Fale Agora, Ou Cale-se Para Sempre!
1 Capítulo 1
Estava escondida atrás das cortinas daquele imenso salão hiper chique. A família da noiva estava inteira vestida em tons pastéis, como ela havia ordenado. Estavam todos sentados numa enorme mesa tomando chá branco com seus dedos mindinhos levantados. A “realeza” era tão entojada que me dava ânsia, porém, para minha sorte, ao meu lado tinha um enorme vaso de cristal com umas flores com cheiro de velório, o qual eu poderia vomitar à vontade sem que ninguém me visse.
Era praticamente certeza que em algum momento daquela droga de casamento eu vomitaria. O amor da minha vida estava casando com a garota errada. E além de errada, para fechar o pacote com chave de ouro, era também a pessoa mais fresca da face da Terra. Como InuYasha tinha conseguido se apaixonar por aquela monga?
InuYasha e eu nos conhecemos quando ele ainda era garçom no Kaede’s Bar, um botequinho que eu freqüentava horrores depois que Houjo me deu um pé na bunda. O que a memória não esquece, a bebida substitui. Um dia eu estava tão bêbada, mas tão bêbada que Kaede (a dona do boteco, óbvio) pediu para que ele me levasse para casa, porque eu jamais conseguiria nem ficar de pé. Ele reclamou um pouco, mas me colocou em cima daquela sua moto vermelha e me levou para casa.
Quando chegamos, ele foi extremamente gentil comigo: perguntou se eu queria que ele enchesse a banheira, preparou comida para nós, e ainda me fez uma bebida anti-ressaca.
Ele não era idiota. Aliás, estava bem longe disso. Ele me via todas e todas as noites indo encher a cara e tinha certeza que a razão disso era macho. E então, ele somente me perguntou:
–- Qual o nome dele?
A conversa foi bem mais além do que simplesmente o nome do meu ex-namorado. Eu disse tudo que estava guardando só para mim haviam séculos, joguei todas as minhas mágoas em InuYasha e a única coisa que ele fez foi dizer o quão idiota eu era por estar correndo atrás de um cara babaca como ele. E só. Só isso.
No dia seguinte me senti na obrigação de voltar ao Kaede’s para agradecer InuYasha. E no dia seguinte ao seguinte eu voltei para tomar um café e observá-lo. E no dia seguinte ao seguinte do seguinte eu também tomei outro café apenas para observá-lo andando por entre as mesas com todo aquele charme e aquela bundinha linda. Enfim, fui ao Kaede’s por muito tempo até que, no meio de uma madrugada qualquer, eu recebi uma ligação.
–- Alô? – Eu disse com a voz mais sonolenta do mundo.
–- Kagome, eu estou na porta da sua casa. Conheço um lugar que você precisa conhecer. Desce aqui e eu te levo.
–- Mas são três horas da manhã! Você não pode me levar até esse lugar fabuloso amanhã de manhã?
–- Negativo.
Então me levantei e coloquei uma roupa qualquer e desci. Não adiantaria eu experimentar um guarda-roupa inteiro se eu sabia que até mesmo se ele estivesse usando o uniforme de trabalho, eu nunca chegaria aos pés dele.
Ele me levou até um lugar que era no meio do mato. Pensei “Pronto, é hoje que eu sou estuprada.”, mas até que fiquei feliz por ser InuYasha. Era um lugar lindo, eu devia admitir. Os vaga-lumes estavam espalhados por toda parte.
–- Mas então, por que me trouxe até aqui? – Perguntei. – Você não é nenhum estuprador disfarçado, certo?
–- Eu sempre venho pra cá de madrugada quando estou chateado. Achei que te faria bem passar um tempo por aqui.
E então ele deitou na grama, fazendo pose de machão, mas eu sabia que no fundo ele estava envergonhado por estar sendo tão gentil com alguém que ele mal conhecia. Kaede havia me dito que ele não era de conversar com qualquer um. Fiquei feliz, no entanto. E me juntei a ele.
Os amigos de InuYasha estavam sentados numa mesa no fundo do salão, isolados. Miroku provavelmente estava frustrado por ter cantado todas as amigas e primas da noiva e nenhuma delas ter dado bola a ele. Sango estava puta da vida porque Miroku não estava se portando como um cavalheiro num casamento tão chique. E Shipoo estava reclamando porque todos os garçons serviam todas as mesas com aquelas comidinhas de gente rica, menos a deles. Eles estavam amando o casamento tanto quanto eu.
E aí a marcha nupcial começou. Marcha nupcial o caralho! Aquilo mais parece uma marcha fúnebre, pelo menos aos meus ouvidos. Achava até que era a marcha fúnebre do meu próprio velório, já que eu estava prestes a ter um enfarto quando ele dissesse “sim”. “Sim, eu aceito me casar com essa megera, vadia, cretina, puta, salafrária, maldita, magrela, canalha, e fresca. Aceito passar o resto da minha vida sendo infeliz”.
InuYasha apareceu num lindo terno. E ele estava mais lindo do que qualquer outro dia que eu tinha visto-o. Ele passou os olhos pelas cortinas e grudou os olhos arregalados em mim. O que eu estava fazendo ali, já que a adorável noivinha dele tinha deixado bem claro que me queria a milhões de quilômetros daquele casamento? Céus, ele também não soube o que fazer quando me viu. Não sei se ele queria me tirar daquele salão às pressas ou se queria ser tirado daquele lugar às pressas.
Já fazia mais de um ano desde a ligação no meio da noite. Um dia, enquanto eu estava tomando café no Kaede’s, InuYasha sentou-se depois do trabalho para me acompanhar com meu café, como ele fazia sempre. Conversávamos durante horas e ríamos horrores. Tomamos umas doses a mais de conhaque e estávamos mais loucos que o Batman. E ele me convidou para conhecer a casa dele. O fato é que eu era inocente demais a ponto de pensar que ele apenas estava me convidando para conhecer sua casa, e não o que tinha por baixo da roupa dele.
Mas devo admitir que aqueles beijos deliciosos dele na cama king dele foram os melhores da minha vida. Também devo admitir que nenhum outro cara tinha conseguido me deixar tão excitada como naquela noite. E também devo admitir que ele era fenomenal na cama.
Mas eu devo admitir o principal: eu estava totalmente apaixonada por ele.
E no dia seguinte ele foi trabalhar cedo. Mais cedo do que o habitual, segundo minhas contas. Eu corri para o Kaede’s porque eu precisava vê-lo de qualquer modo. Já não era mais só a delícia de vê-lo por entre as mesas, era uma necessidade. Uma necessidade tão grande quanto eu necessitaria de oxigênio, de água, de comida! Eu havia descoberto naquele exato momento em que eu estava enrolada nos cobertores da cama dele que eu queria ficar naquela cama. Eu queria ter noites como aquela anterior todas as noites. E esses desejos eu só poderia realizar com um único homem, ele era InuYasha.
No Kaede’s ele mal olhou na minha cara quando atravessei a porta. Passei o dia todo sentada numa mesa fingindo que estava lendo o jornal, mas as únicas palavras que eu podia ler eram “INUYASHA, POR QUE VOCÊ ESTÁ TÃO ESTRANHO, SEU VIADO?”.
Aquele dia pareceu ter durado setenta e oito horas. No fim do dia, quando InuYasha estava saindo pela porta sem se quer ter falado comigo, eu o segurei pelo braço.
–- Você não vai sair daqui antes de me explicar porque está tão estranho. – Falei, me segurando para não gaguejar.
–- Kagome... – Ele suspirou – A noite passada foi o maior erro da minha vida.
–- Como assim? O que você quer dizer com isso?! – Ergui a voz – Quer dizer que eu sou péssima de cama, é isso? Houjo dizia exatamente o contrário! Até parece que você não gostou quando eu... – Ele me cortou.
–- Kagome, ontem foi a melhor noite da minha vida. Eu não sei se algum dia eu vou encontrar alguém que seja tão insaciável quanto você. Porque alguém como você... É tudo que eu sonho desde quando eu era garoto. Mas o problema...
–- Qual é o problema, então?!
–- Eu estou noivo.
E o silêncio congelou meu coração. Meu coração, meu cérebro, e todo o resto. Foi como se eu tivesse sido inteira mergulhada em nitrogênio líquido. Foi a sensação de ser o Jake, de Titanic. Eu não sabia o que dizer. Eu não sabia nem que ele tinha uma namorada, quanto mais que ele estava noivo. Ele nunca me disse nada. Nunca.
Algum tempo depois eu vi ele e Kykio andando pelas ruas. Conheço Kykio dos meus tempos de escola, e não pude acreditar quando aquela vadiazinha estava de mãos dadas com o meu homem. Cachorra.
As portas do salão se abriram. O vestido de Kikyo parecia o próprio bolo de casamento, cheio dos fru-frus, babados, rendas, e brilhos. Meu estômago estava revirando e meus olhos estavam sendo inundados por lágrimas. Ela estava desfilando e voando por aquele salão como uma rainha. InuYasha ainda não tinha tirado os olhos de mim. Ele tinha deixado bem claro que eu não podia estar naquele casamento, que eu não deveria aparecer de jeito nenhum, e que essa idéia não podia nem passar pela minha cabeça.
Kykio chegou ao altar. O padre começou a dizer toda aquela baboseira de todos os casamentos enquanto eu lutava contra minhas lágrimas. InuYasha não estava nada feliz, é claro. Ele provavelmente não tinha pensado que as coisas seriam daquela maneira.
E então as frases da noite saíram da boca do padre:
–- Kikyo, você aceita se casar com InuYasha?
–- Aceito. – Os olhos dela brilharam e o sorriso falso dela contagiou o salão.
–- InuYasha, você aceita se casar com Kykio?
InuYasha olhou para trás por um momento. Olhou para mim. Suspirou longamente, e disse:
–- Sim.
–- Se alguém tiver algo contra esse casamento, fale agora ou cale-se para sempre.
Eu não sou o tipo de pessoa que interrompe tão rudemente uma ocasião de véu branco, mas eu não pude evitar. Saí de trás das cortinas, reuni todas as minhas forças e disse:
–- Eu tenho.
E o salão inteiro olhou para mim, todos pasmos com tamanha a minha grosseria. Mas, ah, eu só conseguia olhar para InuYasha. O padre, pasmo por provavelmente nunca ter presenciado uma cena como aquela, prosseguiu tentando se manter o mais calmo o possível.
–- O que você tem contra esse casamento, minha filha?
–- Esse... – Apontei para InuYasha – Esse homem jamais amou e jamais amará essa mulher. InuYasha, você sabe disso! – Meus olhos voltaram a marejar – Corra, querido, corra por tudo que é nosso. Eu sei que você queria que quem estivesse dentro desse vestido fosse eu, então por que você não acaba de uma vez com essa droga?! – As primeiras lágrimas começaram a rolar por meu rosto – Todo mundo sabe e sempre soube disso! O que mais você tem a esconder? InuYasha, corra! Corra dessa infelicidade que você mesmo está escolhendo. Corra dessa merda toda! Pelo amor de Deus, corra...
–- Tirem essa louca daqui! – Kikyo berrou histericamente – Tirem logo ela daqui!
InuYasha correu até a metade do salão onde eu estava quando os seguranças tentaram me obrigar a sair dali. Expulsou todos os seguranças dali aos berros enquanto eu chorava. E me abraçou. Um abraço quente e aconchegante, algo que eu realmente estava precisando naquele momento.
Ele sussurrou no meu ouvido:
–- Quando eu disser “corre”, corre o mais rápido que você puder.
Os seguranças voaram em cima de nós e InuYasha gritou para eu correr. E nós corremos. Corremos muito até uma casa abandonada atrás da igreja.
–- Eu estou tão feliz que você estava por perto. – Ele sussurrou no meu ouvido novamente.
E seus olhos intensos estavam colados nos meus. E em menos de um segundo seus lábios também estavam colados nos meus com tanto desejo que eu mal podia respirar. E então nossas roupas estavam coladas no chão e a boca dele agora estava colada nos meus seios e os seus dedos nas minhas partes baixas, num movimento frenético.
O resto da história, leitor, deixo a sua disposição para imaginar. Mas de uma coisa você pode ter certeza: nós fomos muito, muito, muito e muito felizes.
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