Faces Ocultas - Parte 1
1 Parte 1: Sequestro Relâmpago
Lauren havia subido a escada cuidadosamente, olhou para baixo e sorriu, não sabia exatamente para que ou para quem, só sabia que havia sorrido. Então ouviu passos de alguém que vinha em direção a escada e agilizou seu andado, pulando de dois em dois degraus. Enfim ela chegou ao sótão e pegou uma caixa de recordações que guardava no fundo de uma espécie de buraco na madeira do teto do sótão. Ela apertou a caixa contra si antes de abri-la. Sentiu o sangue ferver...
Dentro, havia uma única foto de Elizabeth, sua mãe que desaparecera havia dezenove dias sem deixar explicação alguma. Desde aquele momento, todos os dias seguintes, Lauren passou a ir ao sótão, para apreciar a linda face nem um pouco enrubescida da mãe que ela tanto idolatrava e chorar recordando-se de Elizabeth.
– Mãe, minha mãe... – Sussurrou, em meio às lágrimas. Na foto, Elizabeth estava grávida dela, de Lauren Anderson, ao lado da mãe estava o carro novo que o marido havia comprado, e ele, o pai de Lauren, Tobias, foi quem a havia fotografado. Não há muito sobre o que falar do visual dela, ela usava um vestido, algo que não era nada típico de seu dia-a-dia. – Minha querida mãe... – Quando ela ouviu alguém bater na porta, enxugou as lágrimas e imediatamente colocou a caixa fechada a cadeado de volta ao seu lugar. Ela viu seu pai entrar no sótão.
– O que faz aqui, querida? – Perguntou ele, preocupado. Ela o encarou de um modo estranho, quando abriu a boca para falar, ele prosseguiu. – Isso está começando a me incomodar, todas às vezes você vem aqui, a este lugar, tão vazio, tão sozinho... Porque, querida?
– Ah, pai. – Balbuciou ela, sem saber se deveria responder e como deveria responder. – São somente lembranças, duras e turvas lembranças, lembranças às quais eu desejaria apagar...
– Ninguém apaga as próprias memórias.
– Só tenho saudades da mamãe, só isso. – Ela disse, afinal.
– Tudo bem, eu acho que te entendo.
– Claro que me entende. – Ele a encarou. – Você também a amava. – Ela levantou-se e quase bateu a cabeça na lateral esquerda do sótão, então, dirigiu-se a escada, desceu e foi para a rua.
Quando ela voltou da rua, alguém a encarou. Era um homem. Forte e musculoso, chegava a lembrar de seu pai, mas não era ele. O homem tinha os cabelos grisalhos e a face enrubescida, alcançando já quem sabe uma velha idade. Mas o que chamou a atenção de Lauren não foi nada nele, não foi ele, foi à atitude dele, o olhar dele, ele a encarou como se ela fosse sua viúva renascida das cinzas, mas não era bem assim...
Ela pensou em cutucá-lo, questionar o porquê de ele a estar olhando daquele jeito, daquela forma, mas, preferiu calar-se e ir em direção a sua casa, chegando o mais rápido possível.
Quando ela entrou em casa e debruçou-se sobre o sofá, ouviu uma espécie de gemido, vinha do quarto de seu pai, ele deveria estar chorando ou... Fazendo “outra coisa”. Ela olhou no celular: era 31 de Outubro! O dia das bruxas!
– Odeio essa merda... – Murmurou ela colocando o celular de volta no bolso traseiro da calça, esquivou-se para pegar o controle remoto e ligou a televisão, mas logo a desligou, pois não se falava de outra coisa que não fosse à droga do Halloween.
Ela deitou-se e fechou os olhos, então, sem perceber, cochilou.
Acordou com o pai cutucando-a.
– Shhh... – Sibilou ele. – Fica parada e quieta. Tem alguém na casa... – Sussurrou.
O pai andou em direção à sala de estar, só então foi que Lauren percebeu: ela não estava mais no mesmo lugar de antes, agora, havia acordado no seu quarto.
Ela olhou para todos os lados antes de ouvir um grito abafado que parecia vir da sala – e não era o grito do pai, parecia ser de uma mulher.
– Mamãe? – Sussurrou ela para si mesma. – Não. Não é. – Disse antes de pôr o pé direito no chão, pronta para ir em direção à sala.
Quando ela pousou a mão sobre a maçaneta da porta do quarto, alguém surgiu a sua frente e ela jogou-se para trás, mas tranquilizou-se do susto quando percebeu que era Tobias, seu pai, quem havia entrado completamente enfurecido com a atitude que a filha iria tomar.
– Eu disse para não sair! – Esbravejou ele, quase que como um sussurro.
– Mas... Papai! – Disse ela fitando-o. – O que está acontecendo, afinal?
Ele olhou para ela. Pensou. Hesitou, mas logo cedeu e disse o que realmente estava de fato prestes a acontecer:
– Vamos ser sequestrados... – Murmurou.
– O quê? – Lauren gritou, e isso bastou para que alguém invadisse o quarto e a chutasse para o lado da cama.
Lauren gemeu de dor, pousou a mão sobre a barriga e tentou não chorar, mas foi impossível. Quem a chutou atingiu-a na região estomacal. Ela chorou enquanto via o pai lutar com o “bandido mascarado”.
Tobias chutou o homem na barriga, ele retribuiu o golpe com um chute no joelho da perna direita de Tobias que caiu sobre o chão. Lauren tentou não ver, mas olhou quando o homem jogava-se em cima de seu pai e o espancava. Sangue correu pelos lábios de Tobias que ainda tentava reagir. Alguém derrubou o homem com um golpe de cabeça. Era Lauren que havia conseguido se levantar.
– Renda-se! – Falou uma voz parecendo não ser humana, era alta e fina, reproduzia ecos enquanto fala e parecia ter dificuldade em pronunciar as letras. Lauren olhou para trás e viu que o outro homem mascarado estava com uma espécie de arma, algo nunca antes visto por ela e nem pelo pai.
– Idiota isso nem é uma arma! – Disse Lauren pronta para atacá-lo. Em fração de segundos, o homem mascarado moveu a arma em direção a Tobias e atirou. Mas o que saiu não foi exatamente uma bala. Foi uma espécie de motor que se abriu devido à pressão de ser atirado para fora do cano da “arma”. Enquanto se abria pelo ar, em mais ou menos dois segundos, o motor alcançou Tobias em cheio, ele caiu no chão, com o sangue saindo e molhando seu lado esquerdo do peito. – Pai! – Gritou Lauren.
– Corra... – Balbuciou ele enquanto gemia de dor.
– Não, eu não vou deixá-lo... – Ela foi interrompida quando sentiu que alguém a estava enfiando algo nas costas: era uma espécie de agulha bem grossa. – Aqui... – Disse por fim e caiu sobre o chão. Ainda estava enxergando as coisas para ver enquanto a amordaçavam e alguma coisa com uma voz completamente estranha e não humana dizia:
– A festa vai começar...
Tobias tentou reagir, novamente, mas cedeu quando percebeu que não havia somente dois “homens mascarados” e sim vários, que havia surgido ele não sabe de onde. Desmaiou, não por tontura devido ao sangramento que estava muito, e sim devido a um soco que levara naquele exato momento no rosto.
Lauren acordou assustada. Estava solta. Foi tudo um sonho? Perguntou-se. Não, não foi um sonho, tudo aquilo foi real, principalmente quando ela olhou em volta de si. Seu pai estava ao seu lado, ainda desacordado e deitado de um jeito estranho. A cabeça estava inclinada dando a impressão de que seu pescoço estava quebrado, os braços estavam abaixo de suas costas e assim Lauren não poderia saber se ele estava solto ou algemado. O que chamou mais atenção no jeito como ele estava foram suas pernas: jogadas para cima, sustentadas pelo próprio peso e pelas grades da jaula.
– Jaula... – Sussurrou ela. – Oh meu Deus, o que é isso... – Ela tentou mover-se para todos os lados, mas a jaula era pequena demais, não cabia nem ela e nem o pai em pé, mas ainda cabiam mais duas pessoas sentadas ali dentro. – Que lugar é esse...
Sem perceber, ela se inclinou para trás e quase se sentou na cabeça do pai, que se acordou no mesmo momento.
– Ah, socorro! Lauren! – Chamou ele. Então ela percebeu: ele não estava totalmente solto. – Tire essa droga dessa corda! – Ordenou ele conseguindo virar-se para ela desamarrá-lo. Ela o desamarrou, porém, permaneceu quieta, calada, estava pensativa.
O pai a olhou, mas não falou nada, em vez disso ficou olhando para os lados. Uma jaula... Ele pensou. Estamos dentro d’uma droga de jaula. Tobias tocou nos ferros, não havia sinal de que eram elétricos. Só então ele lembrou-se de olhar para onde a filha estava olhando: para fora da maldita jaula.
– Que lugar é esse... – Ele falou tão devagar que não soou como uma pergunta. A filha não desgrudava os olhos das coisas que havia ao redor deles.
Controles e mais controles muito grandes e estranhos, outras duas jaulas vazias e abertas, computadores enormes, tudo naquele lugar parecia girar em torno de tecnologia, não havia um canto sequer nas “paredes” que não fosse ligado a tecnologia. Espécies de programas reproduzidos em tela grande. Ninguém estava comandando nada ali, até aquele momento...
Eles viram quando um ser completamente estranho entrou no local. Mascarado? Eles pensaram. O ser estava com uma máscara muito estranha, que lembrava a aparência dos alienígenas criados e mostrados nos noticiários e na internet. A máscara era grande demais para o rosto do ser que a estava. Tinha buracos enormes no lugar dos olhos, mas o estranho é que dentro desses buracos havia outros um pouco menores e negros. Dentro desses outros buracos estavam os olhos do ser... Não, não exatamente um ser, pelo menos não um ser humano, Lauren pôde perceber. Os olhos piscavam e lembravam faróis de carros. Eram grandes, extremamente grandes, aqueles não eram olhos humanos, não mesmo.
Os pelos dos braços de Lauren se eriçaram, o pai dela olhou o bicho que se movia em direção a um dos painéis da sala. Ele pousou a mão sobre um botão enorme e falou numa voz extremamente assustadora:
– Os controles estão prontos. – A voz da coisa foi direta e sem interrupções. Foi uma coisa muito estranha. Era diferente das vozes das outras coisas que haviam invadido a casa de Lauren e Tobias. A voz agora era grossa e ao mesmo tempo fina, ainda emitia ecos, mas era estridente e causava arrepios em qualquer... Humano. A coisa percebeu que estava sendo observada e se inclinou para trás. Pareceu assustar-se e então correu em direção a outro painel. Ela corria como um humano, Lauren percebeu. Ao chegar ao outro painel, o ser estranho apertou um botão semelhante ao do painel anterior, era de mesma proporção, mesmo tamanho, o que mudava era o painel que era menor. Ele apertou e chamou. – Acordaram! Os mundanos! Acordaram!
Mundanos? Perguntou-se Tobias. E o que vocês... São?
Enquanto Lauren encarava o ser estranho a sua frente, não percebeu o que estava por vir. Só então notou que o lugar agora estava cheio. Tanto de painéis, como de outros seres. Lembravam os chineses, somente por serem todos parecidos, não em face humana, somente em face e corpo. Não havia um ser gordo e um magro. Não havia um ser alto e um baixo. Eram todos de mesma estrutura corporal.
– O que vocês... – Falou Lauren chocada. – São? – Disse, por fim.
Mas os seres não responderam. Lauren olhou para o pai que tocou no bolso da calça. Algo o estava espetando, era uma caneta. Ele tirou-a do bolso. Quando os dois voltaram a olhar para os seres estranhos, todos estavam com armas semelhantes as que estavam com quem os sequestrou. Porém, todos os seres estavam apontando para eles.
– É só uma caneta! – Disse Tobias que jogou a caneta neles. Ficaram enraivecidos com a atitude de Tobias e foram para mais perto.
– Não! Parem! – Gritou Lauren estendendo as mãos. – É só uma caneta. Sabem? Caneta? Escrever? Papel?
Os seres a encararam de um modo estranho. Estava claro que eles não sabiam o que era uma caneta, sequer o que era um papel e o que significava “escrever”. Lauren baixou as mãos.
– Mundanos idiotas. – Ouviu-se uma voz estranha falar.
– Se nós somos mundanos... – Começou a falar Tobias. – E vocês não, então... O que vocês são?
Enfim, alguém falou. Ele parecia ser o líder de todos, se colocou a frente da multidão de seres que já havia se formado e parecia crescer a cada instante e disse, em tom alto, irritante e arrepiador:
– Só não somos imundos como vocês, mundanos.
– Não são imundos como nós? – Disse Tobias, fadigado. – Claro que não, são piores! – Lauren o encarou. – Ao que me parece, vocês sequestraram a mim e a minha filha, isso não se faz! Além de que, tenho certeza de que por trás dessas máscaras existem rostos humanos. – Concluiu.
O líder do grupo pegou uma espécie de controle e apertou num pequeno botão, não fosse a cor vermelha do botão, Tobias e Lauren não teriam visto nada. A jaula se abriu. Tobias pensou que eles iriam liberá-los, mas foi completamente o contrário. Ele ouviu os gritos da filha enquanto a puxavam para fora e não pôde fazer nada, estavam apontando armas para ele.
Eles puseram-na de pé e outros quatro seres foram segurá-la enquanto o líder desembainhava uma espada. De onde ele tirou essa droga? Perguntou-se Tobias com medo do que pudesse acontecer a filha logo em seguida. O líder encostou a espada afiada na calça de Lauren.
– Não... – Gritou Tobias. – Não seu desgraçado! – Gritou mais alto. – Não!
O líder afundou a espada na perna de Lauren fazendo com que ela chorasse e gritasse mais ainda. Então, quando viu que já estava saindo sangue, ele tirou a espada, limpou-a e guardou em seu devido lugar: bem mais acima de todos os painéis, um lugar inalcançável para Tobias ou para Lauren.
– Seu filho da mãe! – Gritou novamente Tobias contemplando a face assustada da filha que ainda chorava de desespero.
– Devolvam-na. – Ordenou o líder. Outros quatro seres arrastaram Lauren até a sela, abriram-na usando o controle e chutaram a jovem para dentro. – Por isso que disse que vocês são imundos. Seres humanos idiotas, sempre movidos pelo medo... – E o líder cruzou a porta automática sem dar mais nenhuma palavra. Todos os outros o seguiram.
– Pai... – Balbuciou Lauren. – Pai, tá doendo... – Ela ainda chorava.
– Sim, querida. O corte foi fundo, vai precisar de alguns pontos.
– Pontos? Pai! Não sabemos onde estamos e nem o que são aquelas coisas, não sabemos sequer se estamos vivos!
– Filha não exagere, não acredito que existam seres... – Ele parou, sem saber que palavra seria a certa para formular aquela frase.
– Alienígenas! Você quis dizer! – Apesar de estar em meio às lágrimas, ela conseguia ficar aborrecida com o que o pai estava falando, pois, mesmo depois de tudo o que eles virão, ele ainda continuava não acreditando que aquelas coisas não eram totalmente... Humanas.
Ele não falou nada, em vez disso, ficou pressionando o corte na perna da filha, expelindo todo o sangue e sujeira que aquela espada deveria conter. Eles não saberiam se estava de noite ou de dia. Naquele lugar, havia luzes por todos os lados. Eles dormiram, não tranquilamente, mas dormiram, temendo ao que poderia acontecer durante a noite estando num lugar como aquele, próximos de seres horríveis e maus como aqueles...
Lauren havia perdido o sono, sequer tinha conseguido dormir, mas fingiu estar dormindo, para vigiar, olhar e ouvir tudo. O silêncio tomou conta “da noite” inteira, se é que era noite. Por um segundo, ela achou que estava pegando no sono, mas então ouviu uma espécie de sussurro.
– Droga... – Sussurrou ela tão baixo que quase que foi para si mesma. – Não dá para escutar. – Quando ela ia encostar a orelha num dos ferros da jaula, ela ouviu passos e imediatamente deitou-se, fingindo dormir.
– ... Elizabeth, sim, eu tenho certeza! – Foi o que Lauren conseguiu ouvir do primeiro ser que entrou no local, ele havia falado algo antes que ela não havia compreendido. – Foi ela, eu sei disso! – O que fez com que Lauren ficasse se sentindo estranha foi à voz do ser que entrara na sala... Era quase humana, não fossem os ecos que emitia.
– Eu não tenho certeza de que tenha sido ela... – Disse o outro ser que acompanhava o Número 1, que foi como Lauren batizou a primeira voz a ouvir.
– H, ela é má! – Disse o número 1. H? Perguntou-se Lauren. Eu ouvi mesmo isso? Ele tem o nome de uma letra?
– Mas, Jay! – Disse H. – Você não tem tanta certeza assim, não sabe de nada! – H percebeu o silêncio que se fez em relação à Jay, que estava pensativo. – Ou sabe?
– Escuta H, é melhor esquecermos esse assunto... – Jay pousou as mãos sobre um dos painéis, Lauren viu isso, pois tinha acabado de abrir os olhos. Além de vê-lo pousando as mãos no painel, ela viu o que H estava prestes a fazer...
– Jay, cuidado! – Gritou Lauren fazendo com que os seres saltam-se do lugar onde estavam. O sono de Tobias era tão grande que ele não ouviu nada.
– Ela está acordada! Eu sabia que ela não prestava! Veja só de quem é fruto! – Esbravejou H fitando a garota encolhida na jaula. Ele foi em direção a ela com um bastão na mão. Estava pronto para atacá-la, até que Jay falou:
– H! Pare! Agora mesmo onde você está!
H parou. Somente porque sabia que Jay era um dos preferidos do líder, e se ele contasse ao líder que H ousou desafiá-lo, sua vida teria fim no mesmo momento. H soltou o bastão e voltou para onde estava – do lado de Jay. Lauren viu Jay sussurrar alguma coisa no ouvido de H, que foi embora naquele mesmo instante.
Jay caminhou em direção a ela. Lauren temeu quando ele ficou sentado no “chão” em frente a ela. Ele a encarou, e iria falar naquele exato momento se Lauren não houvesse tomado à voz antes dele:
– Ah... – Sussurrou. – O que você é? – Ela falou um pouco mais alto quando perguntou. Alto o suficiente para que Jay conseguisse ouvir, as orelhas dele também pareciam fazer parte da máscara, eram enormes.
– Quer mesmo saber? – Perguntou Jay fitando-a com aqueles olhos enormes e escuros, que pareciam buracos negros sem fundo, ele parecia diferente de todos os outros. Sua voz era quase humana. Aquela tinha sido a primeira voz que ela ouviu na sala. Ela assentiu ainda assustada e com medo de que ele fizesse algo contra ela. – Sou como você... – Ele disse, e, por um momento, ela teve a impressão de que Jay estava mentindo.
– Como eu? – Balbuciou ela sem entender. Era visível a todos os olhos que ele era diferente de todas as coisas e pessoas que Lauren já havia visto. Ele tinha olhos grandes, redondos e negros. Suas orelhas eram enormes. E sua face, sequer parecia uma face, ainda era uma máscara. Ele a fitou novamente, chegando a quase assustá-la.
– Sim, sou bom. Não totalmente, mas sou bom.
– Você é... Bom? – Perguntou ela sem jeito e pouco a pouco ela percebeu que a tensão ia diminuindo, o medo ia se esvaindo e ela ficava mais calma perto de Jay, realmente, ele parecia ser bom.
– Sim, eu sou bom. – Disse ele. Jay olhou para os lados. – Tudo isso, sabe, eu já estou enjoado de tudo. Desse mundo, dessa tecnologia, maldita tecnologia, ah, e... Eu sei o que é e para o que serve uma caneta. – Ele sorriu para Lauren.
– Acho que você é o único. – Afirmou ela, retribuindo o sorriso de forma amigável.
– Às vezes eu também acho. Porque sou diferente deles... – Jay olhou para trás, para certificar-se de que H não estava voltando. – Eles são...
– Diferentes de você. – Interrompeu Lauren, com clareza. O jeito meigo de Jay lhe chamava a atenção, o carinho com qual ele falava. Ele realmente era diferente de todos os outros, mas ela também sabia que estava cedo demais para confiar... Em Jay. Ele poderia ter lá suas diferenças, mas não deixava de ser um deles.
– Eu não ia dizer isso... – Ela o olhou. – Não ao menos dessa forma. – Ele fitou o pai dela que ainda dormia. – Ele tem um sono pesado, não? – Ela assentiu. – Então... O que você viu?
– Como assim? Quando?
– Ainda pouco... Você gritou meu nome, estava acordada, disso eu já sei, mas, o que você ouviu, afinal? – A voz dele não era irritante, era bem masculina, bem grave, a única coisa que diferenciava sua voz da dos outros humanos era que a dele, como a de todos os outros seres estranhos, tinha ecos. – Ou... Viu?
Lauren o encarou. Aquele rosto assombroso, como ela poderia estar conversando com ele e não ligar para tudo aquilo? Ele era tão... Medonho. Ela hesitou antes de falar, mas como sempre, cedeu:
– Ele ia lhe atacar... Com o mesmo bastão que planejava me atacar. – Disse ela.
– Hum... – Ele não parecia nem um tanto chocado. – Ig não iria gostar de ouvir isso. – Lauren o encarou e ele entendeu o motivo do olhar torto dela. – Ah, esqueci, você não sabe quem é ele. Ig é quem comanda tudo isso. É o líder de todos nós.
– E você é...
– Seu fiel escoteiro.
– Você é tão... Diferente. – Disse Lauren mais uma vez. – Eles nunca... O machucarão?
– Porque fariam isso? Por eu ser diferente? – Ele mesmo respondeu a própria pergunta. – Não, Ig nunca permitiria que isso acontecesse...
– Bem... Isso é muito bom, certo?
Dessa vez, ele quem não falou nada, apenas assentiu. Parecia estar confuso, pensativo. Lauren hesitou mais uma vez, mas sentiu-se obrigada a questionar:
– Porque está tão calado agora?
– Estou fazendo algo muito errado... – Respondeu Jay, ainda pensativo. – Você. Estou errando em estar aqui, conversando com você.
– Eu ouvi você e H conversando desde o momento em que entrarão nesse local. – Confessou Lauren. – E... Bem... Eu ouvi você dizer que minha... – Ela pensou se deveria se referir a Elizabeth como sua mãe, afinal, não existia somente uma Elizabeth no mundo, mas Lauren desconfiava de que os seres estranhos sabiam muito sobre o estranho sumiço da mãe dela. – Que alguém chamado Elizabeth era má...
– Sim, mas, enfim, você ouviu demais, não deveria.
Ela viu Jay levantar-se, pronto para ir embora.
– Mas, Jay... – Murmurou ela.
– Escute-me, Lauren, sim, eu sei o seu nome, mas não é a isso que quero chegar. Enfim, não confie em mim. Não confie em ninguém. Todos, principalmente H e Ig, são maus. Não há um bom sequer nesse meio de... Criaturas. – Ele mesmo parecia ter horror de mencionar-se assim, dessa forma, dessa maneira.
– Mas você me disse que era bom... – Lembrou Lauren.
– E se eu tiver mentido?
Lauren não falou mais nada. Jay também não, ele suspirou e cruzou a porta automática, sem despedir-se de Lauren. Ela estava quieta encolhida na jaula ao lado do pai, então percebeu que seu pai também não havia dormido. Que escutou tudo. Ela olhou para ele e sorriu. Já a expressão de Tobias não era de tanta felicidade, pois ele havia reparado no jeito como a filha olhara para o... ET. Mas preferiu ficar calado, retribuiu o sorriso da filha que o abraçou logo em seguida. E, enfim, eles conseguirão dormir...
Continua em:
Parte 2: O Real Por Trás da Face
Que, provavelmente, não será postado aqui.
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