Famosas Últimas Palavras
1 Últimas palavras
O tempo estava um pouco úmido,
E a temperatura parecia baixa.
As coisas adquiriram uma cor escura e pareciam que não tinham o brilho natural.
No leito daquele hospital,
Eu sabia que meus últimos minutos estavam se aproximando,
Mas minha alma jovem recusava-se a pensar.
O fato é que eu estava quase só, apenas alguns parentes circulavam o hospital,
E minha mãe, sempre com lágrimas, recusava-se a aceitar o inevitável.
Eu era tão jovem, e tinha tantas coisas para descobrir.
Mas, certamente, todas minhas descobertas tinham acabado desde meu internamento.
E agora, tudo o que me restava, eram lembranças.
Lembranças engraçadas, tristes, envergonhadas e felizes.
Talvez eu não tivesse muitas, porque a maioria delas eu não tinha realmente feito.
E agora, eu só tinha vontade de voltar para casa e começar tudo de novo.
Voltar para casa e fazer tudo o que queria ter feito, mas eu não posso.
O tempo não dá segundas chances, e além disso ele não volta.
Lembrei-me das risadas que dei com meus amigos de infância,
Da brincadeira mais divertida que brinquei com minha prima,
Da festa do meu melhor amigo de infância, que talvez nem lembrasse mais de mim.
Cantei por um tempo o refrão da minha música favorita, que embora sem sentido,
Me fazia sentir bem.
Lembrei das viagens em dias chuvosos, e do meu pai cantando dirigindo.
Lembrei das apostas que perdi, e das vezes que briguei com os professores.
Era tudo tão perfeito, e só agora eu percebi.
Lembrei-me das baladas que não fui,
Dos dias em que não falei besteiras com meus colegas,
Das vezes que eu devia ter dito eu te amo,
E das vezes que devia ter dito: Eu te odeio.
Lembrei das vezes que devia ter chorado,
E dos dias que devia ter rido.
Lembrei dos filmes que não assisti, dos perfumes que não senti,
E dos lugares que não visitei.
As garotas, os amigos, os recados, as histórias.
O universo, as árvores, os cães e os gatos.
Coisas tão simples, que eu ,agora, sinto muita falta.
Improvisei um sorriso,
Olhei ao meu redor e falei para mim mesmo,
Fui e sou feliz.
Porque mesmo tendo perdido tanta coisa,
Deixado tanta coisa para trás,
Eu vivi. Eu fiz coisas que adoro,
Eu cantei alto no chuveiro,
Eu cai e me levantei,
Baguncei meu cabelo,
Andei sem me importar com o que os outros pensavam
E, acima de tudo,
Eu me amei. Gostei de mim mesmo quando diziam que não deveria.
O sorriso antes improvisado, agora era verdadeiro.
Minha mãe se aproximou e assustou-se com o súbito sorriso.
Mas mesmo assim, me retribuiu.
Peguei em sua mão e a fiz um último pedido.
Pedi que ela vivesse do jeito que ela é.
Pedi também que ela amasse, odiasse, chorasse e sorrisse,
Porque isso a faria viva,
E cada vez que eu ela se sentisse viva,
Eu também estaria vivo com ela,
Sorrindo da mesma maneira,
Ou chorando junto a ela.
Porque mesmo que sós, tínhamos um ao outro.
E se eu tivesse que ir, ela teria que ficar.
Soltei sua mão e ajeitei minha cabeça na almofada.
Estava pronto para o que viesse.
A vida me fez mais forte a cada queda,
O tempo me tornou feliz porque mesmo passando, ele não se apaga.
E eu me conhecia bem.
A respiração ficou escassa,
O brilho da árvore que via da janela escureceu-se,
A luz do dia parecia não entrar mais.
Fechei os olhos.
E disse a mim mesmo:
Eu sou jovem e o mundo... ele é enorme.
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