Falta de silêncio
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O silêncio que embalava a casa soava tão tranquilo que quase nem parecia real. Se não ouvisse os “pius” em movimento dos pássaros do lado fora, poderia preocupar-me a ideia de que não era silêncio, mas falta de audição. Como podia algo tão simples quanto o silêncio se tornar algo tão escasso em nossas vidas.
Suspirei alto ao chegar na sala ao final do corredor, percebendo que tinha feito todo o percurso sem sequer respirar. Tudo para não quebrar o aquele silêncio. Espreguicei-me ouvindo o estalido de uma vértebra ou duas do alto dorso, massageei os olhos cansados com a ponta dos dedos e desejei acima de qualquer coisa me jogar no sofá macio.
O tempo era escasso e não podia me render ao cansaço, tinha ainda tantas coisas para fazer enquanto o silêncio ainda era capaz de reinar. Havia louça espalhada pela casa toda e acumulada na pia, o cesto de roupa suja estava transbordando e os lixos ficariam em igual estado assim que eu recolhesse todas as embalagens de comidas congeladas que foram esquecidas sobre a mesa e, meu Deus, sabe-se lá o que encontraria quando resolvesse dar atenção ao pó acumulado na superfície dos móveis.
A vida estava um caos. Minha irmã tinha vindo aqui duas ou três vezes com o intuito único de ajudar, mas ela tinha sua própria vida, seus próprios problemas e rotina. Não podia incluir ela desta forma nos em meus problemas; a verdade era que eu não queria mais ninguém ali. Aliás, problema não, houve os contratempos, mas não poderia classificar aquela situação como um problema, nos melhores dias bastava classificar como “falta de silêncio”.
Nos piores...
Nos piores eu me desesperava, mas voltava à realidade ao perceber que perder a cabeça não iria ajudar em nada. Contratar uma auxiliar, talvez. Pelo menos para colocar a casa em dia, mas sempre dessistia ao lembrar que mais uma pessoa dentro de casa faria mais barulho. Eu não costumava ser tão neurótico por silêncio, ou a falta do mesmo, mas quando refletia minha vida percebia que este detalhe, nem sempre devidamente aproveitado, era o grande divisor de dias bons dos dias ruins.
Infelizmente ainda havia uma parte muito grande mim que não conseguia fazer o que era preciso para mudar aquilo. Não conseguia abrir mão ainda dos dias ruins.
No momento, a única coisa que conseguia fazer era aproveitar o silêncio para “catar” as coisas fora do lugar pelo meu caminho. Havia uma máquina de lavar louças e uma para lavar as roupas, mas não podia ligar sem fazer barulho; e barulho atraia mais barulho, foi minha primeira lição nesta nova vida ao seu lado.
Então restava apenas a opção de encher a máquina de louças, separar as roupas e, com sorte, teria tempo para trocar os sacos de lixo ante do tempo de silêncio acabar. Matutar sobre como um plano perfeito tinha terminado daquele jeito, incompleto.
— E que está me transformando em um experimento vivo de transmutação de ser-humano para um zumbi. – disse baixinho para o reflexo que apareceu sobre o espelho quando me abaixei para pegar o cesto de roupa suja.
Quatro meses. Quatro meses. O que eram quatro meses?
Um terço de um ano. O início do segundo novo trimestre. Com certeza muito pouco tempo para conviver com uma pessoa, e com mais certeza ainda, era muito pouco tempo para superar a ausência de outra. Aquela falta de silêncio deveria ser tarefa para dois.
Foi sonhado por dois, planejado por dois, realizado por dois. Não seria apenas falta de silêncio se fossemos dois. Mas era difícil, por momentos até impossível, ressaltar a felicidade da existência de alguém quando sua data de chegada era a mesma data de partida de outra pessoa.
O plano era transformar dois em três. Mas no fim o que ficou foi apenas um, pois de nós dois que ficamos sobrará sempre apenas metade. Seríamos para sempre incompletos.
E mais uma vez, sem que houvesse tempo suficiente para fazer nem um terço das coisas acumuladas, o silêncio foi quebrado. Desta vez, como em muitas, nem tempo de encaminhar alguma coisa do trabalho deu tempo.
Por que você chora tanto? Você nem a conheceu.
Aquele som, agudo e choramingado, um choro verdadeiramente irritante aos ouvidos. Quatro meses deste choro nos meus ouvidos. Quatro meses me perguntando se seria mais fácil ter forças para ser bom se ela estivesse aqui comigo.
Antes desta “falta de silêncio” eu costumava ser um homem bom. Conseguia dormir tranquilo à noite com minha consciência e meu papel na comunidade. Tinha uma vida equilibrada, feliz e completamente satisfatória. E uma esposa que completava o equilíbrio com a felicidade emocional.
Todos os nosso planos, fizemos juntos, todas as nossas conquistas, batalhamos juntos. E antes desta “falta de silêncio” todas as forças poderiam ser movidas se estivéssemos juntos. Antes não havia cansaço nem noites em claro, meu sono era tranquilo e não cochilos de vinte minutos em uma cadeira ao seu lado. Antes eu sorria mais, pensava e trabalhava melhor, e claro, antes eu nem ligava muito para o silêncio.
Na verdade, devo confessar, que antes, eu acreditava que ouvir o seu choro seria motivo de felicidade por trás do cansaço. Imaginava-me fazendo brincadeira sobre de quem seria a vez de levantar, mesmo que já soubesse que ela sempre me faria levantar de madrugada para aquecer sua mamadeira. Eram planos felizes sobre esta mudança.
Antes de você chegar eu sonhava em apenas “ser pai”. Chorava sozinho ao imaginá-lo nos braços dela, alimentando-se de seu peito. Antes eu me perdia em devaneios tentando imaginar quais traços você herdaria de mim, quais dela.
Antes de você chegar, acredite, eu não tinha olheiras, nem rugas ou esse ar cansado pesando sobre os olhos. Antes de você chegar a harmonia não era uma tarefa e sim consequência da vida que tínhamos nesta casa.
Antes de você chegar eu fazia planos para a sua chegada. Quando você finalmente veio, eu só consegui focalizar minha energia em me questionar, porque.
Sua vinda para este mundo deveria ser regada de expectativas e felicidades, mas o meu choro ao ver-te pela primeira vez através da parede de vidro não foi de felicidade. Eu sinto muito. Não foi intencional, nós não nos conhecíamos ainda e a pessoa que foi embora era o ponto de equilíbrio da minha vida.
Como já disse, antes de você chegar eu era uma pessoa boa. Não podia vocalizar que a dor da perda era maior do que a felicidade da sua chegada. Antes de você chegar, tudo fazia sentido.
Agora eu passava a maior parte do tempo pendendo entre cansaço e loucura, rancor e amor por você. Não foi sua culpa, você foi sim planejado e feito com amor. Talvez por isto você chorasse tanto, pois cansado, no seu silêncio eu me lembrava da ausência dela e quando você chora eu vejo ela em você.
Tão pequeno, pois veio antes do tempo. Chorava sempre que acordava e sorria imediatamente assim que me via. E era simplesmente impossível colocar o cansaço, o luto e todos os imprevistos da vida acima daquele sorriso sincero, que me vinha além da boca banguela. Transparecia amor através dos pequenos olhos escuros desenhados com o mesmo contorno que os dela.
Antes de apenas você voltar para casa eu não entendia o poder que dedinhos tão minúsculos tinham de demonstrar um amor maior ao simplesmente procurar por um pedaço de tecido para se agarrar. E nem de como vê-lo bocejar podia ter o poder de me fazer sorrir e esquecer um pouco do peso da dor.
Antes de você chegar eu tinha planos perfeitos para nós três, e claro, não dava tanta importância ao silêncio. Agora toda vez que você acaba com ele, me lembra que sou capaz de refazer nossos planos e torna-los perfeitos dentro da nossa realidade. Antes de você, eu era a coisa mais importante da vida dela, mas foi por você que ela deu a vida por amor.
E eu irei amá-lo como amei antes de tudo isso acontecer para que um dia você possa entender como era grande o amor dela por você. Mesmo que para isto você tenha que continuar fazendo tanto barulho para me forçar a sair do comodismo depressivo que há no silêncio, onde a dor se prevalece e as dúvidas e pesares ficam mais fortes.
O homem de antes reluta em deixar de existir, mas você vai conseguir colocar as memórias boas no lugar certo, e trocar as ruins por novos momentos de aprendizagem e felicidade.
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