Fadas - A Maldição

6 Capítulo 4 - Um destino incerto


Capitulo 4

Um destino incerto

Eu fiquei muito assustada. Mesmo com Set controlando e bloqueando meu poder, ele havia fluído por mim, agora eu percebia, ele quase tinha vida própria. Eu não iria atrás de Duda nem de Set, não poderia correr o risco de matá-los… eu estava tão confiante de que conseguia controlá-los, que acabei por esquecer que eu nunca conseguiria fazê-lo.

Naquele resto da noite, enquanto desmaiada, tive um novo pesadelo.

Sean estava recostado numa árvore, a mesma moça que cuidava das feridas, estava agora lhe dando um líquido que pareceu fortificar seu corpo. Uma cobra estava próxima, mas ninguém percebeu. Ela deslizou e atacou-o. Antes de a picada ser efetuada, o sonho acabou.

Acordei pela manhã, água escorria pelas paredes da caverna, eu não havia percebido o quão longe da entrada eu tinha ido parar. Levantei e peguei minha mochila, não queria comer, segui andando para a luz de metade da manhã.

Respirei profundamente o ar fresco, leve e com cheiro de terra recém-molhada. Meus olhos se encheram de lágrimas, eu estava sozinha outra vez. Eu não sabia mais o que fazer, antes de Sean, eu simplesmente andava e chegava à vilas, tentava me manter afastada de cidades humanas e tentava viver disso. Agora eu simplesmente queria me sentar e não fazer mais nada. Meus pés começaram a andar, quase por vontade própria.

Eu cheguei ao rio, o mesmo que eu havia me divertido tanto um dia antes, olhei-o de ponta a ponta, até onde a vista alcançava. Tirei minha mochila, e entrei na água, como se estivesse num transe, afundei e fiquei submersa, sem respirar, apenas olhando o nada, a escuridão do fundo do rio. Minhas lágrimas se misturavam à água e minha visão ficou turva.

Eu soltei o ar e esperei até que ele me faltasse, subi à superfície e deitei na margem, sem fazer nada, até que eu estivesse com fome suficiente para me deixar enjoada.

Andei pela mata até encontrar um pé de mamão, onde tirei uma fruta, sentei no chão e comi letargicamente.

– Olá – eu me virei rapidamente, ouvindo aquela nova voz. Um homem se postava a alguns metros, não era humano, consegui perceber, mas também não era uma fada. Ele tinha olhos cor de mel, era relativamente alto, e possuia cabelos castanhos, por baixo da touca de lã preta. Ele era muito belo. – Me chamo Kal.

– Huum, oi... Kal. – Eu estava de pé, tentando me manter um pouco afastada dele.

– Qual seu nome?

–… Por que deveria dizer? – perguntei desconfiada

– Porque eu fui educado o suficiente para dizer o meu. – ele sorriu. Bom fazia um pouco de sentido e não faria nenhum mal dizer meu nome

– Lila… Lila Linten. Agora, com licença, tenho que terminar de comer e ir embora. — ele sorriu

– Mas que pressa, não te machucarei.

– Por que motivo você poderia me machucar? – disse indiferente

– Porque, você é uma amaldiçoada – eu não sabia se ele estava sendo sarcástico ou brincalhão, preferia a segunda opção. De qualquer modo, eu estava usando meu sobretudo, o que tampava minha segunda marca e não tinha como ele saber de minha maldição sem ter ao menos olhado. Eu observei-o de soslaio

– Como você sabe? – ele se aproximou

– Digamos que… tenho informantes. – eu estava muito desconfiada, aquela conversa fora a mais estranha que já tive em qualquer circunstância. Ele sorriu novamente e eu fiquei ainda mais alarmada – Brincadeira, eu sou um elfo – meu queixo caiu

– Elfo? Ma…mas – gaguejei – Sua espécie não existia mais, vocês sumiram. Como é possível?

– Bom, é algo complicado, sumimos sim, mas desse mundo. Quando fugimos dos humanos, na guerra de Gália, nos embreamos dentro das floresta, fomos tão fundo que acabamos atravessando para outro mundo, por um tipo de portal. O lugar é muito similar ao que esse mundo foi antes dos humanos atacarem as diversas formas de vida. – ele respirou fundo – Agora, alguns dos nossos querem tentar ajudar os dicns e as fadas, a salvarem esse mundo do desastre em que ele esta se encaminhando. Os humanos estão trazendo muitos problemas…

– Você não tem idéia de como… — ele sorriu

– Pode apostar que tenho. Já estou aqui alguns anos. É muito comum ficarmos no máximo sete anos, mas já passei disso, posso dizer como esse mundo é.

– Porque você quis ficar por mais tempo aqui? Esse lugar, onde os humanos vivem, é devastador física e mentalmente.

– Sei disso, sei disso – seu olhar me pareceu distante – estou atrás de uma amiga, ela veio para cá, depois de pegar uma profecia, ela esta a quase quinze anos nessas terras…

– Profecia? – ele concordou com a cabeça

– As profecias designam, indiretamente, o caminho que os elfos devem seguir nesse mundo, nosso objetivo.

Eu me sentei e continuei a comer meu mamão, pensando na nossa conversa. Ele se aproximou e se sentou ao meu lado. Eu entreguei metade do que restava da fruta e comecei

– O que você veio fazer? Qual sua profecia?

– Não tenho profecia, vim apenas encontrar minha amiga. Depois de alguns anos, eu quase desisti e hoje, ajudo fadas dessa reserva a manter o lugar a salvo. Glis e Anne me acolheram muito bem, você devia conhecê-los.

– Não… Eu tenho que ir, você sabe, a maldição… eu não posso controlá-la, acabaria matando vocês.

– Quanto a mim, não precisa se preocupar, sou imune a poderes de fadas. Quase nenhum na nossa espécie é afetado. Isso só não ocorre em guerras, quando nossas proteções se esvaem, isso é muito critico se quer saber.

– Irônico, seria adequado…

– Muito irônico… Bom, já Glis e Anne, você não poderá feri-los com sua maldição, a casa onde moram é contra poderes, nada flui dentro dela, além do cheiro de sopa e pão assado. – meu estômago se revirou, como descontente com aquela pequena fruta e ansiando por comida mais recheada.

– Estou analisando a idéia de uma pequena visita – sorri para ele, que se levantou e acenou para que o acompanhasse.

– Não é longe daqui, podemos ir andando que chegaremos rápido.

A casa era pequena e quase invisível no emaranhado de arvores e copas rodeando-a. Isso porque ela ficava no alto de uma figueira imensa. Entre várias folhas, era difícil distinguir uma forma de vida. Kal me apontou onde seria a entrada e eu comecei a escalar o tronco. O elfo exibiu sua força e rapidez, subindo a árvore apenas com as mãos e passando depressa por mim.

Quando finalmente alcancei o topo, Kal estava sentado, balançando os pés para fora da varanda pequena e fresca.

– Exibido… — sussurrei, mas me certificando de que ele ouviria, o que produziu um riso. Subi a varanda, com a madeira rangendo sob meus pés e segui para perto do elfo – Seus amigos estão?

– Foram colher alguns frutos e água, não demoram. – eu olhei para a vista privilegiada, não havia árvores tão altas quanto esta na reserva e o sol se poria bem a nossa frente. Quando eu menos esperava, dois vultos voavam na nossa direção, estavam longe, mas se aproximavam com velocidade. – Aí estão eles…

Glis era o dicns que Kal tinha comentado. Ele tinha o cabelo castanho e os olhos cor de mel, não era muito musculoso, mas seu porte era digno. Anne tinha cabelos negros e olhos claros, entre verde e azul. Tinha a minha altura e parecia que sempre carregava um sorriso no rosto.

– Oi – eles disseram quase em uníssono

– Oi – respondi, olhando para Kal, sem saber como prosseguir

– Esta é Lila, ela ta um pouco perdida e comendo muito mal, achei melhor dar um abrigo para ela. – Ele contou

– Mas é temporário, não vou demorar mais que poucos dias – disse rapidamente, com medo de parecer aproveitadora

– Esta tudo bem, pode ficar o quanto precisar, é comum jovens passarem por aqui, perdidos. – Foi Anne quem disse – Acabamos ensinando a eles a viver melhor na selva. Sabe como é, nascemos fadas, mas sempre aparecem perigos novos por ai… entre – ela apontou a porta – vou preparar um chá para todos.

A casa não era grande, assim que entrei, a pequena cozinha exalava aroma de hortelã, o que me lembrou Set, que gostava de mastigar algumas folhas. A sala logo ao lado, tinha uma estante com alguns livros e sobre a mesa, passatempos. Da sala, duas portas levavam aos quartos, pequenos, mas limpos e confortáveis.

– Você pode ficar com esse quarto – Glis empurrou uma das portas para que se abrisse e eu entrei. – Kal não gosta de dormir em lugares fechados, então esse quarto fica vazio.

– Onde ele dorme normalmente? — perguntei

– Normalmente? Bom, normalmente ele dorme num dos galhos ou na varanda. Diz que gosta da brisa. – ele disse com um tom de humor, insinuando algo a mais.

O resto do dia foi monótono, mas agradável. Eles me mostraram o rio que usavam para tomar banho e como me localizar na cozinha, para encontrar copos e coisas assim.

Eu fiquei a maior parte do tempo na sala, jogando Libro Somnia, um jogo que temos que passar por casas, e dizer o que faria em determinada situação. Normalmente é usada por fadas, para se conhecerem melhor.

Nós nos divertimos por horas, todos nós, tomando chá de erva doce e comendo pedaços de pães torrados. Quando a noite caiu por completo e os vagalumes começaram a entrar, fui ao meu quarto, arrumar minhas poucas coisas no armário e me aprontar para dormir.

Foi um sono bom, sem sonhos e insônia, acordei logo no inicio da manhã. A casa estava silenciosa, então me troquei, penteei o cabelo com os dedos e o prendi atrás da cabeça.

Segui para a cozinha, onde Glis esquentava leite. Ele me entregou uma caneca fumegante e adicionou um vistoso fio de mel e um pedaço de canela

– O ar lá fora esta bem fresco, mas ótimo para tomar uma xícara de leite quente – ele piscou com os dois olhos para mim.

– Obrigada – sorri

Realmente, estava frio nesse começo de manha nebuloso. Sentei recostando no pilar da ponta da varanda, deixando uma das pernas pendurada. Eu bebericava o liquido doce, segurando a xícara com as duas mãos a fim de aquecê-las. Depois de um tempo, percebi um movimento nos galhos a minha frente e vi Kal deitado no troco com um capuz sobre os olho. A cena me fez sorrir e eu continuei com meu leite.

Anne apareceu com um pedaço de pão com geleia de uva por cima e me entregou. Ela sentou ao meu lado observando o elfo com um sorriso no rosto. Depois de beber um pouco do seu leite e mordiscar um pedaço de pão ela finalmente falou

– Sabe, ele não dorme no quarto a muito tempo, acho que a esperança de encontrar Sitira retornou a ele. Então parece preferir dormir aqui fora, como se ela pudesse aparecer e vê-lo.

– Sitira… é a amiga dele certo? Aquela que ele veio procurar…

– Sim, mas ela é a noiva dele – seu olhar chegou até mim, estava carregado de pesar, depois ele voltou ao elfo – Ela sumiu depois da profecia, a mais poderosa que já houve, apesar de ninguém conhecê-la completamente, a não ser Sitira e Kal.

– Você conhece algo?

– Apenas uma parte, “Duas destinadas a se matar, pois no fim terão um lar”, essa frase Kal sussurrou enquanto dormia… Não conte a ele.

– Certo… Glis, você… quando o encontraram?

– Ele vagava sem rumo, o choque que ele sentiu ao se aproximar do desastre dos humanos foi muito forte, seu olhar estava distante e ele parecia andar como se não tivesse alma. Nós o alimentamos e ele se recuperou depois de algumas semanas. Isso foi a dois anos, agora ele tenta nos ajudar a manter essa reserva protegida.

– Sabe, nem todos os humanos são ruins – Glis apareceu na porta – alguns merecem a morte, mas outros pressentem o problema que é lutar contra Kensy, por isso existem reservas, ele tentam preservar o que resta de mata nativa enquanto há tempo. Essas são as boas pessoas, depois de um tempo, se aprende a identificar qual deles é quem.

– Para mim são todos iguais…

– Nós vamos te mostrar a diferença entre eles hoje, mas de longe, obviamente. – ele completou e voltou para dentro, com Anne logo atrás que se virou e disse:

– Nós vamos sair quando a neblina tiver sumido

– Okay…

Quando o silêncio se estabilizou dentro da casa, uma nova voz se fez ouvir. Kal havia levantado o capuz, mostrando suas orelhas pontudas, ele colocou sua touca, querendo de esconde-las.

– Então… eu falo dormindo? – ele deu um sorriso torto, pulou na varanda e se sentou ao meu lado – Já tinham me dito isso em Haiter, onde morava, mas nunca acreditei… A profecia é muito perigosa, não devia ficar segregando ela por ai… Sitira – ele parecia dizer para si mesmo embargadamente – sinto tanto sua falta…

Ele olhava para longe, de lá parecia vir um pequeno zunido que definitivamente, demorei a perceber. Kal entrou na casa e rapidamente saiu com uma fatia de pão na boca.

– Não vou demorar – ele disse e logo desceu a árvore, deslizando pelo tronco. Não demorou para perde-lo de vista no emaranhado de folhas. Anne apareceu e se sentou na cerca da varanda

– Foi inspecionar corte de árvores de novo… Ele não gosta de se aproximar dos humanos, mas eles o veem como um homem comum, que esta ali apenas para regular a quantidade de árvores. Por mais incrível e improvável que pareça, eles tem ligação com Kensy. Mas, vamos por assim dizer – ela fez aspas no ar – “um nível de crimes mais extenso”.

Ela viu meu olhar de confusão e prosseguiu

– O que quero dizer, é que Kensy só demonstra sua fúria a eles, quando algo realmente muito ruim acontece. Nós precisamos religar com mais frequência que eles, mas de forma diferente, arriscamos nossas vidas, e eles religam inconscientemente, muitas vezes sem riscos. Os humanos tem mais “crédito” com Kensy, talvez por serem tão irracionais…

– Você é tão maldosa com eles Ann – Glis estava na porta fazendo biquinho – eles não são nada perigosos. – ela riu com o sarcasmo dele.

– Já esta na hora de irmos Lila. – ela disse, se levantou e deslizou pelos galhos agilmente, Glis fez o mesmo. Eu, sem muita pratica, demorei algum tempo para descer, mas assim que cheguei no solo, começamos a andar para o leste.

– Nós estávamos pensando em te ensinar como escalar e se camuflar, vivendo perto de humanos, as vezes isso se torna bem útil. – Glis contou, parando em uma parte fechada da mata, era escuro e úmido ali.

– Primeiro, o seu sobretudo ajuda – Anne explicava — já que é negro. Mas se jogássemos um pouco de tinta verde por cima seria melhor, para dar um contraste maior… Agora, vamos fazer um exercício. Você tem que olhar para minha mão e segui-la com o corpo e cabeça, mas sem tirar os pés do lugar, ok? – eu acenei e ela postou sua mão na altura dos meus olhos, ela foi para os lados, para trás, para frente, para cima… Eu não fazia ideia de para que aquilo servia, mas continuei por mais alguns minutos.

– Já esta bom – ela disse parando – esse exercício é para testar o quanto você se postaria, agiria, se precisasse se esconder, se você seria ágil ou lenta.

– Certo – Glis se aproximou, colocando uma venda em Anne – você vai se esconder, se camuflar, Anne vai tentar te achar depois. Quanto mais barulho fizer, mais fácil de te encontrar. Você tem 10 metros de perímetros e um minuto. Ela terá dois pra te encontrar. – ele se sentou no chão e ficou me observando.

Eu olhei ao meu redor, procurando buracos, lugares típicos de quando eu fugia, não havia nada, nem ao menos, árvores baixas e com folhas espessas. Só conseguia enxergar longos troncos, com galhos altos demais para uma escalada em meio minuto, isso se eu ainda tivesse tempo. Eu teria que confundir os sentidos de Anne, peguei pedras no chão, sem fazer nenhum ruído, me afastei, ficando do lado de trás de uma árvore, depois, arremessei a pedra para o outro lado da clareira, o barulho que eu queria desapareceu com um eco. A próxima pedra bateu em um arbusto espinhento. Eu fui alternando os ruídos, jogando as pedras em direções diferentes, Glis me observava sorrindo e balançando a cabeça, como se não pudesse acreditar no que eu fazia. Ele fez sinal de que o tempo havia acabado. Eu me encolhi ao lado de dois arbustos, jogando as pedras restantes num tronco distante.

A venda foi tirada, Anne levantou, com o olhar meio confuso. Ela não era idiota, mas a maioria das pessoas usava a visão, quando isso é tirado, os sentidos se embaralham facilmente. Ela olhou para os lados que joguei as pedras e se adiantou. Eu contava os segundos, vinte e um, vinte e dois… o tempo passava muito demoradamente.

Anne olhava todas os locais extremamente escuros e sombrios, assimilando, que eu certamente me esconderia em locais de pouco luz. Esse era o problema. As pessoas procuravam o que esperavam ver, se eu me escondesse em arbustos constantemente banhados de sol, ela não se aproximaria, eu sorri com o fato. Já estava em oitenta e quatro segundos. Ela começou a observar os as copas de árvores, seu olhar era de confusão e indignação.

Ela parecia estar desistindo, então resolveu vir para meu lado, não estava muito claro, mas ela passou direto pelos arbustos e se embreou na mata, eu me mantive quieta onde estava, o som poderia me trair. Cento e dezesseis, cento e dezessete...

– Três, dois, um, acabou. – Glis gritou de onde estava, eu sai de meu esconderijo e sentei ao seu lado, empurrando seu ombro com meu, em brincadeira. Anne apareceu e se sentou na nossa frente

– Menina, o que foi que você fez? Céus, eu não sabia mais onde te caçar, você correu de um lado pro outro chutando aquelas malditas pedras. – ela sorriu, mas eu ainda sentia um pouco de desapontamento na voz dela. – Você é a primeira que eu não encontro, isso é decepcionante para alguém que nunca perdeu o esconde-esconde – ela resmungou olhando o nada.

Um farfalhar atrapalhou nossa conversa, acima de nossas cabeças, as copas se mexiam sem mesmo haver ventos. Quando olhei para lá, alguém estava caindo em nossa direção, sem assas, sem apoio, apenas caindo. O ser chegou ao solo em pé, flexionando os joelhos para aparar a queda. Eu suspirei, não podia ser outra pessoa. Kal sorria bem diante de nós.

– Sério, você não cansa de se exibir? Estou no meio de uma discussão. – Anne implicava

– Ora, não poderia deixar Lila com toda a glória do momento, deveria me “exibir”, ao menos, um pouco. –disse já se sentando

– Você é um chato – resmungou ela, empurrando-o para longe

– É, sei disso… — ele respondeu divertido, ele se voltou para mim – Você foi esperta, mas precisa ser mais ágil, você perdeu muito tempo pensando no que ia fazer, tentando analisar o lugar. Minha dica é que logo que você chegue em algum local, já analise rotas de fuga, esconderijos… vai por mim, você vai precisar.

– Você chegou quando aqui? — perguntei

– Quando Glis colocou a venda em Anne… fiquei observando das copas, escondido, obviamente, mas achei muito engraçado e inteligente o que você fez.

– Valeu…

– O que pretendem fazer agora? – Kal perguntou

– Vamos para o rio da reserva. Temos que ensinar algumas coisas sobre camuflagem ainda, vamos. – Anne se levantou, já começando a caminhar. Glis a alcançou e segurou sua mão, andando ao seu lado. Me virei para Kal e ele fazia uma careta de nojo, eu me segurei pra não rir. Então nós seguimos os pombinhos pela mata. Assim, resolvi falar com o elfo

– Kal… quantos anos eles tem? – falei apontando os dois caminhando a nossa frente, baixo o suficiente para que apenas ele ouvisse.

– Glis tem vinte e três, se não me engano, Anne, vinte. Eles estão juntos desde que ele tinha dezoito, eles se conheceram numa vila, quando faziam curso para conviver com os humanos da reserva. Lá eles se apaixonaram e por graça de kansy, foram escalados para a mesma reserva, onde construíram a casa. Eles se casaram a dois anos, eu os encontrei enquanto faziam a cerimônia, então, como estava sozinho e louco eles me acolheram, e o resto ele já te contou enquanto eu “dormia” – ele fez as aspas no ar

– Eles… e eu agora, somos os únicos que sabemos que você é um elfo?

– Sim, é quase segredo, se souberem que vivemos em outro mundo, e como entrar nele, Haiter ficaria em completo caos. Poucos elfos são autorizados a entrar lá, apenas depois de anos e anos de convivência poderíamos revelar que somos. Mas eu não precisei de anos com eles – ele apontou para frente com a cabeça – além do mais, achei justo, já que me salvaram, revelei um ano depois de conhecê-los. Eles foram compreensivos, até concordaram com a regra de não dizer a realidade até ter certeza de quem são as pessoas. – eu olhei-o desconfiada

– E quanto a mim? Você me contou ontem, quando me conheceu.

– Eu sempre soube de você, desde que nasceu. Existem profecias onde moro, mas também há pessoas que gostam de observar esse mundo, como ele está andando. Amaldiçoados sempre aparecem para nossos analisadores. Todos que vem pra cá tem que fazer testes, cursos, aulas de línguas, e estágios. Uma vez, eu tive que ir até a Herenvarwen

A analisadora, suponho?

– Sim, sim. Então, quando cheguei lá, ela olhava para um pequeno bebe, eu me aproximei dela, na placa de observação, você estava sendo carregada as pressas para longe de onde nasceu. O fato de você ser amaldiçoada se espalhou por toda a vila em menos de meia hora… eles queriam te matar. Sua parteira levava você para dentro da mata, querendo te salvar. Acabaram se escondendo numa valeta, eles desistiram depois de mais de uma hora de caça, achavam que você estava longe o suficiente para não atormentá-los nunca mais.

Ele fez uma pequena pausa

– Assim que a noite caiu, ela te levou para muito mais fundo na mata, você já estava com fome e ela não sabia o que fazer, então acabou vagando sem rumo, até chegar numa casa, onde tampou sua segunda marca e entrou. Havia uma mulher amamentando um bebe, essa foi sua salvação, ela pediu que ela te amamentasse, pagando o que fosse necessário.

Eu me senti culpada mais uma vez, culpada por matar Lia, por ter fugido desde então, ela havia cuidado de mim desde sempre e eu a transformei num cadáver.

– Por favor, continue.

– Depois que você se alimentou, ela pediu um vidro com mais leite e procurou a casa do tio, que ficava alguns quilômetros à frente. A casa estava abandonada e ficava mais afastada de vilarejos do que qualquer outro lugar que ela conhecia. Vocês moraram lá até a tragédia acontecer, eu visitava Herenvarwen todos os dias. Vi você crescer, acompanhei sua vida até dois anos depois que ela morreu, sabia do seu caráter e de sua história, você podia não me conhecer, mas eu lhe contei o que sou porque sei o que você é.

Assenti

– Eu me lembro daquele dia… Às vezes sonho com ele, você sabe quem era o homem que queria me levar? – ele respirou fundo e pensou no que dizer

– Ele era seu pai, Lila. – Eu gelei e parei de andar

– Meu… pai?! – eu me apoiei na árvore – ele… você sabe se ele ainda está vivo?

– Está, até onde eu sei. Tive informações dele há quase dois anos, mas parece um homem que vai viver por muito tempo.

– Onde ele está?

– Eu não sei a localização, vive perto de vegetação, como nós, ele não se aproxima de humanos. – ele pegou minha mão e me puxou, para andarmos – Vamos, não podemos ficar pra trás, vão perceber – ele acenou para frente – eles não podem saber da maldição, tem muito medo ainda.

Voltei a andar, soltamos as mãos e ele continuou

– Mais a frente terá um centro de reabilitação animal, humanos trabalham a todo momento tentando ajudar aves e qualquer ser vivo afetado de alguma forma. Alguns humanos gostam muito de bichos selvagens, isso torna o mercado muito cobiçado e vários animais acabam mortos pela falta de comida e por estarem presos em gaiolas apertadas.

– Isso é terrível…

– Sim, bastante, mas os humanos que vamos observar estão tentando curar eles, o que os torna diferentes dos outros que conhecemos.

Assim que ele terminou de falar, uma clareira se abriu e um pouco abaixo de onde estávamos, uma bela e clara estrutura se erguia. Do lado de fora, vários cercados cobertos seguravam aves e alguns outros animais. Uma pessoa saiu pela porta dos fundos, carregando um balde e uma cumbuca. Ele separou o que parecia alguns grãos e os colocou em sua mão, entrou no cercado e estendeu a palma. Logo uma arara planou até o galho perto a ele e começou a bicar afetuosamente a ponta de seus dedos, depois comeu.

– Conseguiu ver?- Glis perguntou – A Galy, aquela ave que esta comendo, se aproximou e fez carinho no seu tratador, Joe.

– Eu preciso saber do nome do cara? – ele riu com minha pergunta

– Não, não. Não tem necessidade se você não quiser, mas eu converso com ele, recolho as aves e ajudo com os ferimentos, ele é uma boa pessoa. Não há o que temer.

– E Galy? Ela vai ser solta?

– Sim, mas apenas quando estiver pronta para isso, ela ainda está um tanto debilitada. É melhor se sentar, ainda quero que você olhe o Yan e a Cris. Eles são responsáveis pelos ferimentos e pela dieta, eles dizem quanto e o que tem que dar pra cada animal.

Não demorou muitos para duas novas formas saírem pela porta e começarem a observar com preocupação os ferimentos. Eles escreviam freneticamente e davam algumas gotas de remédio aqui e ali.

Todos nós sentamos no chão, relaxadamente e esperamos enquanto eles tratavam, pesavam e somavam coisas. Depois de alguns minutos, eu conseguia perceber a afinidade que os animais tinham com os humanos, eles ofereciam suas cabeças para que eles acariciassem e depois bicavam-lhes as palmas das mãos.

Anne fala para mim, ainda observando o cercado:

– Vê? Nem todos os humanos são carrascos, alguns nasceram para ajudar. Kensy mantém um equilíbrio entre o bem e o mau com eles também. Assim como nós.

– Hum – é tudo que respondo, ter toda uma vida baseada em falar mal de outra espécie me fez sentir culpada, é claro que eles tinham seus bons e maus, assim como nós... eu devia ter percebido antes. Aprendido antes de julgá-los.

– Vamos, a camuflagem nos espera antes do almoço. – começamos a correr por um curto caminho, paralelamente ao instituto de ajuda aos animais, seguindo para perto de um riacho de não mais que um metro de largura. Glis coloca dois dedos dentro da água e afunda a mão até o lodo abaixo, sujando seus dedos com alguns punhados. Ele me puxa e começa a sujar meu rosto com lama, sorrindo, como se minha cara começasse a ficar muito engraçada. Eu começo a rir e tento afastá-lo um pouco.

– Eu faço isso, deixe-me

– Ah, vamos Lila, quero me divertir – como para comprovar ele abaixa e enche uma palma com muito lodo, jogando-o em minha barriga

– Ei, minha roupa vai ficar imunda

– Esse é o objetivo – Kal completa pegando ele mesmo mais um punhado e esparramando por toda minha costa, Anne se junta e começa a lambuzar meus pés e pernas. Não havia como eu alcançar o fundo do rio com todos eles me rodeando, por isso, raspo uma parte da blusa que tinha em excesso e arremesso na cara de Anne. Ela ri e logo devolve um punhado no meu cabelo

– Ei, não é justo, três contra um! – eu rio e tento gritar para eles, depois, puxo Kal para trás e corro dos outros. Nós começamos a arremessar bolas de lama um nos outro, dois contra dois, até que todos estavam cobertos até os pés de tanta sujeira. Folhas, grama, cheiro de frutas estragadas, tudo e mais um pouco foi adicionado na nossa “fantasia” da natureza.

Depois, Kal me disse que o movimento sempre entrega o camuflado e que a habilidade de ficar estático é o que mantém as pessoas vivas.

– Ninguém vê o que não espera. – Anne completa — Essa é a chave, se ficar parado, mesmo que seu inimigo se aproxime, as chances dele te ver no meio de toda essa camuflagem são mínimas.

– Muito bem, mostre-me como você se esconderia, sua posição – Kal pede e eu me aproximo de uma árvore e observo o mato ao seu lado. Eu entro entre os pés quase ressecados de capim, ficando atrás da árvore, me agacho até que eu sinta o cheiro que o chão solta, abraçando meu joelhos e criando uma bola de fada suja… então me lembro das asas sobressaindo por todo aquele esconderijo.

– Merda, como posso esconder vocês? – eu cochicho para mim mesma. Então me deito no chão, dobrando as asas o máximo que minha força deixar. Abraço novamente minhas pernas e meio que fico escondida nas pequenas raízes da árvore e dos arbustos por ali.

Depois de um tempo, escuto os passos dos três para averiguarem meu trabalho. Eles me observam curiosamente, Kal e Glis sérios como sempre, mas Anne parecia querer esconder o riso.

– Bem – Glis começa – se você conseguisse esconder as asas, a outra posição teria sido suficiente, essa também é boa, apesar de te deixar muito vulnerável se precisar fujir.

– Acho que o jeito é ensinar ela a escalar árvores certo? – Anne pergunta ao marido, que concorda com um aceno

– Seria mais prático e eficaz. – ele completa – Vamos Lila, limpe seu corpo, você vai ter que relaxar suas mãos antes do inicio desse treinamento.

– Não é como se você fosse gostar desse – Kal diz baixinho – você vai ter que socar troncos até sua mão estar dura e insensível o suficiente para não doer na escalada.

– Isso é sério? – pergunto perplexa

– Não, na verdade — ele sorri divertido e me acompanha até o rio, todos entram e deixam a correnteza lavar as roupas e corpos, só temos que esfregar aqui e ali, onde a sujeira resolver fazer companhia.

Quando todos estavam devidamente limpos, saímos da água e deixamos que as gotas grossas caíssem das roupas em cascatas. O sol brilhava forte acima de nós então não demorou muito para que meu cabelo virasse alguns conjuntos de fios úmidos.

Glis entrou na mata logo depois, enquanto Anne usava os pés para tirar o excesso de folhas mortas do chão, abrindo um circulo relativamente grande, onde se sentou. Kal a seguiu e eles começaram a conversar sobre a política governamental de nosso mundo. Como eu apenas sabia que era uma democracia, me sentei junto deles para entender o modo como funcionava.

– Bem, eu acredito que Sansas seja melhor que Dorovak, os dois são dignos da presidência, mas Sansas esta prezando muito mais a educação e segurança.. e ele esta dando tanta atenção nesses tópicos em vilas menores, quanto na capital. – Kal dizia com ar sério

– Mas Dorovak vem de uma família bem estruturada e estudada, valores são passados de geração em geração e ele saberá como governar. – Anne tentou contrapor

– De que adianta a família ser ótima e ele se mostrar mimado e corrupto? – ele rebateu, parecendo deixar a adversária um tanto quanto pensativa. Glis voltou para a pequena clareira à beira do rio e sentou ao nosso lado, fechando o círculo.

Ele trazia algumas frutas, folhagens e dentes de leão nas mãos. Apressadamente, Anne tirou um pedaço molhado de tecido do bolso, desdobrou-o e estendeu no chão, ajudando o outro a espalhar a comida no pano. Comemos lentamente, saboreando o agridoce das pequenas maçãs. Depois que estavam todos satisfeitos, cada um seguiu para uma árvore para se escorar.

Eu cochilei antes que percebesse e assim que Kal balançou meus ombros para me acordar, já me sentia um tanto melhor. Todos me rodeavam, o casal com os braços cruzados em um pequeno sinal de cansaço. Eu me levantei, esfregando as mãos para limpar as palmas sujas.

– Ora da escalada – Kal sorria largamente, talvez pensasse que seria animador me ver caindo.

– Certo, Lila abra os braços. – Anne pediu, aproximando-se de mim, eu obedeci e ela apertou os músculos acima dos cotovelos, seu olhar era crítico – Você não é fraca, primeira etapa já foi garantida.

– Primeiro de tudo, você tem que encontrar uma árvore com galhos baixos. Essas vão ser para quando suas asas estiverem feridas e você não conseguir usá-las. – Glis prosseguiu. Ele se aproximou de uma árvore como a que descreveu e estendeu o braço ao ar, logo abaixo de um galho.

Com um pulo pequeno, ele agarrou a madeira, se balançou algumas vezes, jogou o outro braço na parte de cima do galho e subiu em cima dele graciosamente, se equilibrando nos dois pés. Depois ele foi subindo mais alguns, até que eu tinha que me esforçar para encontrá-lo no meio das folhas.

– Como já dissemos, não se vê algo que não se espera que esteja lá… Talvez consiga achá-lo agora, mas você o seguiu enquanto ele subia – Anne ressaltou, ainda olhando para cima – Sua vez.

Eu me aproximei do galho que ele usou, estendi a mão e tentei imitar seus movimentos, mas minha mão escorregou e eu caí com uma dolorosa pontada no tornozelo. Quando olhei pra trás Kal ocultava a boca com uma das mãos, mas seus olhos transmitiam a risada.

– Aqui – Anne chegou perto – você balançou muito rápido, não deu tempo da sua mão se fixar bem… só que você não pode demorar muito também. Tente mais uma vez

Eu tentei, tentei outra vez e mais outra. Até que minha quinta tentativa foi eficaz e eu consegui subir no primeiro galho. Só faltavam mais cinco para que eu, talvez, estivesse oculta. Eu tinha a sensação de que seriam vinte.

– Tudo bem, prossiga, você esta indo bem. – eles tentaram me incentivar.

Minhas palmas estavam esfoladas e eu sentia um princípio de bolha em uma delas. Tudo ardia e latejava, me fazendo desejar colocar minhas mãos em água fria. O pensamento me fez soltar um pequeno gemido descontente.

Eu continuei minha missão, tentando ignorar a dor que eu sentia, quanto mais subia, menos eu sentia. Quando cheguei ao galho que Glis me esperava, me sentei e finalmente vi o estado final delas. Os dedos e as partes mais gordas das palmas estavam sem uma camada preciosa de pele. Uma pequena água começava a se juntar nas partes e a sujeira ficaria grudada se eu não limpasse devidamente.

Tentei assoprar as cascas da árvore, mas elas não saíam mais. Glis se sentou a minha frente e tomou as mãos para si, ele parecia preocupado. Com uma delicadeza que não sabia que tinha, ele foi tentando limpa-las.

– Sinto muito por isso, me desculpe, deveria ter enrolado algo para que não se ferisse – ele ainda tentava limpa-la ao máximo, mas a gosma e a minha dor o deixaram apreensivo sobre continuar. — Vou precisar te levar pro chão, preparada para voar?

Eu acenei afirmativamente. Ele me segurou por baixo dos meus ombros e me ajudou a sair do emaranhado de folhas, para depois alçar um vôo curto e rápido para a beira do rio.

Abaixamos-nos e eu coloquei as mãos na água fria. O alívio se espalhou por mim como um choque e eu senti a sujeira se desgrudando com a correnteza. Anne e Kal já tinham se aproximado para ver o que acontecia.

Notas finais
Pessoal, a continuação deste capítulo chega logo logo n.n
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.