Falsas Memórias.
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Ele tem lavado o cabelo todos os dias. Gerard acha que talvez seu cabelo fique mais bonito sujo, ou seco. Bert sempre vai embora antes do seu cabelo secar. Não porque ele não quisesse ficar, pelo contrario, Bert ficava muito tempo brigando e argumentando com a enfermeira, ele até foi reclamar com a direção do hospital, e também fez um abaixo assinado pedindo para aumentarem o horário de visitas.
Gerard não se lembra dele, mas ele foi o único que estava lá quando ele acordou. De acordo com as enfermeiras, ele passou todos os dias durante os últimos dói meses no quarto, segurando a sua mão e o esperando acordar.
Ele lhe disse que era seu namorado. Gerard não se lembrava dele, muito menos se lembrava que era gay, e teve que se acostumar com a idéia, mas Bert era bonito, então ele não viu problema.
- Eu to com dor de cabeça, vou morrer.
- É uma daquelas suas dores? – Bert afunda seus dedos nos recém cortados cabelos de Gerard, por causa dos machucados provocados pelo acidente, ele teve que corta-lo.
- É, e o médico disse que vai passar logo.
- É bom passar porque a sua família esta vindo te ver – ele intensifica as caricias, começando a fazer movimentos circulares nas suas temporas, como costumava fazer quando Gerard reclamava de dores.
- Um bando de ingratos. Faz tipo, duas semanas que eu acordei e eles nem vieram me ver. – disse, fechando os olhos e aproveitando o carinho.
Gerard aperta a pele entre o polegar e o dedo indicador, o médico dizia que melhorava, pois era um ponto de acupuntura, o que fazia Gerard duvidar, porque pelo pouco que lembrava, nenhum médico de hospital recomendava medicina alternativa.
- Eles só estão com medo.
- Medo de que?
- Medo de não serem lembrados.
- Hun, eu não me lembro mesmo. Se eles tivessem vindo antes, eu não me lembraria de qualquer jeito.
- Talvez eles tenham pensado que você se lembraria nesse meio tempo.
- Continuam sendo ingratos. Odeio esse povo que fica adiando o sofrimento, viu. – Gerard bufa, faz bico e cruza os braços, balançando a cabeça como se ainda estivessem ali os cabelos escuros e compridos.
Bert ri, levantando e beijando sua testa, como se com aquilo fosse possível tirar toda a dor, se senta ao seu lado e segura sua mão, entrelaçando seus dedos e acariciando a mão de Gerard com o polegar.
- Eu era mais bonito de cabelo comprido?
- Tipo, era bem bonito, não que tenha algum jeito de ficar feio. Mas a minha mãe vivia dizendo que agente parecia um casal lésbico.
- Eu era afeminado? – Gerard bufa, tentando parecer ofendido.
- Não, amor, era só estranho nós dois com o cabelo comprido.
Gerard ri alto. Pela primeira vez repara nas rosas vermelhas, amarelas e brancas murchas enfeitando o quarto. Flores que haviam lhe mandado. Sentia-se como se tivesse morrido.
- Eu tenho um irmão, não tenho? – Gerard pergunta, se virando e tocando uma das poucas rosas vermelhas vivas dentro do vaso em cima da mesa de cabeceira.
- Tem, Michael. Eu pegava, da ultima vez que ele veio aqui eu tentei, só que ele me ignorou e disse que nunca seria capaz de pegar o namorado do próprio irmão e que se não fosse por isso até pensaria.
- Mentiroso. – Gerard lhe da um tapa de brincadeira na nuca.
Bert abre a boca, tencionando uma resposta. Antes que ele possa responder, a porta se abre e alguém por trás de um mundo de flores e caixas de presentes coloridos entra no quarto acompanhado de mais duas pessoas.
Por trás das coisas esta uma mulher de cabelos claros e armados, sorrindo gentilmente, esperando que com o sorriso a raiva do seu filho mais velho desapareça. Aquele que aparentemente era seu irmão tirou os fones, suas bochechas estavam rosadas, e ele olhava para baixo como se estivesse envergonhado por alguma coisa. O homem alto e de cabelos grisalhos tentava afrouxar o nó da gravata, e no final ele estava com a testa levemente molhada de suor. A gravata havia ganhado de dez a zero dele.
A mulher deixou as coisas em cima da mesa, deu a volta, hesitou por um momento, então ela se sentou ao lado de Gerard, que a olhava com completo desinteresse.
- Tudo bem com você, meu filho?
Gerard grunhi. Ele não se lembra dela. Não se lembra de nada antes de acordar. Andava até esquecendo das coisas que tinham acontecido enquanto ele estava dormindo. Ele sente medo, medo de não se lembrar de quem costumava ser, medo de nunca mais lembrar das pessoas que costumavam ser importantes para ele. Medo até de que os que se importavam com ele antes não se importassem mais.Sua cabeça estava cheia de duvidas. Precisava desesperadamente de alguém que lhe desse informações.
Observou a mesa de metal branco, como todo o resto do quarto, estava cheio de presentes com laços coloridos, brinquedos, flores, cartazes. No começo não tinha gostado da idéia de ter tudo aquilo ali, porque até aquele dia ninguém tinha se importado em ir o visitar, mas se sentia grato. O quarto estava mais alegre. Odiava a ausência de cores do hospital, o branco o irritava, irritava seus olhos.
- Você se lembra de mim?
Era a décima quinta vez que lhe perguntavam isso em menos de meia hora. Amigos da escola, parentes que ele provavelmente nem conhecia mesmo antes de perder a memória, crianças, todos estavam amontoados em volta da cama, o olhando com olhos arregalados e curiosos, como se ele fosse um recém nascido, ou uma aberração.
A noite, quando quase todas as suas visitas tinham ido embora, (inclusive bert, Donna, a mãe de Gerard havia o expulsado dizendo que já era tarde, e que queriam conversar a sós com ele) Mikey estava sentado ao lado de Gerard, com seu braço em volta do irmão mais velho.
- Desculpa por não ter vindo antes, Gee. Eu queria, pedi todos os dias para me deixarem vir, mas mamãe disse que era melhor virmos todos juntos. Eu fiquei sem falar com ela todos esses dias, só de raiva. – Michael disse, não escondendo a culpa por não ter ido visitar Gerard.
- Tudo bem, foi melhor assim, acho. Eu.... Eu não me lembro de vocês, mesmo. Perguntei pro Bert se tinha um irmão, porque lembrava que tinha um. Mas nesses últimos dias o fato de ter um irmão é a única coisa que eu tenho lembrado. Muito medo, viu?
Mikey assente, não sabendo exatamente o que dizer ao irmão. Ele sente o que Gerard sente, só não sabe o que dizer, um de seus defeitos, não saber o que falar quando mais as pessoas estão precisando ouvir. Sabe que perder a memória é uma das piores coisas que pode acontecer a alguém, Gerard sempre dizia que achava triste o fato de alguém se esquecer de tudo que havia vivido até ali.
Gerard brincava com a comida, fazendo desenhos bobos, enfeitando o prato, como faziam as crianças que não queriam comer. Ele praticamente fazia isso todos os dias, quando a comida do hospital começava a embrulhar seu estomago. Ela era tão obviamente industrializada.
A enfermeira abre a porta do quarto, batendo nela logo em seguida, sendo que o normal é bater na porta antes dela ser aberta. Ela é baixa e gordinha, sua voz é fina e doce. O que faz ser estranho, porque sua voz e desproporcional ao seu tamanho.
Gerard sorri de leve, analisando todos os seus defeitos, por mais que gostasse dela, era mania olhar pras pessoas e ver o lado ruim primeiro.
- Como esta, querido? Vejo que sua família veio te visitar. Por isso resolvemos alongar o horário de visitas, assim você fica mais intimo deles, e até quem sabe relembrar de algumas coisas. – ela diz, docemente.
Gerard morde o lábio inferior quase que automaticamente, tão logo abre a boca, pensando em protestar, achando muito injusto com Bert. Por que não alongavam o tempo quando seu namorado estava ali? Ele que tanto o divertia.
- O medico esta vindo te ver. Ele quer fazer alguns exames, e conversar com você, sabe, esclarecer as coisas. – ela piscou para Gerard, sorrindo logo em seguida.
Ele se afunda na cama, agradecendo mentalmente por finalmente alguém vir esclarecer-lhe as coisas. Estava a ponto de sair correndo dali e descobrir as coisas sozinho.
A porta se abra novamente, e dessa vez vem acompanhada de batidinhas leves antes de ser aberta. O homem quase careca entra, com o usual jaleco branco que os médicos usam. Donna e Donald, que estavam sentados em um sofá branco do quarto, se levantaram quase que imediatamente, como se ali estivesse o presidente, ou alguma imagem que precisasse ser respeitada.
- Boa noite. – ele disse polidamente, apertando a mão dos seus pais, que pareciam eufóricos. – Como vai você, meu jovem? – ele virou para os dois que estavam na cama, obviamente falando com Gerard, que apenas sorriu. – Eu vim aqui explicar melhor as coisas que estão confusas, eu sei que sua cabeça esta cheia de duvidas.
Gerard teve vontade de chutá-lo. Era obvio que estava com duvidas. Não é normal acordar um dia e não se lembrar de absolutamente nada.
Todos que estavam no quarto assentiram com a cabeça, seus pais balançando-as freneticamente, esperando que o médico começasse logo a falar.
- Você sofreu um acidente há alguns meses. Nesse acidente você sofreu traumatismo craniano, e esta sendo vitima de amnésia lacular, que é quando você não se lembra do acidente em si e de coisas que aconteceram antes. O traumatismo não foi do mais sério, então eu não posso afirmar se sua perda de memória é passageira ou se vai durar para sempre. Mas, você pode fazer terapia, Gerard, e isso pode te ajudar a lembrar das coisas do passado.
Gerard ficou muito menos chocado que o resto da família. Mikey segurava sua mão e ia apertando a cada palavra que o médico dizia, e com isso, no final do seu discurso sua mão estava praticamente roxa.
- E como a terapia iria me ajudar?
- Com a terapia você pode falar dos poucos fatos que você se lembra. Creio que nessas primeiras semanas vão lhe ocorrer alguns flashbacks acompanhados de uma forte dor de cabeça. Nesses pequenos flashs poderão aparecer dês de seu tempo de criança até o dia do acidente e, se você conversar com a sua psicóloga sobre isso, pode ser que te ajude a lembrar.
Ele não gostava da idéia, não gostava da idéia de se abrir com estranhos, mas depois do sermão que seus pais lhe deram sobre como aquilo seria importante, ele acabou concordando.
- Quando eu vou sair daqui?
- Amanha ou depois de amanha, você só precisa fazer alguns exames e ai estará liberado para voltar pra casa.
Fale com o autor