Fanfiction
2 Capítulo 2
Notas iniciais
A garota loira se endireitou e me encarou com ar entediado. Ela tinha olhos castanhos bem claros, quase cor de mel, sobrancelhas feitas que lhe davam uma eterna expressão de aborrecimento e uma boca fina preenchida com batom rosa tão forte que poderia acabar me cegando se eu olhasse demais para ele. Ela desmontou o pau-de-selfie e colocou o celular no bolso do short curtíssimo, parecendo ignorar minha existência.
— Vai ficar ai de boca aberta até quando, querida?
Me assustei e fechei rapidamente a boca. Estranhamente, a voz dela não era carregada de ironia, nem nada assim, era apenas uma simples pergunta. A garota estava realmente cem por cento nem aí para a minha presença e eu não sabia se isso era ótimo ou poderia vir a ser um problema.
— Hã... Eu sou a Nyah. Nyah Fanfiction, muito prazer. Acho que vou ser sua colega de quarto. – disse, sorrindo.
— Não por muito tempo, eu espero. – ela jogou o cabelo para o lado. Não olhava para mim, apenas deslizava o dedo pelo celular. – Estou tentando trocar com uma garota do dormitório C, para poder ficar junto com a minha melhor amiga.
Ela estendeu o celular para que eu pudesse ver. Uma foto ocupava todo o espaço da tela, mas não dava para definir muito bem as cores ou onde elas estavam, por causa da quantidade absurda de efeitos usados. Mas eu pude reconhecer a garota do cabelo azul que eu tinha visto mais cedo, a tal da Twi, abraçada com a loira parada na minha frente, ambas fazendo o sinal da paz.
— Que bonitas. – disse, tentando soar amigável.
— É claro que sim. Temos 998 curtidas, obviamente estamos bonitas. Você pode me adicionar, mas só se for curtir essa foto também e todas as outras que eu postar. Nossa meta é mil curtidas, sabe? – Ela voltou a deslizar o dedo pela tela. – Me procura depois, meu nome é Face Book.
Franzi o cenho, meio confusa. Não utilizava muito as redes sociais, somente aquelas que eu precisava para postar minhas historias. Face sentou em uma das camas, que eu imaginei que ela já havia tomado como dela o que era justo já que havia chegado primeiro, e começou a digitar. Suas malas estavam intocadas em um canto, provavelmente por que ela esperava sair dali logo. Dei de ombros e coloquei as minhas em cima da outra cama, já abrindo-as para colocar tudo no lugar.
— Você se importa se eu colocar uns pôsteres aqui? – perguntei.
—Faz o que quiser.
Talvez fosse até bom que ela se mudasse. Eu não queria uma colega de quarto que desse respostas curtas e frias para as minhas perguntas, nem que fosse distante dessa forma. Ainda queria alguém que ficasse acordada até tarde comigo comendo pipoca e vendo meus filmes favoritos. Face não parecia esse tipo de pessoa, a menos que eu não me importasse dela postar cada cena do filme e o que estava sentindo com aquilo a todo momento.
Coloquei meus pôsteres dos meus shipps favoritos na parede do meu lado do quarto, aprovando a organização. Nem todos os livros couberam na prateleira disponível, por isso coloquei alguns no armário, junto com meus mangás. Já as minhas roupas couberam perfeitamente nas três gavetas que seriam minhas, até sobrou espaço, onde arrumei meus boxes de séries completas. Fiz um pequeno santuário na minha mesinha de cabeceira para o meu OTP, com todos os objetos promocionais que eu já havia comprado deles. Meu lado do quarto já parecia meu pequeno paraíso na minha casa.
— Você é esquisita.
Sobressaltei, pois não esperava que Face estivesse prestando atenção no que eu estava fazendo. Durante a meia hora que havia se passado, ela tinha permanecido calada.
— Desculpe?
Olhei para trás, mas ela não estava mais sentada na cama. Estava de pé com o celular estendido, dessa vez pelo próprio braço. Seu dedo foi ágil para tirar uma foto antes que eu protestasse. Fiquei vermelha instantaneamente, mas bastante curiosa devo dizer. Me aproximei para olhar por cima do ombro dela e provavelmente fiquei mais vermelha.
Face havia postado a foto com a seguinte legenda “Aki na facul esperandoh p vê a Twi, a esquisitah q ia ser minhah clg d quarto e as coisa esquisitah delah affz” . Na foto meu cabelo aparecia no canto, mas basicamente era a Face com minha parede de pôsteres e meu santuário no fundo. Coloquei as mãos no rosto, tentando me acalmar. Ela não ia ficar ali por muito tempo. Daqui a pouco outra garota viria e ai poderíamos começar de novo. Calma, Nyah, vai dar tudo certo.
— Você foi chamada para a resenha dos veteranos? – Face perguntou, ignorando a vermelhidão no meu rosto e minha indignação com ela.
— Eu... O que?
— A resenha. Dos veteranos. – ela disse pausadamente, como se eu fosse burra. – Qual é, todo mundo foi convidado! Vai ter um DJ incrível, open bar, open food...
— Desculpe, mas... Resenha não é uma descrição de algo feita com detalhes, enumerando os aspectos considerados relevantes sobre esse algo?
— É o que?! – Face pareceu achar que eu falava grego. – Cara, não. Resenha é uma festa. Uma festa pequena pra poucas pessoas, manja? Nossa, em que mundo você vive?
Ainda não estava familiarizada com isso, mas Face não se importava. Ela continuou falando sobre a tal festa, ou resenha:
— Bem, eu estou te convidando. É bom pra você já conhecer a galera. Hoje as oito, no galpão do lado do dormitório H. É 25 se você pagar agora e 30 na porta.
— E é permitido entrar lá? – perguntei, receosa.
— E eu sei lá? O que importa? Vai ser da hora.
Minha experiência como escritora me alertou que “da hora” não era exatamente um adjetivo, mas pelo visto eu conhecia menos das palavras do que eu pensava conhecer. Olhando pelo lado bom, Face parecia querer se enturmar comigo, mesmo me achando esquisita. E eu poderia conhecer mais pessoas, com o mesmo gosto que eu nessa festa. Não seria de todo o ruim. Eu precisava pensar em uma roupa para ir, mas não tinha que ser nada muito elaborado, já que como Face havia dito, a tal resenha era uma festa pequena para poucas pessoas. Devia ser algo mais casual. Depois eu perguntaria para ela com que roupa ela iria.
Isso me fez pensar em que curso ela estaria fazendo naquele semestre da faculdade. Perguntei isso a ela timidamente, temendo mais uma resposta vaga.
— Estou fazendo relações publicas. – ela informou. – Tenho mais de mil amigos na Rede, tenho que saber como lidar com todos eles.
— Ah. – era uma área bem distante do meu curso de Letras. Provavelmente não teríamos nenhuma aula em comum. – Que legal.
Ficamos em silencio novamente. Eu, tímida demais para começar um novo assunto, ela, concentrada demais no celular para tentar interagir comigo. Com um suspiro, peguei meu notebook e abri o programa de escrita para tentar terminar aquele capitulo que estava devendo para as minhas leitoras. Encarei a página em branco, sem nenhuma ideia para escrever. Tentei algo, mas me pareceu forçado e sem sal. Acabei indo procurar criatividade online e por curiosidade, entrei no meu perfil da Rede. Não haviam mensagens ou solicitações de amizade novas, apenas meu velho perfil de sempre. Fiquei passeando pela minha timeline, vendo os vídeos de gatinhos e as ultimas noticias do filme que estavam fazendo sobre meu livro favorito. Percebi que estava protelando e voltei para a tela em branco da minha historia.
Já estava anoitecendo quando Face finalmente despregou os olhos do celular. Ela se levantou e se espreguiçou, fazendo com que os peitos ficassem ainda maiores. Sem me dizer nada, ela abriu a porta e saiu, deixando as malas ali. Me senti mais confortável sem a presença dela, então liguei uma musica no meu celular e coloquei os fones de ouvido. Agora eu conseguia escrever de forma mais fluida. O bloqueio havia passado.
Consegui escrever duas paginas inteiras na hora que se passou. Parece pouco, mas nós autores sabemos o quanto é complicado escrever sequer uma pagina descente. Pensei em mudar o álbum para escrever a próxima parte, já que a musica melancólica acabaria me influenciando a ferrar com a vida dos meus personagens, para o horror das minhas leitoras. Não tinha nada mais divertido do que matar um personagem e assistir enquanto elas se descabelam e me perguntam por que sou tão cruel.
Dei um sorriso para mim mesma e me levantei, deixando o notebook de lado. Abri o frigobar, mas ele estava vazio. Anotação mental: fazer compras. Precisava encher aquilo de chocolate e refrigerante. Talvez eu devesse pedir uma pizza.
Meus pensamentos foram interrompidos pela porta se abrindo bruscamente. Face entrou, com o rosto bem vermelho, seguida por Twi que parecia tentar acalma-la. Não obteve muito efeito, pois a loira chutou a própria cama e depois as malas, gritando de raiva. Surpresa, fechei a geladeira e perguntei:
— Está tudo bem?
— Não é da sua conta, é, sua esquisita?! – Face berrou. – Por que essas coisas estão espalhadas no chão? Deixa de ser folgada, esse quarto é meu também! E esses pôsteres ridículos?! Acha mesmo que você vai decorar tudo aqui ao seu gostinho patético é? VAI SE FERRAR!
Sério, ela estava assustadora. Empurrei minhas malas que ainda estavam vazias no chão e empurrei para debaixo da cama. Além delas só tinha o suéter horroroso da minha irmã que eu havia trocado, então o guardei também. Face esbravejava pelo quarto e a cada minuto eu gostava menos dela.
— O que aconteceu? – perguntei para a Twi.
— O pedido para mudar de quarto foi negado e agora ela está #louquíssima da vida. Acho melhor você não se intrometer, para o seu próprio bem!!
Fiquei calada, assistindo face chutar tudo do lado dela do quarto e gritar consigo mesma. Então, pelo visto nada de filmes e pipoca para mim. Eu iria passar o resto do semestre letivo acordando e olhando para a cara de Face. Talvez pudesse ser pior. Será que aquilo, novamente, era culpa da falta do meu ritual diário ao acordar? Meu azar era tanto que tinha afetado até mesmo minha colega de quarto? Assustador.
— Para com isso @Face, não vai adiantar. Você pode tentar de novo amanhã. Esqueceu que hoje tem a #Resenha dos Veteranos!? Precisamos nos arrumar!
— É, tem razão. – ela disse, se acalmando. – Desculpa, miga. A gente pode se arrumar no seu quarto?
Notei que as duas olharam para mim com o canto dos olhos. Fiquei vermelha e desviei o olhar, fingindo que mexia na minha coleção de mangás. Ouvi Twi responder um “claro”, estendendo uma simples palavra para 140 caracteres e as duas saíram sem me dizer nada.
Me senti um pouco solitária, por isso liguei para os meus pais. Eles não atenderam, então imaginei que tivessem levado minha irmã para sair. Como ultima escapatória, tremendo, liguei para a Net.
“Oi, esse é o telefone de Fanfiction, Net. Eu provavelmente estou escrevendo meu primeiro Best seller de sucesso agora, então deixe um recado!”. O bip tocou duas vezes e eu senti minha boca seca. Precisava falar alguma coisa, se não ela chegaria em casa, veria que eu liguei e acharia que algo estava errado.
— O-oi Net. – disse, gaguejando. – É a Nyah. Só queria saber se... Hm...
Ouvi algo do outro lado, um terceiro bip e a voz de Net preencheu a saída de som do meu celular:
— Oi Nyah! Tudo bem?! Nossa, quanto tempo. Parece que não te vejo desde que sai de casa.
—Você não me vê desde que saiu de casa, Net. – murmurei.
—Nossa, é mesmo! – ela riu. – Detalhes. Eu sempre me esqueço.
Não. Ela nunca se esquecia dos detalhes. Net era a pessoa mais detalhista que eu conhecia.
— Mas me conta, amanhã é o seu primeiro dia na faculdade né? Boa sorte! Lembre-se de pegar pesado em Escrita Criativa, vai ser a aula mais importante para você!
— Obrigada. – disse, já achando uma péssima ideia ter ligado para ela. Onde eu estava com a cabeça? – Hã... Eu tenho uma festa para ir, então acho que vou desligar...
— Espera, a Resenha dos Veteranos? Escuta Nyah, eu acho que...
Desliguei. Eu não precisava dos conselhos da Net. Poderia muito bem me virar sozinha na faculdade. Se eu a ouvisse, seria como se estivesse repetindo seus passos da mesma maneira. E eu não queria isso.
Joguei meu celular em um canto e abri meu guarda-roupa que em breve estaria preenchido também com as roupas da Face. Tirei de lá uma calça jeans simples e uma blusa preta de alcinhas finas. Complementei com um suéter verde que eu poderia colocar por cima caso estivesse muito frio. Nessas horas que eu gostaria de que aquele site de gerar roupas que as pessoas colocam o link nas historias existisse fora do mundo virtual. De qualquer forma, decidi tomar um banho antes de me vestir. Graças a Deus o banheiro do quarto estava funcionando bem, se não eu teria que usar o banheiro compartilhado que ficava no primeiro andar. Tomar banho junto com vinte outras garotas desconhecidas? Não, obrigada.
Terminei o banho e coloquei a roupa, com o cabelo ainda molhado. Calcei um chinelo qualquer e me preparei psicologicamente para descer as escadas. Os quartos do meu corredor pareciam vazios, de tão silenciosos que estavam. Provavelmente todo mundo tinha ido para a festa. Me perguntei se não estava simples demais, tentando me acalmar ao lembrar que Face tinha dito que era uma festa pequena. Tudo ficaria bem. Minha maré de azar não se estenderia até aquela noite.
Desci as escadas praticamente voando. Steam ainda estava na recepção, jogando. Revirei os olhos e passei por ele sem ser notada. Entrei no meu carro sentindo um arrepio na nuca. Não havia uma alma viva na garagem e estava bem escuro. Será que ficava daquela forma sempre? Balancei a cabeça. Nenhum ser sobrenatural me atacaria. E caso atacasse, eu torcia para que fosse sei lá, um dos rapazes de Teen Wolf.
Assim que coloquei a chave na ignição, ouvi uma batidinha no vidro do meu lado. Dei um gritinho e fechei os olhos instintivamente. Ao reparar que nada havia quebrado o vidro e cravado os dentes no meu pescoço, abri os olhos e encarei meu possível sequestrador-psicopata-assassino.
Era uma garota. Negra, com o cabelo cacheado bem alto, sorriso grande e afetuoso e olhos castanhos escuros que refletiam a luz do meu carro. Abri a janela e ela me entregou um panfleto.
— Bazar de artes manuais semana que vem em frente ao dormitório B. – ela disse. – Você é nova aqui?
— Sou sim. – disse, ficando vermelha por causa da minha reação exagerada.
— É um prazer. Me chamo Pinterest. Que suéter incrível, foi você quem fez?
—Minha mãe. – murmurei.
— Que ótimo! Eu adoro fazer coisas eu mesma. Acho que ficam muito melhores. Então, você vai no bazar? – ela apontou para o panfleto.
— Vou tentar. – garanti. – Não está muito tarde para você ficar aqui?
— Na verdade, está sim. Mas não gosto de carros, eles poluem o nosso planeta.
Fiquei ainda mais vermelha, sabendo que quando comprei o meu, não liguei nem um pouco para saber o quanto ele poluía a atmosfera. Mas Pinterest não parecia me julgar. Tentei dar um sorriso sem graça.
— Bem, eu vou sair de qualquer forma, então quer uma carona? É perigoso andar a pé a essa hora.
— Oh, obrigada por oferecer, mas vou ter que recusar. Esse é o ultimo dormitório que eu passo para entregar os panfletos e eu tenho um encontro marcado com alguém que mora aqui.
— Tudo bem então. – relaxei. – Te vejo por ai.
— Espero que sim. – Pinterest piscou para mim e seguiu andando e colocando panfletos entre os parabrizas dos carros.
Respirei fundo e comecei a dirigir. Viu, apenas uma aluna normal que me tratou bem. A faculdade não seria de todo ruim, mesmo que houvessem pessoas completamente irritantes nela. Eu não precisava me preocupar com meu ritual diário bobo, era só falta de sorte de um dia, só isso. Eu ainda conheceria muitas pessoas boas. Sorri para mim mesma e pisei fundo em direção ao dormitório H.
Cara, como eu preferia ter ficado em casa escrevendo.
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