Faça o que eu mando
7 Bem sozinha
Notas iniciais
O investigador bate à porta.
VÍVIAN – Quem é?
INVESTIGADOR – É o Cardoso.
VÍVIAN – Estou em entrevista com Olívia.
INVESTIGADOR – Há três horas.
Vívian sai da sala e fecha a porta.
VÍVIAN – Está difícil aqui viu, Olívia está bem fragilizada com tudo que aconteceu hoje. Ela está falando aos poucos, fizemos uma pausa de mais de hora.
INVESTIGADOR – O que eu tenho aqui pode te surpreender.
POLICIAL – Olívia talvez não esteja tão fragilizada assim...
INVESTIGADOR — Melhor deixar isso comigo e com a Dra. Beltrão, por enquanto acompanhe a senhora Lara até a sala 205.
POLICIAL – Tudo bem. Avise se tiver novidades.
O policial sai e os dois ficam conversando.
VÍVIAN – Espero que seu método ortodoxo de não prestar atenção às testemunhas tenha funcionado.
INVESTIGADOR – Bem... Acho que eu descobri mais coisa que você durante essas duas horas.
Vívian respira e abaixa a cabeça.
VÍVIAN – Ela deixou de cooperar na primeira hora.
INVESTIGADOR – Pois leia aqui esses depoimentos que acabei de receber. Só dois deles tiveram utilidade, e ambos apontam para a direção de que Olívia é uma baita mentirosa.
Vívian retira os papéis das mãos do investigador. Lê tudo atentamente e sua testa começa a enrugar como se estivesse num momento eureca.
VÍVIAN — Cadê os familiares dela? Não chegaram?
INVESTIGADOR – Beltrão... Ela já é maior de idade, parece que vive sozinha.
Ainda perplexa, Vívian paira um pouco no silêncio.
VÍVIAN – Não pegou o depoimento de ninguém na família? Nenhum parente próximo? Cadê o depoimento do cobrador?
INVESTIGADOR – A única pessoa que está aí é a vizinha assessora de imprensa. Disse que ela estava só, como sempre. O cobrador só concordou com Olívia. Duas pessoas acham que Olívia está trabalhando com o cobrador. Todos os outros depoimentos... Hum... Entediantes!
VÍVIAN – Olívia mora na zona norte, rastreiem urgentemente o endereço dela. Procurem a mãe dela em todos os lugares. Deem uma olhada no lixo da casa dela, procurem remédios e qualquer outra coisa suspeita.
INVESTIGADOR – Pelo jeito você também suspeita dela.
VÍVIAN – Ainda não é tempo. E chame o cobrador, a vizinha e a senhora Lara aqui.
Começa uma correria dentro da delegacia. As ordens de Vívian são acatadas e começa o interrogatório na sala, as testemunhas e a vizinha aguardam do lado de fora do cômodo.
VÍVIAN – Olívia, eu sei que pode ser assustador, mas durante essas horas sua história chegou a todo o país. Todos estão do seu lado nesse momento.
Olívia arregalou os olhos.
VÍVIAN – Por isso teremos que resolver o seu caso o mais rápido possível. As coisas tomaram rumos inimagináveis. Começaram a Revolução Barulhenta por causa disso, todos estão exigindo mais segurança em nosso país.
OLÍVIA – Ajudarei no que for possível.
INVESTIGADOR – Eu trabalho aqui junto da doutora Vívian há anos. Nunca vi um furto de ônibus tomar essas proporções. E eu não quero assustar, mas é melhor não mentir, garota.
Vívian olha para o investigador de maneira irritada.
VÍVIAN – Mas não se preocupe porque tudo correrá bem. Se você não fez nada, sairá daqui ainda hoje. A partir de agora, algumas pessoas que você pode conhecer entrarão nessa sala e conversarão conosco. Você está pronta?
OLÍVIA – Sim. Pode me perguntar o que quiser, eu só quero sair daqui.
Entra o cobrador, Olívia segura o choro. O cobrador encara Olívia com confiança.
INVESTIGADOR – Reconhece este homem, Olívia?
OLÍVIA – Sim, é o cobrador do ônibus.
VÍVIAN – Já conversou com este homem alguma vez na sua vida antes do incidente do ônibus 67?
OLÍVIA – Não.
VÍVIAN – Alguma coisa a dizer? Sr. Souza?
COBRADOR – Não, senhora.
INVESTIGADOR – O senhor se lembra de quando a senhorita Olívia entrou no ônibus?
COBRADOR – Não, exatamente, mas acho que eu a vi escutando música sozinha no banco.
INVESTIGADOR – O que aconteceu então?
COBRADOR – O ônibus foi enchendo e eu segui meu trabalho de sempre. Até que ela chegou até a mim e disse que algumas pessoas estavam sendo feitas reféns no ônibus e que eu deveria colocar o dinheiro e meu celular na bolsa. Ah! E que eles estavam com alguém apontando uma arma para nós, para o caso de alguém avisar a polícia.
VÍVIAN – Obrigada, por enquanto, senhor Souza. Aguarde do lado de fora junto aos policiais, por favor.
O cobrador sai. Vívian e o investigador saem da sala e conversam em particular.
INVESTIGADOR – Tudo na mesma.
VÍVIAN – Os depoimentos do cobrador procedem. Ele se mostrou bem seguro, e ambos são de realidades completamente distintas.
INVESTIGADOR – Não encontraram nenhum ponto em comum entre os dois durante o rastreio. Nada que prove qualquer laço emocional.
Os dois se voltam para Olívia.
VÍVIAN – Agora falaremos com outra pessoa que estava no ônibus. Essa pessoa está tão nervosa quanto você, então é melhor se manter calma.
Entra senhora Lara. Olívia começa a tremer e chorar.
OLÍVIA – Ela segurou a minha bolsa! Ela estava junto com eles! Tire ela daqui! Prendam essa mulher!
A senhora Lara se enfurece.
LARA – Pare de mentir, sua safada!
VÍVIAN – Se acalmem!
OLÍVIA – Como assim? Eu não estou mentindo. Eu dei a bolsa cheia de dinheiro para você porque ele mandou eu te entregar!
INVESTIGADOR – Eu faço as perguntas. Como foi que o criminoso te abordou, senhorita Olívia?
OLÍVIA – Ele disse: “Vá lá atrás, alguém vai pedir para segurar essa bolsa para você. Entregue e depois volte.”. Então eu fui e essa mulher pediu para segurar a bolsa, depois eu voltei ao meu lugar.
INVESTIGADOR – Você estava a mando de algum criminoso, senhora Lara?
LARA – Claro que não! Ela está mentindo descaradamente. Eu peguei a bolsa por educação, depois ela não veio pegar de volta, então eu levei para casa. Sei que deveria ter devolvido, mas eu não estou envolvida em ataque nenhum!
OLÍVIA – Quem está mentindo aqui é você! Querem colocar a culpa em mim, está vendo, doutora? Essa mulher é uma criminosa! Tirem ela daqui! Tirem ela daqui agora ou eu vou gritar!
VÍVIAN — Obrigada, por enquanto, senhora Lara. Aguarde do lado de fora, por favor.
Senhora Lara sai cheia de raiva. Investigador e Vívian conversam em particular.
INVESTIGADOR – E aí?
VÍVIAN – Complicado, mas precisamos da família.
INVESTIGADOR – Uma das duas está mentindo.
VÍVIAN – Ou não.
Vívian pede para Sofia entrar.
VÍVIAN – Olá, senhora.
SOFIA – Olá, doutora Beltrão.
Sofia dá um tchau para Olívia. Olívia fica meio triste.
VÍVIAN – Olívia, você reconhece a senhora Sofia?
OLÍVIA – Sim, ela é minha vizinha.
VÍVIAN – Sofia, você me disse que sua mãe fez o seu café hoje. A senhora Olívia disse que não conhece sua família, mas afirmou que a senhorita mora sozinha. Isso procede?
Olívia baixa a cabeça.
OLÍVIA – Minha mãe só aparece quando quer. Eu sou realmente bem sozinha, não tenho muitas pessoas com quem contar.
INVESTIGADOR – Quem paga as suas contas, Olívia?
Vívian revira os olhos.
OLÍVIA – Eu recebo bolsa da faculdade. Dá para me manter. Como é que isso pode ajudar no caso?
VÍVIAN — Obrigada, Sofia. Obrigada, investigador Cardoso. Eu e Olívia precisamos de um momento a sós.
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