Fala Aí, Careca!

1 Capítulo único


A turma de formandos do colégio do Limoeiro olhava atentamente para a grande tela que se encontrava no centro do palco do salão. Fotospassavam ligeiras, uma a uma, enquanto todos observavam atentos, alguns deles com lágrimas nos olhos, porque aquele seria um dos últimos momentos que cada um daqueles jovens que ali se encontravam estariam unidos, comemorando mais uma conquista.

- É inacreditável que estamos nos formando! Parece que foi ontem que comecei a escola e conheci cada um desses rostos... — admitiu Magali, com lágrimas nos olhos. Usava um lindo vestido longo azul de um ombro só.

- Com certeza, Cabeçuda. Mas uma coisa não mudou nadinha em você: continua linda como sempre — afirmou Cascão, beijando a testa de sua namorada — Em compensação, a Mônica deixou de bater em nóse o Cebola deixou de realizar planos infalíveis... — Cascão sorriu ao dizer tais palavras, ajeitando seu smoking.

- Aí é que você se engana, meu caro Cascão! Você acha que eu conquistei a Mônica como? Além do meu charme inconfundível, precisei bolar muitos planos e se for preciso, bolarei quantos planos quiser para ter o que quero! — afirmei, olhando sério para o meu melhor amigo, ao mesmo tempo que apertava Mônica contra meu corpo, aproximando de seu rosto.

- Para de se gabar, seu idiota — disse Mônica, puxando levemente a minha orelha. — E agora, gente? O que será do nosso futuro?

Essa pergunta havia me pegado de surpresa. Durante todo esse último ano da escola, uma das únicas coisas que não passaram pela minha mente foi sobre o meu destino nos próximos anos, o que seria de meu futuro. Pensei em estudar para algumas provas, jogar bola com os meus amigos, conquistar a Mônica, aproveitar os últimos momentos com os meus amigos... Mas nunca sobre eu e meu futuro profissional.

Será que eu fui burro de não ter pensado sobre esse assunto? Preguiçoso o suficiente? Na verdade, eu só estava adiando tal preocupação, pois sabia que não era minha obrigação ir para a universidade logo de cara, mesmo que minha família quisesse isso. Eu preferi deixar esses problemas de lado por um tempo, pois sabia que quando fosse a hora de se esforçar, não decepcionaria a ninguém, nem a mim mesmo.

****

Muita coisa mudou desde a formatura até o começo do meu cursinho pré-vestibular. Comprei todos os meus materiais e a cada dia das minhas férias, pensava qual seria a profissão que escolheria para cursar em um nível superior. O que mais encaixava na minha pessoa?

Arquitetura? Podia arquitetar muitos planos, mas desenhar projetos e casas modernas não era algo que eu apreciasse tanto. .. Medicina? AH, não, não mesmo. Já basta ter visto a fratura exposta que o Cascão sofreu andando de skate... Engenharia? Deve ser legal estudar todos os materiais, como fazê-los e consertá-los, mas quando descobri que eu viveria o resto da vida fazendo contas, algo que não é para mim, desisti logo de cara. Mas então o que eu faria? Será que existia o curso para otários que não decidiram o que querem? Pena que não.

Para a minha sorte, não demorou tanto assim para eu perceber a minha vocação, no que eu realmente gostava de fazer. Assistindo “O Advogado do Diabo”¹ com o meu amor, admirei e muito a forma como aquele advogado invertia todos os casos, até os mais impossíveis, para o seu lado, condenando o inocente e salvando o condenado. Com aquela lábia impressionante, nada impedia aquele rapaz, nada. Tanto que o próprio diabo trouxe para seu lado.

- CALAMBA! Você viu isso, Mônica? Ele pressionou tanto aquela menina que ele conseguiu absolver aquele filha-da-puta! Impressionante!

- Parece que encontramos o seu discípulo — assinalou Mônica, fitando-me — E ainda você não tinha certeza do que queria...

- Mas ainda eu não sei o que quero, minha dentucinha... — afirmei, sério. Ela retribuiu meu olhar com aquele sorriso inconfundível de “Eu estou certa disso” — O Quê? Está achado que minha vocação é ser advogado? Você deve estar maluca...

- É claro que não! Você não vê? Desde pequeno você convencia o Cascão com a sua lábia para fazer os seus milhares de planos infalíveis! Mas não só ele, quase todos os meninos do bairro! Você ainda tem dúvida disso?

Ela tava certa quanto a isso. Como eu não percebi isso antes? Será que é o nervosismo pré-vestibular? Já começou a pressão? Po, mas nem começou as aulas...

Por pouco tempo. Lá estava eu, na primeira aula de cursinho. Ao contrário do meu terceiro colegial, havia pessoas de todos os tipos e idades, no total de 180 alunos em um anfiteatro gigantesco. Estava perdido por lá. É muita gente pra uma sala só! Como o silêncio se manteria? Mas foi aí que eu percebi que, como eu, há gente preocupada com as provas de final de ano. O silencio era total e a concentração, nem se fale. Foi muito estranho no começo, mas me acostumei com a sala aos poucos. Até com os professores, que não cansavam de dar lições de moral e tudo mais. Além, é claro, de nos desanimar logo no começo.

- Vocês entraram numa guerra. Daqui para frente será cada um por si. Mesmo que vocês se tornem amigos aqui nesse cursinho, na hora da prova, a amizade não conta. Eles serão seus concorrentes e querem tirar a sua vaga. A partir de hoje, cada um de vocês terá uma mudança drástica em suas vidas... Sabe aquela festa mais esperada do ano, que será muito legal? Esqueça, enquanto você ta ficando bêbado, tem japonês estudando e roubando sua vaga. Sabe aquele feriado prolongado, quando sua família vai pra praia? Não, você não irá, esqueceu que tem que estudar? Tem gente grudada nos livros enquanto você vai no banheiro! Por isso, vocês deixaram de fazer muita coisa esse ano. Poderão aproveitar a vida, claro que sim, mas não poderão fazer isso todo fim-de-semana, o vestibular exige isso. E lembrem-se: não vale a pena estudar tanto e chegar no dia e borrar nas calças. Você está numa guerra, ninguém a vence com as pernas tremendo e com a mão boba.

- E como você quer que a gente não borre as calças no dia? Você tem noção do que se trata! Temos que saber cada mísero detalhe de todas as drogas das matérias, saber escrever bem, fazer contas, saber historia geografia e o caralho a quatro e tem que mostrar que não está com medo? Ah, claro, como você disse, tem gente estudando agora, não é? — eu estava estressado. Só não sei como eu não troquei os erres.

- Bem vindo à vida, meu caro. — O Professor Reginaldo olhava sério para mim, indiferente.

- Bom, pelo menos depois do vestiba eu vou aproveitar a facul. Vai ser de boa! — sorri, encarando meu professor.

- Aí que você se engana! A tendência daqui para frente é só piorar!

AH! Que ótimo! Não basta se matar de estudar por horas e arrancar os cabelos a cada matéria que não entende. Terá que se ferrar ainda mais na faculdade e perder de vez os cabelos... Ele ta pensando que eu sou o que? Um robô metálico sem emoções? Eu tenho vida, poxa!

****

Desde quando me conheço por gente muitos me perguntavam o que eu faria quando eu crescer, qual seria o meu futuro no Mercado de Trabalho. As respostas sempre variavam de acordo com minha idade: já quis ser astronauta, o prefeito (para poder ser dono de todas as ruas), um herói, um jogador de futebol, entre outros. Mas, agora, o tempo passou muito depressa e esta impertinente pergunta se tornou em uma maciça decisão. O que será daqui para frente, agora que acabei a escola? De uma coisa eu tenho certeza: há apenas um plano infalível para conquistar minha vaga na universidade e eu lutarei até o fim. Prepare-se vestibular, porque eu estou chegando!”

Além das quatro horas do cursinho noturno, fazia meu curso de redação pela manhã e estudava mais seis horas na parte da tarde. Eu apenas parava para ir ao banheiro, comer um lanche rápido, tomar meu banho diário e para dormir. A rotina era de segunda à sexta. Aos sábados, fazia as tarefas do meu curso de redação pela manhã e estuda quatro horas na parte da tarde. Aos domingos, se não tinha um simulado , eu lia os livros que eram exigidos nas provas.

No tempo que sobrava, eu saia para refrescar um pouco as idéias: ia em algumas festas que o pessoal do cursinho ia, conversava sobre assuntos alheios e dançava ao lado da minha namorada. É claro, eu nunca esquecia da Mônica e nem poderia, afinal estamos na mesma sala e se eu não a levasse, não seria bonito da minha parte. Ah, eu acabei esquecendo de mencionar. Agora estudo em uma cidade próxima e moro por lá e com isso, fiquei longe dos meu pais pela primeira vez. Por isso, fico ainda mais complicado pra mim arrumar a casa, encontrar comida e lavar as roupas.

É, minha vida estava completamente do avesso. Finalmente eu estava entendendo o porque minha mãe implicava tanto com a louça não lavada, as roupas jogadas no chão e todas as sujeiras que deixava no quarto. Tive que mudar meus hábitos e ficar um pouco mais higiênico. Eu não sou o Cascão, mas sou homem. E geralmente gostamos um pouco de um quarto bagunçadinho, ele define minha psique.

Enfim, percebi que aquela perseverança de conquistar minha vaga na universidade deveria ser muito forte, porque a cada dia que passava, as matérias aumentavam e cada vez mais elas estavam me confundindo e isso me alucinava.

****

Antes das férias de julho chegarem, vieram as provas de meio de ano. Não eram muitos, mas se eu passasse em algumas dessas universidades federais, não precisaria estudar para esse tipo de prova até o final do ano. Seria uma mudança meio radical, mas seria bom acabar com esse sofrimento logo. Mas elas estavam me deixando louco, porque tinha conhecimento que não havia estudado tudo de fato, afinal ainda tinha outro semestre inteiro para isso.

- Você tem que parar com essa paranóia, Cebola! — Mõnica olhava preocupada para mim enquanto eu revisava uma matéria uma semana antes do meu primeiro vestibular — Se você não passar, não acabará o mundo... Você deve se despreocupar como eu, entende? Ficar de boa... Porque você já fez a sua parte, entende?

- Não! É você que não entende — Por mais que a gente crescesse, as nossas brigas nunca deixaram de ser rotina — O seu curso não é tão difícil como o meu. Direito só está atrás de Medicina em concorrência!

- E daí!? Relaxa, se você não conseguir, terá mais seis meses para estudar e ir com força total! Calma, o mundo não vai acabar por causa disso....

Por mais que ela tivesse certa, eu não conseguia concordar. Eu estava sobre pressão. Meus pais estavam torcendo por mim e cantando vitória antes da hora. Isso não era nada bom, nada bom... Eu fiz as provas, e não fui tão bem quanto eu esperava e passei pra segunda fase de apenas um vestibular. Fiz a segunda prova, mas não fui chamado. Será que é meu destino ser um inútil? Ter que estudar mais e mais? Ninguém merece...

Mas as férias haviam chegado e pude rever a minh turma do Limoeiro durante aqueles quinze dias de descanso. Voltaria na metade pro fim das férias a minha rotina de estudos, para não perder o ritmo e o ânimo. Mas, enquanto esse dia não chegava, joguei bola com os meninos e descobri que o sortudo do Cascão havia sido chamado para o time profissional do Limoeiro.

Fiquei feliz por ele, pois sabia que desde pequeno era a sua grande habilidade e tinha nascido para isso. Ainda bem que para ele não precisou de nenhum curso superior para ter um emprego que o daria sucesso. Enquanto eu continuaria nos meus estudos.Mas eu não ligava, sabia que no final das contas eu me orgulharia por esse momento.

Só não sabia quando.

****

Mesmo há quinze no ritmo de estudos para os vestibulares do fim de ano, o retorno das aulas foram piores do que eu imaginava. Porque dali para frente, além dos estudos, precisava me preocupar com todo o artefato que as instituições pediam.

Deixava de estudar alguns dias para tirar fotos 3X4 (que eram horríveis, por sinal), fazer as inscriões na internet, preencher algumas delas à mão e as levar para locais específicos. Colar as fotos nos papeis. Responder questionários intermináveis que eram pedidas nas fichas de inscrição, entre outras coisas.

Além disso, as matérias estavam cada vez mais complexas e confusas para mim. Hora ou outra me flagrava falando asneiras como a de que Darwin criou a formula da gravidade quando foi atingido por uma maçã. E aquela matéria que havia estudado no início do ano começava a escapar pelos meus dedos, pois fazia um tempo que as havia estudado.

Comecei a ficar mais paranóico do que antes. Não estava mais saindo aos sábados e estudava sete horas ao invés de quatro horas e fazia vestibulares antigos como louco. Só que com tudo isso, parecia que não estava fazendo nada, parecia que eu não havia estudado nada.

Arrisquei estudar de madrugada algumas vezes resolvendo exercícios das matérias que eram específicas para o meu curso. Mas isso não me ajudava, porque estva me afastando da Mônica e da minha vida social? Que monstro eu estava virando?

Isso me deixava triste, porque queria satisfazer todo mundo. Queria sair com a Mônica, queria ser o melhor vestibulando da história, mas não dava. Ou eu decepcionava a minha dentucinha, oumeu rendimento caía. Será que isso poderia piorar?

De acordo com a Lei de Murphy, sim.

****

- A DATA DO ENEM FOI ALTERADA POR ACONTECER UM FURTO DAS PROVAS DIRETAMENTE DA EDITORA RESPONSÁVEL PELA IMPRESSÃO DO EXAME.²

Não era possível. Tudo estava conspirando contra mim. Essa nova data fez com que algumas universidades não usasse a nota do ENEM, e outras ainda a usaria. E a nova data deixava tudo mais embolado. Desde o fim de outubro até o meio de dezembro, não teria quase nenhum descanso. Que ótimo.

Os dias foram passando e chorar às vezes se tornava mais freqüente para mim. Porque a pressão que coloquei em mim e a que os outros colocaram me deixaram frágil. Qualquer discussão sobre o assunto ou um erro bobo meu em outra coisa não relacionada ao assunto me irritava e me decepcionava. Naquele momento, precisava ser perfeito a todo custo. E em tudo. Senão não seria aceito por ninguém.

As provas de primeira fase vieram e consegui fazer todas elas até que bem de boa. Mas estava muito tenso por dentro, porque não tinha certeza se o que havia feito naquelas tardes me garantia um lugar pra realizar a tão sonhada (nem tão sonhada assim) segunda fase. Esperei ansioso, mas os resultados não chegariam tão cedo.´

É sempre assim. As melhores coisas que a vida pode oferecer não são conquistadas com tanta facilidade

****

Passou um mês e os resultados vieram: das cinco provas que realizei, consegui passar em duas para a segunda fase. E foram as mais difíceis, por sinal. Não que eu queira me gabar, mas eu me senti muito confiante depois de ver cada um dos resultados.

Mas isso durou pouco tempo, porque sabia que não poderia descansar agora. Precisava estudar mais um pouco para a segunda fase e chegar arrebentando a boca do balão. Peguei os livros de revisão de todas as matérias e os estudava oito horas diárias, com pequenas pausas para dormir, comer e tomar banho. Só não estudei no Natal e no Ano Novo, porque eram dias sagrados, é claro. Mesmo sabendo que havia loucos que estudavam nesses dias.

Mônica me apoiou muito nessa época, pois sabia que precisava dela. Ela notou que eu não desistiria e resolveu me ajudar, estudando junto comigo alguns dias, me auxiliando nas matérias que tinha facilidade. Meus pais estavam orgulhosos, pois seu filho estava colhendo o que estava plantando durante um ano todo. Mas eu vivia dizendo para eles

“Ganhei apenas uma batalha. Ainda falta vencer a guerra.”

Fiz todas as provas de segunda fase em duas semanas seguidas e estava muito feliz quando terminei, pois sabia que finalmente poderia descansar dos estudos e apenas aguardar os resultados. Mas estava com medo deles. E se eu não conseguisse? E se meu nome não estivesse na lista?

****

Depois de um mês de espera, os resultados finalmente chegaram, para alegria de uns e infelicidade de outros. Primeiro veio a da que eu mais aguardava: A UFBF³ (Universidade Federal do Brejo Fundo). Não havia passado. Veio a minha primeira decepção. Era a escola mias FODA para o curso que eu queria. Era simplesmente sensacional e eu não tinha conseguido. Foi uma das provas mais difíceis e

- Puta que pariu!! Não é possível! Aquele desgraçado do Ulisses passou! — disse, batendo a cabeça no monitor.

- Qual o problema, filho? — minha mãe olhou preocupada para mim

- QUAL O PROBLEMA? E VOCÊ AINDA PERGUNTA?? ESSE DESGRAÇADO NÃO FEZ NADA O ANO INTEIRO E PASSOU, E EU ESTUDEI QUE NEM UM CONDENADO E A BOSTA DA LISTA DE ESPERA NÃO APARECE! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAH

- Mas você não viu filho? Ele prestou Fílosofia, um dos cursos mais fáceis de conseguir vaga...

- O CARALHO MÃE! NÃO ERA PRA ELE TER NEM PASSADO PRA SEGUNDA FASE. ELE É UM INÚTIL EM PESSOA... E VOCÊ FICA DEFENDENDO ELE. FILHA DA PUTA, DESGRAÇADO!

- Não filho, não é isso. Eu so to te dizendo a verdade

- Não quero saber. -disse a fitando, com olhos lacrimejados — Eu sou um zero a esquerda. Um ridículo. Deixe-me em paz, não quero conversar com ninguém

No outro dia, saiu outro resultado, dessa vez da UETS³ (Universidade Estadual Tancredo Sampaio). Era mais fácil que a primeira e estava mais confiante em relação à ela. Mas outra decepção, ainda maior, veio para o meu desgosto. Meu nome não estava na lista e outra colega minha, que não era tão estudiosa, havia conseguido sua vaga.

Eu quis me jogar do precipício naquele momento. Dar um tiro na minha cabeça. Socar o meu estômago até dizer chega. Não fazia mais sentido para mim. Por que os inúteis conseguiram suas vagas e eu fiquei de lado? Qual a fórmula mágica deles? O que há de errado comigo? Não estudei o suficiente? Eu precisava beber mais energético para estudar vinte quatro horas por dia e comer qualquer coisa durante intervalos mínimos?

Só não estava pior porque soube que a Mônica havia passado em Gestão Ambiental pela UFBF e estava feliz por ela. E não por mim. Estava decepcionado com o Cebola. Este sim é um inútil em pessoa.

- Não se preocupe amor, o melhor vem sempre na hora inesperada. Você vai ver!

Tomara que ela esteja certa

****

Duas semanas depois de ficar sabendo das catástrofes dos meus resultados, eu nem voltei a pesquisar nos sites das universidades. Se eu passasse por algum milagre, o que era impossível, talvez eu nem saberia. Mas era aí que eu estava enganado.

Enquanto estava vendo uns e-mails pela internet, o Cascão, a Mônica e Magali abriram uma conversa em grupo

- CARALHO!! TU PASSOU MULEQUE!!! AGORA VAI FICAR FINALMENTE CARECA, HEIN? — Cascão sempre foi um pouco escandaloso, admito.

- Que brincadeira vocês estão aprontando pra cima de mim, hein? Não quero piadas sobre esse assunto!

- É sério Cebola, ta lá no site, é só verificar! — Magali parecia falar a verdade ao digitar essas palavras.

- ainda não acredito em vocês....

- Amor, não é brincadeira!! Olhe e comprove você mesmo! — Mônica era muito persistente e não desistiria tão fácil.

Olhei primeiro no site da UETS, e meu nome não estava lá. Sabia que era uma piada.

- Eu olhei o site, mas meu nome não apareceu lá. — eles estavam me tirando do sério.

- Careca, tu olhou no site certo? Véi, é sério1 Olha lá que tu não vais se arrepender — como ele ficou culto de uma hora pra outra??

Desta vez eu verifiquei no site da UFBF. Só que o site travou e a lista não aparecia. Era bom demais para ser verdade. Esperei uns dez minutos e finalmente consegui abrir aquela joça de lista. Fui direto na letra C, procurando um nome estranho no meio daqueles milhares. Afinal, não existem muito meninos que tem o nome de Cebola, não é? Camila, Camila, Carolina, Carolina, Carolinna, Caroline, Caroline... AH, cadê o meu nome?

Eis que veio a minha maior surpresa: Eu havia visto o meu nome estampado naquela lista. Parecia até que estava em negrito.

Não é possível? Será que é verdade? É mesmo o meu nome? Verifiquei mais uma vez, era meu nome mesmo, não dava pra confundir!!

CARALHO!! EU PASSEI NA PORRA DO VESTIBULAR!! NÃO ACREDITO!! EU CONSEGUI! EU CONSEGUI! MEU NOME ESTÁ LÁ! — estava tão eufórico que digitei tudo errado na tela do computador...

- Parabens, careca! Tu merece, véi! — Cascão deu a impressão de estar com o sorriso estampado do outro lado da tela

- Parabéns, Cebola! Agora você é um universitário!

- Parabens, meu amor! Você merece demais essa conquista! Estou muito orgulhosa de você.

Depois que eu revi pela quarta vez o meu nome na lista realmente a minha ficha havia caído. Comecei a gritar que nem um louco. Para mim, não importava mais nada. Podia vir o Avogado do diabo falar que isso foi uma fraude, eu não o ouviria. Poderiam dizer o que for, fazer o que quiserem, nada tiraria minha felicidade.

Falando nela, não dá para descreve-La, de verdade. Por mais que você tente, é impossível.

É como o amor.

Não foi feito para ser definido.

E sim sentido.

Notas finais
N/A: Há tempos eu estava para escrever essa fanfic, mas nunca consegui uma devida inspiração para a mesma. Talvez quase ninguém aqui (tirando algumas pessoas, é claro) passou por essa fase do vestibular, mas já ouviu falar de algo parecido, não é mesmo? Como eu já consegui passar por esse momento tenso, acho justo escrever sobre tudo o que se passa: os medos, anseios, e as conquistas. Espero que essa história compense o meu sumiço pela comunidade!

¹O Advogado do Diabo (The Devil's Advocate, no original) é um filme estadunidense de 1997, do gênero drama, dirigido por Taylor Hackford.

² No ano de 2009, esse fato realmente aconteceu. As provas foram roubadas da editora responsável pela impressão das provas do enem e o cara que as roubou quis as vender o gabarito para os cursinhos pré-vestibulares.

³ Os nomes das instituições são fictícios. Se alguma universidade tiver essa sigla, é mera coicidência
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!