Falsos
1 Verdades
Notas iniciais
O estalo é escutado seguido da mais conhecida ardência no lado esquerdo de meu rosto.
E ao fita-lo, um olhar de ódio queimava até mesmo meu maldito orgulho.
Eu não entendo, e eu nunca irei entender o motivo de você ainda me olhar desta maneira. Eu não tive culpa, culpa de nada. Eu sou apenas a vítima. Eu parei de pensar o quão dramático esta mesma frase soa, mas no fundo é a mais perfeita verdade.
Os amigos, nossa família, todos. Todos ainda nos viam como o casal perfeito, aquele que era impossível imaginar separado. Mas você é falso, Namjoon, eu sou falso. Nós somos falsos. Nós nos amamos e nos odiamos. Em quatro paredes nosso verdadeiro relacionamento dá as caras junto de toda a ira, nojo e rancor segurados diariamente, enquanto ao ar livre sorrimos abraçados e trocamos carícias a cada "formam um lindo casal" que escutamos.
Mas eu não sou o cem por cento anjo nesta maldita história, eu nunca abaixo minha guarda a cada mão levantada que recebo.
Avançando, agarro o loiro e o empurro com força contra a parede, dando dois passos para trás e observando sua expressão de dor pela pancada.
Era sempre assim tais brigas, um ataque, uma recuada, nenhuma defesa. Talvez nem um nem outro quisesse estar naquela grande idiotice, nenhum queria levantar a mão, mas sempre o fazia e esperava se o outro desistiria, pegaria a mala e saísse de casa, com o pensamento de que se houvesse um revidar na agressão, faria o mesmo. Mas sempre havia o revidar, o que criava um ciclo até nos cansar.
Minha visão estava completamente embaçada, as lágrimas molhavam todo meu rosto e eu não conseguia parar de soluçar. Namjoon me fitava pouco abaixado, ainda com as costas apoiadas na parede. Um grito escapa de minha garganta, um grito alto, enquanto curvo o meu corpo para frente, com as mãos em punho. Nenhuma palavra exata é dita, apenas um rouco e arrastado 'ah' que rasgava minha garganta. Eu precisava gritar, colocar para fora toda minha raiva, toda a dor que aquele maldito me causava. Precisava colocar para fora, o ódio de mim mesmo, por nunca conseguir dar as costas e acabar com tudo aquilo.
Virando para trás, precisava me livrar de toda aquela vontade de bater no mais novo, mas eu não conseguia fazer aquilo na prática, não sem me remoer depois. Encontro um enfeite, um pequeno vaso de cerâmica em tom alaranjado. O agarro e viro de uma vez, arremessando sem ao menos pensar onde acertaria. Namjoon, agora sentado no chão, se protege com os braços. Mas, infelizmente, o vaso acerta na parece acima, com os cacos grossos apenas caindo sobre sua cabeça.
Eu não era histérico nem nada, talvez Namjoon tivesse me deixado daquele jeito, mas qualquer um em meu lugar acabaria maluco como eu. Eu sabia o que viria a seguir, o olhar e expressão serena de Namjoon enquanto este se levantava com dificuldade já o entregava. Ele caminharia até mim, sussurraria um "Jini...", me abraçaria com força até que eu parasse de me debater. Então eu me entregaria, choraria até a cabeça doer. Ele prometeria que seria só eu, me levaria para o quarto e acabaríamos na cama, fazendo aquilo que eu sempre me iludi falando ser "amor".
Dou dois passos para trás, o olhando com ódio. Não, não daquela vez. Eu estava mais que cansado, e posso dizer que já aguentei até demais. Seus lábios se abrem, eu não queria ouvir aquele maldito apelido. Eu não queria mais ser fraco.
Bééém!
Minha cabeça dói, e por um milésimo amaldiçoo o dia em que concordei colocar uma campainha barulhenta daquela. Ambos fitamos a porta. Era ele. Eu sabia que era ele. A razão pelo nosso fim, ter um começo.
Hoseok.
Caminho apressado até o quarto, rapidamente puxando de cima do guarda-roupas a grande mala de viagem. Sabe aquela mala que você deixa mofando o ano todo, e só usa na viagem de férias? Então, era justamente esta, justamente a mala que estava limpa e apenas esperando ser pega para nossa viagem, aquela viagem prometida há algum tempo.
"-Precisamos de um tempo nosso. Só nosso."
Tempo nosso... Isso era tudo que eu menos queria agora. Abro o armário e puxo de qualquer maneira algumas roupas, as jogo dentro da mala sem me importar com amarrota-las. Fecho com dificuldade, tentando diversas vezes controlar o choro que insistia em sair. Me recusava em chorar frente o terceiro em nosso relacionamento.
Saindo do quarto, talvez não estivesse tão preparado para enfrentar cara a cara o moreno. Mas a vontade de estar longe dali era mais forte. Voltando para a sala, paro observando Hoseok tanto confuso ainda na porta, olhando logo atrás do loiro que apoiava o braço no batente, e encostava sua testa no mesmo, como se quisesse entender o que havia acontecido com seu amado. Avanço, estava decidido.
A mala pesada carregada pela destra dificultava em uma saída mais... Digna, podemos assim dizer. Mesma saída que fora feita entre pequenos tropeços, e o som da mala batendo contra minha perna, me presenteando com um ombro dolorido em coisa de dois minutos. A porta estava cada vez mais próxima, e pra isso teria de enfrentar cara a cara meu próprio parceiro, e o parceiro de meu parceiro. Finalmente, esbarro no ombro de Namjoon, me fazendo ganhar a atenção do mesmo. Dali, era até mesmo possível ouvir a respiração calma do moreno, que parecia tão surreal vê-lo tão de perto.
-Ele é todo seu.
São as únicas palavras que saem de minha boca, pela primeira vez fitando Hoseok diretamente em seus olhos. Ao menos conseguira dizer algo coerente em um tom firme. Seus olhos se arregalam, acho que ele finalmente entendera o que estava acontecendo antes de sua chegada triunfal.
Passo por este também, rezando para que o elevador estivesse no meu andar e eu não tivesse que ficar parado ali enquanto ambos me olhavam, ou entravam e seguiriam para transar em comemoração como se eu não estivesse mais do outro lado da porta.
Como tudo já estava para os ares, óbvio que o elevador estava parado há 5 andares acima do meu. Decido abrir a porta ao lado. Estava um silêncio absoluto, ninguém dizia nada. Minha saída pela escada de emergência seria apenas um motivo para eles rirem o resto da vida, ou até que Namjoon encontrasse outro que lhe satisfizesse melhor. Mas será que Hoseok agiria como eu? Ele aguentaria calado?
Como na noite em que tudo parecia bem, era uma vitória termos passado manhã, tarde e noite sem uma mísera intriga. Foi quando terminamos a limpeza da cozinha após nosso simples jantar. Ele terminava de beber o suco em seu copo e eu já havia lavado tudo, apenas esperando que o loiro cumprisse com seu afazer.
-Até quando vai enrolar com esse suco para não secar a louça? — Pergunto me virando com um sorriso divertido no rosto, rindo enquanto secava as mãos na minha própria roupa ao ver a expressão falsamente ofendida de Namjoon.
-Eeeu? — Retribui com outra pergunta, arrastada. Outra risada minha.
-Claro que você, Joonie. Por acaso tem mais alguém aqui enrolando com dois dedos de suco desde o fim da janta? — Namjoon dá uma volta completa no lugar, como se estivesse procurando alguém. Para olhando para mim com uma expressão de quem havia dado por vencido.
-É... Realmente, acho que não tem mais ninguém aqui...
Rio de sua graça e enrolação, notando o mais novo sorrir bonito e vir até mim. Minha cintura é enlaçada por seu braço esquerdo, sua destra vai um pouco mais para trás e ouço o som do copo ser deixado na pia.
—Que coisa feia, hyung... — Minha risada sessa pela pequena repreensão, virando uma expressão séria e confusa. — Me dando bronca por não secar, e você se quer lavou tudo. — Seu braço livre agora copia a ação do outro, e eu reviro meus olhos, sorrindo novamente.
—Vai te lascar, Kim Namjoon.
—Por que não me lasca? — Pergunta, ao que parecia, sério. E ao fita-lo, recebo a piscada mais descarada da minha vida. Envolvo seu pescoço com meus braços, noites assim haviam sido extintas, e viver uma idiotice daquelas apenas por uma louça me fez pensar que estava voltando tudo como antes.
Obviamente eu estava enganado, e só notara isto assim que o cheiro doce e enjoativo toma conta de toda minha respiração. Meu sorriso morre pouco a pouco, e Namjoon se torna seriamente preocupado.
—O... O que..? Eu falei al..
—Você o encontrou hoje, Namjoon?
Os braços do loiro afrouxam e consigo pegar com meu olhar o movimento de seu pomo de adão descer e subir ao engolir em seco. Sim, ele o encontrara.
—Claro que não. — Responde firme e eu reviro os olhos.
Falso.
Rapidamente retiro os braços de seu pescoço, minha garganta estava formando um nó e eu tinha nojo enquanto tentava afasta-lo.
—Vá a merda! Você fede a ele! — Digo em tom mais alto, quase em um grito, e Namjoon força o abraço, sua expressão tornando em leve desespero.
—Seokjin, se acalme! — Retruca alto enquanto eu espancava seu peito no objetivo de que me largasse logo. — Jini, o que nós conversamos!?
—Eu é quem pergunto, Kim Namjoon! O que conversamos!? — Grito, e as lágrimas já rolavam por minhas bochechas. Ele me fitava assustado, mas pelo quê? Sendo que ele, mais que ninguém, sabia o motivo de eu estar de tal maneira? — E não me chame por esse maldito apelido!
—Jin, eu vou larga-lo!
—Quando, Namjoon? Quando!?
—Eu prometi, não prometi!?
Promessas. Tão falsas quanto aquele que as prometera. Todos os dias era a mesma jura. Todos os dias eram as mesmas quebras. E nem se quer recebia uma satisfação decente do por que ainda não tê-lo largado. Mas tudo bem, de qualquer forma, foi uma baita lição que a vida me deu. E agora, descendo quatro lances de escada com a visão embaçada, eu só me pergunto uma coisa.
Por que eu quem não te larguei antes, Namjoon?
Por que você não me largou?
Espero que não pensasse que seria uma espécie de cafetão, e que teria vários ao seus pés dessa forma. E se caso este fosse o seu pensamento, espero que eu não tenha sido o único a tirar lições dessa história.
Pois é, Kim. A vida não te tornará um cafetão.
Eram degraus e mais degraus. A cada virada que dava, me deparava com mais uns 7 me esperando. A medida que os descia, meu peito parecia se aliviar, o ar até mesmo parecia mais leve. Mas no fundo, a dor de saber que o homem que eu amo traiu-me, diversas vezes até em baixo de nosso próprio teto, apertava. Doía pensar que eu estava o deixando para sempre. Era uma dor necessária.
Me perguntarei eternamente o motivo de ter passado meses em silêncio. As lembranças estavam mais vivas que nunca, mais especialmente as daquele dia. Talvez por ter sido algo que me marcou muito. Pois é, não foi o dia que abri a porta do apartamento e me deparei com os dois aos amassos no sofá, ou o dia em que eu acidentalmente lavei uma cueca de Hoseok que mais me marcaram.
E após eu tanto relutar na cozinha, a louça fora deixada no escorredor, e na pia havia apenas um copo, nossos corpos estavam suados e colados na cama. Apenas um fino lençol nos cobria. Já não sabia se o tempo que estava quente, ou se era apenas nossos corpos. Suspiro, fechando os olhos lentamente, e nesse momento sinto os braços de Namjoon apertarem mais minha cintura. Seu peito estava colado em minhas costas, nossas respirações já controladas.
—Eu te amo.. — O escuto sussurrar, sentindo sua respiração contra minha nuca.
—Eu também.. — Respondo em um tom mais alto. Céus, se quer conseguia formar aquela maldita frase. Limpo a garganta, antes de corrigir-me. — Eu também te amo, Joonie..
Meus olhos se fecham, e o silêncio é instalado. Eu nada mais digo, queria apenas dormir, acordar e descobrir que havia sido um sonho. Sabe aqueles sonhos que quando acordamos, parecem ser realidade!? Pois bem, nunca desejei tanto um como naquele momento.
Não sei quanto tempo havia se passado. Eu apenas me calei, de olhos fechados. Talvez uns 10 minutos, não ultrapassando os 15.
—Jini..?
Sou chamado. Não respondo.
—Anjo, está dormindo?
Nem um músculo é contraído. Não pergunte o motivo, eu apenas queria evitar novas discussões naquela noite. Eu queria apenas dormir e acordar daquele sonho tão real. O colchão se move, sinto Namjoon indo um pouco para trás, seu calor protetor já não estava contra mim, me acolhendo. Segundos depois, algo é pego, soube no momento que ouvira um barulho baixo. E então, a tela do celular do mais novo é desbloqueada, identifiquei pelo baixo "tic" que é feito. Mais poucos segundos, e escuto o som das teclas de seu IPhone. Uma risada baixa e nasalada. Mais teclas.
Tic.
Dessa vez não escuto o som do celular sendo posto de volta no lugar. Maldito, era ciente de que eu sabia sua senha.
Meus olhos estavam abertos, Namjoon só poderia saber disso se olhasse diretamente para meu rosto, o que eu sabia que não seria feito.
Som de passos descalços, e a porta do banheiro é aberta, fechada. O chuveiro emite seu barulho por mais cinto minutos, e tudo que eu fazia era piscar e suspirar. Se quer pensava. A porta é aberta, fechada. Seguido de diversos barulhos baixíssimos de Namjoon se vestindo. O loiro sai do quarto, me deixando sozinho, pensativo, angustiado.
Fecho os olhos, talvez ele tivesse apenas tomado um banho para tirar o suor, beberia um copo d'agua e voltaria com seu calor para me aquecer melhor.
Por que não fez isso, Namjoon...?
Ao contrário, apenas escuto o toque do interfone, que mal se completa e já é atendido. Nada demais fora dito, apenas um "pode subir". Quem seria?
Oh, eu era tão esperançoso...
Mais cinco minutos e a porta é destrancada. Nem mais um segundo e o som de beijos estalados. A cada pequeno estalo, meu coração parecia levar uma facada. Doía, como doía...
Acho que foi aí que eu passei a odiar as madrugadas. Elas são tão silenciosas que nos permite ouvir até mesmo o som da respiração de nosso pior pesadelo.
—Pare.. E Seokjin? — Escuto uma voz rouca. Qual se preocupava comigo. Ou melhor, se preocupava se sua pegação não seriam interrompida e em mais uma vez ser expulso.
—Ele está dormindo feito pedra.
Risadas baixas.
Eu estava perfeitamente consciente.
Mas ainda assim, o mais idiota desta história era eu, não eles.
Mais estalos, e eu fecho meus olhos. "Durma, é apenas um sonho". Mais alguns estalos e o silêncio. As vezes alguns sussurros, risadas, comentários soltos e sons aleatórios.
Panelas.
Hoseok estava comendo de minha comida!?
—Hm... O que colocou nessa carne, Joonie?
Me arrependo eternamente de não ter temperado aquela carne de porco com um pouco de veneno.
Um suspiro naquela madrugada silenciosa. Há sete minutos Namjoon havia entrado no quarto me chamando baixo, eu não me movi, apenas murmurei um "Hm?" para disfarçar. Ele viu que eu dormia, e saiu novamente. Desde então, eu podia ouvir o som de beijos, gemidos abafados de Hoseok. As respirações ofegantes e, enfim, um gemido nítido. Manhoso e arrastado.
—Ah, Joonie...
E naquele momento eu decidi, jamais o chamaria do apelido criado por mim no colegial.
Finalmente me movo, virando na cama e olhando a porta entre aberta. A luz da cozinha e sala estavam acesas. Por automático, me levanto da cama, abaixado para pegar minha boxer no chão e a visto. Caminho a passos silenciosos, seguindo os gemidos baixinhos. A porta é aberta lentamente, emitindo um ranger baixo. Caminho pelo pequeno corredor, até chegar em seu fim e olhar para a direita.
No mesmo ponto onde Namjoon me abraçara horas atrás, Hoseok apoiava suas mãos, olhos fechados. Sua calça estava pouco abaixada, quase nada. Seu membro rígido para fora. Meu marido estava logo atrás, beijava seu pescoço enquanto a destra bombeava o moreno.
—Mais rápido, Nam...
É obedecido de prontidão. Meus olhos se arregalam com a cena. Hoseok soca de leve a pia, soltando um gemido arrastado.
Já eu, dou as costas, refaço o caminho de volta à minha cama. Fecho a porta do quarto, abafando os gemidos. Novamente eu era coberto apenas pelo fino lençol. Meus olhos se fecham e o sono cai como pedra.
Agora, meu rosto estava vermelho, inundado de lágrimas, tanto de dor, como de libertação. Eu só me queria longe dali. Logo. Rápido. Arrastava a mala de rodinhas no chão, já estava na metade da rua, eu estava com pressa.
Finalmente. Finalmente eu acordara. E via que não era um sonho, era um pesadelo medonho.
~π~
Nunca achei que voltaria nesta rua, sinceramente. Hoje completa exatos três meses da minha libertação. Meu coração estava tão leve, minha mente já não tinha pensamentos confusos. Realmente, voltar à casa da mãe é o melhor remédio. Já não tinha mais olheiras, e notei que realmente me libertei no dia que meus pesadelos acabaram. Ou seja, eu não dormia mais e sonhava com os gemidos de Hoseok. Também nunca imaginei que, com esta idade, pararia de madrugada na cama de minha mãe, chorando como se tivesse 8. Ela fora paciente, sim. E acho que dela que herdei a mesma paciência.
Está de noite, uso uma jaqueta comprada na semana passada. O frio não era tão forte, mas também não podia bobear muito, ou pegarei um resfriado.
Eu olhava para cima, mais especificamente para o quarto andar. Esperava um casal sair daquela sacada, sorridentes e aos amassos. Mas há cinco minutos e tudo que consegui ver foi a sombra de alguém atrás da cortina se levantando do sofá e colocando algo na mesa de centro, algo que julguei ser um livro. O que me levou a concluir que fosse Hoseok. Namjoon nunca foi chegado a ler. A tal sombra havia olhado o teto e passado a mão no rosto, depois, seguido para um lugar longe da minha vista.
Eu nunca parei para analisar o outro lado da minha antiga rua, e só hoje notei que havia um banco, no qual eu sentava. Mais alguns minutos e... Lá vem a sombra.
Bingo!
Hoseok afasta a cortina, caminha, e se apoia na grade. Eu não consigo distinguir suas feições pela distância e escuridão, mas quando ele levantou o rosto, não me parecia nada feliz.
Eu não sinto ódio, nojo, nem rancor. Sinto culpa. Por tantos meses confiei na promessa de que ele seria largado, e desejei diversas vezes sua morte, e dado dois tapas em seu rosto. Mas do que ele tinha culpa!? Após madrugadas em claro, eu concluí que Hoseok não tinha culpa. Ele era como eu. Um cara apaixonado por Namjoon que devia esperar Namjoon pedir divórcio logo. Namjoon era o falso, ele quem tinha um laço de compromisso comigo. Ele era merecedor daqueles tapas.
Hoseok cobre a boca com sua canhota. Merda, será que me viu!? Não... Ele estava abafando o choro. Oh... Chorava como uma criança... Meu peito dói com a vontade de abraça-lo e saber o que estava havendo. E eu bem podia fazer isso, teria total acesso pela portaria. A não ser, é claro, que Namjoon tivesse deixado ordens de não permitir. De qualquer forma, eu não tentaria. Eu queria apenas testar meus sentimentos, ver como as coisas estavam. Alguém senta do meu lado, me assustando durante meu transe. Rapidamente olho para o lado, e um rapaz de cabelos verdes olhava para cima.
Não digo nada. Meu coração batia forte pelo susto. Ninguém diz nada e admito, estou com medo. O silêncio é quebrado enquanto nós dois assistimos Hoseok chorar.
—Você também? — Sua voz era rouca, sua língua um pouco presa. Engulo em seco.
—Eu também?
—Vem assistir seu amado se lamentar. — Explicar. Estalo os olhos. Então Hoseok...
—Vocês...?
—Eu e Hoseok? Sim. E você? Não diga que era outro...
Nós nem nos olhávamos. Namjoon sai na sacada, parando na outra ponta desta, se apoia e olha o céu nublado.
—Eu era casado com Namjoon.
O silêncio é feito para contemplar a cena que se segue. Namjoon olha para Hoseok, caminha meio sem jeito até estar ao seu lado, ainda virado para frente. Seu braço passa pelas costas de Hoseok, em um pequeno consolo.
—Ah, o amor... — O esverdeado suspira, e ri nasalado, sendo acompanhado por mim. — Min Yoongi.
—Kim Seokjin.
Novamente o silêncio. Hoseok e Namjoon agora se abraçam, e Namjoon beija sua cabeça. Não sinto nada. Estava pronto para seguir. Me levanto.
—Já vai?
—Já sim.
—Foi um prazer, Seokjin.
—Igualmente, Yoongi.
Dois passos são dados. Paro. Rio baixo.
—Yoongi?
—Sim?
Me viro.
—Ainda fala com Hoseok?
—Discutimos, as vezes.
Pela primeira vez Yoongi me olha. Sua pele é pálida, o que realçava seus fios verdes e chamativos. Suas olheiras estavam fundas, era perceptível até de noite. Talvez ele ainda não tivesse se libertado.
—Pode passar um recado?
Yoongi franze as sobrancelhas, mas assente.
—Diga que é apenas jogar molho choyo na panela antes o cozimento da carne, e não colocar sal.
Yoongi fica mudo por alguns instantes.
—Aviso que foi você?
—Pode ser.
—Se cuide, Seokjin.
Assentindo, dou as costas, e sigo em direção a estação de metrô.
Respiro fundo.
Estou livre.
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