Faberry Week 2012
1 Fairy Tales - Espelho, espelho meu...
– Não, não, não e não!
É a tarde ensolarada de um sábado e o clube do coral, vulgo New Directions, está concentrado no auditório da escola de segundo grau William Mckinley. O que temos aqui, nesse exato momento, é a estrela do grupo de adolescentes, Rachel Berry, semi-vestida com o que ela acabara de descobrir que seria seu figurino. Os braços estão cruzados na frente do peito e ela está encarando o diretor da peça, William Schuester, com toda a petulância existente em todos os seus cento e cinqüenta centímetros de matéria.
– Rachel, seja sensata, por favor.
A indignação pairou de maneira quase palpável ao redor da pequena pessoa até que por fim se fez materializar na forma de um queixo caído.
– A idéia foi minha!
– Sim, Rachel. E foi uma das muito boas! – Nesse ponto do discurso de Will, os olhos de Rachel se arregalaram em estupefação. – Veja bem, eu dividi os papéis de acordo com os dotes fí...
– Mrs Schuester, eu não posso acreditar que o seu diferencial para a distribuição de papéis para uma peça beneficente tenham sido os atributos físicos. Chega a ser ultrajante que o senhor, como educador de uma escola pública e como convivente diário com inúmeros casos de preconceito implícito e explícito, apóie e incentive esse tipo de prática. Eu acredito fielmente que o bullying deva ser combatido desde a primeira infância, que é a idade do nosso público alvo nesse musical em específico. Além do mais, eu não posso concordar com a não existência de uma lista que tenha sido tornada pública com os papéis e seus respectivos intérpretes. Hoje é sábado e caso eu não estivesse aqui, eu estaria em casa trabalhando junto com meus pais em outro número de emergência, que é como eu chamo as apresentações que eu tenho prontas para como o próprio nome diz, situações emergenciais. Caso o senhor não se lembre, foi um dos meus números de emergência que nos salvou de uma óbvia desclassificação na primeira fase do concurso nacional de corais ano passado. Ou seja, eu estou perdendo o meu tempo ensaiando um sub-papel ultrajante e desmerecedor de todo o meu talento, enquanto poderia estar praticando para poder tapar mais uma das lacunas da sua incompetência enquanto líder de coral.
– Dios mio, alguém faz ela parar... – Santana murmurou enquanto apertava a ponte entre os olhos. Em contrapartida ao vestido negro de Rachel, Santana usava calças brancas e largas de algodão cru. Não haveria nenhum Aladdin, porque aparentemente todos os meninos se recusavam a ter qualquer tipo de relação romântica com Santana (mesmo que de mentirinha) desde o acidente envolvendo Rory Flanagan na última apresentação do grupo, mas ao menos aquele mashup de contos de fada Disney teria sua Jasmine.
William piscou, tentando processar pelo menos metade do que lhe havia sido dito. Finn Hudson chacoalhou a cabeça e apertou os olhos, dentro de sua farda branca e dourada. Uma versão meio burra do príncipe da Cinderella. Ao seu lado, e também olhando a cena, temos uma Harmony triunfante e absolutamente-branca-de-neve, Tina-Mulan, um Kurt Pinóquio, uma versão bizarra do Tarzan (que é apenas Joe Heart usando uma tanga) e os demais membros, ainda de identidade irreconhecível ou não caracterizados.
Eles estão todos organizados de uma maneira que faz parecer se tratar de uma arena. E nessa arena, William Schuester é um gladiador sem armas enquanto Rachel Berry é o leão que lhe rosna.
Ela ainda espera durante longos pares de segundos, observando a boca do professor abrir e fechar, sem que ele consiga sequer formar uma resposta coerente. Por fim, ela bufa, segura a saia do vestido e sai abrindo caminho com os ombros por entre os companheiros de classe. Uma saída triunfal! Ela se lembrou de anotar este episódio para sua futura biografia. O mundo merecia saber o quanto Rachel Berry fora injustiçada antes de ganhar suas dúzias de Tonys, Grammys e estatuetas do Oscar.
Quinn Fabray chegou ao palco com suas longas madeixas falsas de Rapunzel acompanhada de uma Brittany com um único sapatinho transparente a ponto de ouvir a porta do camarim que havia sido reservado única e exclusivamente para Rachel (pela própria Rachel) bater com todo o barulho possível. Não demorou um único segundo para a menina loira entender o que se passava. Os olhos esverdeados procuraram Santana, que respondeu com um arquear de sobrancelhas. Foi revirando os olhos que Quinn seguiu o mesmo caminho que a pequena diva. Jesus, como era difícil namorar uma sagitariana!
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Um absurdo. Um despautério. O fim do mundo!
Era isso o que estava acontecendo. Só podia ser isso o que estava acontecendo. Rachel chegou a pensar na possibilidade da volta do Messias. A idéia foi descartada quando ela se lembrou que não era cristã.
Andando em círculos dentro do pequeno cômodo lotado de espelhos por todas as partes, Rachel pensava nas muitas possibilidades que a situação lhe propunha agora. Ela poderia entrar na justiça e obrigar Will Schuester a lhe dar todos os papéis principais em todas as peças do New Directions pelo resto de sua vida. Ela poderia pedir transferência para aquele colégio de freiras que ficava no subúrbio de Lima... E por fim, ela poderia apresentar um monólogo no orfanato, na mesma hora que a peça de seus amigos, em forma de protesto.
A primeira opção foi descartada quando Rachel se deu conta de que quando ela fosse uma grande estrela da Broadway, não teria tempo para protagonizar os musicais amadores de William Schuester, mesmo que ela fosse charmosa o suficiente para conseguir que Papa Russ assinasse uma liminar no domingo (afinal de contas, ser a nora do juiz da cidade tem lá os seus benefícios) e ela pudesse começar a ensaiar logo na segunda feira.
O empecilho na segunda opção foi obviamente a distância de Quinn. Rachel se perguntou como ela pode sequer cogitar essa possibilidade.
Então, por eliminação, Rachel estava pensando em que músicas ela apresentaria no próximo domingo, ainda andando em círculos, quando Quinn entrou no camarim.
Ela se recostou à porta recém fechada, observando Rachel andar de um lado para o outro.
– Você viu que absurdo? Ele não pode fazer isso comigo! Eu sou uma estrela! Aliás, eu sou A estrela desse coral. A idéia foi minha!
Quinn suspirou, não conseguindo conter um sorriso. Você sabe que você está apaixonada, quando consegue achar até mesmo um ataque de estrelismo a coisa mais fofa do universo.
– Eu falei pro Artie que você seria uma boa Evil Queen. – Artie Abrams, o assistente do diretor. Nesse caso, o assistente de William Schuester. A loira comentou e por um segundo, chegou a pensar que Rachel não a tivesse ouvido.
Ela tinha. Só não tinha processado ainda.
Quando o peso daquelas palavras se fez sentir, Rachel levou as duas mãos ao peito. Até tu, Brutus? Traição!
– Como você pode? Quinn, eu achei que você me amasse!
Quinn suspirou de novo, o coração palpitando de tanta paixão. Por Deus Fabray, que estado patético!
– Amor... Você não está entendendo.
– Não! – Rachel gritou. As duas mãos ainda dramaticamente apertadas sobre o coração. – Traição! Você me traiu, Quinn!
Quinn tentou se aproximar, Rachel levantou uma das mãos. Mais drama. A loira voltou a se recostar na porta. A paciência em forma humana, adolescente, loira e linda.
Rachel deu mais uma ou duas voltas no centro do camarim, tentando se acalmar. Por fim, parou de frente ao espelho, as duas mãos espalmadas sobre a penteadeira. Os olhos castanhos fixos em si mesmos, encarando a própria irritação através do reflexo do vidro.
A primeira coisa que a morena sentiu foi o coque frouxo a que ela tinha submetido os cabelos castanhos sendo desfeito por mãos habilidosas. Fechou os olhos, sabendo que por mais irritada que estivesse, afastar Quinn de si estava além de suas forças.
Em seguida ela sentiu uma das mãos contornando-lhe a cintura delgada, privilegiada pelo corte nobre do vestido de seu figurino.
– Espelho, espelho meu... – Quinn sussurrou e Rachel cravou as unhas na palma de suas mãos, instintivamente mordendo o lábio inferior. A pressão delicada contra seu abdômen fez com que descansasse as costas contra o peito de Quinn. A perfeição com que os corpos se encaixavam evidenciada uma vez mais. Os lábios da menina mais alta alcançaram um ponto abaixo da orelha de Rachel, enquanto os olhos dourados estavam fixos no reflexo de Rachel. – Diga-me... – Quinn roçou os lábios sem pretensão alguma ao longo da pele de Rachel. Parou exatamente ao pé da orelha delicada — ... se há no mundo alguém mais bela do que eu.
Rachel ofegou, quando o corpo reagiu novamente por instinto ao tom usado por Quinn e ao hálito em contato com a pele sensível de seu pescoço. Os lábios de Quinn a tocaram e ela tremeu. Quinn correspondeu à sua entrega apertando com vontade a cintura delicada. A mão que descansava sobre os cabelos sedosos e castanhos ganhou vida, e a pressão junto aos fios delicados fez com que Rachel abrisse os olhos, encarando o próprio reflexo no espelho. A visão de Quinn atrás dela, encarando-a de volta com olhos ardentes e a boca colada à sua pele era dolorosamente erótica. Rachel engoliu um gemido com muito esforço.
– Em todo o mundo... – Quinn voltou a falar e Rachel ofegou uma vez mais — ... Adorada rainha... – Os dentes alvos roçaram o lóbulo auricular da morena. Quinn sorriu, ainda encarando uma Rachel exasperada em seus braços através do espelho. — ... Não existe beleza maior.
Quinn por fim mordeu a orelha de Rachel, que tremeu uma vez mais. A mão que até então descansava na cintura da menina menor, subiu, contornando cheias de perigo as costelas delicadas. Quando os dedos longos de Quinn roçaram a base do seio direito de Rachel, a cabeça da morena tombou. O pescoço delgado se ofereceu sem pudores aos lábios de Quinn, enquanto os olhos castanhos se fecharam em desespero.
– Mesmo que não sejam negros como a noite, não existem cabelos mais sedosos. – Quinn continuou a falar, a voz nasalada ligeiramente rouca. Afinal de contas não se pode brincar com fogo sem se queimar. – Nem mais cheirosos.
Fios castanhos acariciaram o rosto de Quinn quando por fim ela se deixou levar pela tentação que era cheirar os cabelos de Rachel. O nariz deslizou então, da nuca até o ombro esquerdo de Rachel. Quando Quinn voltou a abrir os olhos, Rachel já a estava encarando de volta.
– Nem mesmo toda a alvura da pele de Branca de Neve... – Depositou ali um beijo demorado, nunca deixando o olhar se desconectar do da outra menina — ... É párea para esse tom de mel... – Tocou a pele antes beijada com a ponta da língua e Rachel sentiu as pernas fraquejarem.
Quinn riu baixinho, sustentando o peso da namorada sem problema nenhum. Girou-a em seu abraço e olhos castanhos enormes e suplicantes esperavam ansiosos.
– E eu tenho certeza que os lábios vermelhos como sangue também não são tão doces como os seus, majestade. – Sussurrou, sentindo o próprio fôlego falhar. Acariciou a boca de Rachel com a ponta do dedo indicador, antes que Rachel por fim reagisse lhe envolvendo o pescoço com ambos os braços.
O beijo já começou desesperado... E o desespero se estendeu por mais quarenta minutos, não necessariamente só nos beijos.
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Quando por fim Quinn Fabray voltou para o palco, Brittany teve que ajudá-la novamente com suas tranças de Rapunzel e com um ou outro botão que havia estourado em seu vestido de princesa. Santana Lopez torceu o nariz com um alto e gigantesco “EW” quando o vestido de Quinn deslizou um pouco mais e revelou uma marca roxa (muito roxa, aliás) um pouco abaixo do ponto de pulsação do pescoço. Quinn respondeu com o dedo do meio, claro.
Dez minutos depois Rachel apareceu recomposta. Os cabelos presos num coque muito alto e com uma capa cujo colarinho chegava-lhe um pouco acima das orelhas. Roupas, cabelos e postura impecáveis de rainha. O ensaio continuou depois do discurso (já esperado) do quão grande é o papel de um vilão em uma produção musical e no quanto o ator tem que se desdobrar para interpretar um papel que não tenha nada além da aparência física em comum com ele. Santana revirou os olhos pela décima quinta vez nesse ponto do discurso e ameaçou arrancar as tranças de Quinn novamente, caso ela não fizesse sua namorada calar a boca.
Will Schuester iria agradecer a Deus mais tarde por ter o antídoto para os ataques de estrelismo de Rachel em sua equipe: a caçula dos Fabray.
Notas finais
Larissa.
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