Fairy Tail! Aratana Densetsu!
84 Hoje nem é seu aniversário.
Notas iniciais
— Ei! Vocês já encontraram alguma coisa aí?
— Você perguntou a mesma coisa mal faz um minuto, então acho que não. Que desespero é esse, cara?
O desespero de Eriol se chamava rinite alérgica. Fazer o pobre menino lidar com toda a poeira da biblioteca da Fairy Tail estava sendo bastante cruel.
Dois meses depois da Batalha das Fadas e do velório de Taylor, os membros da Fairy Tail decidiram que era hora de entender quem seria o próximo Mestre da guilda, então foram atrás de algum testamento onde Taylor pudesse ter registrado quem desejava como sucessor. Dante, Diego, Elijah, Nadeshiko e Neko, e Eriol-de-olhos-lacrimejando-e-nariz-vermelho foram escalados para a missão de revirar a biblioteca atrás de algum documento.
— Esse castigo é ruim demais até pra mim — Dante reclamou. “Imagina pra mim!!”, Eriol choramingou no fundo.
— Cala a boca, isso é coisa de família. — Diego parou para limpar a poeira do rosto. — Caramba… A gente lê muito pouco, né?
— Nadeshiko-sama, cuidado para não engolir nenhum inseto — falou Neko, o Exceed da garota.
— Ah… Eu não estava preocupada com isso até agora…
— Por que a gente não pediu ajuda do Shuichi aqui? — Eriol disse entre duas fungadas. — O Archive podia ser muito útil!
— Já disse, é assunto de família. Nós mesmos já somos úteis o bastante.
— Como você acha que eu tô sendo útil aqui?!
— Vocês choramingam demais! — Elijah ralhou com eles. — Não dá pra ter compostura nem quando é pra resolver um assunto sério, pô?! — Dito isso, ele puxou mais um documento com capa grossa, abriu, e a careta mudou completamente. — Hm?
— O que foi? Achou?
— Achei… Mas deve ter algo errado.
Os outros cinco se reuniram em volta de Elijah, se empurrando para ler o papel (claro, Neko tinha a vantagem de voar sobre eles), e um por um foi ficando surpreso e feliz pelo que viu ali. Eriol espirrou.
— Saúde — sussurrou Elijah.
O mago arqueiro soltou uma risada alta. Bateu no ombro do amigo.
— Valeu, Mestre Elijah!
. . .
Foi mais ou menos nesse horário da manhã que Nicolas Evans acordou com o sol no rosto. Fez questão de se demorar sentindo o aroma e cada detalhe daquela manhã, espreguiçando o corpo embaixo das cobertas. Tinha três motivos para acordar sorrindo: 1) era seu dia de folga dos trabalhos da guilda; 2) era seu aniversário; 3) era a primeira vez que acordava ao lado de Yume.
Aconchegou-se mais perto da namorada, deixou beijinhos leves em seu ombro, fez carinho no cabelo perto de sua orelha. Yume começou a sorrir antes de abrir os olhos.
— Bom dia — sussurrou com a voz sonolenta. — Feliz aniversário.
— Eu te amo.
— Também te amo.
Os dois trocaram uma série de selinhos alternada entre sorrisos e afagos no rosto. Depois de um final e mais demorado, Nick deitou a cabeça sobre os seios seminus da amada, com ela fazendo cafuné na sua cabeça.
— Posso ficar aqui pra sempre?
— Aí não vai poder tomar seu café da manhã especial.
Nick passava os dedos pelo corpo da amada com tanta suavidade que parecia com medo de acordar de um sonho de repente. Era extremamente grato pela tranquilidade dos últimos meses; estavam precisando de um tempo para só viverem, principalmente depois do terror da Batalha das Fadas. Todos saíram muito abalados pelas lutas que enfrentaram e a morte de Mestre Taylor ainda causava alguns choros silenciosos pela guilda.
Pessoalmente, Nicolas precisava muito daqueles momentos em silêncio com Yume e mais alguns consigo mesmo, ainda mais daquele sonho que teve depois da luta com Gray. Pensava nele constantemente; continuava parecendo muito real, às vezes sentia o corpo arrepiar só de pensar. Estava muito convicto de que era uma memória, não apenas um sonho.
Seus dedos alcançaram as cicatrizes no braço de Yume. Um dos presentes que ela teve na luta contra Erza; tinha outras pelo corpo, mas no abdômen estava a maior, onde a veterana fincou sua espada no golpe final. Naquele dia, Nick pediu perdão um milhão de vezes para a namorada por não ter ficado com ela e não ter a protegido quando precisou, ainda que Yume respondesse um milhão de vezes que não era para se preocupar com isso.
— Foi a batalha que eu precisei ter. — Yume repetiu pela milionésima primeira vez quando percebeu Nick se demorando no carinho naquela cicatriz. — Você não está preocupado com isso ainda, está?
— Bem… Às vezes, sim. Mas é porque eu sou burro. Sei que você é forte o bastante pra aguentar.
— É. Eu sou forte mesmo. Até mais do que você.
— Você com certeza é a Dragon Slayer mais forte lá da guilda.
— E mais forte do que você também, né?
— Nós nunca lutamos pra ter certeza.
— Quer lutar então?
— Nah, tenho medo.
Nicolas se ajeitou para encarar Yume de novo. Ela estava com aquele sorriso brincalhão que ele adorava.
— Mas eu quero lutar do seu lado por mais quanto tempo tivermos — declarou. — Então, da próxima vez, vamos fazer isso juntos.
Yume também se ajeitou para chegar mais perto dele. Colocou a mão sobre sua bochecha.
— É bom que seja uma promessa.
— E é. Eu prometo.
O casal ficou em silêncio trocando carinhos delicados e olhares focados apenas um no outro. Nick podia mesmo viver ali para sempre. Mas queria viver ainda mais, porque, olhando para Yume naquela hora, podia enxergar seu futuro.
Isso durou até o alarme soar.
— Opa… Tá quase na hora de sua irmã chegar.
Estava mesmo. Os dois se obrigaram a levantar, porque não podiam atender a porta só com a roupa de baixo.
. . .
— Olha aí, meu irmãozinho é praticamente um adulto já!
O ânimo ativo de Heather tomou conta do espaço assim que Nicolas abriu a porta. Sua irmã mais velha deixou a sacola com comida no chão por um segundo só para dar um abraço bem apertado.
— Feliz aniversário, maninho.
— Obrigado, onee-chan.
Os últimos dois meses também deram a oportunidade para os irmãos finalmente terem mais momentos de reconexão, tão necessários desde que Heather voltou e, mais ainda, desde que revelaram o segredo sobre Nick ter sido um Dragon Slayer e não ser irmão biológico dela. Precisavam muito daquilo para se sentirem uma família de verdade de novo, como deveria ser.
— Você trouxe mesmo…?
— Tudo o que você pediu! — A mais velha pegou a sacola de novo e foi entrando na casa. — Seus dezessete anos merecem isso, né? Oi, Yume!
A mesa foi posta: panquecas fofas, onigiri, omelete, tofu, uma garrafa térmica com chá verde, e ainda alguns manju para completar.
— Nossa, Heather, não sabia que você cozinhava tão bem! — Yume estava se deliciando com as panquecas.
— É claro que cozinho!
Nick sabia disso, mas estava surpreso mesmo é por ela ter se dedicado a fazer tanta coisa. Nem toda a habilidade que Heather tinha mudava o quanto ela detestava ficar na cozinha. Entendeu quando viu o recibo caído no chão, só que dessa vez resolveu só chutá-lo para longe e disfarçar a risada.
Ele ficou quieto na maior parte do tempo do café da manhã porque estava se divertindo observando como a namorada e a irmã tinham se aproximado tanto. Ficava feliz em incluir só pequenos comentários enquanto elas conversavam sobre a comida, os trabalhos nas guildas, os últimos treinos, e várias trivialidades da vida. Era gostoso. Soava como família.
Ao fim da refeição, Yume se ofereceu para lavar tudo. Deu um beijo no rosto de Nick antes de empilhar a louça e levar para a cozinha. Heather deu um soquinho no ombro dele quando ficaram a sós.
— Você tem uma pessoa incrível com você, hein?
— Nem me fale. Dei sorte demais.
— É bom ver essa felicidade na sua vida. — A irmã apoiou o queixo na mão e se virou mais para o caçula. — Como você está?
Nicolas reclinou a cabeça para trás, encarando o teto.
— Estou bem, na verdade. A dúvida sobre o que provocou aquela batalha ainda me atormenta de vez em quando. Mas no restante do tempo, estou só vivendo minha vida. Sinto que todo mundo na guilda tem se ajudado nisso.
— E os treinos?
O rapaz apertou os punhos duas vezes. Todo mundo já sabia sobre a explosão de poder de Dragon Slayer que aconteceu na luta contra Gray, e que tinha começado a treinar para pelo menos estar mais forte caso o próprio poder tente se descontrolar de novo. Heather e Kazumi, a veterana da guilda que foi responsável por salvar Nick do laboratório quando criança e que o colocou sob cuidados dos Evans, vinham o ajudando nisso sempre que podiam. Às vezes se perguntava se usar aquela lacrima — a que continha o seu antigo poder — o ajudaria, mas tinha certo receio. Não queria aquele poder. Só queria ser capaz de dominá-lo.
— Todos os dias, sem falta. Sinto que minha magia tem crescido muito.
— É porque você tem crescido muito.
— É… Sabe, onee-chan… Ando pensando muito sobre aquele sonho.
Heather se remexeu na cadeira. Nicolas se virou totalmente para ela.
— Quero dar um jeito de saber mais sobre aquele cara… O cara que lembro de ter me assustado tanto.
— Já perguntou para a Kazumi?
— Já, mas ela também não tem nenhum registro. Disse que não tinha ninguém como eu descrevi quando ela me salvou do laboratório.
A moça balançou a cabeça devagar, depois olhou para o chão. Nick conhecia aquela careta.
— Por que você quer tanto saber disso?
Ele apertou os punhos de novo, batucou os dedos nos joelhos, respirou fundo.
— Porque estou morrendo de medo dele.
Heather olhou para ele de novo, mas agora foi Nick quem olhou para o chão.
— É assustador pra mim não saber por que ele fez isso comigo. Por que matou meus pais? O que queria com meu poder? E se aquela lacrima está comigo, será que ele ainda está atrás de mim? E se vier… Ele já matou meus pais. O que mais poderia fazer?
Sentiu sua irmã colocando a mão sobre a dele.
— Preciso saber. Preciso entender quem ele é e como posso derrotá-lo se ele chegar até aqui. Tenho que ficar mais forte. Porque não… Não posso aguentar o pensamento de ele matar mais pessoas que eu amo.
— Nick, olha pra mim.
Levou alguns segundos, porque não queria que ninguém o visse chorando em seu aniversário, mas levantou a cabeça. Encontrou o sorriso confiante de Heather a sua frente.
— Se ele for burro o bastante aparecer, com certeza vamos derrotá-lo e vingar seus pais. Todos juntos. Eu até arranco o tal bigode com as minhas mãos. — Ela apertou sua mão. — Dessa vez você tem uma irmã mais velha com você e toda uma família enorme. Lembra disso quando ficar com medo, tá?
Nick apertou a mão dela de volta e retribuiu o sorriso com um mais singelo. Seu coração estava mais quente. Porém, não queria confessar ainda que precisava fazer força para ter cem por cento de certeza naquelas palavras; não por não confiar nos seus amigos, mas por não querer ser um fardo para eles. Se realmente acontecesse de aquele homem aparecer, Nick queria ser capaz de resolver por ele mesmo. Algum lugar dentro dele achava que contar com a ajuda dos outros era o mesmo que repetir a história da criança indefesa que não pôde impedir que os pais fossem mortos.
Como poderia colocar uma besteira dessas em voz alta? Só o que poderia fazer naquela hora era fingir uma confiança total até senti-la de verdade.
. . .
O combinado era o seguinte: Yume e Heather teriam um café da manhã especial com Nick, e no fim da tarde todos se encontrariam na Fairy Tail para sua festa de aniversário. O período no meio disso era o tempo que ele tinha pedido para comemorar à sós e treinar. Todo mundo já entendia que Nick gostava de ter esse momento àquela altura.
E não é como se não fossem ficar ocupados até a hora da festa: tinham que receber os convidados que vinham das outras guildas, arrumar a decoração, preparar a comida e tudo o mais. Yume é que estava coordenando tudo… O que não era uma tarefa fácil na Fairy Tail. Especialmente naquele dia.
— Elijah-sama, esse enfeite está bom para Vossa Majestade?
— Elijah-sama, minha roupa está decente para sua senhoria?
— Elijah-sama, tem comida o suficiente para sua divindade?
“Elijah-sama” estava trovejando de irritação.
— Por que raios vocês estão usando meu novo cargo para me zoar?!
— Você falou “raios” com raios saindo de você! Hahaha! — Eriol estava rindo um pouco demais. — Que engraçado, Mestre!
Ele levou um choque.
— Tem certeza de que não quer comemorar sua posse também, Elijah? — Yume perguntou.
— Não, tô de boa. Hoje é o dia do Nick mesmo. É bom que me dá mais tempo para me acostumar.
Os idiotas voltaram a zoar com ele e os raios voltaram também, então Yume achou melhor se afastar.
Nadeshiko e Ace estavam voando pelo teto com Neko e Lucky para colocar os efeitos mais altos; Yui, Sasha e Aiko criavam as decorações de gelo; Luke e Diego tinham puxado Deivid para ir buscar o bolo e o restante dos salgados; Ammy e Dante enchiam os balões (na verdade Ammy estava mais se divertindo deixando o amigo fazer a maior parte do trabalho, mesmo ela tendo com certeza a melhor habilidade nessa tarefa); Felicity fazia arranjos de flores com uma ajuda esforçada de Eriol… Cada um fazia sua parte e até estavam bastante organizados. Para Yume, era um alívio tremendo ver o plano dando certo.
— Está ficando bem bonito! — Mia se aproximou dela. — Nick vai ficar muito feliz.
— Eu espero que sim… É o primeiro aniversário dele desde que começamos a namorar, então queria que fosse perfeito.
Mia cutucou a amiga com o cotovelo.
— E o seu já é mês que vem. Aposto que ele vai querer fazer o mesmo por você.
Era engraçado Yume ainda ficar vermelha com essas coisas.
— É, é a cara dele também.
— Fico muito feliz mesmo por vocês. — Mia deixou os olhos divagarem para o teto. — Confesso que às penso nisso também…
Yume seguiu seu olhar e viu que coincidentemente ia bem na direção de Ace — que agora estava só brincando lá em cima, a propósito. Ela devolveu a cutucada na amiga.
— Você vai ter.
Foi a vez de Mia ficar vermelha, mas tinha um sorrisinho ali.
Os membros da Blue Pegasus, primeira guilda de Nick, chegaram alguns minutos depois. Kazuo e Kouji se ofereceram para ajudar no que dava, e Yuri foi terminar o presente que estava preparando com a própria Magia de Madeira. Heather começou a dar bronca em quem estava bagunçando, só que acabava entrando um pouco na palhaçada também. O salão estava cheio demais e ficando um pouco caótico.
Yume não parava de sorrir. Nick ia adorar.
. . .
Então, quando o fim da tarde foi chegando, Nick se pôs a caminho da guilda. O dia tinha sido bastante agradável e calmo para ele, mas estava pronto para viver a bagunça de uma comemoração na Fairy Tail. Andava sem pressa; queria aproveitar cada segundo da paz que sentia.
Estava tão absorto naquela paz que não notaria nada demais nas pessoas na rua.
Não notaria ninguém… A menos que tivesse algo de familiar.
Tinha alguém sentado em um banquinho próximo ao parque. Nick parou de andar.
— Você cresceu — disse o homem.
Usava um terno marrom apesar do calor. O sapato parecia muito bem polido. Estava sentado com as pernas cruzadas e um livro grosso no colo. O chapéu coco deixava seu visual entre antiquado e quase cômico, mas nunca seria cômico para Nick, porque quando o homem levantou mais o rosto, a marca de familiaridade ficou muito mais clara: aquele bigode.
Imagens confusas e sobrepostas de um dia horrível na infância deram início a um looping doloroso na memória de Nicolas. Estava suando antes que percebesse. Sua cara devia estar estampada pelo medo.
E estava mesmo.
O homem ficou de pé.
— Oh… Vejo que se lembra de mim. Talvez não do meu nome, não é? — Ele estendeu a mão para Nicolas Evans. — Eu sou Edmond. É um prazer revê-lo, Daniel Fullbuster.
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