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FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 41

Reboot

Tomoyo tomava o chá devagar, observando a prima sentada à sua frente. ‘Ela está quase me enlouquecendo.’ A morena falou e ouviu Sakura soltar uma risadinha. ‘Estou falando sério! Ela vai me enlouquecer até o casamento.’

Sakura tentou manter o tom sério, apesar de querer rir da situação da prima que se mostrava completamente desesperada com os devaneios da mãe em relação aos preparativos de seu casamento. ‘Você é filha única, Tomoyo-chan. Tente entender o lado da oba-san.’ Tentou amenizar a situação.

As duas se conheciam desde o terceiro ano, quando estudaram na Escola Primária de Tomoeda e se tornaram melhores amigas. Pouco depois, descobriram que suas mães eram primas e também melhores amigas, até a mãe de Sakura se casar e romper ligações com a família. Depois de estudarem juntas até terminarem o colegial, dividiram o mesmo alojamento durante os anos que frequentaram a Universidade de Tomoeda, apesar da insistência do irmão da ruiva para que ela morasse com ele depois que Fujitaka, o pai deles, faleceu.

Sakura tinha uma relação distante com a Sonomi, mãe de Tomoyo, e mais distante ainda com o restante da família. Havia encontrado o avô materno pouquíssimas vezes em eventos formais.

Quanto à família do pai, apenas sabia da existência de um primo distante morando na Inglaterra, Eriol Hiiragizawa, mas também o havia visto pouquíssimas vezes, tendo convivido com ele por menos de um ano, quando estudaram juntos durante a 5ª série.

Soube que ele havia se casado com uma ex-professora dela há alguns anos, Kaho Mizuki, e que tinham uma filha, Marie, que nascera há pouco tempo. Trocava poucos e-mails com ele sobre assuntos rotineiros e em datas especiais. Era um rapaz muito simpático, mas, ao mesmo tempo em que sentia certo carinho por ele, também ficava apreensiva com algo que não sabia explicar.

Tomoyo suspirou, exasperada. ‘Era para ser um casamento simples. Yuo não gosta de ostentação. Eu não gosto de ostentação.’ Soltou, balançando a cabeça de leve e bebendo mais um gole do chá.

Tomoyo e Yuo Kurogane haviam se conhecido durante a faculdade, quando ele era estudante de Direito. Conheceram-se por acaso no campus e, desde que o rapaz colocou os olhos na morena, apaixonou-se perdidamente, inventando mil desculpas para poder estar perto de “sua princesa”, como ele gostava de chamá-la. Tomoyo fez jogo duro com o rapaz que, de forma decidida, manteve a corte por quase um ano até conseguir, finalmente, namorá-la.

Diziam as más línguas que ele era um galinha antes de conhecê-la, mas Sakura achava lindo o carinho com que o rapaz tratava a prima. Ela e Kurogane acabaram se tornando amigos por convivência durante a faculdade. Ela até o ajudara, em certo ponto, a quebrar o gelo com a difícil morena. Era um rapaz muito divertido, apesar de, a primeira vista, ter uma pose de sério e com cara de mau.

‘Você precisava ver a quantidade de babados nos vestidos que okaa-san me fez experimentar! Não tem nem como caminhar com aquela quantidade de tecido em volta do corpo.’ A morena dizia a ponto de arrancar os próprios cabelos.

Sakura riu sem se controlar, mesmo sabendo que isso deixaria a prima mais irritada. Pediu desculpas, respirando fundo. Mas era cômico ouvi-la falando sobre isso agora, sendo que, quando eram crianças, fora obrigada a vestir “modelos especiais” – cheios de babados, laços, brilhos e adereços – que a morena fazia para as apresentações de teatro da escola. Nessas ocasiões, Tomoyo também fazia questão de filmá-la, deixando Sakura em situações embaraçosas que, hoje, a faziam rir, mas na época a deixavam mais vermelha que tomate maduro.

‘Kurogane-kun vai ter dificuldade, na noite de núpcias, para tirar tantas camadas de tecido.’ Riu quando a face branquinha de Tomoyo ficou vermelha pelo comentário. ‘Uhm… Talvez este seja o objetivo da oba-san.’

‘Para alguém que nunca teve um namorado, você tem a mente muito suja.’ Tomoyo retrucou.

‘E imaginação existe para quê?’ Sakura rebateu, dando de ombros, antes de tomar um gole do chá.

Tomoyo semicerrou os olhos na prima, vendo-a erguer uma sobrancelha. ‘Imaginação, né?’

Sakura desviou o olhar e tomou mais um gole do chá. Considerando os sonhos que andava tendo, com cada vez mais frequência e detalhes nos últimos meses, realmente sua imaginação andava bem aflorada. Pigarreou.

‘Agora a mente suja aqui é você.’ A ruiva comentou. ‘Mas não veio até aqui apenas para reclamar da sua mãe, né?’ Tentou desviar o assunto. Não tinha cabimento comentar com a prima sobre seus sonhos, sendo que nem ela mesma conseguia entender.

A morena soltou um suspiro desanimado. ‘Estou preocupada porque tenho certeza que Yuo só aceitou aquele cargo na empresa para que mamãe aceitasse minha carreira como cantora.’

‘Ele fez isso porque a ama.’ Sakura falou com a voz suave. ‘Além disso, Kurogane-kun e ela se dão muito bem. Não precisa ficar tão preocupada com isso.’ Tentou dar um motivo mais prático.

‘Yuo é advogado, nunca pretendeu seguir carreira administrativa.’

‘Ele gosta um bocado de mandar nos outros.’ Sakura comentou, rindo de leve. ‘E não aceitaria o cargo sem considerar todas as possibilidades. É um rapaz inteligente.’

‘Não gostaria que ele se sacrificasse por minha causa.’ Tomoyo falou com pesar, colocando a xícara de chá sobre a mesinha de centro. Tinha os olhos baixos.

‘Não é sacrifício, Tomoyo-chan. É estar presente quando o outro precisa. Ele sabe que você nunca seria feliz se assumisse as empresas.’ Sakura falou com a voz doce. Abriu um sorriso para a prima. ‘Kurogane-kun não é o tipo de pessoa que aceitaria ser pressionado. Confie nele.’

‘Humph’. Tomoyo murmurou. ‘Eu não entendo como você consegue dar conselhos tão bons. De onde vem essa sabedoria toda?’

Sakura deu de ombros, tomando mais um gole de chá. ‘Oras, são coisas óbvias, não?’

‘Às vezes, parece até que você já foi casada.’ A morena falou.

Sakura riu. ‘Quem sabe em outra vida, né?’

Tomoyo franziu a testa, observando a prima tomar o chá devagar recostada no sofá. ‘Mas chega de falar de mim! Como está o trabalho na escola? Está muito difícil falar com você durante a semana.’

A ruiva suspirou. ‘Ainda sou professora auxiliar. Então preciso dar o meu melhor para conseguir o cargo efetivo de professora.’

‘Você começou há pouco tempo. É normal isso, não?’

Ela concordou com a cabeça. ‘É que o salário ainda é baixo.’

Tomoyo olhou em volta da casa que ainda tinha poucos móveis. ‘Não entendo o porquê comprou uma casa tão grande.’

Sakura levantou o rosto passando os olhos pela sala com um sorriso leve nos lábios. ‘Eu gosto dela. É bem localizada. É perto da faculdade, perto da escola. E estava uma verdadeira pechincha. Foi um excelente negócio.’ Explicou os motivos práticos.

Tomoyo ainda a fitava como se suspeitasse haver mais por trás de sua decisão.

‘E lembra-me a casa em eu que morava com onii-chan e Otou-san.’ Esclareceu.

Sakura tomou mais um gole do chá, ainda observando a sala. Abriu mais o sorriso. Também sabia que alguma coisa boa a fazia se ligar àquele sobrado branco. Quando passava pela rua, parava em frente a ela, admirando-a por vários minutos. E sempre arrumava uma desculpa para passar por ali. Quando soube que estava a venda, fez a proposta raspando da conta o dinheiro que o pai tinha lhe deixado. Tinha sido um passo bem grande e arriscado, mas ela simplesmente decidiu e pronto.

‘Mesmo assim. É muito grande para uma pessoa sozinha.’ A morena ainda comentou.

Sakura observou a casa ainda com um sorriso nos lábios. ‘Eu simplesmente gosto daqui.’ Respondeu por fim, dando de ombros. ‘Além disso, eu não vou ficar sozinha para sempre.’

Tomoyo abriu um sorriso. ‘Hum…. então não sou eu apenas que ando pensando em casamento.’

Sakura riu com gosto. ‘Não foi isso que eu falei.’

‘Melhor você não falar isso para o Touya-san.’ Ela comentou e viu a prima fazer uma careta.

‘Estou devendo uma visita para ele e Yukito-san.’ Sakura falou com pesar. ‘Andei tão envolvida com o final da faculdade e preocupada com a minha contratação na escola que já faz um tempo que não os visito.’

‘Ou será que está evitando os interrogatórios do seu irmão mais velho?’

Sakura suspirou, fitando a amiga. Realmente Tomoyo a conhecia bem. ‘Está bem… é verdade que isso é desculpa. Onii-chan ainda não desistiu de me fazer morar com eles.’

‘Ele se preocupa com você.’ Tomoyo falou complacente. ‘Ele a adora. Acha o mesmo que eu: que esta casa é muito grande para uma jovem morar sozinha. Você é a única irmã que ele tem. Tente entender o lado do Touya-san.’

Sakura sorriu para a amiga. ‘Sabe… Ele quase me enlouquece também. Não é só você que tem que lidar com a iminência de loucura por causa da família.’

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

‘Hei, dá para você ir com calma?’ Hyo Ling reclamou, olhando para o primo à sua frente. ‘Está querendo me mandar para o hospital, Xiao Lang?!’ Perguntou, mexendo o braço que tinha sido imobilizado pelo rapaz enquanto treinavam juntos.

‘Você está mole demais.’ Syaoran murmurou, cruzando os braços.

‘Eu estou mole ou você quem anda irritado demais e está descontando em mim?’

‘Desculpa sua para moleza.’ Ele resmungou, encarando o primo; depois soltou um suspiro, percebendo que realmente tinha exagerado.

Realmente andava irritado. Desde que tinha finalizado a faculdade de Engenharia, em Hong Kong, já andavam pressionando-o para que assumisse a posição que era seu direito e obrigação, como a família insistia em repetir. Ninguém lhe perguntava o que queria, era sempre o que ele deveria fazer.

Já estava trabalhando, desde a metade da graduação, nas empresas da família, lidando com o maquinário. Gostava de resolver problemas mais práticos e lógicos, mas não era muito bom em lidar com pessoas.

Conseguir entender o que tinha de errado em uma máquina era, para ele, mais fácil e prático do que tentar convencer alguém sobre um ponto de vista. Simplesmente não tinha paciência. Volta e meia, pegava-se resolvendo os problemas diretamente ao invés de esperar pelo técnico ou sei lá quem. Detestava quando as coisas não saíam do jeito que ele havia determinado.

‘Talvez tenha razão.’ Syaoran falou por fim.

‘Talvez?’ Hyo Ling perguntou, ainda mexendo o braço. ‘Meu braço dolorido me dá a certeza.’

Syaoran caminhou até o canto da sala, pegando a toalha para secar o suor. Tinha discutido com a mãe no dia anterior, mais uma vez, sobre a escolha de uma noiva. Ela sabia que ele era absolutamente contra casamentos arranjados. Sempre deixou isso claro, não só para ela como para todos, mas pareciam simplesmente ignorar a sua opinião sobre a própria vida.

Olhou para o primo de forma hesitante e suspirou pesadamente, precisava desabafar ou realmente tinha a impressão que explodiria. ‘Não aguento mais minha mãe enchendo o meu saco sobre este negócio de casamento.’

‘Você anda enrolando muito, tanto a ela quanto a todos da família.’ Hyo Ling falou, pegando outra toalha e um copo de água. ‘Na sua idade, eu já estava comprometido com Mei Ling.’ Ele o alertou.

Syaoran se incomodou com a colocação. ‘Você gostava dela. É diferente. Foi decisão sua.’

Hyo Ling riu. ‘Xiao Lang, você não tem vida social; mal vai aos compromissos do Clã, não tem como encontrar uma noiva de quem goste.’

‘Eu tenho vida social!’ Ele rebateu irritado, adicionando: ‘E não quero encontrar uma noiva.’

Ele sabia que, realmente, não tinha vida social, mas simplesmente não gostava de sair com os primos, encher a cara, falar besteiras e conhecer garotas com as quais passaria apenas uma noite. Era perda de tempo e de energia. Sinceramente, não via graça. Ele sempre fora antissocial, desde criança. Os anos apenas potencializaram o que, para os primos, eram defeitos. Preferia ficar em casa lendo algum livro interessante a fazer coisas que considerava inúteis, além de nocivas para a saúde.

No final, quando acabava cedendo e acompanhando os primos ou os colegas de trabalho em certos eventos, era sempre ele quem carregava os bêbados para casa. Sentia-se como babá de marmanjo. Da última vez que saíra com os primos, finalmente ficou de saco cheio e, simplesmente, largou-os lá, indo embora e soltando palavrões. Eles o vinham deixando em paz desde então.

Teve poucos colegas de faculdade, pois estudava e já trabalhava. O único que ainda considerava mais era Hyo Ling, pois tinham como afinidade a luta e a leitura. Além do primo, simplesmente, ser o único que, apesar das indiretas, nunca o havia pressionado a fazer nada que não quisesse.

Hyo Ling era sociável, gostava dos eventos do clã, era quase o centro das atenções, o que, no fundo, Syaoran achava ótimo, pois ele podia ficar nas sombras. Não que o artifício funcionasse sempre nem por muito tempo, porque a mãe sempre fazia questão de colocar os holofotes sobre ele.

Também se dava muito bem com uma das primas, Mei Ling, que era esposa de Hyo Ling numa grata coincidência. Estava muito orgulhoso dela por ter decidido cursar a faculdade de Direito, mas, principalmente, do primo por tê-la apoiado, apesar de todo o tradicionalismo e encheção de saco dos membros mais conservadores.

‘Humph. Você não vai ter como fugir disso por muito tempo. É essencial para que você possa assumir o cargo de patriarca.’ Hyo Ling o alertou.

Syaoran fechou os olhos, tentando controlar a vontade de falar um palavrão. Estava aí outro assunto que detestava. ‘E quem disse que eu quero isso?’

‘É o normal, sendo filho de quem é.’

Era sempre o mesmo discurso. Ele não era o pai. Na verdade, mal convivera com o pai, que faleceu quando ele tinha menos de três anos de idade. Tinha quatro irmãs, bem mais velhas que ele, e um monte de sobrinhos, mas sentira-se como filho único enquanto crescia. Conviveu pouco com a mãe, também.

Yelan sempre estava envolvida nas questões do Clã e em assuntos de magia que ele, particularmente, achava loucura. Se fosse necessário atacar ou se defender, preferia depender de algo real, como kung fu, àquela maluquice de superstição e feitiçaria. E, verdadeiramente, gostava de lutar. Sentia-se muito bem quando encontrava um oponente a sua altura. Tinha participado de alguns campeonatos de artes marciais e ganhado vários prêmios. O Clã adorava isso. Sensacionalismo.

‘Nós dois sabemos que, se eu assumir o Clã, as coisas vão explodir.’ Ele disse honestamente. ‘Além disso, você está fazendo um ótimo trabalho nesta posição.’

Hyo Ling franziu a testa. ‘Estou neste cargo de forma temporária. Você sabe que sua mãe e os anciões não aceitam que Mei Ling esteja estudando.’

Era exatamente isso que Syaoran mais detestava. Por que as regras não poderiam mudar, evoluir, ser questionadas e se adaptar à nova realidade do mundo? O clã parecia sempre estar preso a um passado glorioso do qual ninguém mais se lembrava.

Para ele, o cargo de patriarca, não passava de algo simbólico cujo único papel era estabelecer uma marionete para os anciões e a mãe. Poder, mesmo, o patriarca tinha pouco. Se ele assumisse a posição sabia que não se permitiria manipular daquela maneira. Além disso, não tinha a mesma diplomacia e paciência que Hyo Ling brandia tão naturalmente.

‘Isso não faz sentido.’ Ele falou, passando as mãos pelos cabelos suados. ‘Eu não quero. Eu não tenho paciência para aguentar as políticas do clã, não tenho tato.’

Hyo Ling riu. ‘Realmente você não tem mesmo.’ Falou, alongando o braço dolorido. ‘Diga-me, quantos colegas de trabalho você mandou para casa chorando esta semana?’

Ele fez uma careta, encolhendo-se de leve. Também não era esse monstro! No fundo, sabia que era tímido demais e escondia naquela irritação a timidez. Era mais fácil lidar com as pessoas se o temessem, de alguma forma, do que se tentassem se aproximar. E era prático em resolver os problemas. Se os colegas de trabalho não conseguiam superar suas dificuldades, não achava certo nem justo que deixassem na mão dele.

Syaoran forçou um sorriso irônico. ‘Eu só não gosto de gente que faz corpo mole.’

‘Você deveria relaxar mais.’ O primo falou, sentando-se numa cadeira. ‘Sair com garotas, fazer coisas de gente normal da sua idade quando ainda se é solteiro.’

‘O que eu preciso é tirar os anciões e minha mãe da minha cola por um tempo.’

Hyo Ling encarou o primo que tinha o semblante amarrado. Sabia que ele tinha razão. Syaoran era a bola da vez nas reuniões do clã. Não havia uma só em que as recusas do rapaz em assumir qualquer responsabilidade perante o clã não fosse colocado em pauta. Talvez fosse bom para ele se afastar um pouco fisicamente e, quem sabe, quando voltasse não estaria com a cabeça mais fresca e as prioridades em dia.

‘Talvez tenha uma possibilidade.’ Mencionou casualmente.

Syaoran o fitou com a testa franzida. ‘Eu estou aceitando qualquer sugestão.’

‘Estamos fechando uma fusão com uma empresa japonesa, como você sabe.’

‘Sim… as tais empresas Daidouji. E daí?’

‘E daí que a presidente é uma mulher, workaholic e muito afiada nos negócios, mas vamos investir muito dinheiro lá e você sabe que os velhos têm a mente fechada quanto ao que uma mulher é capaz de fazer. Por isso seria muito bom, para o clã, se alguém estivesse acompanhando a integração das empresas pessoalmente.’

Syaoran suspirou. ‘Isso é uma questão mais administrativa.’

‘A princípio, sim, mas eu posso cuidar da burocracia em duas semanas. No entanto, para a integração em si seria bem mais interessante ter alguém da área técnica para avaliar a empresa, a produtividade e a eficiência. Sugerindo melhorias e essas coisas. Alguém da área administrativa que não conhecesse todos os pormenores da produção poderia, inclusive, ser interpretado de forma errônea...’ Mencionou como quem não quer nada, mas tinha um brilho sagaz nos olhos.

Syaoran sorriu de lado. ‘Você realmente já pensou bastante sobre o assunto, não é?’

Hyo Ling se levantou e bateu no ombro do primo, parando ao seu lado. ‘Eu só não sou cabeça quente como você.’

‘Rá!’ Soltou ironicamente.

‘E então? Aceita? Seriam apenas alguns meses, mas já aliviaria a sua barra.’

‘Eu aceito qualquer coisa.’

‘Ótimo.’ Ele falou já se afastando. ‘Está me devendo uma!’ Disse por sobre o ombro antes de cruzar a porta.

Syaoran observou o primo desaparecer pela porta. Ponderou que, realmente, seria uma ótima ideia. Sabia japonês com fluência, a língua não seria um problema. Estaria afastado do clã e da mãe por um tempo.

Um lugar diferente, com novas possibilidades e, por que não? Expectativas. Sorriu. Algo lhe dizia que seria uma viagem muito interessante e muito importante. Soltou um suspiro cansado. Sabia que com aquela viagem ao Japão apenas estaria adiando a situação, mas quem sabe não encontrasse uma solução permanente para aqueles problemas enquanto estava lá?

Caminhou até a janela da sala de treinamento e olhou através dela para a imponente cerejeira que havia no quintal lateral da mansão. O vento bateu na gigantesca árvore, fazendo as flores voarem pelo ar. Colocou sua camisa e saiu caminhando até a árvore.

Estendeu o braço à frente e uma flor pousou na palma de sua mão. Sorriu de leve e fechou os olhos inalando aquele perfume maravilhoso. Simplesmente adorava senti-lo. Era algo familiar, íntimo e intenso para ele, algo que lhe transmitia paz.

Às vezes, aquele aroma o ajudava a se sentir mais próximo ao paraíso.

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Sakura estava tirando a mesa junto com Yukito e Touya. Tinha, finalmente, após muito postergar, aceitado almoçar na casa do irmão, como havia prometido há alguns meses. Até o momento, ela e o irmão conseguiram manter a conversa em temas neutros e agradáveis.

‘Como vai a loja, Yukito-san?’ Sakura perguntou.

‘As vendas nesta época do ano geralmente não são muito altas, mas estamos esperando melhorar na época de Natal.’ Ele respondeu. ‘Além disso, a economia do país não está muito boa. Muitos impostos… Estas coisas.’

Touya e Yukito se conheceram quando cursavam a escola secundária de Tomoeda. Eram melhores amigos. Yuki conhecia Sakura desde que ela tinha 10 anos, costumavam ir juntos até a escola, pois uma era ao lado da outra. Quando finalizaram o secundário, Touya e ele fizeram a mesma faculdade de informática e, assim que a concluíram, montaram uma loja. Venda, manutenção e suporte. Sakura sempre soube que eles eram mais que amigos, mas assumiram a relação apenas depois de finalizar a faculdade e já com a loja montada.

Tinha muito orgulho do irmão, apesar dele ainda fazer questão de implicar com ela, chamando-a de monstrenga na frente dos outros, fazendo-a passar momentos embaraçosos. Ela, às vezes, perguntava-se como uma pessoa doce e gentil igual a Yukito conseguia conviver com um grosso como o Touya.

‘É verdade. O período não está muito bom, nem para as grandes empresas.’ Sakura comentou.

Touya observava os dois conversando enquanto arrumavam a cozinha. ‘Li no jornal que a empresa Daidouji vai se fundir com uma companhia chinesa. Você está sabendo disso, Kaijuu?’

A ruiva balançou a cabeça negando. ‘Não tenho a menor ideia. Falei com Tomoyo-chan na semana passada, mas conversamos mais sobre o casamento que está se aproximando.’

‘Ah!’ Exclamou Yukito. ‘É verdade! Ela deve estar bem ansiosa, né?’

Sakura riu. ‘Ela está quase enlouquecendo com tantos detalhes para organizar.’

‘Humph.’ Touya murmurou. ‘Ainda acho que eles são muito jovens para casar, mas pelo menos eles terminaram a faculdade.’

‘Você precisa terminar a sua faculdade primeiro. Ele precisa terminar a faculdade. Vocês precisam ganhar a vida antes de decidirem estas coisas.’ Sakura ouviu a voz do irmão e se virou para ele.

‘Onii-chan, o que disse?’ Ela perguntou assustada.

Touya franziu a testa. ‘Que eles são muito jovens para casar, mas que, pelo menos, terminaram a faculdade.’ Repetiu. ‘Eu acho realmente isso uma afobação desnecessária.’

Sakura levou a mão a cabeça. ‘Não, você disse que eu preciso terminar a faculdade e ele precisava terminar...’ Ela falou ainda incerta.

‘Ele quem?’ Touya perguntou, erguendo uma sobrancelha.

Yukito olhou para a jovem. ‘Sakura-chan, você está bem?’

A ruiva balançou a cabeça, fechando os olhos. ‘Está tudo bem. Devo estar só cansada.’

‘Morar junto com alguém é um passo muito importante. Você é muito jovem para decidir isso.’ Ouviu novamente a voz do irmão e abriu os olhos, encarando-o.

‘Eu?’ Ela perguntou.

Touya olhou desconfiado para ela. ‘Você está bem mesmo, Kaijuu!?’

‘Você acabou de falar que é um passo muito grande…’

‘Eu não falei isso…’ Touya retrucou. ‘Mas é realmente um passo muito grande. Eles são muito jovens...’ Depois semicerrou os olhos na irmã. ‘Você, por acaso, não arranjou um namorado, né?’

‘Que namorado, onii-chan?! Quem falou de namorado aqui?!’

‘Humph.’ O homem murmurou, observando a irmã. ‘É bom mesmo não me aparecer com nenhum Gaki conquistador.’

Sakura arregalou os olhos, sentindo o coração disparar. Colocou a mão na cabeça, tentando entender o que estava acontecendo, era como se já tivesse ouvido o irmão falando assim antes.

‘Hei, Touya! Sua irmã é uma mulher de 22 anos! Já deixou de ser uma garotinha há muito tempo.’ Yukito o repreendeu.

‘Ah, cala boca, Yuki!’ Touya resmungou, afastando-se da cozinha e deixando Sakura e Yukito terminando de arrumá-la.

Sakura balançou a cabeça e suspirou. Touya era um irmão maravilhoso. Verdadeiramente se preocupava com ela, mas era por demais ciumento algumas vezes.

Ela nunca havia namorado ninguém e, talvez, em boa parte, fosse porque o irmão simplesmente ameaçava, só com o olhar, qualquer rapaz que chegasse muito perto dela. Tinha recusado vários convites para sair e, inclusive, havia um rapaz na faculdade que fora bem insistente, mas ela sempre conseguiu se esquivar daquele tipo de situação.

Claro que tinha fantasias românticas e sonhos de casamento, mas o problema era que não conseguia se sentir atraída por ninguém.

Ela sempre fora amável e mantinha contato com os amigos de escola e de faculdade, participava de algumas festas quando o calendário de provas permitia, pois adorava dançar, mas não era de cair na noite. Era, no fundo, tímida demais. Sentia-se completamente envergonhada quando algum rapaz se aproximava dela com segundas intenções.

Yukito observou o companheiro sair dali contrariado, depois voltou-se para Sakura com o olhar preocupado. ‘Você está bem, mesmo?’

‘Acho que estou apenas cansada, Yukito-san. Não se preocupe.’ Respondeu sorrindo.

‘O término da faculdade foi muito complicado para você, não?’

‘Como para todos.’ Ela falou, tentando dissipar a preocupação do amigo. ‘Mas estou indo muito bem como professora auxiliar, sei que logo serei efetivada.’ Falou alegremente, com um toque de otimismo.

‘Touya ficaria muito feliz se viesse morar conosco. E eu também.’

Touya não aceitara muito bem ela ter comprado o sobrado branco. Falou que era um investimento muito alto e sem necessidade para uma jovem solteira. Era uma casa para comportar uma família inteira. Fora realmente contra a compra, ainda mais sabendo que ela tinha utilizado todo o recurso que Fujitaka tinha deixado.

Para ele, o correto seria ela ir morar com ele e guardar o dinheiro para o futuro. Mas como ela era maior de idade, simplesmente fez o que quis e ele não pôde impedi-la, apenas ficou com carão por alguns meses.

Sakura suspirou. ‘Não tem como eu voltar a morar com Onii-chan. Ele age como se eu ainda tivesse 10 anos de idade.’

Yukito riu. ‘Nisso eu tenho que concordar.’

‘Eu estou bem morando sozinha. Depois que terminei a faculdade, não poderia continuar morando com Tomoyo no alojamento. Ela voltou a morar com a mãe até o casamento. Eu não estou com casamento marcado.’ Esclareceu sorrindo. ‘Precisava encontrar um lugar para mim.’

Yukito concordou com um gesto. ‘Touya acabará aceitando melhor a situação… Eventualmente. Ele só está se acostumando que você agora é uma mulher independente.’

Sakura riu com gosto daquela colocação. ‘Onii-chan nunca vai aceitar que eu tenha crescido.’

KK * KK * KK * KK * KK

Yelan fitava, com o semblante duro, o filho a sua frente. Ela sabia que ele tinha aceitado aquela proposta para trabalhar por um tempo no Japão como desculpa para postergar ainda mais suas obrigações com o clã.

Syaoran estava a frente dela com os braços cruzados, encarando-a de volta de forma inflexível. Era por demais petulante para sua idade.

‘Você realmente acha que eu sou tonta, não é?’

Ele nem se deu ao trabalho de responder. Yelan não era má pessoa, era apenas apegada demais às tradições. Ele sabia que ela discutiria com ele, tentando fazê-lo recusar a oferta de Hyo Ling. Mas ele era tão ou mais teimoso do que ela e não iria mudar de ideia. Especialmente agora que o primo convencera os anciões de que Syaoran era o mais indicado para fazer a vistoria da fusão com as empresas Daidouji.

Como os anciões, em grande parte, apenas eram tradicionalistas quando lhes convinha e estavam mais preocupados em garantir a riqueza da família do que propriamente manter as tradições, acabaram concordando com os argumentos de Hyo Ling.

‘Não vai responder?’ Ela insistiu, encarando-o.

Syaoran suspirou de forma cansada. ‘Estamos perdendo tempo. A senhora sabe que eu vou. Não tem como me convencer a ficar.’

‘Você se tornou um rapaz muito atrevido.’ Ela ainda falou. ‘Não tem responsabilidade com seu clã e com as tradições.’

Syaoran adoraria responder que não estava nem um pouco preocupado com tradição alguma, mas devia respeito a mãe. Achou melhor ficar calado. Independentemente do que respondesse, ela não aceitaria, mesmo. Quando se tratava do Clã e das tradições, não adiantava usar de lógica e racionalidade para falar com Yelan.

A mulher permaneceu encarando o filho com os olhos semicerrados. Não entendia o motivo do caçula agir daquela forma com algo que ele sabia ser fundamental para a família. Talvez as coisas fossem diferentes se ele tivesse magia. No fundo, sentia-se decepcionada por nenhum dos filhos terem herdado isso dela. Principalmente, Xiao Lang, seu único filho homem.

Ela tinha o dom da clarividência e uma das coisas que mais a intrigava era, justamente, não conseguir nunca ver nada relacionado ao futuro do filho, apesar dele não ter magia. Mesmo quando estava grávida dele, não conseguira, nem ao menos, saber se era menino ou não sem usar exames de laboratório. A vida de Xiao Lang sempre fora como um vidro opaco e isso a incomodava demais, pois era como se existisse um véu nos seus olhos que a impedisse de ver qualquer coisa relacionada a ele.

Tinha a intuição de que aquela viagem ao Japão seria importante. Tinha procurado, por meios diversos, verificar quaisquer elementos que pudessem interferir no destino do filho, porém não teve retorno. Simplesmente irritava-a não ser capaz de ver nada sobre ele.

‘Vocês jovens não entendem que é necessário manter as tradições para que o clã não se quebre. Se elas existem, é por um bom motivo.’

Ele balançou o corpo de leve, estava entediado com o mesmo discurso que ouvia desde criança. Apesar de sempre ter vivido dentro do clã, detestava aquele lugar, aquela mansão, aqueles velhos, aquela formalidade e tradicionalismo todo. Não queria entrar em uma briga ideológica com a mãe, mas também não a aguentava mais em cima dele.

Yelan caminhou até o rapaz, parando a frente dele. ‘Você é o futuro patriarca deste clã. Você tem que entender e aceitar suas responsabilidades. Você tem que fazer cumprir as tradições.’

‘Hyo Ling está cumprindo este papel exemplarmente.’ Não resistiu comentar.

‘Ele deixou a esposa estudar!’ Ela retrucou.

‘E qual é o problema?’

‘Oras! Qual é o problema? Você vai deixar a sua esposa estudar?’

‘Eu não tenho que deixar nada.’ Resmungou, contrariado. ‘E eu não preciso de uma esposa.’

‘Você precisa se casar, Xiao Lang.’

Ele respirou fundo, tentando realmente controlar a vontade de começar a discutir com a mãe. Fechou os olhos por alguns segundos, respirando calmamente e pedindo aos céus que mandassem qualquer coisa para tirá-lo daquele incômodo diálogo que mais parecia um disco arranhado.

De repente, como providência divina, ouviram a gritaria de crianças entrando pela sala. Yelan afastou-se do caçula e olhou com reprovação para os filhos de Fuutie que estavam chegando da escola e se dirigiam ao quintal para brincar.

‘Tio Xiao Lang!’ A única menina do grupo gritou, vendo-o no meio da sala.

Syaoran se abaixou, tocando um joelho no chão e recebendo o abraço da menina. ‘Como você está, pequena Yīnghuā?’ Perguntou, sorrindo e pegando-a no colo.

A menina afastou-se dele sorrindo. ‘Melhor em ver o senhor! Anda trabalhando muito?’ Perguntou com o rosto contrariado.

‘Não tanto. Vou viajar.’ Ele respondeu e a viu arregalar os belos olhos verdes.

‘Eu posso ir junto?’

Ele riu. ‘Vou a trabalho, mas prometo que, assim que chegar lá, enviarei um lindo presente para você.’

‘Está mimando demais esta menina, Xiao Lang!’ Yelan repreendeu-o. ‘E o nome dela é Xin Qian.’

Syaoran fez uma careta que tentou disfarçar da mãe.

‘Eu não me importo, vovó! Para o tio Xiao Lang eu sou Yīnghuā!’ Ela respondeu e recebeu um sorriso do tio. ‘É a sua flor preferida, não é?’

Syaoran respondeu que sim com um gesto. Yelan ainda o olhava contrariada.

‘E o senhor vai para onde?’ A menina perguntou enquanto ele a colocava no chão.

‘Vou para o Japão.’ Ele respondeu. ‘Vou ficar uns poucos meses.’

‘Isso ainda está em discussão.’ Yelan falou e recebeu um olhar de reprovação do filho.

‘Vamos, Yīnghuā. Vamos lá para fora ver o que seus primos estão aprontando.’ Sugeriu, pegando a mão da menina e caminhando em direção aonde as outras crianças estavam reunidas.

‘Hei, Tio, é verdade que já tem uma noiva? A mamãe falou que já escolheram umas 30 para o senhor.’

Ele riu do exagero infantil. ‘Trinta noivas?! Acho que não sou tão popular assim.’

‘Eu acho que elas devem estar brigando até agora pelo senhor.’ Ela continuava a falar de forma alegre. ‘No final elas vão brigar tanto que não vai sobrar nenhuma.’

‘Seria ótimo se isso acontecesse.’ Ele respondeu, rindo.

‘Ah, sim! E, aí, o senhor poderia se casar com uma princesa!’ Ela completou, animada com a excelente ideia que teve.

‘De olhos verde.’ Ele comentou, sorrindo.

‘Sim! Iguais aos meus!’

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura levantou da cama com a respiração entrecortada. Passou a mão no rosto suado e pelos cabelos, tentando controlar a respiração e o coração acelerado.

Fechou os olhos por alguns segundos e, novamente, conseguiu ver o rosto dele a poucos centímetros de seu, fitando-a intensamente com os olhos âmbares inflamados de paixão. Abriu os olhos, assustada com seus próprios pensamentos.

‘Preciso de um banho.’ Sussurrou, levantando-se e caminhando até o banheiro.

De novo, sonhava com aquele mesmo rapaz. Quem era ele? Por que sonhava tanto com ele?

Acendeu a luz do banheiro e encarou o seu reflexo no espelho. Balançou a cabeça de leve. Era sempre o mesmo rapaz. Não sabia onde o tinha visto, não era um artista de televisão ou alguém da faculdade. Tinha certeza que nunca o vira antes.

Tirou a camisola molhada de suor e abriu a torneira, entrando debaixo da ducha gelada.

Não havia nada mais prazeroso do que aquilo. Inclinou a cabeça de leve para frente, deixando a água bater nas costas. Não importava o quanto o dia estivesse frio ou se estavam no meio do inverno japonês, não havia nada tão bom quanto a água gelada batendo na pele.

Passou a mão pelo rosto e fechou os olhos, tocando os lábios com as pontas dos dedos. Na verdade, era maravilhoso sonhar com ele e ressentia-se quando acordava e não o via. Quando deu por si estava sorrindo.

Não podia ser normal ter tantos sonhos diferentes com o mesmo rapaz e sentir-se arrebatada daquela forma. Aqueles sonhos pareciam contar a história de uma vida inteira que compartilharam.

Tinha recebido alguns convites para sair durante a faculdade e sempre os recusou de forma polida. Sempre dizia que precisava se esforçar e finalizar a faculdade, pois era o sonho de seu pai e também uma cobrança constante de seu irmão mais velho, mas sabia que, no fundo, usava isso como desculpa para nunca se deixar envolver com ninguém. Simplesmente porque tinha o rapaz de olhos âmbares na cabeça como um fantasma que a perseguia quase todas as noites e em alguns momentos da sua vida.

‘Acho que estou enlouquecendo.’ Soltou.

E não apenas por causa do rapaz. Outro dia, pegou-se sonhando acordada enquanto estava trabalhando na escola primária de Tomoeda. Se continuasse assim, não conseguiria assumir o cargo de professora. Naquela semana mesmo, vira um buraco enorme no meio do pátio da escola; num outro dia, uma tempestade de areia e, até mesmo, um pássaro gigante sobrevoando a quadra de esportes. Estavam ali e, tão rápido quanto surgiam, desapareciam.

Além disso, nestas ocasiões ainda conseguia ouvir a voz de um menino falando para que ela tivesse cuidado ou que de nada adiantava ficar chorando.

‘Estou estressada… É isso…’ Falou, colocando a cabeça debaixo do chuveiro. ‘É apenas isso.’ Tentou se convencer.

Fechou a torneira e se secou. Não estava com sono. Colocou um pijama e desceu para preparar um chá e ver televisão, esperando assim, que o sono voltasse.

Desceu as escadas e acendeu o abajur, iluminando o ambiente. Tinha poucos móveis para uma casa daquele tamanho. Parecia uma casa incompleta.

‘Para uma existência incompleta.’ Balançou a cabeça de leve e foi até a cozinha para esquentar a água.

Tinha a impressão, às vezes, que estava esperando por algo. Sempre na expectativa da chegada de alguém. Aquela sensação, ocasionalmente, causava-lhe imensa agonia.

Pegou a xícara, sentando no sofá e ligando a televisão. Encostou-se de maneira confortável, afundando o corpo entre as almofadas e tomando a bebida quente aos poucos. A televisão estava ligada, mas, para dizer a verdade, não estava prestando atenção no que passava na tela.

Antes, os sonhos não eram tão claros e não conseguia distinguir detalhes, mas, de uns tempos para cá, eles estavam, além de mais frequentes, extremamente nítidos a ponto dela conseguir ver com perfeição o rosto dele e sentir os toques em seu corpo.

Sentiu um arrepio percorrer sua espinha. ‘Quem é ele?’

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Syaoran se ajeitou na cadeira que ocupava na imensa sala de reunião da sede das empresas Daidouji. Desde que tinha chegado ao Japão, sentia-se estranho. Também dormiu mal na noite anterior. Novamente tinha sonhado com a garota de olhos verdes, acordando suado e sendo obrigado a tomar um banho gelado. Volta e meia sonhava com ela e, de uns tempos para cá, os sonhos estavam sendo mais e mais frequentes.

Passou a mão pelos cabelos, tentando prestar atenção na reunião. Sabia japonês muito bem e o idioma não era o problema. O problema era a cabeça dele que não estava ali e, sim, na garota de seus sonhos, literalmente.

Respirou fundo. Tinha que se esforçar. Não era um moleque e precisava trabalhar. O primo tinha lhe dado uma oportunidade de ouro para se afastar do clã e não gostaria de decepcioná-lo. Olhou para a senhora Daidouji que explicava algumas questões burocráticas para Hyo Ling e começou a bater a caneta de forma frenética na mão.

Seus olhos desviaram para o futuro genro dela. Franziu a testa; tinha certeza que já o conhecia e, pelo jeito que o cara o havia encarado, devia ter a mesma impressão que ele. Parecia ser gente boa. Esperava que fosse, pelo menos. Na verdade, mesmo que ele fosse um pé no saco, seria melhor estar ali do que na China agora.

Reparou que Kurogane olhou para ele e desviou os olhos para a caneta que ele batia na mão, mostrando, claramente, que se irritava com aquilo. Por fim, soltou a caneta na mesa e achou melhor não ter nada nas mãos.

Quando a reunião acabou, sentiu um alívio tão grande, como se, finalmente, conseguisse voltar a respirar. Levantou-se e estava louco para ir logo até a linha de produção ou qualquer outro lugar em que não precisasse ficar sentado e parado ouvindo aos outros.

Não gostava de reuniões, sabia que algumas até eram importantes, mas simplesmente não tinha paciência. Seu espírito não aceitava muito bem ficar parado. Mesmo durante a faculdade, sempre preferiu fazer os exercícios e estudar sozinho a ficar horas prestando atenção nas explicações monótonas dos professores.

Sonomi pediu para Kurogane mostrar as instalações da empresa para ele enquanto acertava algumas últimas questões com Hyo Ling. Talvez ela mesma tivesse visto que era improdutivo demais ter tanta gente junta para ouvir a mesma coisa.

Caminhava devagar ao lado do rapaz, que era mais alto que ele, enquanto este lhe mostrava a empresa.

‘Tem como a gente ir para a linha de produção logo?’ Syaoran perguntou. Não lhe interessava muito a parte administrativa e de escritório.

‘Você é bem impaciente, hein?’ Kurogane comentou.

‘Não gosto de burocracia.’ Respondeu.

‘Você é engenheiro, deve ser por isso. Gosta de coisas mais práticas.’

Syaoran respirou fundo. ‘Acho que sim. Hyo Ling cuida melhor da parte administrativa.’

‘Justo.’ Ele respondeu e, como foi pedido, levou-o para a linha de produção, fazendo finalmente a visita começar a valer a pena.

No final do dia, encontraram-se novamente. Syaoran já estava se sentindo mais à vontade ao lado de Kurogane e descobriram até que tinham algumas afinidades. Ele não era muito sociável, mas o altão compensava sua insociabilidade e conseguia ser uma companhia agradável.

Hyo Ling se aproximou do primo com um sorriso. ‘E aí? Como foi?’

‘Tudo bem.’ Syaoran respondeu de forma contida.

Era apenas o primeiro dia, tinha algumas coisas que gostaria ainda de verificar e estudar com calma.

‘Mei Ling me ligou. Ela disse que quer visitar a Torre de Tókio.’ Ele falou animado. Estava feliz por ter trazido a esposa para esta viagem, aproveitando que ela estava de férias da faculdade.

Syaoran apenas concordou com a cabeça, perguntando-se o que ele tinha com isso. Não estava nem um pouco a fim de fazer programa de turistas. Odiava aglomeração.

‘É a primeira vez que ela está no Japão?’ Kurogane perguntou para Hyo Ling que confirmou com um gesto.

‘Ela tem fascinação por conhecer aquela torre.’ Falou, sorrindo de leve.

‘Aquele lugar deve ser uma confusão só.’ Syaoran murmurou.

‘Não tem como negar alguma coisa para Mei Ling.’ Hyo Ling comentou ainda rindo.

‘Podemos marcar um passeio, então. Minha noiva tem ido muito para Tókio para os preparativos de casamento. Tenho certeza que ela será boa companhia para sua esposa durante o passeio. Depois poderíamos jantar em um dos melhores restaurantes da cidade.’ Kurogane sugeriu.

‘É uma excelente ideia. Assim Mei Ling se sentirá mais a vontade.’ Hyo Ling disse. ‘Não será incômodo para vocês?’

‘De maneira alguma. Tenho certeza que será bem divertido.’

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Sakura caminhava ao lado de Tomoyo por Tókio. Estava acompanhando a prima, que havia tirado o sábado para resolver alguns detalhes do casamento e tinha implorado para que ela fosse junto no lugar da mãe.

Não teve como ela recusar. Estava realmente em dívida com a morena, pois estava ajudando muito pouco com os preparativos do casamento. Elas eram como irmãs, não se perdoaria por não estar participando daquele momento tão especial.

Mais tarde, Tomoyo se encontraria com Kurogane e os novos sócios das empresas de sua mãe, que gostariam de conhecer a Torre de Tókio. De lá, eles sairiam para jantar.

A prima tinha pedido que se juntasse ao grupo, mas a ruiva ponderou que seria uma visita mais formal e relacionada às empresas da tia. Não gostava muito destas coisas. Tomoyo tinha insistido para que, pelo menos, Sakura ficasse com ela durante a visita à Torre de Tókio, pois estava nervosa. O seu plano era ficar com a morena até que ela se encontrasse com o noivo e os novos amigos dele.

Tomoyo evitava visitar a Torre de Tókio, pois aquele lugar lhe passava uma sensação estranha a qual não sabia descrever exatamente. A vista era linda! Não havia motivos para o calafrio que sentia. Sabia que, no fundo, devia ser besteira, talvez fosse medo de altura ou algo assim.

Kurogane havia lhe dito que poderiam declinar o convite, mas isso seria um absurdo, ainda mais quando ele comentou que seria para acompanhar um casal de chineses que estavam na cidade pela primeira vez. Tomoyo era uma pessoa cortês. Adoraria conhecer os membros do clã que se associou às empresas de sua família.

Sakura olhou para a prima que estava ao seu lado. ‘Tomoyo-chan, está tudo bem?’

Tomoyo sorriu para ela de forma meiga. ‘Estou sim. Não se preocupe.’ Ela colocou um dedinho no queixo e ficou com o rosto pensativo. ‘Estou com uma sensação que hoje será um dia muito interessante.’

Sakura franziu a testa. ‘Como assim? Interessante em que sentido?’

A morena deu de ombros. ‘Não sei direito.’ Abriu um belo sorriso. ‘Estou com uma boa sensação.’

‘Pensei que não gostasse de visitar a Torre.’

Ela meneou a cabeça. ‘Não é bem não gostar. É que eu, às vezes, tenho alguns pesadelos bobos com este lugar. Coisa de criança talvez.’

Sakura balançou a cabeça de leve e soltou um suspiro. ‘Às vezes, até eu tenho estes sonhos ou pesadelos que me perturbam.’

Tomoyo sorriu pelo canto dos lábios. ‘Mas eu tenho também lindos sonhos… cheios de aventuras!’ Falou rindo. ‘Acho que sou uma pessoa com a mente muito imaginativa.’ Completou, dando uma risadinha.

Ficaram caladas esperando o elevador chegar até o observatório da torre.

‘Você também parece nervosa.’ Tomoyo comentou com ela.

Sakura soltou um suspiro e sorriu. ‘Também estou com a sensação de que algo extraordinário acontecerá.’

A morena juntou as mãos na frente do rosto, rindo. ‘Então, com certeza, acontecerá!’

A ruiva riu da prima que sorria para ela. Tomoyo era sua melhor amiga e a amava demais, como a uma irmã muito querida. Tinha a impressão de que, às vezes, a morena conseguia ler sua mente.

Chegaram ao mirante e as duas saíram com um grupo de turistas. Tomoyo olhou para o relógio de pulso.

‘Estamos um pouco adiantadas. Vou ligar para o Yuo para avisar que já estamos aqui.’ Falou, procurando o celular dentro da bolsa.

Sakura olhou em volta, observando as inúmeras pessoas e crianças que estavam no mirante. Sorriu de leve, virou-se para a prima que estava ao celular com o noivo e fez um gesto, indicando que ia até a janela para ver a paisagem. Tomoyo concordou com a cabeça, entendendo e continuando a falar com o noivo de forma animada.

A ruiva caminhou devagar, parando em frente à janela panorâmica e, observando a cidade lá embaixo, sorriu. Levou uma mão ao peito, sentindo o coração acelerado e entreabriu os lábios, sem conseguir entender direito o que estava acontecendo com ela. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Lentamente, como que atraída por uma força misteriosa, virou-se para o lado esquerdo e arregalou os olhos, reparando no rapaz que também observava a cidade através da janela panorâmica.

Ele se virou para ela, fitando-a de maneira profunda.

Sakura se segurou no parapeito da janela, sentindo as pernas bambas.

No time, no time for hesitating

(Não há tempo, não há tempo para hesitar)

No time, nobody is waiting

(Não há tempo, ninguém está à espera)

I say what’s on my mind

(Eu digo o que está em minha mente)

And there’s no way I am gonna make it

(E não há como eu realizar nada)

Unless I am wide awake

(A menos que eu esteja bem acordada)

I know deep inside.

(Eu sei que lá no fundo.)

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Syaoran saiu do hotel em que estava hospedado no centro de Tókio. Não era muito longe da Torre à qual a prima insistira exaustiva e irritantemente, até convencê-lo, a acompanhar os dois casais na visita. Ela sabia que ele odiava aquele tipo de programa e fazia isso, com certeza, para perturbá-lo.

Como se não bastasse, Mei Ling ainda tinha ligado pedindo que fosse na frente, pois ela e o marido tinham saído para fazer compras e estavam, evidentemente, atrasados. Então ele iria se encontrar com Kurogane e a noiva, desculpar-se pelo atraso dos primos, fazendo companhia ao casal japonês. Excelente programa. A prima lhe pagaria por colocá-lo naquela situação.

Caminhou rápido pelas ruas da cidade e parou em frente à Torre. Sentiu um calafrio na espinha ao levantar o rosto, observando a construção de ferro e franziu a testa.

De repente, sentia-se ansioso e seu coração acelerou sem nenhum motivo aparente. Ele olhou ao seu redor, observando as pessoas caminhando de forma alegre. Balançou a cabeça de leve, seguindo até o elevador que o levaria ao mirante onde ficaram de encontrar Kurogane e a noiva. Entrou e, conforme o elevador subia, seu coração acelerava cada vez mais. Colocou as mãos nos bolsos e tentou relaxar. Não tinha motivos para se sentir ansioso daquela maneira.

As portas do elevador se abriram e ele olhou ao redor, não avistando Kurogane. Olhou para o relógio e viu que estava um pouco adiantado. Ponderou que ele logo estaria chegando, assim como os primos.

Caminhou devagar até a janela panorâmica e sorriu de leve, vendo a cidade lá embaixo. Sentiu novamente o arrepio subir pelas costas e a sensação de estar sendo observado. Prendeu a respiração, virando-se para a direita.

I don’t want to leave,

(Eu não quero ir embora,)

I want to be right here in this life.

(Eu quero estar aqui nesta vida.)

Arregalou os olhos de leve, observando a bela jovem de olhos verdes, parada a alguns metros dele, encarando-o com espanto.

Fitaram-se por algum tempo de forma profunda até ela abrir um sorriso maravilhoso. Como se o rosto dela conseguisse iluminar o mundo inteiro.

Abriu um tímido sorriso e a viu caminhar na sua direção sem desviar os olhos dos dele nem por um segundo. Ela parou a sua frente e ainda ficaram alguns segundos se fitando, como que tentando acreditar que realmente estavam um a frente do outro.

Right now, now is where we are

(Agora, agora é onde estamos)

Reaching out that high, higher than the sky

(Alcançando tão alto, mais alto que o céu)

It’s always on my mind

(Está sempre na minha mente)

It’s never gonna leave me blinded

(Nunca vai me deixar cega)

For the stars, shooting for the stars,

(Para as estrelas, almejando as estrelas,)

Shooting for the stars

(Almejando as estrelas)

‘Olá!’ Ela o cumprimentou.

‘Olá.’

‘É a sua primeira vez visitando a Torre de Tókio?’ Ela perguntou com um leve tremor na voz.

Ele sorriu de lado e confirmou com a cabeça. ‘É, sim.’

‘E... De onde você é?’

‘Sou de Hong Kong.’ Respondeu, sentindo o coração acelerar de tal forma que parecia estar numa maratona.

Ela abriu um sorriso maroto, fitando-o sugestivamente. ‘Ah! Eu sempre quis aprender mandarim.’

‘Eu poderia lhe ensinar…’ Ele propôs, alargando o sorriso e se inclinando levemente sobre ela. ‘Com o maior prazer.’

Sakura sentiu um arrepio percorrer sua espinha. ‘Eu adoraria.’

Não desviaram os olhos um do outro. Syaoran levantou o braço na direção dela.

They say life is complicated,

(Dizem que a vida é complicada,)

They say love is overrated

(Dizem que o amor é superestimado)

Nothing is black or white

(Nada é preto ou branco)

And there’s no way we are gonna make it

(E não há como realizarmos nada)

Unless we no longer fake it

(A menos que sejamos verdadeiros)

We will be all right

(Vamos ficar bem)

‘Sakura-chan!’ Ouviram alguém chamá-la.

Afastaram-se, sentindo-se desconcertados. Sakura olhou para a prima que se aproximava ao lado do noivo. Tentava não sorrir.

Tomoyo franziu a testa, observando-a mal conseguindo fechar o sorriso.

‘Oi, Kurogane-kun.’ Ela cumprimentou o alto noivo da prima. Olhou de esguelha para Syaoran que também não conseguia disfarçar a felicidade.

Sakura olhou para a prima, que estava pálida, olhando para Syaoran com estranhamento. ‘Tomoyo-chan, está tudo bem?’

A morena balançou a cabeça de leve, mas voltou a encarar Syaoran intrigada. ‘Eu não conheço você?’

Syaoran olhou de esguelha para Sakura que não sabia exatamente o que falar para a prima.

Tomoyo balançou novamente a cabeça. ‘Mil desculpas… Tenho a impressão de que já o conhecia antes.’

Kurogane sorriu de leve e olhou para a noiva. ‘Engraçado. Também tive essa mesma impressão.’ Comentou e olhou para Syaoran. ‘Boa tarde, Li-san. Você chegou mais cedo.’

‘Eu… Eu…’ Syaoran não conseguia nem pensar no que falar. Pigarreou. ‘Hyo Ling e Mei Ling vão se atrasar. Foram fazer compras…. Alguma coisa assim.’ Ele falou, gesticulando com a mão.

Kurogane acenou com a cabeça. ‘Gostaria de apresentá-lo à minha noiva, Tomoyo Daidouji.’

Tomoyo sorriu para ele. ‘Muito prazer em conhecê-lo, Li-san.’

Syaoran ajeitou-se desconfortavelmente. Aquela situação parecia surreal. ‘Prazer, To…’ Reteve-se. ‘Senhorita Daidouji.’ Corrigiu rapidamente, inclinando o corpo levemente a frente em cumprimento.

Tomoyo semicerrou os olhos no rapaz e inclinou a cabeça de leve. Tinha certeza que já o tinha visto antes, mas onde?

‘Você não me é estranho.’ Ela repetiu, ainda olhando fixamente para Li até ouvir o noivo pigarrear.

Tomoyo arregalou os olhos de leve e balançou a cabeça, curvando-se graciosamente para frente, sentindo-se constrangida. Levantou o rosto e conseguiu ver um sorriso gentil se desenhar nos lábios dele, embora Li o tenha fechado rapidamente ao olhar de soslaio para Kurogane que os observava.

Kurogane olhou para o rapaz, percebendo que ele não estava no seu normal. Tinha passado uma semana trabalhando com ele e não vira um único sorriso. Agora até abriu um sorriso suave ao observar Tomoyo.

‘E esta é a prima dela…’ Kurogane falou devagar, apontando para a ruiva. ‘A senhorita Sakura Kinomoto.’

Li virou-se para Sakura que olhava para baixo.

‘Prazer, senhorita Kinomoto.’ Ele a cumprimentou, vendo-a fazer uma pequena careta ao ouvi-lo chamá-la daquela forma.

I don’t want to leave,

(Eu não quero ir embora,)

I want to live right here where we are.

(Eu quero viver bem aqui onde estamos.)

Ela levantou o rosto e, sem conseguir fechar o sorriso, também inclinou de leve o corpo a frente. ‘O prazer é todo meu, Li-san.’

Ele precisou se controlar para franzir a testa, pensando que ouvi-la chamando-o por qualquer coisa que não o seu nome soava estranho e inadequado. Permaneceram olhando-se e sorrindo um para o outro, como quem compartilha um segredo, até se darem conta que Kurogane e Tomoyo os observavam com curiosidade. Desviaram os olhos constrangidos, mas sem conseguir fechar os sorrisos que tinham nos lábios.

‘Hã… Eu, infelizmente, tenho que ir… Lembrei-me de uma coisa importante…’ Ele começou a falar. ‘No hotel. Prometi para Mei Ling que faria uma coisa para ela… Hã… Então… Eu tenho que ir agora.’ Falou, olhando de esguelha para Sakura que mordia de leve o lábio inferior.

‘Não pode fazer isso depois?’ Kurogane perguntou, estranhando.

‘Não…’ Ele falou. ‘Mei Ling é muito… Exigente. Vai me matar se eu não tiver feito o que ela me pediu… Eu... Eu realmente tenho que ir.’ Falou e olhou novamente de esguelha para Sakura. ‘Foi um prazer conhecê-la, senhorita Daidouji. Senhorita Kinomoto.’ Ele falou, cumprimentando-as rapidamente e caminhando em direção à saída do mirante.

Sakura o acompanhou se afastando, até que ele parou em frente ao elevador. Virou-se para fitar a prima. ‘Bem... Acho que eu já vou também agora que o Kurogane-kun está aqui...’ Sakura falou ansiosa.

‘Sakura-chan… Está tudo bem com você?’ Tomoyo perguntou realmente preocupada.

‘Tudo maravilhoso. Não poderia estar melhor.’ Ela falou e tentou fechar o sorriso. ‘Foi ótimo ver você.’ Sorriu para Kurogane. ‘Eu já vou indo. Até.’ Ela falou, já se afastando do casal que olhava um para o outro sem entender o que estava acontecendo.

Right now, now is where we are

(Agora, agora é onde estamos)

Reaching out that high, higher than the sky

(Alcançando tão alto, mais alto que o céu)

It’s always on my mind

(Está sempre na minha mente)

It’s never gonna leave me blinded

(Nunca vai me deixar cega)

For the stars, shooting for the stars,

(Para as estrelas, almejando as estrelas,)

Shooting for the stars

(Almejando as estrelas)

A ruiva caminhou, tentando não correr em direção ao elevador. Apertou a alça da bolsa, que segurava com a mão esquerda, por pura ansiedade. Assim que a porta se abriu, viu Syaoran entrar e não teve como não apressar o passo para fazer o mesmo.

Entrou e parou ao lado dele sem falar nada. Quando a porta se fechou, sentiu-o segurar sua mão e entrelaçar os dedos aos seus.

Hold on, you don’t have to walk alone

(Espera aí, você não tem que andar sozinho)

Hold on, I won’t let you go

(Espera aí, eu não vou deixar você ir)

Desceram os andares em silêncio e, assim que chegaram ao térreo, saíram junto com os outros turistas sem conseguir disfarçar a imensa felicidade de terem se encontrado.

Syaoran a puxou, começando a correr e sendo acompanhado por ela em direção ao hotel em que estava hospedado. Entraram pelo hall do hotel e ele cumprimentou de forma polida os funcionários, puxando Sakura e guiando-a até o elevador onde apertou o botão, de forma quase frenética, para chamá-lo.

Entraram no elevador vazio e ele pressionou o botão do andar em que estava. Assim que a porta se fechou, aproveitando que estavam sozinhos, ele a segurou pela cintura e pela nuca abaixando o rosto para, finalmente, sentir os lábios de Sakura contra os dele.

‘Não lembro de Tomoyo e Kurogane no nosso encontro na Torre de Tókio.’ Ele falou com os lábios contra os dela. ‘Você não me entregou o roteiro completo...’

Ela abriu um sorriso travesso e inclinou a cabeça de leve. ‘Mudanças de última hora no enredo.’

Syaoran se inclinou e beijou perto da orelha dela. ‘E a continuação?’ Perguntou com a voz rouca, fazendo-a fechar os olhos e o abraçar.

‘O resto... Nós escreveremos juntos.’ Ela respondeu, voltando a beijá-lo apaixonadamente.

Right now, now is where we are

(Agora, agora é onde estamos)

Reaching out that high, higher than the sky

(Alcançando tão alto, mais alto que o céu)

It’s always on my mind

(Está sempre na minha mente)

It’s never gonna leave me blinded

(Nunca vai me deixar cega)

For the stars, shooting for the stars,

(Para as estrelas, almejando as estrelas,)

Shooting for the stars

(Almejando as estrelas)



Continua.

Notas finais
Música do Capítulo: Shooting For The Stars (Almejando as estrelas) por Anneke van Giersbergen Notas Específicas: —Gaki: “moleque”. —Kaijuu: “monstrenga” Iniciamos esta terceira parte da história usando os honoríficos japoneses. Os capítulos anteriores da primeira e segunda parte da história serão revisados e também sofrerão esta alteração aos poucos. Para quem não vê os animes em japonês e não conhece a diferença sutil deles vai aí um guia básico para entender melhor. Existem outros que não são mais usados e os quais eu não coloquei no guia. Este guia foi baseado num artigo de Yasmin Bom, estudante de japonês e Beta. O perfil dela é fanfiction(.)com(.)br/u/280144. E quando não tem honorífico nos nomes o que isso significa? Uma enorme proximidade e intimidade entre as pessoas. Mas lembrando que estrangeiros (isto é, não japoneses) não usam por questões culturais. Então os personagens chineses, isto é, Syaoran, Meilyn e outros não usarão os honoríficos citados abaixo. —San San é um dos pronomes de tratamento mais comuns. Ele indica principalmente respeito, mas também indica certa distância. —Kun Vindo do kanji de “você”, “kun” significa uma proximidade entre o falante e a quem o falante se dirige. Ele é geralmente utilizado para homens, mas, antigamente, era usado para ambos os sexos. Tanto que é comum ver um senhor/uma senhora de idade chamando uma garota com o pronome de tratamento -kun. —Chan Chan foi um pronome de tratamento criado recentemente. É um pronome carinhoso, geralmente utilizado para chamar uma garota, mas também pode ser usado como forma de deboche para garotos. —Nii-chan, Nii-sama, Nii-san “Nii” é escrito com o kanji de “irmão mais velho”, que se lê “Onii”. Apesar de existir casos em que o irmão mais velho em questão é chamado só de “-nii”, a maioria das vezes ele vem acompanhado de algo. San, chan, sama tem a mesma função que a explicada anteriormente. Portanto, um “Nii-chan” é mais carinhoso, um “Nii-sama” indica submissão e “Nii-san” indica respeito. “Nii” não é exclusivo para relações familiares. Por exemplo, Naruto é chamado de “Naruto-nii-chan” por Konohamaru, que é somente 3 anos mais novo e não tem relação familiar nenhuma com Naruto. Isso é porque Konohamaru o considera um “irmão mais velho”. —Okaa-san, Okaa-chan, Okaa-sama “Okaa” significa “mãe”, usado como vocativo para mães e para se referir a mães de outras pessoas. Nessa função, ele funciona como Nii. Muitas vezes o “o” é retirado, como um modo de falar, e fica “Kaa”. —Otou-san, Otou-chan, Otou-sama “Otou” é pai. Nessa função, ele funciona como Nii. Muitas vezes o “o” é retirado, como um modo de falar, e fica “Tou”. —Oba-san, Oba-sama, Oba-chan “Oba” é tia, e funciona como Nii. Se refere, também, a uma mulher bem mais velha, mas não idosa.