Notas iniciais
Olá~
Ok, não me matem. Eu sei que demorei horrores dessa vez. É que depois do último capítulo eu viajei, e quando eu finalmente voltei e fui escrever... veio um maldito de um bloqueio. E aí aulas, e provas e... Gyaaah! Eu sinto muito! ;A;
Mas finalmente consegui parar para terminar o capítulo.
Aliás, eu escrevi em três dias diferentes. Então alguma variação no ritmo é por causa disso, orz.
Obrigada a todas que mandaram reviews. Elas me deixam feliz e saltitante~~
"Tilliten" significa "Confiança" em norueguês.
Boa leitura. Nos vejos nas notas finais.

Mathias estava terrivelmente silencioso. Havia conseguido uma amostra do tal silêncio na noite passada, e de alguma forma não se tornara menos perturbador de maneira alguma. Se Lukas soubesse que isso o incomodaria tanto, ele nunca teria desejado com tanto fervor que o dinamarquês calasse a boca. Ali, sentado no chão e o fitando com aqueles olhos faiscantes, ele parecia estar pensando.

Assustador.

Ele tentou ignorar. Mas sentia o peso daquele olhar sobre si, e devolvia o olhar vez ou outra, como que para se assegurar de que o lunático estava realmente o encarando. E estava, sempre. Lukas pensou se talvez Mathias não estivesse começando a ficar entediado por estar ali, assistindo-o conversar com as fadas. Só que também não era como se o forçasse a estar ali, ele o seguia por livre e espontânea vontade, e nem é como se o norueguês não houvesse tentado chutá-lo de sua presença, era um acontecimento diário, mas ele sempre voltava. Como se fosse muito divertido irritar alguém.

Algo estalou em sua mente. Era isso; ele só queria incomodá-lo. E, por sua vez, não iria ceder ás vontades de um idiota qualquer, de modo que voltou a concentrar-se em ignorá-lo completamente – coisa com a qual já estava pegando a prática com o tempo. Emil pairou entre os dois com sua imagem translúcida, olhando de Mathias para Lukas e de Lukas para Mathias de volta repetidamente. O fantasma flutuava ali como uma figura fora de lugar, até mesmo havia cruzado as pernas como quem busca a posição mais confortável para assistir algo muito interessante, ou tomar parte nesse algo.

– Eu acho que ele quer te dizer alguma coisa.

Comentou, com aquela sugestão implícita dentro das palavras. Lukas considerou ignorar a presença do irmão também. Só que, antes que percebesse, havia largado a conversa com as fadas, se virando para o espectro.

– Não fique agindo como se eu me importasse com os motivos questionáveis que esse idiota arruma para por em prática seus atos ainda mais questionáveis.

Mathias piscou os olhos, e ele parecia realmente confuso, pois a boca estava meio aberta e seu cenho estava um pouco franzido. São até adoráveis, Lukas refletiu, essas caras que ele faz quando não consegue entender as coisas – o que não era nem muito raro. Reprimiu a vontade de se bater; Os momentos em que ele se pegava em pensamentos censuráveis (todos a respeito do dinamarquês) estavam se tornando frequentes num nível alarmante. E o máximo que ele ousava pensar á respeito de tudo isso era que só podia ser culpa de Mathias.

– Não estava falando com você. Estava conversando com Emil.

O outro se empertigou todo, estufando o peito.

– Sobre mim?

– É – O mais alto sorriu, mostrando que aquilo o agradava imensamente. – Sobre você estar calado demais aí. Faz pelo menos meia hora que me encara sem dizer nada com essa sua cara estúpida.

Mathias abriu ainda mais o sorriso, passando a mão pela cabeça com um falso ar de constrangimento.

– Estava mesmo? Nem percebi!

Lukas levou a mão ao rosto. O momento era digno do gesto. Emil continuava os assistindo como a uma peça de teatro.

– E então?

– E então o que?

– Que asneiras você estava pensando que se desligou do mundo?

– Ah...

– Eu estou esperando, Mathias.

O dinamarquês riu. A expressão do outro permanecia neutra, mas a paciência dele não tardaria a se esgotar. Ele iria acertar Mathias com um graveto se ele não parasse de rir e não começasse logo á explicar-se. Em fato, já estava mirando a possível arma no chão.

– Venha beber comigo! Vamos? Ótimo! Vai ser muito incrível! Tem uma taverna incrível debaixo do meu apartamento! Ou tem meu apartamento incrível em cima da taverna? Haha.

Mathias vomitou todas as palavras de uma vez, já empurrando o norueguês pelas costas até o caminho que ele pensava ser o que dava para a cidade. Lukas se virou, e esticou a mão em direção á orelha do outro. E então puxou. Mathias curvou-se levemente, á medida que Lukas forçava a mão cada vez mais para baixo.

– O que você é? Um animal? Eu nunca disse que ia beber com você!

– Luuukas, está doendo!

O menor largou o outro no chão, julgando que a punição tinha sido suficiente. O dinamarquês massageou a orelha avermelhada com uma mágoa infantil estampada no rosto. O norueguês espanou as mãos, olhando o maior de esguelha.

– Eu vou.

– Vai?

– Já não disse que ia? Não me faça repetir!

Algo no tom do loiro fez Mathias perceber, milagrosamente, que o menor se referia á repetir o infeliz incidente do puxão de orelha, ao invés das palavras. Uma pena, porque pensou que gostaria de ouvi-las de novo. Ele riu energeticamente e, enquanto era guiado por Lukas até a cidade, acenou para o irmão do rapaz. Olhou na direção errada, é verdade, mas Emil devolveu o aceno mesmo assim.

Estava na metade de sua segunda caneca de cerveja, muito preocupado em estar minimamente sóbrio enquanto Mathias já não fazia ideia do quanto havia bebido, havia deixado de contar assim que chegou á casa dos dez. Apesar disso, o único efeito disso tudo era apenas um leve rubor iluminando as maças do rosto. Iluminado pela alegria de beber.

– A principio eu iria para Oslo, mas eu já conhecia a cidade. Não era para buscar novos ares? Então foi assim que a minha incrível pessoa veio parar aqui. Não é incrível, Lukas?

Mathias virou a cerveja em suas mãos, logo sinalizando para que lhe trouxessem outra. Ele ria escandalosamente, de modo que, se não o conhecesse, poderia jurar que aquilo tudo era devido ás inúmeras doses de álcool.

O Norueguês estava divagando á respeito de quanto tempo o outro deve ter passado em Oslo á ponto de conhecer tão bem a capital, desde que parecia ter a mesma orientação geográfica de uma barata tonta. Ia até comentar isso com o aludido (ou quebrar um caneco na cabeça dele, por tê-lo feito ouvir um resumo de sua vida), quando uma mulher empurrou a cerveja na mão do dinamarquês, não antes de lançar um olhar tétrico em direção a Lukas. Os olhos claros do maior reluziram, enquanto ele olhava do loiro para a atendente, quase como tivesse acabado de lembrar alguma coisa.

– Hey, o que é isso?

Ele perguntou, assistindo as costas da mulher se distanciando.

– Isso? – O menor murmurou, seguindo os olhos do outro. Talvez álcool o afetasse, no fim das contas. – Isso o que?

– Esse jeito que algumas pessoas te olham. Como se você tivesse feito algo muito errado ou algo assim.

O norueguês virou-se para o rosto do outro. Ele tinha aquele ar de curiosidade que só as crianças demonstravam. E mesmo assim estava ali. Era difícil acreditar que não tinha percebido, ao mesmo tempo em também que não era. Estávamos falando de um palhaço idiota. E foi isso mesmo que ele respondeu.

Dum klovn.

Era isso tipo de coisa que irritava á respeito de Mathias. Essa falta de percepção. Poder não entender porque é mais fácil assim. Ele observou ao redor, todas aquelas pessoas lhe lançando olhares tortos.Mas não importava. Decidiu que não importaria. Ignorância é mesmo uma benção, no fim das contas. Voltou á fitar o outro, como se estivesse ponderando se deveria contar ou não. Na verdade não fazia o menor sentido, nunca havia se aberto assim para ninguém. Não o faria para um idiota de classe maior. E mesmo que pensasse dessa forma, lá estava ele começando á contar.

– É por minha causa. Mais precisamente, minha causa e de Emil.

Lukas bebeu mais um gole de sua cerveja, sob os olhos atentos de seu ouvinte. Ele fez uma breve alusão á sua antiga vida familiar. Sobre como ele era muito pequeno para lembrar quando a mãe foi embora. Falou a respeito de como o pai ficou triste ao descobrir a morte da mulher. E, principalmente, o quanto foi uma surpresa descobrir ter um irmão, e como ele era muito desconfiado em relação a tudo. Agindo como se o pássaro fosse o único ser familiar ali, o que não deixava de ser verdade.

– Ele tinha pena do velho. O chamava de pai mesmo assim. Você não percebe de olhar, mas Emil é bastante sentimental. Contudo, nunca teve esta piedade para comigo.

Porque Lukas não compraria a mentira, imaginava. Ele jamais aceitaria isso da boca para fora. Mesmo que sempre insistisse, com o tempo, passou a se tornar apenas uma pirraça. Coisa de irmão mesmo.

Contou sobre a parte difícil. Sobre como Emil acabou morrendo. Mas Mathias não precisava ficar sabendo o quanto ele se sentiu afetado com a morte, claro. Depois daquilo, tudo pareceu descer numa escadaria de depressão sem fim. O pai nunca mais se reergueu, permaneceria de cabeça baixa até o fim de seus dias. Mr. Puffin morreu de tristeza, se recusando a comer e murmurando coisas pelos cantos da casa. Foi uma questão de tempo para que se juntasse lealmente ao seu dono.

Inicialmente, tudo havia corrido normalmente com o funeral. Algumas pessoas apareceram, rostos abstratos em roupas pretas. As mesmas palavras vazias de consolo. Desceram o caixão. Jogaram a terra por cima. As pessoas foram embora. Até mesmo o pai recolheu-se miseravelmente as suas lamúrias. Lukas permaneceu ali, imóvel, firme e inabalável. Alguns até cochicharam a respeito, como um garoto daquela idade permanecera tão sério durante o funeral do irmão?

Poderia ser dito que foi um trauma. Um choque tão grande que o rapaz acabou por se tornar frio com tudo e todos. Mas, é claro, seria uma grande mentira. Porque Lukas sempre fora assim. Nunca houve necessidade de externar seus sentimentos. Seria fraqueza. Ele apenas tinha uma forma diferente de lidar com aquilo. Ele conservou-se paciente, até que aquele a quem esperava apareceu.

Lukas Bondevik sorriu. Ele sorriu para o espectro de Emil Steilsson.

Para sermos honestos, o menino nunca fora considerado muito normal. Mas uma coisa é dizer que acredita em contos de fadas. Outra coisa completamente diferente é sair na rua conversando com o fantasma de seu irmão falecido. Achavam até ser uma brincadeira sem graça. “Como se o pai já não tivesse desgraça o bastante”, eles comentavam. Não demorou muito para que a situação tomasse proporções sérias. A ideia de que o trauma afetou a sua sanidade mental irreversivelmente deixou de provocar piedade no coração dos outros. Logo ele era aquela figura indesejada. O rapaz estranho que fala com espíritos.

Lukas esperava qualquer coisa de Mathias, menos a reação de alguém normal. Talvez por isso ele tenha conseguido se abrir tão facilmente com o dinamarquês. Poderia praticar os atos mais hediondos da face da terra, e mesmo assim o idiota o aceitaria. Era inexplicável, mais do que espíritos, fadas, trolls e qualquer outra coisa.

– Eu não tinha ideia de que as pessoas aqui eram tão burras!

Mathias riu, virando mais uma caneca de cerveja. A cena estava se tornando um déjà vu. O loiro balançou a cabeça. Francamente, não havia jeito. Mesmo que ele tenha transparecido melancolia em relação a tudo que aconteceu, não prestou os pêsames. Como se ele não estivesse no direito de fazê-lo – apesar de seus animados monólogos com um suposto Emil que tinha praticamente todos os dias.

– Elas ainda são mais inteligentes que você.

– Woah! Que cruel, Lukas! Assim você magoa meus sentimentos!

Riu novamente. Em algum momento fixou seus olhos nos do outro, e ficou impossível de desviar. Porque eles eram tão bonitos. Eram de um tom de azul opaco, gélido e firme. Como um lago congelado. Algo estranho de se pensar, pela estória que havia acabado de ouvir. Mas eles eram exatamente tão belos quanto lagos congelados. Ficou pensando em dizer para Lukas, ou se mantinha o pensamento para si mesmo. O que ele não fazia muito, mas parecia algo precioso o suficiente para dizer mais tarde, em um momento mais oportuno. Não soube dizer que momento oportuno era esse que estava esperando, nem desde quando esperava para fazer alguma coisa. Simplesmente permaneceu encarando.

– O que foi? – Lukas perguntou, com o tom de voz derramando sarcasmo – Você vai me beijar?

Não soube se Mathias captou o sarcasmo. Mas soube que ele o beijou.

Notas finais
Glossário:
Dum Klovn= Palhaço estúpido
(vocês com certeza notaram isso, mas beleza)
Curiosas sobre o final do capítulo? *levatiro* Ok, calma. Foi algo necessário. Não assasinem a autora. O ritmo da estória vai continuar aumentando.
Estamos nos aproximando do fim da fanfic. Não tenho certeza, mas acho que são mais dois ou três capítulos (pode ser mais, estou fazendo uma estimativa nas cegas aqui *apanha*)
Eu não estou muito segura sobre este capítulo, apesar de que há certos pontos nele que gosto muito~~
O que acharam?
Qualquer tipo de erro, é só avisar ^^7
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