FEITICEIROS
56 Pesadelos
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FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 56
Pesadelos
Sakura dirigiu-se para o andar térreo da casa assim que todos se recolheram. Passou pelo quarto do filho e abriu a porta, espiando-o dormir profundamente. Sorriu de leve, mas o sorriso logo morreu, dando lugar à preocupação ao se lembrar das últimas semanas.
A vida do filho não estava nada fácil e ela sabia que em breve ficaria ainda mais complicada. Ela tinha receio do que poderia acontecer com o garoto. De como as provações pelas quais ele teria que passar o mudariam.
Ela quase não o reconheceu quando ele voltou do hospital no dia que Kasumi passou mal. Shaolin estava transfigurado e, por um instante, ela pensou que ele realmente invocaria sua espada e atacaria Retorno enquanto tentava tirar satisfações da Carta que se negava a responder suas perguntas.
Quando chegou em casa aquele dia, encontrou a residência estranhamente silenciosa e Kazuo andando de um lado para outro nervoso. A aura do rapaz estava agitada demais. Quando perguntou o que tinha acontecido, ele lhe contou o que sabia: que quando chegou em casa de um passeio com Kagami encontrou o irmão socorrendo a amiga que estava passando mal, muito mal.
Sakura já imaginou o desespero de Shaolin. Sempre que Kasumi se machucava depois de uma travessura dos dois, o filho sempre se culpava, recriminando-se por não tê-la protegido. Era irritantemente parecido com Syaoran em achar que deveria… que conseguiria proteger Kasumi de tudo!
Sempre soube que as Cartas se manifestavam de forma discreta para proteger os dois, embora se fizesse de desentendida, deixando Shaolin acreditar que conseguia esconder dela todas as vezes em que ele usara magia diante de Kasumi.
Sabia, também, que a menina desconfiava de algo, mesmo quando aceitava as explicações esfarrapadas de Shaolin. A certo ponto, Kasumi até parou de se importar, simplesmente, voltando a brincar como se nada tivesse acontecido. Kasumi podia se fazer de tonta, mas, no fundo, era tão observadora quanto Tomoyo e prestava atenção a tudo que acontecia ao seu redor, apenas deixava para lá.
Sakura reparou também como Kazuo ficara preocupado com a menina. Disse que ela estava gelada e que suava frio. E o intrigante foi perceber o quanto o rapaz estava preocupado por conta do irmão. Kazuo deve ter repetido umas três vezes o quanto a aura de Shaolin estava agitada e instável e como ele, inicialmente, pensou que algo tivesse acontecido com o próprio garoto.
Voltou a esboçar um sorriso ao lembrar que Kazuo apenas relaxou quando Shaolin chegou dizendo que Kasumi estava bem. O mais interessante, mesmo, foi ver que, quando Shaolin se moveu para tirar satisfação de Retorno, não precisou dizer nada para que Kazuo entendesse a situação e se posicionasse a seu favor, também cobrando respostas da Carta.
Quando Kazuo colocou a mão no ombro de Shaolin, pedindo calma e dizendo que de nada adiantaria atacar Retorno, Sakura pensou que o filho explodiria. No entanto, Shaolin deu satisfação para Kazuo, argumentando que não tinha como manter a calma, sabendo que o estado de Kasumi era resultado da manifestação da Carta. Ao entender as razões de Shaolin, Kazuo apenas assentiu, ficando ao lado do menino por todo o tempo em que ele questionou Retorno.
Syaoran teve que intervir e agir com rigidez para conter uma briga maior. Shaolin saiu pisando duro e Kazuo seguiu logo atrás igualmente contrariado.
Os dois não tinham nem percebido pelo nervosismo da situação, mas estavam um ao lado do outro, apoiando-se. Chamavam-se pelos nomes. Estavam agindo exatamente como o que eram: irmãos. Este foi um dos motivos pelo qual ela não se conformou com a briga dos dois uma semana depois. Precisava realmente daquilo para acertarem as diferenças?
Ela respirou fundo e soltou o ar devagar, abrindo os olhos. Apesar de ter odiado ver tanto um quanto o outro machucados, pelo menos aquilo serviu para os dois colocarem o que sentiam para fora. Ela sabia que a situação era tão difícil para um como para o outro, mas eles estavam sabendo superá-la.
Fechou a porta do quarto de Shaolin com cuidado para não fazer barulho e caminhou pelo corretor. Parou à frente da porta do quarto de Kazuo e percebeu a aura do rapaz. Apesar de ser proveniente das trevas, estava bem tranquila. Sorriu. O rapaz estava se adaptando bem à rotina da casa e à vida como humano. Estava muito feliz por ele.
Desceu a escada e parou na antessala. Kero já estava dormindo no seu quarto-gaveta. Andava reclamando de dor nos olhos, provavelmente por passar tantas horas em frente à televisão. Ele jogava vídeo game de forma tão frenética que até assustava Kazuo, algumas vezes. O rapaz passava vários minutos intrigado com as reações do pequeno guardião.
Não precisou nem chamar e, quando olhou para o lado, viu Retorno se aproximar. Ela sabia que ele a estava evitando desde o ocorrido com Kasumi, assim como ele sabia que não conseguiria se esquivar por muito mais tempo. Ela o encarou seriamente. Já tinha dado tempo demais a ele. Era hora de esclarecer as coisas.
A Carta parou em frente à Sakura, observando-a atentamente. Ela não era uma mestra autoritária como Clow. Às vezes, ele inclusive achava que ela dava liberdade demais às Cartas, o que transformava a casa numa bagunça sem fim. Não foi fácil aceitá-la como mestra e, no fundo, como Sakura nunca fez questão de se colocar nesta posição, ele sempre se sentiu confortável por não a considerá-la como tal.
A verdade é que ele aprendeu a gostar dela. Não só dela como de Syaoran e, principalmente, de Shaolin. A aura que envolvia o menino lhe trazia uma sensação de nostalgia. Desde que percebera a natureza da aura dele, ainda no ventre de Sakura, sabia exatamente quem ele era. Ou, no caso, o que ele tinha sido.
Retorno conhecia muito bem como funcionava o ciclo evolutivo e sabia, particularmente, sobre a regressão. Se aquele ser estava vindo à Terra, era porque tinha uma missão extraordinária.
Sakura parou em frente a Retorno e cruzou os braços. ‘O que você realmente fez a Kasumi-chan?’ Ela perguntou de forma direta e com o rosto sério.
Retorno sorriu de leve. ‘Deve ter percebido alguma coisa para me questionar desta forma...’
‘Você sabe que sim. Shaolin e os outros não conseguem perceber porque ainda não estão suficientemente evoluídos em magia.’ Ela respondeu. ‘O que realmente fez com ela, Retorno? Você sabe exatamente o quanto eu e todos a estimamos. Principalmente, Shaolin.’
Retorno assentiu com a cabeça, concordando. ‘E eu também. Principalmente pelo que sei. Ela é muito especial…’
Sakura estreitou os olhos nele. ‘O que quer dizer com isso?’
Ficaram em silêncio por alguns segundos até o ser mágico finalmente desviar os olhos de sua mestra. ‘Meus poderes não me permitem apenas ver ou levar outros seres para o passado. Esta foi a limitação que Clow impôs quando me trancou como carta.’
Ela arregalou os olhos. ‘E o que mais é capaz de fazer?’
Ele voltou-se para ela. ‘Em alguns casos especiais, consigo ver o futuro. Meus poderes são como os ponteiros de um relógio. Movem-se no sentido anti-horário ou no sentido horário, conforme eu solicitar. E, diferente de Tempo, que manipula uma faixa restrita de tempo, limitada como a areia de sua ampulheta, eu vejo mais além do passado ou do futuro.’
Sakura franziu a testa. Não sabia disto. Deu um passo à frente, sentindo-se ansiosa. ‘Você disse que vê o futuro. De que futuro está falando?’
Retorno voltou a fitar sua mestra. Era melhor explicar exatamente o que podia ver para que ela entendesse tanto a extensão como a limitação de seus poderes.
‘Considere que o tempo é uma linha reta.’ Ele começou a falar devagar. ‘No meio desta linha existe um ponto, o presente. O passado é tudo que está de um lado deste ponto e o futuro do outro lado. Conforme este ponto vai andando por esta linha, o passado vai aumentando e o futuro diminuindo. Conforme as escolhas e os acontecimentos tornam-se o presente, um futuro é construído como consequência. Um futuro distante pode ser modificado devido às alterações do presente, porém um futuro próximo, como o dia de amanhã ou as próximas horas, apesar de não terem acontecido ainda, são previsíveis devido às ações e acontecimentos do passado. É como se os pontos que formam a reta do futuro tivessem mais variáveis ao se afastarem do ponto presente.’ Ele explicava de forma pausada, reparando que sua mestra tentava acompanhar seu raciocínio.
Sakura caminhou pela antessala com o rosto preocupado. ‘Clow-sama sabia disto?’
Retorno deu um sorriso triste. ‘Clow nunca se interessou em saber exatamente quem nós éramos. Ele já pré-definiu nossas habilidades com as ínfimas informações que tinha no momento de nossa captura.’
Ela suspirou e assentiu com a cabeça. Realmente Clow tinha tanto medo dos seres das trevas que limitou-se a saber apenas o suficiente para trancá-las, não lhes dando a chance de se apresentarem nem tentando conhecê-los melhor. Esperava sinceramente que Eriol pudesse superar sua reencarnação passada, ou se manteria estagnado com aquele pensamento e apenas causaria mais sofrimento para ele próprio e para a filha.
‘Então, você consegue também ver o futuro. Clow o chamou Retorno de forma indevida...’ Ela sorriu de forma suave para a criatura mágica. ‘Cometi um erro também…’ Disse com sinceridade. ‘Nunca conversamos e eu nunca soube o seu verdadeiro nome. Devo-lhe desculpas por isso.’
Retorno sentiu-se encabulado. Era justamente isso que adorava nela: aquela simplicidade e aquela facilidade de admitir um erro e se desculpar. Ela não temia nenhuma delas. Todas eram parte de sua família e, por isso, respeitava a individualidade de cada uma. Sabia que ele era mais introspectivo e por isso não forçava uma aproximação. Voltou-se para sua mestra.
‘Também tenho parte da culpa. Você sempre se manteve disponível para que nos aproximássemos ao nosso próprio ritmo, mas eu sempre me mantive à distância.’ Ele disse sinceramente. ‘Meu nome é Aeon.’ Apresentou-se.
‘Aeon…’ Ela repetiu devagar e o viu sorrir de forma suave, satisfeito de ouvir seu verdadeiro nome novamente. ‘Bem, Aeon, por que está me contando sobre seus poderes agora? E será que pode me dizer o que realmente aconteceu com Kasumi-chan?’
‘Eu não fiz nada contra Kasumi. Nunca poderia fazer nada contra ela, mas como eu lhe falei antes, ela é muito mais do que aparenta.’ Ele respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Consigo ver o futuro do ponto de vista deste presente. Se formos falar de um futuro mais distante, torna-se mais complicado e passível de erro. Por isso todos os métodos divinatórios que os humanos usam para prever o futuro têm acertos e erros. São métodos válidos, mas as pessoas tendem a esquecer das incertezas vinculadas a algo tão intangível.’
‘Seja claro, por favor.’ Sakura pediu.
‘O que vejo no futuro é uma grande luta. Uma grande batalha. Entre anjos e demônios.’
‘O Caos?!’ Sakura perguntou, dando um passo à frente e encarando-o de perto. ‘Novamente esta história de Caos?!’
Aeon estreitou os olhos em sua mestra. ‘Você já percebeu muito bem qual o tipo de magia que envolve Shaolin, não é?’
Sakura engoliu em seco. Não era apenas Eriol que tentava ignorar a natureza da magia de Marie. Ela e Syaoran também não gostavam das conclusões que tiraram a respeito da magia de Shaolin.
‘O que sabe sobre isso? As outras Cartas também sabem sobre isso?’
‘Não.’ Aeon respondeu rapidamente. ‘Nenhuma tem a certeza que eu tenho.’
‘Por quê?’
‘Porque eu já fui igual a Shaolin.’
Sakura arregalou os olhos e segurou o braço de Aeon nervosa. ‘Do que está falando?’
‘Gabriel já lhe explicou sobre os ciclos, evolução e regressão…’
Ela semicerrou os olhos nele. ‘Conhece Gabriel-san?’
Ele meneou a cabeça. ‘Não. Mas sei quem ele é.’
Sakura soltou o braço de Aeon e deu um passo para trás, balançando a cabeça de leve. ‘Então era por isso que você costumava interagir tanto com Shaolin?’
‘Eu sempre soube que ele tem uma missão extraordinária. O que me intrigava era apenas o porquê dele ser tão ligado a Kasumi.’ Aeon notou que Sakura voltou a fitá-lo com intensidade, aguardando uma explicação. ‘Eu olhei o passado dela e descobri que eles são ligados por uma vida passada.’ Respondeu por fim. ‘E… eu acredito que, se alguém é capaz de ajudar a proteger o futuro de Shaolin, será a Kasumi.’
‘Por quê? O que exatamente você vê?’
Aeon encarou sua mestra em silêncio. Estava com o rosto tenso e Sakura percebeu que ele hesitava em contar.
‘O que você vê do futuro de Shaolin?’ Perguntou mais uma vez, a voz denunciando seu nervosismo.
‘Após a finalização da missão, todos retornam para onde pertencem…’
Sakura soltou um suspiro aliviada. ‘Então ele retornará para casa… Qual o problema disto?’
Aeon desviou os olhos de sua mestra. ‘Eu espero que não tenha problema nenhum…’
Ela não tinha entendido a colocação dele, era melhor deixar o mal entendido assim, por enquanto, não seria prudente deixá-la mais tensa do que já estava. Não agora.
‘Kasumi-chan… A aura dela…’ Ouviu a voz de sua mestra.
‘É proveniente das trevas.’ Ele a interrompeu. ‘Foi bloqueada. Naquele dia eu apenas pedi a Cadeado que me ajudasse a “abrir” uma brecha no bloqueio que me permitisse olhar além da barreira para entender exatamente quem ela era.’ Ele sorriu de leve e de forma satisfeita. ‘Ela é incrível.’
‘Então ela é… Foi um demônio?’ Sakura perguntou, confusa.
Aeon negou com um gesto. ‘Não. Ela é humana. Foi uma humana extraordinária. Não é a toa que ele morre de medo dela.’
‘Ele quem?’ Ela perguntou, franzindo a testa.
Aeon abriu um sorriso presunçoso e começou a caminhar, afastando-se de sua mestra. ‘Um velho conhecido.’ Respondeu e voltou-se brevemente para Sakura. ‘Não se preocupe, Mestra. Kasumi não representa nenhum perigo para Shaolin… Na verdade, não é fácil encontrar uma alma como a dela…’ Ele fez uma pausa e sorriu mais ainda. ‘...temida por demônios e anjos.’ Concluiu, voltando à sua forma de lâmina e se recolhendo ao livro junto com as outras.
Sakura observou o livro das cartas com o rosto preocupado. Não tinha entendido exatamente o que Aeon tinha lhe dito, mas sabia que ele tinha visto algo no futuro do filho. Soltou um suspiro cansada. O prazo de Yelan estava acabando. Temia demais pelo que poderia ao filho.
Fechou os olhos e tentou relaxar o pescoço. Sabia que logo tudo estaria para acontecer.
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Shaolin se viu novamente naquele maldito deserto. Levantou o rosto e viu o céu em chamas. O ar era pesado e o cheiro forte de enxofre fazia as narinas arderem. Passou a mão na testa suada, numa tentativa frustrada de aplacar o calor.
‘Droga.’ Murmurou. Ultimamente, dera para sonhar com aquele lugar todas as noites. Caminhou devagar, arrastando os pés na areia. Já sabia que, logo, encontraria os pais, Kazuo e… aquela maldita cabeça rolante. Passou a mão novamente no rosto.
‘Shaolin-kun…’ Ele ouviu uma voz feminina chamá-lo às suas costas. Virou-se depressa, encontrando Marie.
‘Nee-san, que diabos você está fazendo aqui?’ Aquela era nova. Era a primeira vez que Marie aparecia no seu sonho. Franziu a testa de leve, estava realmente sonhando?
‘Oras… isso aqui era minha casa. Você é quem não deveria estar aqui, pirralho.’ Ela respondeu, aproximando-se do garoto. ‘Na verdade… nenhum dos dois.’ Ela parou e cruzou os braços, encarando um ponto atrás dele. ‘Eu sempre soube que tinha uma coisa estranha com você. Para você estar aqui, é porque é mais do que uma pirralha gulosa.’
Shaolin arregalou os olhos e virou-se para onde a prima olhava com intensidade. Sentiu uma fisgada no peito, como se o coração parasse de bater, ao fitar Kasumi e sentiu-se apavorado. Balançou a cabeça de leve. Aquilo era um maldito sonho. Era só um sonho. Tinha que ser. Era melhor acordar, fechou os olhos com força, mas quando os abriu ainda via a garota, olhando para o lugar com interesse. Ela se virou para ele e sorriu de leve.
‘Então aqui é o tal Mundo das Trevas?’ Kasumi perguntou com um dedinho no queixo.
‘Isso aí.’ Marie respondeu. ‘É tão assustador como lhe falaram?’
Ela deu de ombros. ‘É mesmo como falaram e como Nii-san confirmou. Não tem muita coisa aqui, né?’ Ela sorriu de lado, ainda olhando em volta. ‘Acho que já mandei muita gente para cá.’
Marie inclinou a cabeça de leve, observando a menina. ‘Talvez o certo seria você vir para cá também, não?’
Kasumi olhou séria para ela. ‘Enma Daiyoh me deixou num inferno muito pior que este por bastante tempo.’ Estreitou os olhos em Marie. ‘É enlouquecedor ficar sozinha, não?’
Marie concordou com a cabeça.
Shaolin olhou de uma para a outra, balançando a cabeça com força e sentindo-se confuso com aquela conversa. Caminhou até Kasumi e segurou o braço dela. ‘Vamos embora! Nee-san! Como a gente sai daqui?’
Marie balanço um pouco o corpo. ‘Não tem como sair daqui agora.’
‘Como assim não tem?! Tem que ter! Kasumi não pode ficar aqui.’ Ele falou irritado.
Marie rolou os olhos. ‘Deveria tê-la deixado vir para cá quando era necessário… Talvez esta confusão toda não estivesse acontecendo se ela tivesse vindo no lugar de Syaoran-ji-san.’
Shaolin franziu a testa e olhou duro para a prima. ‘Eu nunca permitiria isso!’ Rosnou entre os dentes. ‘Anda! Como eu a tiro daqui?!’
‘Talvez…’ Marie começou, mas fez uma pausa. ‘Você poderia perguntar para a sua mãe. Ela tem uma das chaves.’ Marie deu um suspiro. ‘Ela e Clow-sama.’
‘Que chave?’ O garoto perguntou, confuso.
‘As que você vai ter que pegar.’ Marie respondeu. ‘Mas não se preocupe… eu vou ajudar você, pirralho.’
O garoto começou a caminhar, puxando Kasumi com ele. Sabia onde encontraria a mãe naquele lugar. Precisava manter a calma. Era só um sonho. Um pesadelo, na verdade, mas não era real. Esperava que não fosse real.
‘Hei, Shaolin… não precisa ficar nervoso.’ Kasumi falou, sendo arrastada por ele.
‘Você vai sair daqui agora!’ Ele gritou sem parar de caminhar. ‘Não deveria ter vindo atrás de mim. Você pode se machucar! Será que não dá para entender isso? Se você vier para cá, não terá como nos vermos!’
'E você acha mesmo que eu perderia a chance de ficarmos juntos depois de tanto tempo separados?’ Kasumi respondeu, deixando-se ser puxada por ele.
Shaolin virou-se e a encarou sério, mas não parou de caminhar. 'E como acha que eu vou ficar se algo acontecer com você?’
Ela sorriu para ele. 'Agora é seu dever sempre vir me socorrer. Todas as vezes, né?’
'Claro. Você não tem magia.’
'E porque nós… somos amigos.’ Ela falou, sorrindo e fazendo-o apertar mais forte o pulso dela.
Eles eram amigos? Irmãos? Amava-a como irmã, certo? Era seu dever protegê-la... Como ela o protegeu tantas vezes antes.
Logo encontrou a mãe. Exatamente no lugar de sempre, e ainda envolvida na aura multicolorida. Kazuo estava a frente dela, com o pai logo atrás do rapaz. A posição dos dois estava diferente dos sonhos anteriores.
Shaolin estaqueou, segurando de maneira firme o pulso de Kasumi, nervoso. Assustou-se por ver a aura da mãe explodir de súbito e se posicionou à frente da menina para protegê-la. Sentiu quando a onda de choque os atingiu, fazendo-o cair sobre Kasumi, arrastando-os por alguns metros pela areia quente daquele inferno.
Ele abriu os olhos devagar. Sentia o corpo todo dolorido. Esticou os braços, afastando o rosto do chão e olhou em volta, procurando por Kasumi. Sentiu o coração falhar ao ver a menina caída no chão. Virou a cabeça, olhando na direção da mãe e reparou que a aura dela estava opaca, negra. Sentiu o corpo tremer, mas se levantou. Procurou pelo pai e Kazuo que também tinham sido atingidos e tentavam se levantar. Voltou a fitar Kasumi que se levantava devagar. Inferno! Não tinha conseguido protegê-la.
Estava para se aproximar dela quando a viu erguer o corpo e reparou que ela parecia mais velha. Como se tivesse a idade de Marie. Nos braços, pernas e rosto havia marcas negras que pareciam formar desenhos. Engoliu em seco ao ver uma katana na mão direita dela.
Nunca tinha visto a amiga empunhar uma arma na vida. O que aquela katana estava fazendo com ela? Circulando o corpo da jovem, ele conseguia ver de forma nítida a mesma aura avermelhada que ele via nos seres das trevas. Ela virou-se para ele, fazendo-o arregalar os olhos e engolir em seco diante do olhar profundo e fatal dela para ele.
‘O-O que diabos está acontecendo aqui?’
‘Isso é só uma amostra do que acontecerá se você falhar, Azrael.’ Ouviu uma outra voz familiar e virou-se para trás, vendo um anjo.
‘Quem é você? O que aconteceu aqui? O que fez com kaasan? Com Kasumi?!’ Fez as perguntas uma emendada na outra sem conseguir respirar. O ar estava mais denso ainda e o corpo mais dolorido.
Sentiu quando alguma coisa bateu nos seus pés e arregalou os olhos vendo a cabeça. A maldita cabeça. Levantou o rosto, olhando desesperado para a mãe envolta naquela energia terrível.
‘A pergunta certa é: você vai conseguir evitar isso?’ Ouviu o anjo, falando às suas costas.
Virou-se para o ser celeste que deu um passo à frente antes de ser envolvido por suas asas e desaparecer.
‘Espera!!!’ Ele gritou.
Shaolin levantou da cama, debatendo-se. Estava suado. A respiração estava acelerada e o coração parecia que sairia da boca. O quarto foi invadido em seguida pelo pai e pela mãe. Kazuo parou na porta, olhando o que acontecia.
‘O que aconteceu?’ Syaoran perguntou, olhando assustado para o filho.
Sentira a aura do garoto explodir de maneira tão violenta e rápida que, por alguns segundos, pensou que o garoto estivesse sendo atacado.
Shaolin balançou a cabeça de leve. ‘Foi um pesadelo.’ Respondeu com a voz entrecortada. Sentiu a cama afundar quando a mãe se sentou ao seu lado e a fitou, sentindo uma pressão no peito. Sem falar nada, abraçou-a apertado.
Sakura o envolveu com carinho, passando as mãos pelas costas do menino. ‘Shhh… está tudo bem, meu querido. Foi só um sonho.’
‘Por enquanto.’ Sakura e Syaoran ouviram uma voz conhecida atrás deles e se viraram.
Sonho estava num dos cantos do quarto do menino, imóvel e sem conseguir encará-los.
Sakura engoliu em seco, lembrava-se bem do rosto da carta quando a encontrou no quarto de Eriol com a poça de sangue aos seus pés, antes de decidir ir atrás de Syaoran de forma desesperada. Ela sentiu os braços do filho apertarem-na com mais força.
Syaoran franziu a testa encarando a Carta. Sonho virou-se para ele e depois para a entrada do quarto onde Kazuo estava parado, observando o irmão.
Sonho tornou-se lâmina mágica e voou até pousar nas mãos do rapaz, que a segurou sem entender direito.
Ele desviou os olhos da figura feminina na carta e olhou para o pai. ‘O-o que ela quis dizer exatamente com “por enquanto”?’
Kero estava sobrevoando ao lado do rosto do rapaz, olhando para Sakura e Shaolin. ‘Sonho é uma carta que pode trazer sonhos premonitórios.’ Ele esclareceu para o rapaz.
Syaoran respirou fundo e teve uma rápida troca de olhares com a esposa antes de voltar a fitar o filho mais velho. ‘Em outras palavras: que as coisas vão começar a se complicar.
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Sakura encontrou Syaoran na cozinha. O marido olhava para fora enquanto bebia devagar um copo de água.
‘Shaolin se acalmou. Está se arrumando para a escola.’ Ela comentou, abraçando-o por trás e repousando o rosto nas costas de Syaoran.
Ele respirou fundo e passou a mão de leve nos braços da esposa que o envolviam. ‘Estou com uma sensação ruim, Sakura.’ Falou com sinceridade.
‘Como assim?’ Ela perguntou e sentiu que ele forçou o afastamento, puxando-a para seus braços, em seguida.
Abraçou-a com carinho. ‘Não sei ao certo. Estou com quase a mesma maldita sensação do dia que o idiota do Yanamoto tentou matá-la.’ Falou, fechando os olhos e afundando o rosto nos cabelos da esposa.
Sakura passou as mãos pelas costas do esposo. ‘Então vamos ficar atentos.’ Ela virou o rosto, roçando os lábios no pescoço dele. ‘Syaoran, vai dar tudo certo. Você vai ver.’
Ele não respondeu, apenas a apertou mais forte entre seus braços. Sabia que não podia ignorar aquela sensação. Quando o fez, quase a perdeu para sempre. O problema era que não sabia direito o que fazer agora. Estava preocupado demais com Shaolin, preocupado demais com Kazuo e também com a esposa. Era como se estivesse com uma espada perto da garganta e o simples ato de respirar fazia com que a lâmina lhe ferisse a pele.
‘Por favor…’ Ele sussurrou. ‘Leve as Cartas com você hoje.’
Ela concordou com a cabeça. ‘Eu estava mesmo planejando levá-las comigo.’
‘Ótimo.’ Ele respondeu, mas não a soltou de seus braços. Ficaram quietos apenas abraçados, tentando de forma silenciosa amenizar a sensação de perigo iminente que os dois sentiam.
Syaoran levantou a mão, passando-a devagar pelos cabelos da esposa. ‘Não conseguiria viver sem você, Sakura.’ Falou baixinho.
‘Nem eu sem você, Syaoran.’ Ela respondeu, afastando o rosto do peito do marido e levantando-o para fitá-lo.
Ele sorriu de leve e passou a mão pelo rosto tão amado. ‘Por favor, cuide-se.’ Suplicou.
‘Você também.’ Ela falou. ‘Se alguma coisa acontecer com você, acho que eu enlouqueceria novamente. Não tem como viver sem você ao meu lado.’
Ele sorriu de leve. ‘Eu vou sempre estar ao seu lado, minha flor. Sempre.’ Falou, inclinando o rosto e beijando-a de leve nos lábios.
Sakura abriu os olhos e fitou o rosto do marido. ‘Preciso de você.’ Ela falou com a voz séria. ‘Não é só figura de linguagem.’
Ele franziu a testa de leve. ‘Do que está falando?’
‘Quando você teve que voltar para o mundo das trevas para destruir as brechas, eu fiquei a noite inteira caminhando sem rumo. Não conseguia entender o porquê nos amávamos tanto se parecia que o universo conspirava para nos separar.’ Ela falou de forma dolorida. Fechou os olhos rapidamente e depois voltou a abri-los fitando os olhos do esposo. ‘Não consegui voltar aqui para casa sozinha e acabei indo para a casa de Eriol-san e Kaho-san. Eu precisava achar um jeito, qualquer jeito, de ir atrás de você naquele monte de documentos que o Clow-sama tinha deixado. Foi então que Kaho-san me explicou o porquê de sermos tão ligados.’
Syaoran estreitou os olhos nela e soltou um suspiro. ‘Aquele lance de Pilar e Guardião… de novo, Sakura?’ Falou com a voz chateada.
‘Não!’ Ela corrigiu rapidamente, abraçando-o mais forte. ‘O meu equilíbrio é literalmente você, Syaoran. Não é questão de Guardião e Pilar ou de profecia ou nada parecido. É questão de…’ Ela voltou a fitá-lo e segurou o rosto do marido com as duas mãos. ‘De sermos almas gêmeas. Eu, sem você, não consigo sobreviver.’
‘Almas gêmeas?’ Ele perguntou, sorrindo de leve. ‘Isso é romance, Sakura.’
Ela balançou a cabeça de leve. ‘Acha isso mesmo?’
Syaoran pensou por alguns segundos em silêncio, observando o rosto da esposa. Fechou os olhos brevemente, lembrando-se de quando a conheceu e de como se sentiu ao vê-la pela primeira vez e, depois, em todas as vezes em que pensou tê-la perdido. Primeiro quando ela caiu no fosso do elevador quando ainda eram crianças, depois quando a viu ensanguentada nos seus braços e finalmente quando percebeu que a conexão com Khala’a tinha se rompido no mundo das trevas. Fora mais dolorido e desesperador do que quando tivera certeza de estar ele próprio morrendo.
Ele abriu os olhos, voltando a fitá-la. ‘Não.’ Respondeu e fazendo-a abrir um sorriso. ‘Eu, sem você, também não consigo viver, Sakura.’ Falou sorrindo de leve. ‘E também não é força de linguagem. Se isso é ser alma gêmea, então é o que somos.’
Sakura ficou na ponta dos pés e alcançou os lábios do esposo, beijando-o devagar. Ele a apertou mais forte contra o corpo, aprofundando o beijo apaixonado.
Shaolin e Kazuo pararam na porta da cozinha. O garoto colocou a mão no rosto e balançou a cabeça de leve.
‘Começou de novo, logo pela manhã.’ Murmurou. ‘Acho que eu já vou indo. Isso sempre demora.’ Falou para o irmão, dando meia-volta e pegando a pasta com o material escolar.
Kazuo piscou os olhos e desviou o rosto vermelho, fitando o chão. Voltou-se para o irmão que já estava colocando os tênis. ‘Mas você não vai tomar café?’
‘Com aqueles dois de agarramento na cozinha?’ Shaolin negou com a cabeça. ‘Eu como alguma coisa no caminho.’ Disse, escrevendo algo no quadro que ficava na entrada para avisar que já tinha saído.
Kazuo olhou para o irmão e depois para a cozinha. Franziu a testa. ‘Então… aquilo ali é agarramento?’
Shaolin olhou para o irmão e rodou os olhos. ‘Nós realmente precisamos conversar.’ Falou e soltou um suspiro.
‘Eu vou tomar café com você, então.’ Kazuo falou, caminhando até a entrada e colocando os tênis também. ‘Se eles estão de agarramento, não serei eu a interromper o ato de reprodução do oyaji.’
‘Cala a boca, Kazuo.’ Shaolin falou, sentindo o rosto pegar fogo. Abriu a porta e saiu, sendo seguido pelo irmão mais velho.
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Kazuo caminhava devagar, acompanhando o irmão até a escola, tinham parado em uma lanchonete para tomar o café da manhã. Sakura tinha ligado para o celular do filho, perguntando por que ele saiu sem comer e o garoto deu uma desculpa esfarrapada, avisando que estava com o irmão mais velho.
‘Hum…’ Kazuo murmurou. ‘Pelo que você descreveu parece mesmo o mundo das trevas.’
Shaolin tinha acabado de contar parte do sonho que teve para o irmão.
‘Não sei se comecei a sonhar isso porque fiquei impressionado com o que nee-san me contou de lá.’ O garoto falou, balançando a cabeça de leve. ‘Só sei que não aguento mais aquele lugar me perseguindo.’
Kazuo encolheu os ombros. ‘Não é legal mesmo.’
Shaolin olhou de esguelha para o irmão que caminhava devagar ao lado dele com as mãos no bolso. ‘Não dá para acreditar que você veio de lá. Não dá para acreditar que você viveu lá.’
‘A gente se acostuma. Na verdade, como sempre vivi lá, não tinha muita ideia de como era fora.’
‘Você está mentindo.’ O garoto falou, fazendo o rapaz arregalar de leve os olhos e virar-se para ele.
‘Do que está falando, pirralho?’
Shaolin aumentou o sorriso irônico ao ouvi-lo chamando de pirralho. Se tinha dúvida, agora era certeza que pegou o irmão na mentira. ‘Você tinha ideia sim que não existia só aquilo. Como é que você chamou mesmo aquele lugar?’ Fez uma pequena pausa e virou-se para ele. ‘“Aquele deserto de merda sem bosta nenhuma, a não ser areia e o céu em chamas”. Acho que foi isso?’
Kazuo respirou fundo. ‘É um lugar de merda mesmo.’ Falou com sinceridade.
‘E sei também que não está com a menor vontade de voltar para lá como adora ficar falando.’ Shaolin completou, agora olhando para frente.
‘Humph’. Ele murmurou contrariado. ‘Agora acha que sabe tudo ao meu respeito, pirralho?’
‘Se você continuar me chamando de pirralho desta maneira só vai confirmar que eu estou certo.’ Ele falou. ‘Ultimamente, você só tem me chamado assim quando está contrariado. Isso quer dizer, que eu estou acertando o que estou falando.’
‘Rá!’ Ele soltou em tom irônico. Depois respirou fundo e soltou o ar devagar. ‘Aquela bola de pelo falou que Sonho mostra premonições.’ Ele comentou em tom sério.
Shaolin sentiu o corpo tremer. ‘Sim… eu ouvi.’ Ele concordou.
‘Sempre tem este tipo de sonhos?’
‘Às vezes...’ Ele falou. ‘Mas de uns tempos para cá, ficaram mais frequentes e coincidiram com tousan cobrando mais de mim no treinamento.’ Comentou, franzindo a testa de leve. ‘Mas foi a primeira vez que a Kasumi apareceu no sonho.’
‘A Kasumi?’ Kazuo indagou, erguendo uma sobrancelha.
‘Não vem pensar besteira!’ O Garoto já o cortou rapidamente. ‘Nee-san também estava nele, e não tem como as duas invadirem a minha cabeça para terem filhos comigo, certo?’ Falou, batendo de leve na própria cabeça com o indicador.
‘Acho que não.’ Kazuo falou e ajeitou o corpo, sentindo-se incomodado. ‘A Marie também estava no seu sonho, é?’
Shaolin estreitou os olhos no irmão. ‘Sim… e pode ter certeza que ela não quer ter um filho comigo.’
‘Eu não tenho nada a ver com isso.’ Kazuo falou, encolhendo os ombros novamente. ‘O que aquela ruiva metida quer ou não, não me interessa.’
‘Claro.’ Shaolin falou devagar, ainda olhando para o irmão. ‘Realmente… você é um péssimo mentiroso.’
‘Qual é a sua, pirra…’ Ele reteve-se e olhou para o irmão. Balançou a cabeça de leve e voltou ao ponto. ‘E o que mais você sonhou?’
Shaolin soltou um suspiro, voltando a olhar para a calçada enquanto caminhava devagar. ‘Kaasan… a aura dela tinha mudado. Tinha se tornado negra… ruim…’ Ele sentiu um calafrio percorrer a espinha. ‘Você e tousan estavam junto com ela.’
‘Nós dois?’ Kazuo falou.
‘Sim… você estava perto dela. Eu estava indo até ela para perguntar sobre uma chave. Uma chave que nee-san, no sonho, disse que poderia tirar a Kasumi daquele lugar. Eu estava com medo que alguma coisa acontecesse a ela. Ela não tem magia…’ Ele reteve-se e olhou de esguelha para o irmão, reparando na aura púrpura em torno dele e franziu a testa, lembrando-se da aura em torno de Kasumi ter a mesma coloração. A amiga não tinha magia, nunca teve… E por que diabos ela estava mais velha e com aquelas marcas no corpo no seu sonho? Era realmente a Kasumi? Não, talvez não fosse a amiga… não poderia ser ela…
Kazuo reparou no semblante sério do irmão. ‘O que foi?’
Shaolin virou-se para ele. ‘Nunca me perdoaria se alguma acontecer com Kasumi…’
‘Você gosta tanto assim dela?’
‘Ela é como se fosse minha irmã.’ Ele respondeu.
‘Irmã? Sei…’ Kazuo falou. ‘Quem está mentindo agora?’
Os dois ficaram em silêncio, caminhando em direção à escola do garoto.
‘Estou com medo do que pode acontecer com kaasan.’ Shaolin falou, voltando ao sonho. ‘E o fato de Sonho estar no meu quarto, isso me deixou apavorado.’ Disse com sinceridade para o irmão.
Kazuo concordou. ‘Sua mãe vem para a escola hoje, não é?’
‘Sim.’ Shaolin respondeu. ‘Eu vou ficar de olho nela. Ou melhor, prestar atenção na presença dela.’
O rapaz acenou com a cabeça. ‘Vamos ficar atentos.’
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Sakura estava dando aula para o terceiro ano. Estavam fazendo uma aula de ginástica com aparelhos e as crianças conversavam distraidamente enquanto esperavam sua vez de executar um salto entre as mãos no cavalo de salto.
Ela apitava, autorizando o primeiro da fila a iniciar o movimento, enquanto se mantinha atenta para a execução de cada um, a fim de evitar machucados e, também, de perceber se a criança fez o movimento certo ou se precisaria repetir, ajustando alguma coisa.
Subitamente, uma sensação ruim percorreu seu corpo, fazendo-o estremecer de tal forma que sentiu as pernas enfraquecidas. Deu um passo para trás e levantou a mão, chamando a atenção do professor auxiliar que foi até ela correndo.
‘Tudo bem, Li-sensei?’ O rapaz perguntou preocupado.
‘Não estou me sentindo bem.’ Ela falou, sentindo a temperatura do corpo cair, mas tentando se controlar. ‘Por favor... Continue a aula.’ Conseguiu orientar o rapaz, afastando-se. Não queria assustar as crianças.
Tinha acabado de passar pela saída do ginásio quando, finalmente, sentiu as pernas falharem e uma dor absurda comprimir seu peito. Parecia que seu coração estava sendo esmagado. Caiu de joelhos no chão, apoiada na parede e mordeu forte os lábios para evitar gritar de dor e chamar a atenção das crianças.
Sentiu inúmeras presenças estranhas se aproximando e levantou o rosto, observando um grupo numeroso cruzar a quadra esportiva, aproximando-se dela.
Franziu a testa. Tinha impressão de já ter visto o velho que estava na frente deles em algum momento da vida. Balançou a cabeça de leve, novamente sentindo aquela dor insuportável. Tentou se levantar, mas não conseguiu.
Smith parou a poucos metros dela com um sorriso enorme.
‘Como vai Sakura Kinomoto?’ Ele a cumprimentou. ‘Ou melhor, Sakura Li, agora, não é?’
Ela respirou fundo e conseguiu se levantar, ainda apoiada na parede do ginásio. Estreitou os olhos nele e finalmente o reconheceu. Era o mesmo feiticeiros que estava com Logan quando o caçador apareceu para enfrentar Syaoran. Estava mais velho, mas o reconheceu principalmente pela aura que lhe causava repulsa desde o primeiro momento em que a havia sentido.
Smith deu alguns passos em direção a ela mandando seu grupo manter-se alerta. ‘Não sabe a satisfação que sinto em encontrá-la novamente, minha querida.’
Sakura engoliu em seco, sabia que estava em perigo. Olhava do rosto do homem para o grupo numeroso de feiticeiros que estava atrás dele. Todos eram jovens e ela conseguia perceber a energia mágica forte deles. Inclusive, uns tinham auras mágicas mais fortes do que aquele idiota à sua frente. Sentiu as pernas fracas novamente e caiu de joelhos no chão.
Smith levantou a mão para tocar no ombro de Sakura.
‘Deus do trovão, vinde a mim!’
A descarga elétrica atingiu Smith que recuou, afastando-se alguns metros de Sakura, e olhou para o lado, observando o garoto de cabelos claros e olhos verdes. Olhou para a mão queimada pela magia do garoto e trincou os dentes.
‘Então este é seu filho com aquele demônio?’ Ele falou entre os dentes.
‘Afaste-se da minha mãe, velho idiota.’ O garoto falou entre os dentes, empunhando a espada.
Shaolin tinha sentido a instabilidade da aura da mãe no meio da aula. Simplesmente se levantou e saiu correndo, pulando as escadas e materializando a espada. Correu ao encontro dela desesperadamente e ficou furioso ao encontrá-la enfraquecida daquela maneira, sendo cercada por aquele grupo de estranhos.
‘Sakura-ba-san…’ O garoto ouviu a voz receosa de Kasumi atrás de si. Olhou rapidamente para trás sobre o ombro direito, vendo a menina. Droga! Ela veio atrás dele quando saiu da sala.
‘Fica com kaasan. Veja como ela está, por favor.’ Ele pediu e caminhou em direção a eles, parando na frente da mãe e encarando Smith.
Kasumi foi até a tia e se ajoelhou na frente dela. Ela estava pálida, muito pálida e, quando tocou os braços dela, percebeu que estava fria.
‘Shaolin… ela não está bem.’ Avisou o menino, tocando a testa da tia e olhando para ela preocupada.
O menino não desviou os olhos do inimigo. Tinha que tirar a mãe dali e, talvez, levá-la para um hospital.
‘Temos que tirá-la daqui.’ Kasumi falou, como se lesse seus pensamentos. Passou um dos braços da tia sobre os seus ombros para lhe dar apoio e tentar ajudá-la a andar.
‘Acha que pode com a gente, moleque?’ Smith falou entre os dentes, observando o garoto. ‘Você tem o mesmo olhar petulante que o seu pai.’
Shaolin não falou nada, estava analisando o grupo atrás do feiticeiro mais velho. Ele era fraco, já tinha percebido isso, o problema eram os outros. Reparou que ele parecia ser o líder. Como e porque, não sabia.
Pensou em algo que o irmão falou sobre o mundo das trevas. Se acabasse com o líder, os outros recuariam. Talvez esta estratégia pudesse funcionar.
Desviou os olhos do grupo atrás de Smith e franziu a testa. Voltou a cravar os olhos no mago, empunhando a espada com mais firmeza. Tinha escolhido seu alvo, só precisava proteger a mãe e Kasumi ao mesmo tempo em que acabaria com aquele velho idiota.
Smith engoliu em seco, devia estar ficando louco por ter receio de um moleque daqueles.
‘S-Shaolin… Na escola… não.’ A mãe sussurrou, controlando a respiração. ‘Para o bosque… Movimento.’
Shaolin levantou a mão para o lado e as Cartas que estavam com a mãe voaram para as mãos dele. ‘Vamos nessa.’ Ele falou, concentrou-se e a mandala octogonal surgiu aos seus pés, fazendo a aura mágica se expandir. ‘Movimento.’ Invocou a Carta que envolveu a todos na energia mágica e os levou até bosque de Tomoeda.
Smith olhou assustado para a energia que envolvia a todos, piscou os olhos sem entender como foram da escola primária de Tomoeda, para o bosque perto dela. Sentiu uma gota de suor escorrer pela lateral do rosto. Aquele garoto tinha conseguido fazer isso?
Não teve nem tempo de pensar na resposta, sendo novamente atacado pelo garoto e, apenas conseguindo levantar o braço para impedir que o ataque dele fosse crítico, por puro reflexo. Recuou, observando assustado o braço ferido e sangrando.
‘Garoto insolente!’ Gritou irado. ‘Ataquem-no! Matem-no!’ Ordenou para os jovens que o acompanhavam e também se sentiam desorientados pela mudança repentina de lugar.
Shaolin deu um passo para trás, observando o velho basicamente colocar o rabo entre as pernas enquanto cinco rapazes pulavam sobre ele, tentando golpeá-lo com armas. Abaixou-se, evitando ser atingido e esquivou-se de outro ataque. No processo, viu que outros se aproximavam da mãe e Kasumi.
‘Escudo!’ Invocou a magia da carta que as envolveu na barreira mágica, impedindo que se aproximassem.
Sentiu quando uma das armas passou perto de seu rosto, ferindo-o de raspão. Com um rolamento, conseguiu se esquivar novamente do ataque múltiplo e pegou um dos talismãs.
‘Eu invoco o Deus Trovão, com a máxima urgência, de acordo com o pacto estabelecido. Ataque relâmpago!’ Invocou a magia, acertando dois dos seus oponentes, mas foi arremessado longe por uma rajada de vento que o arrastou por vários metros pelo chão. Levantou o rosto e franziu a testa, vendo pelo menos três caras correndo na sua direção para acertá-lo.
Trincou os dentes ao perceber também um ataque mágico vindo em sua direção. Fechou os olhos, pronto para sentir o ataque. Invocar Escudo estava fora de questão, pois não permitiria que a mãe e Kasumi ficassem sem a proteção mágica.
Ouviu o som de choque entre energias mágicas e, logo depois, uma explosão bem próxima a ele, mas que não o atingiu. Alguém tinha desviado o ataque. Abriu um olho, tentando entender o que tinha acontecido quando viu Kazuo a sua frente.
‘Você está bem, Shaolin?’ Ouviu o irmão perguntar, com a voz preocupada e séria.
Ele se levantou e passou a mão no rosto limpando o sangue. ‘Eu estou legal.’ Respondeu, ficando em posição de ataque ao lado do irmão. ‘Aquele velho ali atrás, que está se mijando, é que parece ser o líder.’
‘Tá de sacanagem comigo?’ Kazuo falou, desviando os olhos dos inimigos que se preparavam para atacá-los e fitando Smith rapidamente.
‘Pensei o mesmo que você.’ Shaolin respondeu, mas logo teve que se afastar do irmão, pois os atacavam com fúria.
Kazuo levantou a espada interceptando o ataque de um oponente que tinha nas mãos um enorme machado mágico. Atingiu-o com um chute alto, fazendo-o se afastar dele e, em seguida, fora obrigado e atingir um inimigo que vinha pelas suas costas com um soco giratório e uma cotovelada no peito.
Girou novamente o corpo e segurou a espada com as duas mãos, golpeando outro oponente que estava armado também com uma espada. Não teve clemência, franziu a testa e atingiu-o de forma mortal. Viu o corpo do inimigo cair no chão sem vida e sua espada mágica ficar suja de sangue.
Encarou o grupo que o rodeava e reparou que eles agora o olhavam assustados. Sorriu de lado. ‘Não tenho pena como o meu irmão mais novo.’ Falou de forma irônica, ao mesmo tempo que flexionava os joelhos para pegar impulso e se aproximar deles, golpeando-os com força e agilidade. Já tinha experiência naquele tipo de situação.
Sentiu que a presença do irmão estava agitada e olhou rapidamente para ele, enquanto trocava golpes com seus oponentes. Reparou que o garoto não conseguia, realmente, atacar os adversários de forma letal. Aquilo não era bom, se ele continuasse hesitando assim acabaria morto. Droga!
Com a breve distração, acabou sendo ferido no ombro direito, mas não se importou. Voltou totalmente sua atenção para o grupo que o cercava e pensou que precisava ser rápido para conseguir ajudar o irmão. Apertou mais forte a empunhadura da espada que havia ganhado do pai e, sem piedade, atacou os inimigos. Não teria pena de quem estava ameaçando a sua família.
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Syaoran estava na linha de produção conversando com um dos técnicos sobre a instalação do equipamento novo que haviam adquirido para a fábrica. Estava com dor de cabeça e aquela maldita pressão no peito desde manhã e, consequentemente, estava irritado. A conversa já estava a ponto de virar uma discussão quando ele sentiu o ar lhe faltar nos pulmões. Deu um passo para trás.
‘Li-san, o senhor está bem?’ O técnico se aproximou dele, vendo-o empalidecer.
Syaoran levantou a mão, evitando que o homem se aproximasse. ‘Estou bem. Preciso ir.’ Falou, afastando-se dele que olhou assustado para o engenheiro que corria, desviando dos funcionários da fábrica.
Kurogane chamou por Li ao vê-lo se aproximar correndo, mas o chinês passou por ele avisando que depois conversariam. Não tinha tempo a perder. Sabia que alguma coisa grave tinha acontecido com a esposa.
Finalmente conseguiu sair da fábrica e olhou para o céu, franziu a testa e conseguia sentir a energia instável de Sakura. Pegou o telefone celular ao mesmo tempo que corria em direção a escola, não daria tempo de pegar o carro, seria mais rápido pular os muros e construções em linha reta até chegar lá.
Pulou um muro com agilidade e subiu no telhado da casa, correndo por ele e pulando até o da casa vizinha, enquanto mantinha o celular no ouvido chamando. Trincou os dentes, Sakura não atendia.
‘Inferno!’ Soltou, desistindo do telefone e voltando a saltar pelas construções para seguir em direção a escola primária de Tomoeda.
Sentiu a presença do filho expandir de forma estúpida ao mesmo tempo que sentia a presença de Sakura enfraquecendo.
Ouviu que o chamaram e o xingaram enquanto, literalmente, atravessava todos os obstáculos urbanos, sem se importar com o que fosse. Tinha que chegar logo até a esposa e o filho.
Cortou a frente de vários carros ao atravessar uma avenida movimentada de Tomoeda, fazendo os motoristas quase enlouquecerem ao vê-lo desviar ou pular sobre os ônibus e caminhões com agilidade e continuar sua corrida.
Contornou um prédio mais alto, quase empurrando as pessoas para que saíssem de seu caminho e voltou a pular pelas construções mais baixas, evitando encontrar com transeuntes que o atrapalhariam mais.
Sentia agora a energia de Kazuo em expansão. Deduziu que o rapaz já deveria estar ciente do que estava acontecendo. Ele saiu com Shaolin pela manhã e deviam ter conversado sobre o sonho do garoto.
Kazuo era esperto, tinha ficado atento. Trincou os dentes, pensando que deveria ter feito o mesmo e não ter ido trabalhar. Novamente, tinha minimizado aquela sensação de perigo iminente. Agora toda sua família estava em perigo e ele estava longe demais para protegê-los. Inferno.
Não queria aquilo para os filhos, não queria que eles tivessem a merda dos mesmos problemas que ele teve que enfrentar antes de morrer pela segunda vez. Balançou a cabeça de leve.
Kazuo tinha vivido anos naquele inferno e agora, que estava junto dele, com a família deles, ajustando-se para ter uma vida normal, acontecia aquela merda.
Ele já estava ciente que aquilo aconteceria, Gabriel já o tinha avisado dos problemas, mas, no fundo, acordava todos os dias desejando e pedindo para Deus, Enma Daiyoh, ou sabe-se lá para que divindade, que aquele momento do qual o anjo o tinha alertado não chegasse nunca.
De cima do telhado de uma casa tradicional japonesa, avistou o bosque de Tomoeda e reparou as energias mágicas se chocando de forma violenta. Semicerrou os olhos, retirando sua esfera negra do bolso. Ele já tinha lutado contra praticamente o inferno inteiro antes. Quem quer que fosse, iria se arrepender por ameaçar sua família.
Continua.
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