Fancy.
1 Único.
Notas iniciais
O sorriso preencheu meus lábios antes mesmo que eu pudesse me dar conta. Então percebi que ele corria novamente em cuja direção eu me encontrava sentada; os braços levemente abertos como os de uma criança correndo para um abraço. Uma criança que ultrapassava meu 1,68m facilmente, e que — inspirando além de seu perfume arrebatadoramente singular — continha um leve cheiro de álcool e tabaco. Sem falar em sua malícia implícita...
Alex gritou ao chegar ao lado extremo do parque, soltando uma risada gostosa que ecoou entre as árvores e me fez pensar que, de alguma forma, elas também riam. Ele estava comemorando a vitória em mais uma partida do jogo, fosse o que fosse aquilo que estava jogando. Logo corria novamente na direção contrária, desaparecendo entre as sombras das árvores enquanto o crepúsculo se manifestava lá no alto.
Pela primeira vez me perguntei o que realmente estava fazendo ali. Sabia que estávamos juntos, mas ainda sentia como se estivesse de penetra naquela brincadeira. Suspirei, arrumando as cortinas de meus cabelos que uma rajada de vento fizera o favor de bagunçar.
Virei-me ao som de um risinho fraco. Alex me encarava fixamente a pouco menos de oito metros de distância; Seus orbes eram dois buracos negros sugando minha respiração, ele parecia se divertir com esse fato.
Um convite silencioso fora feito. Meu coração simplesmente corria de mãos dadas com uma adrenalina súbita. Então, seus dedos gélidos deslizaram dos meus para obter vantagem, me dando algum espaço para sentir algo que não fosse o torpor de todas aquelas observações.
Nossa corrida para lugar nenhum ultrapassou os limites da alameda, substituindo os arbustos por edifícios. Alex ficara para trás havia algum tempo, o que me fez diminuir a velocidade só para que alguns segundos depois ele passasse por mim em uma bicicleta.
Safado.
Um sorriso sacana brotara no canto dos seus lábios enquanto ele acenava maldosamente, me deixando cada vez mais para trás. Apesar disso, não pude deixar de pensar no quanto ele ficava sexy andando de bicicleta naquele terno azul-marinho... Parei. Estava ofegante como nunca e sabia que se não fosse por aquela brisa noturna estaria mergulhada em suor. Fechei os olhos, absorvendo algum frescor o tanto quanto me era possível.
— Ei! — Gritou ele em meio a sua rouquidão característica.
Estava parado, um pé apoiado no chão, olhar fixo por sobre o ombro. Mordi o lábio inferior, me sentindo uma completa idiota. Era apenas uma deixa para que eu o acompanhasse.
— Qual o propósito disso? — Perguntei, dando passadas rápidas e curtas.
— Não sei... — Respondeu divertido. — Mas você gosta, não é? Principalmente por estar comigo.
Alex parara outra vez. Virei-me. Ele mantinha feições sérias, mas a julgar pelo quase imperceptível comprimir de olhos, soube que se tratava de uma provocação. Apesar de nem longe estar errado, fiquei rapidamente irritada com aquilo. Ele era só mais ousado do que eu presumira. Só.
— Estou errado, Am? —
— Não sei. — Proferi com um sorriso amarelo, voltando a caminhar com passos apertados.
Perdi a noção do tempo enquanto perambulávamos incansáveis. Até o momento ele não se pronunciara sobre o veículo que estava usando. Adentrei um beco, arrepiando-me com a súbita mudança de atmosfera. Virei em outro ainda mais estreito, conhecia bem aquele “labirinto”.
A cada passo o beco se tornava mais e mais apertado. Abri os braços, quase tocando ambos os muros laterais enquanto me enfiava em um caminho ainda pior que os anteriores. Eu sabia que aquilo não iria dar certo, mas tentar convencer Al estava fora de questão. Aquela era a corrida dele, o que significava que a vitória era também.
Gargalhei alto enquanto dificultava as coisas para ele, não demorou muito até que um baque estrondoso soasse as minhas costas como consequência de uma trapaça.
— Filha da puta! — Ele ria, assim como eu.
Mas não por muito tempo.
Corri para a saída, logo notando uma movimentação próxima. Havia no mínimo sete pessoas com suas latinhas de cerveja e pulseiras de néon. Ela estava entre eles, destacava-se facilmente. Isso deixava clara a preferência de Alex, e, bem, acho que ele vencera no fim das contas. Forcei um sorriso e meu coração perdeu uma batida, eu não podia esperá-lo me alcançar. Quero dizer, não faria qualquer diferença. Ele a tinha, outra vez.
•••
O cansaço me preenchia aos poucos, mas sabia que se parasse de andar seria pior. Duas mãos tocaram-me as costas, as palmas gélidas e macias esticadas me acariciaram, fazendo um caminho até meu colo.
— O que está fazendo? — Minha voz era um sussurro.
Se despedindo, é claro. Disse uma vozinha na minha cabeça, eu quase acreditei... Al me puxou para trás, apertando-me contra seu peito.
— Te abraçando. — Sussurrou com simplicidade no seu tom de voz mortiferamente único. Merda, Alexander.
Nós ficamos ali parados durante algum tempo. Então ele me soltou lentamente como que contra sua vontade. Sentei-me no primeiro degrau do vestíbulo, fez o mesmo.
— Por quê? — Indaguei, referindo-me ao ato anterior.
— Você faz muitas perguntas. — Disse, mais para si mesmo do que para mim.
— Por quê? — Insisti, importuna.
Seus olhos me fixaram longamente; estavam sérios. Não consegui desviar. Comecei a pensar que não fosse mais responder.
— Gosto de você, filha da puta. — Era o mesmo barítono que usara ao revelar o abraço. Um rasgar aveludado. Suas palavras continham uma emoção estranha, porém seu olhar era o mesmo.
Não soube lidar com aquilo. Nossos lábios roçaram e se apertaram. Um novo convite foi feito. E nossas línguas dançaram por um tempo. Era tão bom senti-lo daquela forma. Mais do que só tão bom, na verdade. Não era um beijo doce, nem voraz ou excitante. Uma mistura dos três, na verdade. “À La Alexander.”
Depois que o ar se fez necessário, ele riu e me puxou para perto. Deitei minha cabeça em seu ombro, reorganizando os pensamentos e a respiração.
— Você é engraçada, Am. — Riu ele. — Vive fazendo perguntas, mas não sabe lidar com as respostas. E mesmo sabendo da verdade, continua sem dizer o que realmente importa por medo.
O silêncio que se seguiu estava longe de ser incômodo. Pensei no que ele disse repetidas vezes. Fiquei feliz por não ter usado o mesmo sorriso sacana da outra vez, ele estava tão certo.
— Também gosto de você, Al. — Confessei num murmúrio.
E lá estava o sorriso maroto, seguido por um “Eu sei.” Mas eu não podia ficar irritada, de qualquer maneira. Porque sabíamos que era mais do que aquilo.
Notas finais
Aceito críticas produtivas, a próposito. :3
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