunca mais volto para o mar! A marca do Fantasma está em mim, já tentei tirá-la, mas ela não sai, nunca sairá e eu penso que...
Jack explodiu numa gargalhada irônica: – HAHAHA! Um sujeito bebe demais e começa a inventar histórias pra um rato de praia tonto demais pra perceber que foi enganado!
– E a marca? Como explica aquilo? – disse Carlos irritado.
– As pessoas veem cachorros nas nuvens, rostos em Marte, Cristo nas cascas de árvore...
– Ah, vai pro inferno!
Jack se levantou com raiva; Carlos também. Retalho e Pedro evitaram que os dois se agredissem lembrando para quê estavam ali. Todos se sentaram com os ânimos exaltados.
Em meio ao silêncio que reinou entre os quatro era possível sentir que a tensão estava aumentando. Depois de um tempo, Pedro disse:
– Eu vi o Fantasma uma vez...
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