Facção. Dos. Perdedores

44 Antes da explicação.


Era um deserto de gelo que ninguém realmente dava uma bola. As pessoas que ali viviam eram como índios que usavam as peles dos lobos como vestimentas para sobreviverem, entretanto também havia senhores que acreditavam que tinham que viver como homem moderno. Tentavam colocar empresas por ali, mas era realmente difícil que os esquimós se interessassem no ponto de vista moderno do homem viver. Estavam muito bem com seu sistema, apesar de passar por grande frio e fome por grande parte de sua vida. Havia crianças que nunca haviam visto um sol por causa das tempestades de neve.

Não foi preciso que os esquimós trabalhassem. Alguns anos depois da tentativa de algumas empresas automobilísticas de entrarem na região com suas fábricas, foi descoberta uma reserva de urânio. E isso apenas animou mais os empresários e os trabalhadores de todo o mundo. Sim, as pessoas que viviam em lugares paradisíacos e calorosos com suas famílias estavam se mudando para o inferno de gelo para um emprego que faria circular bastante a economia naquela região. Alguns levavam consigo suas famílias, mas também tinham os outros que zelavam pelos seus entes queridos e sabiam a gravidade do local – a temperatura era de média -26ºC. Não é qualquer um que consegue suportar sem estar acostumado com o hábitat.

Alguns levavam sua família, e alguns anos depois a perderam com uma catástrofe de uma tempestade de neve que logo depois se tornou uma tragédia nuclear. A usina foi praticamente destruída e o local todo contaminado. Nunca mais nenhum homem pisou naquela região. Mas Mario sabia mais. Quando era pequeno descobriu que essa não era toda a história. Havia pesquisado e consigo alguns arquivos da empresa SERN, que trabalhava naquela usina. Não era uma simples usina nuclear.

Antes de construir sua máquina de tempo e muito antes de pensar em salvar o mundo, Mario pensava em descobrir as verdades do seu tempo. Conseguia ver nos rostos de cada um da rua que muitas coisas tinham que ser ditas. Pelo menos em Pinball Wizard as coisas estavam calmas, e Mario via que cada vez mais e mais pessoas chegavam àquele inferno de gelo para se acalmarem da desgraça que o mundo estava se tornando. A destruição do mundo e aquele acidente de vinte anos atrás não tinham relação nenhuma para Mario até o momento em que decidiu desbravar.

Mario era um menino bastante solitário. Sua mãe e seu pai não tinham tempo para ele, e normalmente ninguém mais tinha. Durante 13 anos viveu com um sistema operacional instalado na sua casa que conseguia cuidar do garoto muito bem, só que um dia acabou nevando demais e esse sistema chegou ao seu fim. Mario não sabia direito o que era ter uma família, nunca marcaram presença na sua vida, então eles não faziam muita diferença. Para ele estava confinado a viver naquele fim de mundo enquanto via na televisão os grandes filmes em que os gloriosos heróis salvavam o mundo do vilão em lugares lindos e maravilhosos onde o sol se mostrava diariamente.

Levava um aparelho de medir a radiação, o que era comum encontrar na cidade porque as pessoas queriam saber se sua casa estava contaminada ou não ou se podia pescar naquele buraco no meio de todo o gelo. Bem, o curioso foi que o aparelho não tocou em momento algum de sua viagem. Não houve acidente nuclear. O urânio encontrado na região não era processado ali mesmo, eram enviados semanalmente por um navio que levava o elemento químico para uma usina nuclear. Logo, aquele nada mais era do que um ponto de extração, e não uma usina nuclear. Mario primeiramente ficou confuso, porém todas as suas dúvidas foram respondidas por uma aparição.

Era uma criatura rosa e como um humano. Mas o viajante no tempo sentia que estava longe de ser um humano, havia um terceiro olho em sua testa e não havia genitália. Estava completamente pelado a não ser pelas botas de couro e luvas brancas. Não havia como um ser humano sobreviver naquela situação com apenas isso. Não precisou processar toda essa informação para perceber que não era um humano. Aquilo não era desse mundo, dizia o instinto de Mario.

— Eu posso explicar – disse o humanoide enquanto retirava suas luvas, como em um ato de desarmamento.

Mario estava sem palavras.

— Como se chama amiguinho?

— Eu... Sou Mario, meu caro – respondeu o jovem.

— Muito bem Mario... Acho que você pode virar as costas e dar alguns passos até a sua casa. Estamos bem com isso?

— Quem me garante que não vai me matar, meu caro? – disse Mario, assustado.

— Por que eu te mataria? Você é apenas um garotinho. – Aproximou-se e mexeu no cabelo curto de Mario, como um pai ao chamar o filho de campeão.

Mario estava suando frio. Nunca havia sentido... Não tanto medo, mas estava em choque. Em choque porque não podia acreditar no que via e não sabia como reagir, e precisava de respostas. E aquele homem rosa não parecia muito disposto a cooperar. Não parecia que ele iria usar da violência também, tratava Mario com um ar bastante fraternal. Mas não parecia que conseguiria qualquer coisa dele também.

Mario deu dois passos para trás, mexeu em seu cabelo para ver se não havia nada de estranho nele e depois de conferir voltou a encarar a enigmática situação em que se encontrava. Sentia como se tivesse chegado ao limite de sua procura, de seu mundo e que daqui a cerca de alguns passos estaria em outro mundo. Inicialmente pensou que isso era loucura, mas Mario confiava no seu instinto. Em dezesseis anos de vida o garoto apenas contou com seus pensamentos. Era neles que mais acreditava, e pensou em dar alguns passos para frente e ver o que estava depois da nébula de neve nas costas daquela criatura estranha. Mario esperou dois segundos para ver se não havia mesmo outra opção, e chegou a conclusão que só seria bom correr em última ocasião. Primeiro queria saber se o homem rosa iria cooperar.

— Você pode me ajudar, meu caro? – indagou Mario.

— Sim, a sua casa fica na direção que você veio.

— Eu sei o caminho de casa, meu caro. Quero saber o que um alienígena faz nesse fim do mundo, meu caro.

— Estou aqui para indicar onde você mora. – E apontou para a direção que Mario havia vindo para chegar onde estava.

— Mas não é nisso que peço sua ajuda... Você sabe o que eu estou falando, meu caro – disse Mario.

— Eu estou entendendo que você não quer voltar para casa, é isso? – perguntou, indignado.

— É exatamente isso, meu caro.

— Você pode tentar outras coisas. Ir aonde seu pai trabalhava. Na casa da sua avó, de seus amigos. Pode ir ao cinema com sua namorada. Você tem muitas opções. Mas nenhuma dessas opções se encontra às minhas costas.

Mario se assustou. Como que o alienígena sabia o que Mario queria? Ele por acaso consegue ler mentes?

— Não, eu não leio mentes meu amiguinho. Mas você não é o primeiro jovem desbravador que apareceu aqui para conversar um pouco comigo. Vocês humanos são muito curiosos. Você provavelmente deve ter pensado “ah, eu mal saí de casa e já encontrei um humanoide rosa, o que será que tem mais por esse lugar que é dado como zona proibida e contaminado por radioatividade?”. Seria muito mais fácil se vocês simplesmente aceitassem que não podem continuar olhando e voltassem para casa. Porque é uma zona proibida para vocês, você pode acabar pegando câncer ou sabe-se lá o que.

— Não há radiação por aqui – Mario mostrou o dispositivo -, não está apitando meu caro.

O humanoide meio que por telecinese fez com que o dispositivo saísse das mãos do garoto para que pudesse verificar se realmente estava calibrado. Verificou a lateral do objeto que era como um rádio portátil, quadrado e com uma grande antena. Mexeu em alguns botões e o dispositivo começou a apitar nervosamente.

— Hey, meu caro, me dê isso! Você estragou o dispositivo, meu caro! – disse Mario.

— Eu não estraguei. Apenas consertei, se você queria que eu consertasse isso, eu consegui. Já pode ir para casa.

— Eu não quero isso, meu caro. Quero explicações. Repostas, meu caro, mas você se recusa a dizer.

— Eu não fui programado para isso.

— O que? Você é como um robô, meu caro?

— Não, mas eu não fui contratado para essa missão para que eu diga para crianças o objetivo disso tudo. Do acidente forjado, e etc. – O humanoide sentiu como se tivesse deixado alguma coisa vazar no que dissesse, mas fora apenas suas flatulências.

— Você já está começando a falar, meu caro, acho que estamos chegando a algum lugar.

— Sim, você está chegando a sua casa. Só basta virar e...

— Você disse que eu não fui o primeiro humano a se encontrar com você, o que houve com os outros? – indagou Mario, assustado e curioso. Ele não deve ter matado as outras pessoas, pensou.

— Eu não matei ninguém. Eles simplesmente insistiram demais e morreram para a radiação que estiveram expostos em todo esse tempo em que ficaram aqui.

— Pare de falar bobagens, meu caro, não houve acidente. O meu caro mesmo dissera que o acidente fora uma farsa, então porque a área estaria contaminada com radiação, meu caro?

— Não estou falando que ela tem alguma coisa a ver com esse acidente. Seus olhos de humano comuns provavelmente não conseguem ver, mas há uma barreira separando o meu território do de vocês, humanos. Essa barreira não só divide as áreas, como também expõe os corpos humanos a um diferente tipo de energia. Energia Vril, desconhecida para você.

— Então está dizendo que as pessoas que insistiram também, tal como eu, morreram para essa radiação, meu caro? – Mario considerou correr para a nébula como uma opção. Morrer estava fora de questão enquanto tivesse tantas perguntas em sua mente.

— Infelizmente você tem poucos minutos, garoto – ressentiu. – Provavelmente não sente nada agora, mas seus órgãos internos devem estar quase dizimados pela radiação. É uma pena, um garoto tão jovem – fechou os olhos e abanou a cabeça negativamente como que ressentindo pela situação. Foi o tempo em que Mario arrancou para a nébula e a atravessou.

Mario nunca havia sentindo essa sensação antes. Sensação que ficou cada vez mais comum durante suas viagens no tempo. A sensação de atravessar dezenas e dezenas de estrelas, de morrer desmaterializado e ter suas partículas divididas em vários pedacinhos pelo universo para que então se reúnam em um mesmo fluxo ao anterior, formando o ser que era antes. Mario nunca se cansou dessa sensação e atualmente estava um pouco distante dela. Há um bom tempo que estava parado no mesmo fluxo temporal. Não esperava o tempo para viajar novamente no tempo, só que talvez se realmente conseguisse fazer o que tinha que fazer nunca mais precisaria usar sua máquina portátil novamente. Simplesmente sentaria e assistiria o que havia previsto acontecer.


Diferentemente de Mario, Don Ramon havia assistido a eras e eras de existências humanas vigiando do alto de seu templo nos confins do universo. Não estava acostumado com essa sensação de saltar o universo, entretanto isso não lhe fazia tanto mal. Mas é de dizer que se sentiu como uma mulher com seu hímen dando adeus quando passou por aquele portal para o seu destino cruel. Don Ramon já tinha aceitado o resultado de sua missão, seja lá qual fosse e mesmo que morresse teria certeza que não morreria arrependido de suas ações.

Mestre do Universo não pensava em morrer e muito menos em perder. Estava para ajudar um amigo e até o momento não tinha ideia de como Ramon queria derrotar aquela frota gigantesca de navios interestelares. Não era pessoas qualquer que estavam para lidar, eram homens com verdadeiros poderes. Mas desconhecidos uma vez que viviam em outra dimensão. Os olhos de Mestre do Universo tanto como os de Ramon não conseguiam enxergar universos alternativos, não sabiam com quem estavam para lidar.

Mas tinham uma pequena ideia. Eram homens que procuravam unir toda a energia Vril que fora difundida nos sete universos alternativos quando tudo fora criado. Provavelmente ainda estavam longe de encontrar o que precisavam, todavia já era um perigo. Desde o início a energia Vril já era vista pelos olhos de Ramon como perigo para todo um mundo, uma simples partícula poderia causar grandes mudanças caso utilizada da maneira incorreta. E qualquer maneira era a errada se tratando desse tipo de energia. Não havia como destruí-la uma vez que não era de fato matéria e exatamente por isso que Don Ramon guardava um pedaço dos grandes que havia coletado no planeta Terra em seu templo nos confins do universo.

Essa de fato era a maior ameaça que Don Ramon tinha visualizado com seus olhos em toda a sua vida. Já salvara a terra várias vezes, mas caso conseguisse salvá-la do perigo que estava prestes a combater, já poderia morrer com um grande sorriso no rosto. Provavelmente caso conseguisse iria convidar Molly para beber uma cerveja, o que não era casual, havia anos que o velhote não provava uma boa pinga. Não sentia falta. Não tinha o que comemorar há mais de quatro mil anos. Sentia uma borboleta na barriga por estar tão próximo da morte e ao mesmo tempo do sucesso. Não tinha ideia do que confrontar, mas pensava que seria uma espécie de exército.

Quando Ramon abriu os olhos pela primeira vez nesse universo alternativo sentiu o frio na barriga desaparecer. Não pensava mais que tinha 50% de morrer e a assinar o atestado de óbito da raça humana e 50% de chance de sobreviver e brindar copos com seu aprendiz favorito. Quando abriu os olhos percebeu que era 100% de chance das coisas darem errado. Mestre do Universo por sua vez não tinha muita ideia do que estava vendo.

Em algum lugar da galáxia de algum dos universos alternativos em que a raça humana ainda não tinha se autodestruído e que as pessoas usavam o ano em que um menino suposto ser a encarnação divina em território terráqueo nasceu como o ano zero tinha uma grande espaço nave em que os vagabundos das galáxias mais próximas paravam para beber alguma porcaria qualquer. Eram todas bebidas de segunda e o lugar era um lixo, não um luxo. Mas os clientes não podiam pedir muito, eram vagabundos que estavam dispostos a pagar no máximo 2 dólares por uma cerveja quente ou pediam fiado. Todo mundo que bebia naquele local já sabia que era um porcaria e não via aquilo como um problema, mas também a porquice do local não era vista como uma qualidade. Não era um pró nem um contra, os costumeiros já tinham se conformado com aquilo. Era uma nave que ainda se erguia e bem escondidinha no canto da galáxia Omega. Perfeito para ficar por alguns segundos bebendo umazinha à toa, longe da mulher e dos filhos, ou distante da lei que alguns fugiam.

Naquela época do ano terráqueo era comum que os humanos da colônia de Horizon, ao sul do ocidente mais especificamente, tivessem mais tempo para viajar pelo espaço porque normalmente as crianças estavam de férias e enchiam o saco dos pais falando que queriam ir para Marte comprar o novo telefone de última geração com aplicativos exclusivos. Os pais cansavam de negar e diziam “ok, vamos comprar essa palhaçada filho”, e aproveitavam para transar um pouco enquanto as crianças estavam empolgadas com um mundo novo enquanto tudo que os pais queriam era um tempinho para colocar a foda em dia. Mas os pais também aproveitavam a viagem, compravam algumas bijuterias para dizer que já estiveram em Marte e gostavam de visitar pontos turísticos como as cataratas de Relay – a maior catarata da Via Láctea. Era uma viagem longa de Horizon até Marte e normalmente as crianças ficavam com fome e o pai tinha que parar na primeira nave-bar que encontrasse. E a única nave que se encontrava pela rota de Horizon até Marte era coincidentemente o bar sujo comentado no parágrafo acima.

Papai havia entrado na espaço-nave e estacionado o seu veículo sem muita dificuldade porque o espaço era enorme e só havia um veículo interestelar além do seu naquele estacionamento. Estacionou meio torto, disse para as crianças que compraria algumas besteiras para elas e saiu do seu veículo. Desceu as escadas em direção ao bar e sentou, fumou um cigarro e tragou no maior estilo. Essa viagem estava muito estressante para o papai, havia roído todas as suas 12 unhas das mãos durante a viagem enquanto pilotava o veículo com os pés – o que não é o mais usual naquele modelo, que foi feito para ser operado com os joelhos. Fumou um pouco e um alienígena gordo e marrom com quatro olhos em antenas que podiam se locomover sem problema desconectando-se do corpo de seu dono. Papai não estranhou o alienígena, era o embaixador terráqueo na colônia de Horizon. Um cargo de importância e sempre tinha que conversar com esses aliens estranhos em relação às políticas. Pediu algum uísque para beber, o alien serviu em um copo de plástico bem sujo e com uma parte levemente rachada. Bebeu em um gole e perguntou se tinha alguma coisa que suas crianças poderiam beber.

— Bem senhor, eu não estou acostumado a vender essas besteirinhas que as crianças de hoje em dia costumam comer. Principalmente as humanas. Estou mais acostumado a receber os adultos que são como amigos para mim, sempre veem aqui no mesmo horário do dia e pedem as mesmas coisas e pagam exatamente o mesmo dinheiro. Foi sempre assim que sustentei meu negócio, já quis expandir, mas eu acho que não daria certo. Não sou um homem que consegue fazer muitos amigos, já estou feliz com os amigos que fiz vendendo bebida vagabunda nesse bar sujo. Eu era popular no colegial, mas você sabe... Sempre temos aquele medo de expandir o negócio, não é?

— Sim, sim – concordou Papai. – Mas você tem alguma coisa comestível aí que não seja tóxica? – disse, voltando ao assunto.

— Eu tenho umas pílulas de Irilium que eu acho que conseguiriam sustentar seus filhos para o restante da viagem. Vocês vão para Marte, não é? Um ponto de turismo que muitas pessoas gostam de ir nessa época do ano, principalmente os humanos que são fissurados em marte.

— É verdade. – E Papai deu outra tragada no cigarro para se acalmar. Estava se estressando novamente porque o homem falava tanto quanto a sua mulher e meu deus, Papai odiava aquela mulher.

— Quanto fica a conta? – indagou Papai após receber sete pílulas de Irilium.

— Pela conta da casa. – O alienígena fez uma expressão facial que papai julgou serem duas corujas transando, mas depois percebeu que era um sorriso. – É sempre bom conversar com vocês humanos.

— Obrigado. – Papai levantou-se e subiu as escadas com a certeza de que aquele alienígena era maluco assim como seus olhos que o perseguiam escada acima, desconectados do corpo de seu dono.

Papai terminou de fumar o seu cigarro e jogou-o nos degraus da escada. “Que feio, papai, assim o bar nunca ficaria limpo”, pensou e por um momento ficou arrependido por ter tacado o cigarro no chão. Era um homem que prezava bastante a limpeza e havia tacado o cigarro no chão por simplesmente estar desconcentrado por causa do estresse. Não, não, papai. Vovô não perdoaria isso se ainda tivesse um corpo para se comunicar com os outros, agora ele é só um cérebro estranho que fica encarando os outros numa cadeira de rodas. Tenho que pegar esse cigarro. Não fui mal criado para tacar lixo no chão como os outros que usam esse bar.

Papai virou e se agachou para pegar o cigarro. Quando sua mão de seis dedos chegou próxima ao recipiente da droga, sentiu como se alguém tivesse uma arma apontada para sua cabeça. Era esse o caso, mas Papai não entendia. Alguém tinha visto Papai tacar o cigarro no chão? Se fosse esse o caso, estava ferrado. Os mercenários que viviam galáxia afora não perdoavam aqueles que poluíam os ambientes.

Papai se ergueu ainda sem pegar o cigarro, levantou os braços como numa assalto de bancos em um filme dos anos 80 e meio que apavorado se desculpou e encarou o outro humano que estava apontando a pistola a laser em seu rosto. Era uma arma muito bonita, com detalhes de chamas nas laterais e com a frase “keep calm” tatuada no gatilho. Isso fazia o mercenário pensar bastante antes de puxar o gatilho. Se não tivesse isso escrito na arma, provavelmente Papai já estaria morto.

— Olha, desculpe-me. Eu estava num momento de distração, não faço isso normalmente. Então... O senhor pode me perdoar? Não vai matar alguém da mesma espécie que você, não é?

O mercenário encarou o homem e pensou novamente “fique calmo” dizia a pistola para ele.

— Olha... Eu não vou te matar porque eu sei que sua família está te esperando acima dos degraus – mentiu. – Eu te mataria aqui agora mesmo por ter feito o que fez, mas eu não quero poluir ainda mais esse lugar. Então, me dê seu nome agora.

— Meu nome? Pra quê?

— Ah, seu babaca, você não vai dizer... Sério isso? Vou ter que te matar aqui?

— É... é Jim Wilson.

— Nem fudendo que o seu nome é Jim Wilson, você tem cara de Stewe. Stewe Gomez porque eu sei que você tem descendência latina. Eu também sou de uma colônia, mas conheço muito bem a terra. Esses seus seis dedos da mão não enganam ninguém, você não é um terráqueo caseiro – disse o mercenário.

— Mas... Meu nome não é Stewe Gomez.

— Eu sei que é. E sei que você também está indo para Marte.

— ??? Como você sabe tudo isso??? – Papai estava indignado.

— Porque você está na minha lista, embaixadorzinho de merda. – O mercenário cuspiu na camisa de Papai, mostrando ser bravo e durão. Papai se mijou. – Não só pelo que você fez hoje, mas pelo que você faz em seu trabalho e pelo que você fará.

— Você pode ser mais exato?

— Não, só vá para sua família. Verem-nos-os em Marte. – E deu uma porrada com a pistola no ombro de Papai, que gemeu de dor e virou-se correndo para o seu veículo interestelar.

O mercenário parecia estar triste, tivera a chance de finalizar um trabalho ali mesmo, mas por simples detalhes decidiu deixar para depois. Bem, pelo menos as crianças não sofreriam tanto assim com isso. Ouviu dizer que era normal que os humanos morressem por causa da radiação solar em Marte durante o verão marciano, e ele daria ao Papai um verão bem no peito, que era uma marca. Não gostava de matar alguém e pensar que seu coração ainda estava bombeando, gostava de finalizar no coração para que as coisas terminassem de vez. Óbvio que o cérebro continuaria funcionando fazendo sei lá o que já que o dono do corpo estaria morto, mas era o jeito mais gentil de matar que tivera encontrado em 20 anos nesse serviço. Tinha 120 anos. Sim, é verdade, era um pouco juvenil, mas sua barba grisalha dava a ele um olhar mais pra 500 anos. Era como um galã de novela da antiguidade.

Voltou para o bar e encarou o corpo do atendente que também era o dono do estabelecimento, eram amigos, na realidade era difícil que o alienígena visse alguém como algo além de um amigo ou um amigo em potencial. Encarou o corpo dele, sabendo que na realidade os olhos daquela ameba roxa estavam perambulando por aí pelo lugar como câmeras, mas gostava de olhar um homem no rosto quando estava para dizer algo para ele.

— Desculpa pela confusão amigo, mas eu não gostei do que ele fez.

— Tudo bem. Você sabe que eu te conheço há muito tempo, tipo uns 70 anos e mantenho meus olhos bem espalhados pelo lugar. Eu vi o que aconteceu e como te conheço há tempo sei muito bem que fez tudo pelo bem desse estabelecimento. Sabe Robin, eu não ligo de ter que jogar alguns corpos no espaço se for para o seu bem-estar.

O homem que coincidentemente se chamava Robin bebeu uma cerveja vagabunda numa lata preta e amassada nas bordas. Não estranhou muito o temperamento completamente amigável do alienígena que se chamava Phil, já estava acostumado com tudo isso. Bebia a mesma cerveja vagabunda, a mesma dose, todos os dias naquele lugar e se sentava no mesmo lugar. Tudo ocorria como sempre, ninguém tacava lixo no chão e Robin continuava no seu canto pensando na vida que havia deixado quando fugiu de casa ainda quase um bebê com 15 anos. Ah... Era tão jovem que nem sabia direito o motivo por ter saído de seu pai que lhe estuprava e sua mãe que transava com o vizinho na frente do filho que tentava estudar para as provas finais do colégio.

— Você sabe, Phil, você é um grande amigo para mim. Não só para mim, mas acho que também um grande amigo para todas as pessoas que vem para cá. Você sabe, esse homem que mirei minha arma é sujo e corrupto, mas você aceita gente como nós, mercenários e vagabundos do universo que matam e roubam as pessoas. Você é uma grande pessoa por receber todos nós aqui.

— Você sabe, Robin, vocês não são más pessoas. Apenas fazem isso porque tiveram um caminho difícil por toda a sua vida. A minha vida foi fácil, não precisei sujar minhas mãos. Mas para ter uma vida fácil precisei que alguém sujasse as mãos para mim. Hoje minha vida não é a das melhores, uma vez que não há grandes oportunidades de emprego na Via Láctea e acabei aqui. Eu gosto daqui, dos meus amigos, mas minha mãe sempre quis que eu me tornasse algo a mais. Não me formei em Cirurgia Plástica Betelguesiana para ficar lavando copos e vendendo bebidas baratas.

Robin bebeu mais um gole e olhou diretamente para a cara de Phil, que agora estava com dois de seus olhos na cara posicionados como se fosse um humano. Robin riu da imitação. Achou hilário.

— Sabe Phil, não parece ser nada mal ficar aqui servindo cerveja vagabundo. – Sorriu.

Robin até que gostaria de ficar o dia inteiro servindo de companhia para o seu amigo enquanto bebia cachaça vagabunda e barata, entretanto tinha alguns trabalhos a fazer. Por enquanto, pelas próximas 3 horas, podia fazer o desejado. Estava ali para conversar com Phil sobre qualquer coisa, aquele papo furado entre homens velhos sobre dignidade, honra, ou até mesmo conversar sobre a família de Phil e sobre a sua quadragésima filha que tinha acabado de sair do ovo de manhã. Por Robin, ele e Phil seriam mais do que colegas do bar. Sempre apreciou as amizades e o alienígena era a mais verdadeira que teve nos seus últimos 30 anos. Seus trabalhos requeriam tempo. Daqui a 3 horas ia sair dali e procurar o outro nome que estava na sua lista. Papai era mais ou menos o quarto nome de sua lista. O próximo não estava em Marte, ou na Terra, também não estava curtindo as praias de metano de Saturno, maravilhosas naquela época do ano no planeta. O próximo alvo de Robin não estava sequer naquele universo, e Robin sabia disso.

O próximo alvo de Robin era conhecido por viajar no tempo e no espaço para fazer suas gracinhas para tentar chegar os seus objetivos. Alguém tinha ficado muito irado com uma coisa que ele tinha feito nesse universo e então decidiu contratar um dos melhores mercenários da galáxia para acabar com o sujeito. Entretanto esse mercenário estava com problemas em casa e não podia deixar a família tão distante dele durante alguns meses. Sua esposa havia abandonado a casa para morar com a mãe e ele teve que cuidar dos seus quatro filhos e esquentar os outros 100 ovos que ela tinha colocado e já estavam para chocar. Não poderia fazer isso numa missão, muito menos em uma missão do outro lado do portal hiperuniversal.

Então, essa pessoa que estava enfurecida com esse viajante no tempo decidiu procurar algum homem que estaria disposto a viajar para um universo alternativo. Não tinha muitos voluntários para o trabalho, mas quando ouviu o nome Robin TopaTudo teve certeza que esse era o seu nome. Robin topava tudo, e topou esse trabalho. Daqui a 3 horas estaria indo atrás desse viajante no tempo.

O nome desse viajante no tempo não era Mario. Mas logo tudo se encaixará.