Notas iniciais
Sugestão de música: Time Machine - Goose House

Não pude deixar de olhar para ela. Seu olhar simplesmente me penetrava. Seus cabelos, balançando suavemente conforme o vento batia, e seu sorriso, que brilhava mais do que uma aurora, provavelmente por causa da luz do poste batendo em seu gloss. Estou exagerando um pouco, mas aquilo certamente me hipnotizava. Confesso que toda vez que ela olhava em minha direção, eu desviava o olhar. É claro que eu vou falar com ela, mas essa não é a hora. Ver de longe já é o bastante, por enquanto. Olho pro céu escuro e estrelado. Vejo uma estrela cadente, mas não me importo muito com isso. São apenas meteoros se incendiando por causa do atrito com o ar. De repente, sinto um calor enorme, vindo de trás de mim. É como se eu estivesse perto de uma fogueira. Não, de algo maior. Olhando ao meu redor, percebo que a praça não está mais lá. Viro-me e vejo um edifício queimando. É parecido com uma universidade, mas não tem nenhuma na cidade. Isso é uma espécie de sonho? Não me lembro de ter dormido, e é tão real. Posso sentir o calor. Vejo os bombeiros chegando, enquanto algumas pessoas desesperadas ficam ao redor do edifício. O fogo ainda não está em todo o prédio, mas as chamas estão começando a se espalhar. Me aproximo de uma das pessoas que estavam ali.
— Com licença, o que aconteceu? — Pergunto, educadamente.
— A escola... pegou fogo do nada... Haviam vários estudantes de uma cidade vizinha passando um tempo aqui... acho que todos morreram... — Ela disse, com lágrimas nos olhos.
Fico surpreso. Os bombeiros fazem o que podem para conter as chamas, mas elas estavam muito fortes. De repente, uma explosão dentro do prédio faz tudo desabar, enquanto as chamas continuavam intensas, se espalhando de vez para o resto do edifício. Ouço uma voz chamando meu nome atrás de mim. Ao me virar, me deparo com Pedro. As árvores da praça estavam ali, assim como todo o resto da turma, sentado nos bancos sob a luz dos postes. Não havia mais incêndio, nem bombeiros, nem mesmo a universidade. O que me veio foi uma forte dor de cabeça. Confuso, pergunto à Pedro o que havia acontecido.
— Você simplesmente apagou. Estava sentado, mas não ouvia nem falava. Tá tudo bem? — Ele explica.
— Sim, eu acho que eu acabei... sonhando acordado, ou algo do tipo. — Digo, sem entender o que estava se passando.
— Tu tá se envolvendo com drogas, moleque? — Giulia, que também estava por ali, pergunta.
— Não, pelo menos não que eu me lembre. — Respondo, descontraído. — Acho melhor eu ir pra casa. Do nada me deu uma dor de cabeça... — Digo, levantando-me.
— De boas. Amanhã a gente se fala. — Pedro fala.

Despeço-me do pessoal, e olho uma última vez pra Louise, que estava conversando com uns amigos. Ela olha pra mim e sorri. Repito o gesto. Em seguida, vou para casa, ainda pensando no incêndio. Meu pai estava trabalhando, então não tinha ninguém lá, foi o que eu pensei. Ouço alguns barulhos no andar de cima.
— Ah, Sebastian... Bem, não estou surpreso. Qualquer oportunidade de vir aqui em casa, ele vem. — Penso.
Vou até a cozinha e preparo um sanduíche. Subo para o meu quarto, dando uma batida na porta da Lorena, com a intenção de diminuir um pouco o barulho. Tentativa falha, de qualquer modo. Ligo meu computador, e procuro algo sobre o incêndio. Não havia nada falando de incêndios em escola envolvendo estudantes na região há alguns séculos. Então, onde eu poderia ter visto aquilo pra replicar em um sonho? Foi realmente um sonho? Ou será que alguém me drogou e eu comecei a ter alucinações? Perdido em meus pensamentos, depois de um tempo percebo que o Sebastian já tinha ido embora e meu pai já havia chegado em casa. Lorena escondia o relacionamento dele. Não sei porque, ele é um cara bem legal. O pai ia ficar tranquilo, eu acho. Pego um pedaço da pizza que meu pai havia pedido e subo para dar uma última vasculhada no computador em busca de respostas, mais uma vez sem sucesso. Cansado, desligo a máquina e me preparo pra dormir. Deito na cama e penso em coisas que aconteceram, e no que podia acontecer. Sempre faço isso. Logo caio no sono, e quando acordo, percebo que estou em um lugar diferente. Um... ônibus? Toda minha sala está nele. Parecem animados com algo. Lorena está do meu lado, com um fone de ouvido observando a paisagem pela janela, típico dela. Estou sentado no assento do corredor. É como um dia normal de aula, mas eu não lembro de ter levantado da minha cama. E não estamos na cidade, parece uma rodovia. Cutuco minha irmã, querendo informações, mas ela me ignora e aponta para o fone de ouvido, sugerindo que não quer falar com ninguém, típico dela. Pedro está na poltrona à minha direita, na outra fileira de assentos do ônibus.
— Ei, Pedro! — Chamo, um pouco baixo mas alto o suficiente para ele ouvir.
Ele olha pra mim, ouvindo o que tenho a dizer.
— Pra onde a gente tá indo? — Pergunto.
— Ué, pra Knoxville. — Ele diz, com um olhar confuso. — A viagem, lembra?
— Claro, só tô zoando. — Digo, dando um sorriso amarelo. — Knoxville, claro. Muito boa cidade.
— É... — Ele diz, voltando seu olhar para Giulia, que estava do seu lado, e em seguida cochichando algo.
Por que minha sala está indo pra Knoxville? Eu realmente acordei e não me lembro de ter entrado no ônibus? Mas não tinha nada marcado pra hoje, nem nas próximas semanas... Se houvesse uma excursão ou algo do tipo eu saberia... Literalmente num piscar de olhos, estamos dentro da cidade. O ônibus para na frente de uma escola. Minha sala desce animada. Lorena me empurra para eu sair logo. Ela parece a única que não está muito confortável com essa viagem, além de mim, é claro. Ao me levantar, começo a ouvir uma música, muito familiar. É a música do meu despertador. Sinto vibrações perto de mim. De repente, abro os olhos, com meu celular vibrando em baixo do meu travesseiro, enquanto toca a música. Foi só um sonho? A dor de cabeça voltou, dessa vez ainda mais forte. O que tá acontecendo?

Capítulo 1: Time Machine

Tento não pensar muito no que aconteceu, mas acaba voltando pra minha mente vez ou outra. Eu nunca tive sonhos tão reais assim. Quer dizer, eu podia sentir o vento, o calor, as vibrações... Tomo um remédio pra dor de cabeça na cozinha, como um pão e me arrumo para a escola. Lorena já estava descendo. Ela se encontra com umas amigas a 2 esquinas de casa para irem juntas à escola. Eu costumo ir sozinho, me encontrando com Pedro
na entrada da escola. Despeço-me de meu pai e saio. O caminho para a escola é tranquilo como sempre. Moro em uma cidade pequena, com apenas 15 mil habitantes, então não tem muito movimento, principalmente nessa hora da manhã. A escola fica um pouco longe de casa, no centro da cidade, então durante a caminhada dá pra pensar bastante. O problema é que não há muito no que pensar. Eu não faço ideia do que está acontecendo, e cada vez que eu penso sobre isso eu tenho menos ideia ainda...
Na entrada da escola, encontro Pedro. Ele está sentado na escada da frente com seus fones de ouvido. Me aproximo e sento ao seu lado. Ele tira os fones do ouvido para conversar.
— Você ficou sabendo? — Ele pergunta. — Parece que a gente vai viajar mês que vem. — Ele continua, não dando oportunidade para eu responder.
— Viajar? Pra onde? A gente quem? — Pergunto. Essa afirmação deu brecha pra vários questionamentos.
— A nossa sala. Ainda não sei pra onde, mas vai ser pra alguma cidade perto. Papo de ver como é uma universidade, essas coisas. — Ele responde.
— Ah tá. Você já sabe que faculdade vai fazer? — Pergunto. Esse assunto é meio delicado pra Pedro, mas é sempre bom saber se ele pensou em algo.
— Eu estava pensando... Talvez eu devesse mesmo cuidar dos negócios do meu pai. É o que ele quer. Além do mais, eu nem sei que curso eu quero fazer, ou se eu consigo passar em alguma faculdade.
— Mas você ainda assim vai pra viagem? É uma boa oportunidade pra decidir o seu futuro. Se você se interessar por alguma coisa lá pode ser bom. — Digo, tentando animá-lo.
— Sei não... Não tô muito animado, mas acho que eu vou. Se eu ficar na escola vou ter que ficar assistindo aula. — Ele diz.
O sinal toca e nós dois entramos. A Giulia costuma chegar atrasada, então vamos para a sala sem ela. Foi uma manhã normal, como outra qualquer. Tentei não pensar muito no sonho que tive, mas o fato de eu ainda lembrar completamente dele me causava desconforto. Quero dizer, se fosse mesmo um sonho eu teria me esquecido de muitas coisas... Enfim, assim que o intervalo chegou, Pedro, Giulia e eu fomos para o refeitório. Era a mesma gororoba de sempre, mas hoje tinha uma maçã. Sentamos em uma mesa e começamos a conversar.
— Pedro, você fez a tarefa de matemática? Eu não consegui fazer ontem. — Giulia diz, enquanto morde uma maçã.
— Eu não! Não entendo nada daquela bagunça, pra mim é um monte de letras e números bagunçados! — Ele reclama. — Não sei nem pra que a gente estuda isso, não vamos usar em nada nas nossas vidas! — Ele continua, transtornado.
— Vamos usar nas provas. — Digo, levantando e pegando minha bandeja. — E se for pra pensar assim, saber o que foi a Festa do Chá de Boston não vai nos ajudar em nada também. — Começo a caminhar em direção à lixeira.
— É um bom argumento, mas eu ainda não gosto de matemática. — Ele diz, repetindo o gesto e me acompanhando.
— Você fez, Nathan? — Ela me pergunta, também pegando sua bandeja e levando ao lixo.
— Acho que não, que tarefa é essa? — Pergunto, tentando me recordar.
— Ah, deixa pra lá. Vou ver se a Lorena fez. — Giulia diz, indo em direção à mesa em que minha irmã estava sentada.
— Não, sério. Que tarefa é essa? — Pergunto pra Pedro.
Após o intervalo e todos os alunos irem para suas salas, o diretor entra em nossa classe. Ele é um senhor de idade, por volta dos 60 anos. Sempre veste um terno cinza e uma gravata vermelha. Seus cabelos negros fazem os alunos se perguntarem se é uma peruca ou se ele tem um tônico capilar eficiente. — Bom dia. — Ele diz, dando um intervalo de tempo para os alunos responderem. Ninguém responde, como sempre. — Como alguns de vocês já devem estar sabendo, vamos fazer uma viagem para Knoxville. Lá, passaremos o dia na Universidade Estadual do Tennessee para vocês verem como é com seus próprios olhos, e, se isso despertar interesse, já terão uma boa ideia de que curso poderão fazer e em que faculdade. É uma oportunidade ímpar para a vida de vocês — Ele continua, voltando o olhar para o professor. — Ah, Marcos, se eu tivesse tido essa oportunidade quando eu era jovem, tudo poderia ser tão diferente, não é? — O professor concorda com a cabeça. — Enfim, a viagem está marcada para o dia 22 de Setembro. A autorização para seus pais assinarem será passada em breve. Obrigado pela atenção e boa aula. — Ele se despede. Um burbúrio na sala começa assim que ele sai. Pedro, que se senta na carteira ao lado da minha, se vira para falar comigo.
— Knoxville... não é tão longe, é? — Ele pergunta.
— Eu ouvi esse nome recentemente... — Tento me recordar. — Aonde foi? — Penso alto.
— Provavelmente na TV. Nossa cidade não tem canais de televisão, então o sinal vem de lá. — Ele diz. — Você vai pra essa viagem, Giulia? — Ele pergunta, cutucando ela, que senta na carteira à sua frente.
— Claro, ué. Tenho que pensar no meu futuro. — Ela responde, concentrada escrevendo alguma coisa.
— Não, não pode ter sido. Eu não assisto televisão. — Digo. — Não foi você que me falou algo sobre isso, Pedro? — Pergunto a ele. Antes que ele me respondesse,
o professor chama a atenção da sala e todos fazem silêncio. A aula continua. No final da aula, saio da escola acompanhado de Pedro. Nos despedimos e começo a caminhar em direção à minha casa. Meus fones de ouvido quebraram, então tudo que eu posso fazer durante o caminho é olhar para as mesmas árvores e cercas que eu olho desde o começo do ano. Penso nessa viagem que vamos ter pra Knoxville, e onde eu ouvi esse nome antes. Claro, é a maior cidade perto daqui e eu provavelmente ouço o nome dela com certa frequência, mas não foi numa situação normal, foi... no sonho! Sim, estávamos indo para Knoxville, numa viagem da sala, exatamente como vai acontecer mês que vem. Será que é só coincidência? Não seria impossível, mas isso nunca tinha acontecido comigo. Um sonho que tive se mostrar real. Procuro não ficar paranoico com isso, e tento deixar pra lá. Chego em casa, almoço e vou para o meu quarto, onde fico no computador. Depois de algum tempo, ouço barulhos no andar de baixo. Vou ver o que é e me deparo com a Lorena inquieta, andando de um lado para o outro e meu pai no telefone.
— O que aconteceu? — Pergunto, confuso.
— O Sebastian sumiu! — Lorena responde, em um tom um pouco agressivo.
— O quê? Como? Ele tava aqui ontem à... — Lorena me interrompe, olhando para nosso pai.
— Ele saiu da casa dele ontem à noite e não voltou. — Minha irmã explica. — O pai tá ligando pra algumas pessas pra saber onde ele pode estar.
— Já ligaram pra polícia? — Pergunto.
— Sim, mas só ele só pode ser considerado desaparecido depois de 24 horas sumido. Um absurdo, se ninguém tem notícias dele desde ontem à noite ele tá desaparecido
cacete! — Lorena reclama, furiosa.
— Por que o pai está ajudando? Ele não sabe que vocês estão... — Pergunto.
— Eu falei pra ele que um amigo meu sumiu e pedi pra ele ligar pra alguns conhecidos, ué. — Ela explica. Meu pai desliga o telefone.
— Ele não está na casa do Warren também. — Ele diz, olhando para um papel. — Era o último da lista.
— Droga, eu vou procurar! — Lorena diz, indo em direção à porta de casa.
— Procurar aonde? — Meu pai pergunta, sem resposta. — Volta aqui, sair assim não vai ajudar em nada! — Continua, seguindo ela para fora. Subo as escadas novamente e atravesso o corredor, abrindo a porta do banheiro. Porém, não entro no banheiro, e sim numa sala de aula. Não parecia ser na minha escola. Percebo que é um daqueles sonhos de novo. Isso definitivamente não é normal. Parece que estou em uma universidade. Está tudo vazio. Tento encontrar a porta de saída, mas o prédio era enorme e eu não fazia ideia de onde eu estava. Quando finalmente encontro uma placa indicando a saída, ouço barulhos em uma das salas, como vozes. Abro a porta lentamente e encontro duas pessoas, mexendo em mochilas. Eles usavam um casaco marrom com um brasão cinza atrás. Parece ser um uniforme. As mochilas tem esse mesmo brasão. De repente, ouço gritos do lado de fora.
— Caramba, dessa vez foi rápido. — Um dos dois diz, enquanto se levanta colocando a bolsa em suas costas.
— Vamos sair logo daqui, temos que nos encontrar com os outros em dois minutos! — O outro diz, vindo em direção à porta. Saio do lugar rapidamente, e vejo fumaça pela janela, subindo pelo céu escuro. As estrelas começam a ser tampadas. Não posso parar e investigar, então vou rapidamente em direção à saída. Desço as escadas e sinto cheiro de fumaça, além de vê-la pelo vidro. Ao sair pela última porta, me deparo com a universidade em chamas. É como naquele primeiro sonho! É o mesmo lugar, com certeza! Ponho a mão no bolso e pego meu celular para ver a data. 23 de agosto, 15:31. É hoje, mas, ao olhar o meu redor percebo. Vejo o corredor de minha casa, e em minha frente o banheiro. Quando eu peguei o celular eu "acordei". Mas são realmente sonhos? O que é esse incêndio? De que tarefa a Giulia tava falando?

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.