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1 Horário de Verão
Notas iniciais
Acordei com o som de buzinas, provavelmente de carro, perturbando-me a ponto de tentar me sufocar com o travesseiro. Ainda estava enrolada no lençol quando olhei de relance para o relógio.
–Droga! — Falei alto quando vi o horário e percebi que estava meia hora atrasada.
Levantei jogando tudo da cama que estava sobre mim no chão. Corri para o banheiro, pensei em tomar um banho, mas logo me dei conta que não iria ter tempo para banho. Olhei-me no espelho e até que dava para ir sem um banho, era só tirar as remelas, pentear o cabelo, e colocar um pouco de blush em minha cara levemente descorada pelo cansaço e pronto, eu já estaria aceitável!
Troquei meu pijama por uma roupa um pouco mais profissional. Passei na pequena cozinha do meu apartamento e peguei uma maça. Sai desesperada e corri para o elevador. Entrei naquela pocilga velha que chamava de elevador, e quando estava três andares abaixo do meu me dei conta que havia esquecido minha bolsa com toda a papelada que eu tinha que levar.
Respirei fundo para não surtar de vez, parei o elevador no próximo andar e subi correndo de escada. Abri a porta e vi a maldita bolsa ali logo em cima da mesa, como se estivesse me encarando. Raiva e desespero era as palavras que melhores descreviam meu estado no momento.
Chamei o elevador mas ele não vinha, então lembre que ele iria descer primeiro até o térreo para depois voltar. Olhei para escada querendo chorar. Desci todos os 13 laces de escadas mal iluminadas, tão mal iluminadas que se eu não estivesse de sapatilha eu provavelmente teria caído umas cinco vezes, considerando as altas pisadas em falso que eu dava.
Andei até a minha vaga e vi meu carro me esperando. Ele era pequeno e usado mas era meu! Liguei a ignição e dei partida, pena que a marcha estava na ré. Bati de leve na parede, não amaçou muito, mas...
Parei em um farol fechado e peguei meu celular, tinha umas dez mensagens de meu chefe, meu celular começou a tocar logo quando a porcaria do farol abriu. Olhei para a tela do celular e lá estava, escrito em letras garrafais “Bob-CHEFE TRABALHO” engatei a primeira marcha tentando ignorar o toque. Esse atraso iria me sair caro.
Depois de desesperados 20 minutos havia finalmente chegado no prédio onde eu trabalhava. Estacionei meu carro em uma vaga aleatória, peguei minha bolsa do banco, dessa vez eu não esqueceria ela. Corri até o elevador e pedi meu andar. Enquanto ele subia eu dava uma última conferida na papelada. Suspirei fundo antes da porta abrir e ter que encarar o furacão que viria para cima de mim. Sai do elevador, andei confiante até a minha sala. Segundos após entrar, minha secretaria, Eunice, veio correndo. Ela aparentava preocupada – e com certeza não era a única- ela me encarou e finalmente disse:
–Senhora Ravena, a reunião já começou. Na verdade faz uma hora já.
–Que reunião? – Disse perplexa. –Aquela reunião que estava marcada para daqui dez minutos?
–Então Dona Ravena, sim é essa sim, mas o horário de verão mudou ontem...- Aquelas palavras entraram pelo meu ouvido e a única coisa que passava em minha cabeça era “FUDEU!”
Olhei aterrorizada, aquela era uma das reuniões da qual não se pode faltar, chegava a ser quase um crime. Levantei e limpei minhas mãos ,molhadas com suor, em minha calça. Caminhei até a sala de reuniões, bati na porta e Bob a abriu, ele me lançou o olhar mais feio que podia fazer e sussurrou bem baixinho em minha orelha:
–Eu vou te esganar quando a gente sair daqui!
Fingi um sorriso e entrei. Lá estava os melhores e mais ricos empresários de São Paulo. Escondi o nervosismo por debaixo de uma cara de interesse. Fiz todo aquele teatrinho tonto e depois de uns minutos a reunião acabou. Então recebi uma chamada do Bob para acompanha-lo até sua sala.
–Então... qual é a explicação desta vez?
–Horário de verão... – Falei como uma criança confessando algo.
Ele me encarou por um tempo até que finalmente ele suspirou e me olhou decepcionado. Bob era uma boa pessoa, ele não era daqueles chefes babacas, mas eu apenas, sei lá... eu não estava motivada o suficiente. E além disso não foi culpa minha que a porcaria do despertador não se atualizou do horário de verão.
–Ravena, mais uma dessas eu não vou poder te manter aqui. Você sabe disso não sabe? – Perguntou ele, não com um tom ameaçador mas sim, como um amigo.
–Sim, eu sei Bob. Desculpa, sério...
–Ok, agora vai trabalhar, esse final de ano vai ser agitado, quero deixar tudo pronto até amanhã para todos poderem passar o ano novo em paz. Faltam apenas dois dias, não podemos atrasar...
–Pode deixar.
Levantei da cadeira e quando estava fechando a porta ele falou uma última coisa:
–Você tem sorte da reunião ter sido um sucesso...
Fechei a porta e fui para minha sala. Chegando lá eu desabei. Desabei de cansaço, de sono, de tudo. Depois de uns minutos contendo as emoções pude trabalhar melhor. Bem eu não tinha muito o que fazer, se eu passasse o ano novo aqui ou na minha casa, não ia ter diferença. Eu estaria sozinha do mesmo jeito. Saudades do colegial onde tudo era mais simples.
Terminei o dia exausta, voltei para casa, eu sinceramente não sabia se era melhor ficar lá ou em minha sala do trabalho, os dois eram estranhamente iguais. Chegando em casa tomei um banho comi uma tigela com serial e leite e fui dormir, o próximo dia seria bem cansativo.
Dormindo eu tive um pesadelo horrível, eu era perseguida por relógios e tinha alguma coisa relacionada com o verão, então eu levantei assustada e olhei para o relógio da minha cabeceira nele marcava 00: 37 olhei em meu celular ela estava 1:37.
–Puta merda, eu fui aterrorizada pelo horário de verão! – Falei indignada.
Arrumei o horário certo e voltei a dormir.
Maldito horário de verão!
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