FEITICEIROS

Por Kath Klein

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 07

Magnetismo

Tomoyo desligou o celular e soltou um longo suspiro. Tinha acabado de falar com Eriol e contado o que acontecera com Sakura e Li depois de sumirem por mais de dois dias. O rapaz, em vez de ajudar, acabou ficando mais preocupado e não tinha a menor ideia do que poderia ter acontecido com os dois amigos.

‘Quem é este tal de Hiiraguizawa, Tomoyo?’ Sakura estava sentada no meio da sua cama em posição de buda. Kero estava ao lado dela e se irritava toda vez que sua mestra apertava seu barrigão, pensando que fosse algum dispositivo para ele falar ou no caso, parar de falar. Ela ainda não estava convencida de que ele não era realmente um boneco das indústrias Daidouji. A jovem ruiva se inclinou para frente com um sorriso maroto. ‘Você tem um namoradinho em Londres, é Tomoyo? E eu pensando que você estava encalhada...’

‘Sakura!’ A amiga falou, brava com a colocação dela. ‘Hiraguizawa é casado com a professora Mizuki!!!’

‘Humf... não lembro desta professora, Tomoyo.’ A jovem falou, colocando um dedinho no queixo e franzindo a testa. ‘E nós estudamos sempre juntas. Você está me escondendo alguma coisa...’

Tomoyo olhou para Kero com olhar de súplica. ‘Pelo amor de Deus, Kero. Você tem que fazê-la lembrar, senão eu vou enlouquecer.’

Sakura riu da colocação da amiga, mas reparou nas bochechas rosadas da jovem. Ela tinha ficado envergonhada com o comentário de um namorado londrino. Tomoyo era muito chique, então era bem capaz de preferir um intelectual ao bonitão de hoje a tarde, sorriu. Ela é quem tinha gostado do rapaz.

Ouviram alguém batendo na porta. ‘Deve ser a Meilyn.’

Sakura estranhou. ‘A tal chinesa do parque?! Por que ela viria para cá?’

‘Por que ela chegou ontem da China e dormiu aqui comigo, ou pelo menos tentamos dormir porque estávamos preocupadas demais com você e Syaoran.’

‘Syaoran?’ Sakura falou surpresa. ‘Você é rápida, já está chamando-o pelo primeiro nome.’ Completou com um sorriso malicioso nos lábios.

Tomoyo explodiu de vermelha. ‘Para já com isso, Sakura!’ Falou apontando para a jovem. ‘Ele é seu namorado! Por Deus... você é louca por ele.’ A morena se afastou tentando se controlar. Estava uma pilha de nervos, e olha que ela sempre se considerou uma mulher calma e equilibrada. Aquele casalzinho de feiticeiros estava deixando-a louca com aquele vai e vem sem fim.

Sakura rodou os olhos já começando a ficar um pouco irritada com tudo aquilo. O irmão queria por que queria que ela fosse morar com ele e só com a intervenção de Yukito que, de forma irônica, foi um anjo na Terra, conseguiu convencê-lo de que não era mais uma criança e que já tinha sido combinado com o pai, que ela moraria na Faculdade com Tomoyo. Foi obrigada a buscar as lembranças do pai para que o Touya aceitasse e isso era doloroso para a jovem. Fujitaka lhe fazia muita falta. Apesar dos protestos “touyanos”, ela continuou na faculdade.

Tomoyo foi abrir para a amiga. ‘Como ela está?’ Foi a primeira pergunta da chinesa.

A morena deu de ombros. ‘Na mesma.’ Foi a resposta já informando que ela não lembrara de nada ainda.

‘Xiao Lang também não se lembrou de nada. Me chamou de doida ainda, por falar com ele de magia e insinuou que eu ando usando substâncias ilegais.’ Ela falou e suspirou. ‘Eu não sei nem como contar isso para a tia Yelan. Ela tinha tanto orgulho por ele ter herdado magia dela.’

Meilyn caminhou até uma cadeira, puxou para se sentar a frente de Sakura que a olhava intrigada.

‘Você também não se lembra de nada?’

Sakura fechou os olhos novamente para buscar força e paciência para repetir o que estava falando nas últimas horas. Ela se lembrava de tudo, eles é que estavam ficando malucos ou será que aquela garota a sua frente na verdade estava vendendo drogas para seus amigos? Claro! Porque do nada apareciam dois chineses que ela nunca tinha visto na vida e agora todo mundo ficava contando estórias loucas de magia, zumbis, lobisomens... o que viria agora? Vampiros?!

‘Não adianta, encrenqueira.’ Kero falou pairando a frente da chinesa. ‘Simplesmente tudo relacionado à magia se perdeu na mente dela.’

‘O mesmo aconteceu com Syaoran.’ Ela falou suspirando. ‘Ele não tem a menor ideia do que é magia. Ficou brincando com a esfera negra como se fosse uma bola comum.’ A jovem se levantou com pesar. ‘Pelo menos eles estão bem fisicamente. Vou ligar para a tia Yelan, ela deve estar muito aflita.’

Sakura acompanhou aquela jovem completamente estranha falando em mandarim pelo celular. Parecia realmente aflita. Franziu a testa começando a desconfiar que talvez alguma coisa estivesse realmente errada com ela. A jovem desligou o telefone e fitou a amiga. ‘Tia Yelan deu uma ideia. Cadê as cartas?’

Kero arregalou os olhos. ‘Isso! As cartas! Sakura, pegue suas cartas!’

‘Que cartas? Eu não tenho cartas!’

Tomoyo foi até as roupas que a jovem tirou assim que chegou em casa, antes de tomar banho, e encontrou as lâminas mágicas. Sakura arregalou os olhos pensando que cada vez mais se surpreendia com a prima. A morena sentou em frente à amiga e começou a virar as cartas uma a uma, rezando para que alguma a fizesse lembrar-se de tudo.

Vento, Alada, Água, Bosque, Sombra, Bolhas, Flecha, Grande, Troca, Nuvem, Criação, Corrida, Sonho, Terra, Apagar, Luta, Fogo, Flor, Brilho, Ilusão, Salto, Labirinto, Espelho, Gelo, Escudo, Espada, Trovão, Flutuação, Balança, Pequeno, Cadeado, Movimento, Doce, Através, Tempo, Névoa, Força, Chuva, Retorno, Areia, Disparo, Silêncio, Sono, Neve, Canção, Tempestade, Gêmeos, Voz, Água, Luz e Trevas.

Sakura observou aquelas lâminas fascinada, eram tão lindas e com desenhos tão interessantes. Sorriu e olhou para a amiga que já tinha esperança de que ela estivesse começando a se lembrar de alguma coisa. Meilyn e Kero estavam ansiosos observando Sakura.

‘E aí?!’ A ruiva falou. ‘O que você consegue ver do meu futuro? Vou passar em Anatomia?’

Tomoyo fechou os olhos decepcionada. Meilyn e Kero estavam ainda sem saber o que fazer.

‘Anda, Tomoyo, fala logo o que você tá vendo aí.’

‘Desisto.’ A morena falou batendo a última carta na mão, aflita. Jogou Esperança por cima de todas como se ali estivesse jogando a toalha de continuar forçando a prima a se lembrar de algo. Sakura estava bem fisicamente, talvez fosse até melhor que a magia tivesse saído de sua vida, assim poderia viver uma vida pacata e tranquila como uma estudante normal no campus da universidade de Tomoeda.

A ruiva cerrou seus olhos na figura jovem de cabelos longos segurando um coração nos braços. Ela pegou a carta com interesse enquanto Tomoyo conversava com a chinesa e o bonequinho falante e levantou a carta na altura de seu rosto, franzindo a testa.

‘Esperança’. Sussurrou e sorriu. “Eu te amo....” ouviu o grito de uma menina ecoar na sua cabeça. “Eu te amo, Syaoran.” Largou a carta como se tivesse levado um choque. ‘Guarda isso, Tomoyo. Isso é muito barra pesada. É ocultismo.’ Falou levantando-se e caminhando até a pequena geladeira do apartamento. Pegou uma garrafa de água gelada e se serviu. Ofereceu à chinesa, pois imaginou que ela estivesse com a boca seca de tanto que falava. O copo de água foi prontamente aceito.

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Meilyn estava no refeitório da faculdade com Sakura. Apesar de achar que a chinesa era bem louca e temperamental, a ruiva não teve como não admitir que ela era bem animada. Falava com entusiasmo do Grande Clã Li e como ele era poderoso e coisa e tal, mas estava na cara que a jovem chinesa estava adorando a atmosfera de um campus universitário. Não estava nem conseguindo acompanhar o furor dos jovens que se divertiam. Tudo era tão animado, tão diferente da sobriedade do poderoso Clã.

Chiharu se aproximou para cumprimentar a chinesa que estudou alguns meses com eles na época de escola. Apesar do pouco tempo a presença de Meilyn era, como dizer, marcante para qualquer um. Sakura estranhou seus amigos de escola lembrarem da jovem, mas deu de ombros. Olhou o relógio e pensou que Tomoyo estava atrasada, a jovem tinha acordado naquela manhã e se enfurnado na biblioteca estudando uns livros velhos, havia levado aquele bichinho de pelúcia falante. Poxa, ela estava morrendo de fome, mais um pouco e não daria para ela almoçar e ir assistir à aula de Fisiologia. Já tinha tido bomba na matéria de Anatomia, não queria tomar bomba em outra matéria.

Tomoyo apareceu em poucos minutos, estava com o rosto cansado e tinha um livro de capa verde nas mãos. Kero estava dentro da sua bolsa e a jovem colocou-a aberta de forma discreta em uma das cadeiras para o bichano respirar melhor. Ele queria ir logo para o apartamento delas, mas Tomoyo preferiu ir almoçar com Sakura e Meilyn, pois estava com fome. Mal tinha encostado no manhã no café.

Sakura percebeu a preocupação da amiga e no fundo sentiu-se mal por isso, não gostava de ser motivo de preocupação para ninguém. Pela manhã Meilyn tinha contado sobre os problemas que a cidade de Tomoeda estava passando. Voltaram a ter vários assassinatos estranhos e a chinesa não foi nem um pouco delicada em frisar que se ela e Syaoran não estivessem agora desmemoriados, poderiam estar ajudando os outros. Yue e Kerberus estavam tentando dar conta do recado sozinhos, por isso o bichano estava com sono e dormia de forma plácida na bolsa da morena. Ele tinha perdido a madrugada toda lutando contra criaturas medonhas, pelo menos foi esta a explicação da jovem chinesa. Sakura pensou que ela estava era louca, mas vendo o semblante cansado da prima e depois de tantos indícios de que realmente ela esquecera de fatos que todos a sua volta lembravam, começava a se sentir incomodada. Brincava com a comida no prato sem conseguir comer direito. Sentiu quando alguém sentou-se ao seu lado, pois a mesa estava cheia e havia só uma cadeira vazia.

‘Ora, se não é a senhorita Daidouji.’ A ruiva reconheceu a voz e o sotaque diferente dos estudantes locais, apesar de ter um japonês perfeito. Desviou os olhos do prato e olhou de esguelha para o chinês. ‘Então você é realmente amiga dela, Mei Ling.’ Ele falou sorrindo para a bela morena.

Tomoyo sorriu cansada. Como fazer os dois cabeças ocas entenderem que se amavam? Levou uma das mãos ao rosto em total estado de esgotamento mental e físico. Fez um movimento mais brusco e acabou por derrubar o livro que tinha trazido da biblioteca no chão, abaixou para buscá-lo e, por baixo da mesa, reparou que Sakura e Li tinham as pernas encostadas. Franziu a testa, lembrando-se da vez que tinha reparado nisto na biblioteca. Sorriu. Eles podiam não perceber, mas estavam eternamente ligados um ao outro.

Sakura reparou no sorriso que a prima tinha dado ao se levantar. O tal livro deveria ser muito importante para ela estar tão feliz assim em buscá-lo sem danos da queda ao chão. ‘Bem, então os dois não se lembram de nada, não é?’ Ela falou e pôde perceber que tanto Li quanto Sakura soltaram um suspiro de irritação.

‘Eu não aguento mais esta história.’ Sakura sussurrou.

‘Tive que ouvir por mais de duas horas esta ladainha de magia.’ Li falou irritado depois de ouvir o comentário da jovem.

Sakura deu uma risadinha irônica. ‘Duas? Eu estou ouvindo desde que eu acordei da minha soneca no parque. Maldita soneca.’ Ela completou. ‘Além disso, sua prima se alojou no meu apartamento e não no seu.’

Li fez cara de “o ofendido”. ‘No meu clã, mulheres não podem dormir no mesmo ambiente que os homens.’

Sakura rodou os olhos, Meilyn já tinha falado por horas das regras do Clã. ‘Oh!’ Sakura não pôde deixar de debochar. ‘Que azar o delas.’

‘Não estou entendendo a sua colocação, senhorita... irmã de maluco.’ Falou referindo-se a Touya.

‘Kinomoto.’ Ela consertou. ‘E você não conhece o meu irmão para ficar julgando-o. Se acha que é tão especial assim por causa do tal Clã, não entendo o que está fazendo aqui, Senhor Li.’

‘Estudando... e me divertindo um pouco antes de assumir minha posição no Clã.’

Sakura rodou os olhos. Que cara idiota. Pensou para si, como Tomoyo realmente queria que ela acreditasse que um dia ela pudesse estar namorando com um cara como aqueles? Pobre prima, era melhor que ela tivesse realmente um namorado britânico a um chinês.

Eles ficaram em silêncio e Tomoyo como boa observadora percebia que quanto mais se hostilizavam, mais ficavam próximos fisicamente um do outro. Como magnetismo, estavam praticamente se esbarrando o tempo todo e mal percebiam que, tanto um quanto o outro, fazia de tudo para se encostarem.

‘Ora! Se não é minha princesa!’ Yoo Kurogane, o colega de alojamento de Li, se aproximou puxando uma cadeira e sentando à mesa, entre Tomoyo e Syaoran. A morena rodou os olhos. Deus estava de sacanagem com ela hoje. Sorriu sem graça para ele.

‘De onde você a conhece?’ Li perguntou erguendo uma sobrancelha.

‘Oras, quando ela foi te procurar no nosso quarto.’ Ele falou e a morena teve vontade de se esconder debaixo da mesa. Agora todos olhavam para ela. “Cadê o buraco?!” Pensava Tomoyo desesperada.

‘Hum...’ Syaoran murmurou e não pode deixar de sorrir de lado. ‘Então a senhorita andou me procurando no meu alojamento?’

‘Tomoyo?’ Sakura perguntou se inclinando para frente. ‘Você está vermelha.’

‘Que história é esta, Daidouji?’ Meilyn quase gritou.

Tomoyo encarou todos, irritada. ‘Não é nada disso que vocês estão pensando.’ Ela voltou-se para Kurogane. ‘Você está me confundindo com outra garota.’ Tinha que mentir.

Ele pegou a mão da jovem delicadamente entre as dele e balançou a cabeça negando. ‘Nunca a confundiria com outra garota, minha princesa.’

Tomoyo tentou puxar a mão que o rapaz segurava. ‘Acho que o senhor... está ficando maluco...’

Syaoran puxou o rapaz fazendo-o soltar a jovem que estava desesperadamente sem graça. ‘Hei, se ela me procurou não tem porque você ficar aí babando ela, não é?’

Kurogane virou-se para ele com o olhar em chamas. ‘Olha... você oficialmente é namorado da Kinomoto. Então não fica querendo dar uma de garanhão.’

‘Hei Hei Hei... Não me coloca neste rolo não!’ Sakura falou incomodada. ‘Não tenho nada com este aí.’

Kurogane olhou para o amigo e depois para a jovem que ele tinha visto inúmeras vezes ir ao seu dormitório atrás de Li, com a desculpa de fazer curativos, mas o rapaz tinha certeza que faziam era muito mais do que isso. Inclusive, lembrava-se claramente da jovem aparecer toda arrumada e linda pedindo para ele desaparecer, pois gostaria de ficar sozinha com o amigo para uma “festinha particular”.

‘Que está acontecendo aqui?’ Perguntou, realmente sem entender o que se passava. ‘Vocês dois transaram todos os dias no último mês me obrigando a ficar horas na sala de estudo e agora ficam com esta palhaçada de que não se conhecem. Vocês estão de sacanagem comigo, é?’ Exclamou irritado.

‘O quê?!’ Sakura gritou. ‘Do que você está falando?’

‘Syaoran! Que história é esta da Tomoyo te procurar no seu quarto e você e ela...’ apontou para Sakura. ‘...estarem fazendo você-sabe-o-quê que não se pode fazer antes do casamento?!’ Meilyn falou brava para o primo que se mostrava completamente surpreso.

‘Eu não sei de nada. Ele está maluco!’

Tomoyo deu um longo suspiro e olhou para o rapaz que estava ao seu lado. ‘Eles estão desmemoriados.’ Ela respondeu por fim. Talvez o rapaz bobo pudesse ajudá-los nesta questão. Era a pessoa mais próxima de Li na faculdade depois deles.

‘Desmemoriados?’ Kurogane falou fitando os dois. Aproximou-se fitando o amigo de perto e vendo que ele estava sem graça. ‘Então você não se lembra de nada? Bateu com a cabeça?’

‘Mais ou menos.’ Tomoyo respondeu antes de Li que rodou os olhos irritado novamente.

Ele estava ótimo, todos é que estavam insistindo naquela loucura toda de magia, namorada, namoradas... enfim... em tudo.

Kurogane afastou-se do rapaz e desviou os olhos para Sakura. ‘Vocês não se lembram um do outro?’ Perguntou apontando para os dois e viu-os confirmarem com gestos e soltarem pequenas exclamações de que era claro que não se conheciam e coisa e tal. ‘Hum... Makoto ficará feliz em saber que Kinomoto não está mais namorando o Li.’ Concluiu rindo.

‘Hei, você está aqui para ajudar ou para complicar mais?’ Tomoyo perguntou.

Ele voltou-se para a jovem e sorriu. ‘Por você, eu faço qualquer coisa.’ Falou e sorriu ainda mais, vendo o rosto alvo se avermelhar. ‘Bem...’ Voltou-se para os dois. ‘Acho que se perguntarem para qualquer pessoa aqui do Campus, todos vão confirmar que estão namorando.’

‘Claro que não.’ Sakura falou incrédula.

‘Você está de sacanagem comigo, Kurogane.’ Li exclamou.

‘Então por que a Kinomoto está praticamente no seu colo, Li?’ Ele perguntou com um sorriso malicioso e observou os dois olharem um para o outro espantados, finalmente reparando que estavam muito, muito próximos um do outro. Literalmente pularam se afastando.

Tomoyo e Meilyn riram com gosto dos rostos do casal. Estava começando a ficar divertida aquela situação.

‘Eu não estava no colo dele.’ Sakura falou irritada. ‘Você que é um pervertido.’ Ela falou, só não soube se era para Li ou para Kurogane a ofensa. Talvez para os dois.

Tomoyo sentiu-se novamente desanimada. Kurogane pegou sua mão, chamando a atenção dela. ‘Fico feliz que não tenha nada com o Li.’

‘Isto não é hora...’ Ela falou observando Sakura e Li discutindo que não tinham como se sentir atraído um pelo outro, sendo que estavam novamente tão perto um do outro que para se beijarem faltava pouco.

‘Quer ir a festa de sábado comigo?’ Convidou.

‘Festa?!’ Meilyn gritou empurrando Tomoyo para ver o rapaz. ‘Vai ter uma festa no sábado?! De jovens?! Da faculdade?!’ Ela perguntava gritando, mal conseguindo controlar a ansiedade.

‘Sim...’ o rapaz falou sem graça.

‘Syaoran!!!’ A chinesa chamou o primo que ainda estava discutindo com Sakura. ‘Vamos à festa neste sábado!’ Ordenou.

Li parou a discussão com Sakura e encarou a prima. ‘Sabe muito bem que não é de bom tom uma mulher do nosso clã ir em festas universitárias.’

Como é que é?’ Sakura perguntou indignada. ‘Ah, mas é claro que ela pode ir a uma festa da universidade. Você não vai?’

‘Mas eu sou homem!’ Ele rebateu.

‘E daí?!’ Ela voltou-se para a chinesa. ‘Eu vou com você!’

Meilyn sorriu agradecida. ‘Você me leva mesmo, Sakura?’

‘Claro!’ Ela falou sabendo que isso aborreceria Li e adorando vê-lo bufando. Estava no fundo se divertindo ao irritá-lo daquela maneira, só não sabia direito o porquê daquele prazer. ‘Faço questão de ir contigo. Você não precisa deste seu primo machista e idiota para se divertir.’

‘Ah, sim... agora você quer levar a minha prima para os caminhos da devassidão.’ Ele falou de forma teatral.

Sakura voltou-se para ele e riu. ‘E o senhor anda apenas nos caminhos da castidade, suponho eu?’

‘Isso não te interessa, garota.’ Respondeu irritado.

‘Ah, mas devassidão é o que vocês dois mais fazem...’ Kurogane falou rindo. Sabia que era maldade, mas estava realmente divertido ver os dois discutindo. ‘Tenho certeza que vocês gostam de algo como sadomasoquismo. 50 tons de cinza... estas coisas bem pervertidas.’

‘O quê?!’ Sakura olhou perplexa para o rapaz grandão com ombros largos, porém extremamente irritante, a sua frente. ‘Você está maluco?’

‘Cala a boca, Kurogane!’ Li falou irritado.

‘Assim você não está ajudando...’ Tomoyo murmurou para ele.

‘Ah, mas está divertidíssimo isto!’ Ele falou entre gargalhadas. Finalmente tirou os convites do bolso e entregou a cada um. ‘Faço questão que todos vocês vão à festa. Vai ser muito interessante.’

‘Maravilha!!!’ Meilyn gritou agarrando o convite.

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A música era alta e estridente, Meilyn mal conseguia caber em si de tanta excitação em estar naquele lugar mágico. Todos estavam se divertindo, dançando, bebendo, conversando, namorando. Era uma verdadeira explosão de juventude e alegria. Ela não tentava nem disfarçar para o primo mal-humorado ao lado dela. Estava em estado de êxtase. Balançava o corpo sentindo a música envolvê-lo como mágica.

‘Vamos dançar?!’ Ela gritou e só recebeu um aceno negativo do primo que estava com os braços cruzados observando os jovens. Não gostava muito daquela agitação toda. A jovem segurou a mão de Tomoyo e perguntou ao ouvido dela se gostaria de dançar, mas também recebeu uma negativa. Mas que droga, pensava, este pessoal vem para festa e fica sentado olhando os outros se divertindo. Que coisa chata. Seu olhos cravaram em Sakura que estava balançando a cabeça de leve no ritmo da música. Levantou-se e puxou a amiga desmemoriada pelo punho. Não se deu nem ao trabalho de perguntar, porque uma negativa seria algo simplesmente inaceitável depois de tantas.

Sakura sorriu sem graça, olhou para Tomoyo que fez um gesto com as mãos como quem dissesse: “Vai... vai... ela não vai sossegar enquanto não dançar mesmo.” Deu de ombros e sorriu, bem, pelo menos com Meilyn ali poderia dançar com alguém, já que Tomoyo não era muito destas festas.

‘Não quer dançar mesmo, princesa?’ Tomoyo ouviu Kurogane ao seu lado. O rapaz estava a cercando a noite inteira. Foi na festa, mesmo, porque a chinesa simplesmente não aceitou a possibilidade de não ir. Como Sakura estava desmemoriada achou melhor ir para ficar de olho nelas.

‘Não sei dançar...’ Respondeu timidamente enquanto observava as duas amigas entrando na pista onde os jovens dançavam ao som da música alta.

‘Eu posso te ensinar.’ Ele não se deu por vencido.

Ela sorriu para ele e balançou a cabeça. ‘Obrigada... mas é bom eu ficar aqui de olho nas duas.’ Falou virando-se rapidamente para ele que deu um longo suspiro desanimado.

Kurogane observou Sakura e Meilyn, depois viu que num outro canto estava Makoto com o braço ainda engessado e curativo no nariz, provavelmente resultado da briga feia que teve com o Li por causa da ruiva fatal que começava a dançar com graça no meio da pista. Sorriu de lado pensando que não era à toa que a jovem despertava tanto o libido masculino. Desviou os olhos de Makoto que mal conseguia disfarçar sua verdadeira adoração pela jovem e observou Syaoran ao seu lado. O rapaz tinha acabado de tomar mais um gole da bebida, simplesmente hipnotizado pelos movimentos da jovem na pista.

Para quem encheu o saco dele a tarde inteira falando que não tinha nada com a Kinomoto, Syaoran estava bem abobalhado olhando para a jovem. Sorriu da situação bizarra do amigo. Li sempre era caladão, mas era um bom companheiro de alojamento. Verdade que quando lhe falaram que teria que dividir seu quarto com um estrangeiro não tinha gostado nem um pouco da ideia.

Kurogane era um dos melhores alunos da irmandade. Tinha notas altíssimas e, apesar de sua família não ter prestígio nenhum e coisa e tal, seu coeficiente de rendimento lhe garantia muitas mordomias. Ninguém era páreo para ele em uma discussão, não era à toa que simplesmente se considerava o melhor aluno de direito. Tinha um temperamento um pouco explosivo, era verdade. Não gostava de perder. Seu único adversário era um outro rapaz alto que estava do outro lado da pista e bingo... admirando a mesma ruiva fatal. Kinomoto com aquele requebrado todo na pista de dança, tinha pelo menos três pares de olhos masculinos simplesmente devorando-a. Riu com gosto da situação chamando a atenção de Tomoyo ao seu lado.

‘O que foi?’ A morena perguntou com o rosto interrogativo.

Kurogane tentou se controlar. ‘Sabe, Princesa... acho que você tem razão... está bem mais divertido ficar apenas de olho.’ Ela não entendeu, mas deu de ombros. Ele voltou-se para o amigo que simplesmente não desviava os olhos da pista de dança. ‘Linda, não?’ Perguntou do nada para o amigo.

‘Sim... muito.’ Respondeu sem pensar e arregalou os olhos vendo que deu com a língua nos dentes. ‘Quer dizer... estou preocupado com Meilyn... ela não deveria dançar como a Kinomoto...’ Falou sem um pingo de credibilidade. ‘Ela é do clã, sabe?’

‘Ah, sim... realmente Kinomoto dança muito mal.’

‘Sim... ela mexe muito os quadris.’

‘Claro... mexendo assim os quadris só na cama com você, não é?’

‘Exatamente...’ deu com a língua nos dentes novamente. Virou-se para o amigo irritado. ‘Você está me irritando, Kurogane.’

O rapaz se fez de ofendido. ‘Eu?!’ desviou os olhos do amigo e observou dois rapazes caminhando pela pista de dança, fez um gesto com a cabeça avisando a Li para ficar prestando atenção. ‘Acho que Yanamoto vai te irritar muito mais.’

O chinês olhou para onde o amigo indicava. Franziu a testa.

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Meilyn olhou para um lado e para o outro observando como as japonesas dançavam. Pensou que não deveria ser tão difícil assim, ela nunca estivera em uma festa que não fosse as tradicionais do Clã e da China. Elas eram sempre contidas e todas ritualizadas. Aquela loucura universitária era novidade. Pensou que estava escuro também, então poderia dançar que ninguém estaria reparando nela. A pista de dança estava lotada. Olhou para Sakura a sua frente que tinha os olhos fechados e dançava embalada pela música eletrônica. A amiga era graciosa, mas provocante, sorriu de lado pensando que, se ela quisesse realmente ser a matriarca do poderoso Clã Li, não deveria estar dançando daquela maneira. “Ah, que se dane o Clã” Gritou internamente e começou a acompanhar os movimentos da amiga. E não é que descobriu que seu quadril não era duro!!! Riu de si mesma, pensando em como era bom dançar. Fechou os olhos e quando deu por si, já não precisava copiar os movimentos de Sakura, ela tinha o seu próprio ritmo.

Dois rapazes se aproximaram das amigas, reparando que estavam sozinhas. Um deles era Seiya Yanamoto, um estudante de direito completamente apaixonado por Sakura desde que esbarrou nela num corredor da Universidade Tomoeda. O rapaz estava indignado pela jovem ter terminado com Makoto e já ter iniciado um namoro com o Chinês que mal havia chegado ao país. Junto com ele vinha um colega do curso de direito, completamente encantado por Meilyn e seus belos olhos vermelhos.

‘Olha só quem eu encontro no meio da pista.’ Seiya falou sorrindo galanteador para Sakura. A jovem ouviu a voz do rapaz e abriu os olhos, ele estava perto demais. Deu um passo para trás esbarrando num casal que estava dançando. Desculpou-se envergonhada por atrapalhar. ‘Não vai apresentar a sua nova amiga, Sakura?’ Ele insistia em chamá-la pelo primeiro nome, mas ela achou melhor deixar para lá. ‘Meu amigo aqui está completamente encantado por ela. Mas não como eu, que sou apaixonado por você.’

A ruiva sorriu sem graça. ‘Yanamoto.’ Fez questão de chamá-lo pelo sobrenome informando que não tinha gostado da liberdade. ‘Esta é Meilyn Li, ela é prima do Li.’

‘Ah! Prima do Li.’ Ele falou reparando que ela chamou o suposto namorado pelo sobrenome também. Ótimo sinal. Viu-a confirmar com a cabeça.

Meilyn também tinha parado de dançar quando os dois se aproximaram. Ela olhou em direção do primo e o viu com os olhos cravados em Seiya. Para quem dizia que Sakura nunca poderia ser sua namorada, estava bem na cara que ele estava com ciúmes.

‘E então? Vamos dançar?’ Seiya falou enlaçando a cintura da jovem que fora pega de surpresa. Ela o empurrou forte livrando-se dele. Yanamoto estava começando a passar dos limites.

‘Ei, não precisa ser tão perto.’ Falou com a voz séria. Não gostava como Seiya sempre a cercava. Na verdade, talvez só tivesse aceitado o namoro com Makoto para ver se o rapaz desistia dela de uma vez; funcionou por um tempo.

Seiya sorriu. Adorava justamente aquele claro desprezo que ela tinha por ele. Todas as outras garotas estariam se jogando aos seus pés, pois era um dos melhores partidos não só de Tomoeda como do Japão. Sua família, além de milionária, possuía muitas relações com o governo. Eles tinham poder, e Seiya adorava isso, tudo que sempre queria, ele ganhava. Mas aquela jovem de olhos verdes era um verdadeiro desafio para ele, sempre se esquivando, nunca lhe dando a atenção que merecia. E quanto mais ela se afastava, mais ele a queria por perto. Ele deu um passo a frente e se desculpou pela atitude precipitada. ‘Vamos dançar... prometo ficar bem longe de você.’ Falou de forma carinhosa para a amada.

‘Cai fora.’ Ouviu-se uma voz vindo de trás de Sakura. Seiya desviou os olhos do rosto adorado e encarou Li que estava bem atrás da ruiva. Então o suposto namorado existia de verdade. Idiota. Li deu um passo para o lado e o encarou de perto. ‘Cai fora.’ Repetiu, trincando os dentes.

‘Ela estava dançando sozinha.’ Falou de forma diplomática. Ele conhecia a família Li e seu pai tinha negócios com eles, não seria prudente entrar numa briga com ele. Principalmente quando já tinha feito o levantamento completo e sabia que era o provável futuro líder do clã chinês.

‘Ela não está mais.’ Li falou sem desviar os olhos dele.

Sakura olhou para os dois a sua frente e suspirou. “Homens.” Pensou. Tanta testosterona e pouco cérebro. Estava pronta para sair da pista de dança antes que eles iniciassem uma briga e atrapalhassem a diversão de um monte de gente, inclusive Meilyn, por causa de bobeira. Virou-se pronta para ir embora, mas foi dar um passo e sentiu pegarem seu pulso e a puxarem, fazendo-a rodar e esbarrar num tórax rígido e quente.

‘Vamos dançar, Kinomoto.’ Li falou perto do seu ouvido e encarou Seiya acenando com a cabeça numa debochada e diplomática maneira de mandá-lo catar coquinho, enquanto empurrava a jovem levemente pela cintura.

A ruiva não soube bem o que fazer, fora pega completamente de surpresa pelo chinês. Além disso, ele tinha aquele cheiro que a entorpecia, parecia que a fazia pensar menos. Verdade que tinha bebido também uma bebida alcoólica quando chegou na festa, para relaxar, mesmo não sendo muito forte. Sentiu que ele ainda estava às suas costas, com uma mão no seu quadril enquanto a outra ainda estava com seu pulso preso, não tentou nem afastá-lo dela. Apenas mexeu o quadril dançando e sentiu que ele a acompanhava devagar. Oras, então o poderoso futuro patriarca do clã Li sabia dançar, pensou para si, divertindo-se. Ela sentia a respiração tranquila dele próxima do seu ouvido esquerdo. Fechou os olhos apenas querendo acreditar que aquilo era um sonho. A música, a dança, Syaoran Li dançando com ela daquela forma tão próxima e intensa.

‘Então acham que fazemos coisas pervertidas, Kinomoto.’ Ele falou ao ouvido dela enquanto segurava sua cintura ainda dançando. Ela sentiu a mão deslizar e segurar levemente na altura do seu ventre. Ele soltou seu punho e deslizou a outra mão tocando o seu braço numa leve carícia.

Ela mordeu o lábio inferior impedindo que um gemido de prazer saísse dos seus lábios, enquanto sentia o rapaz nas suas costas. Sabia que deveria manter a distância dele, mas simplesmente não conseguia.

‘Acho que seu amigo tem muita imaginação.’ Ela respondeu com a voz entrecortada.

‘Confesso que também possuo uma imaginação bem fértil em relação a você.’ Sussurrou e sentiu-a tremer.

Ele a girou novamente e segurou pela cintura, Sakura jogou a cabeça para trás rindo. Suas mãos seguravam os braços fortes de Syaoran que a levantou. Quando ela abriu os olhos reparou que o rosto dele estava muito próximo ao dela. Ela podia sentir a respiração dele nos seus lábios. Engoliu em seco pensando que aquele rapaz a estava enlouquecendo. Levou uma das mãos à nuca dele.

‘Acho que eu também.’ Falou ao ouvido dele e, assim que se afastou, sentiu os lábios de Li sobre os dela. Entreabriu os lábios permitindo que o rapaz aprofundasse o beijo sem nem se importar onde estavam. Era atração demais entre eles, que simplesmente não conseguiam se controlar.

Kurogane sorriu de lado vendo o casal literalmente se agarrando na pista de dança. Não pôde negar que adorou ver a intervenção do amigo e o jeito como ele fez Yanamoto ficar chupando o dedo. Agora completava com aquele agarramento todo na frente do rapaz. Tomoyo estava ao seu lado com os olhos cravados no casal e o queixo caído.

‘Tem certeza que eles não se lembram de nada?’ o rapaz ao seu lado perguntou.

‘Eu nem sei mais... os dois são malucos.’ A morena falou com um suspiro e balançou a cabeça de leve. Ficava feliz pela amiga, pelo menos estava na cara que atração física e tesão, os dois ainda tinham um pelo outro e, pelo jeito, bem intenso.

‘São é malucos um pelo outro.’ Ele rebateu sorrindo para ela que concordou. ‘Assim como eu sou maluco por você.’ Completou, vendo a morena ficar mais vermelha que um tomate. Pegou a mão da jovem fazendo-a, fitá-lo novamente. ‘Não consigo parar de pensar em você desde que a vi.’

A morena engoliu em seco, nunca tinha sido cortejada daquela maneira tão insistentemente intensa. Pelo jeito o colega de dormitório de Li era tão ou mais direto que o rapaz, quando o assunto era mulheres. Tremeu quando sentiu-o tocando seu rosto suavemente. Tentou dar um passo para trás para se afastar, mas ele segurou seu pulso com força. ‘Eu sou louco por você.’

Tomoyo o encarou séria. ‘Acho que está indo rápido demais, Kurogane.’ Falou de forma doce, mas firme. O rapaz soltou-a e acenou que sim com a cabeça.

‘Acho...’ Ele voltou-se para a pista de dança onde o casal ainda se beijava. Não poderia negar que estava com uma puta inveja do amigo. ‘Que você está certa.’ Falou por fim.

Meilyn arregalou os olhos, primeiro por ver o primo dançar daquela maneira insinuante com a jovem e agora pelos dois estarem se beijando na frente de todos, como se ninguém mais estivesse ali. Ele estava maluco?! Ele era o futuro patriarca do clã, não tinha o direito de se comportar desse jeito. Ele não tinha o direito de beijar Sakura. Tinha dado dois passos em direção ao casal quando um estrondo alto assustou-a, tanto quanto todos da festa.

Sakura e Li afastaram-se assustados, só não sabiam se era pelo barulho ensurdecedor ou pelo beijo ardente que tinham trocado. A jovem ainda podia sentir os lábios inchados de desejo pelo rapaz. Li também estava atordoado, mas seus olhos finalmente desviaram da ruiva assim que ouviu um grito de socorro desesperado.

Como se não tivessem perdido suas memórias e agindo por impulso, os dois correram na direção de onde vinham os gritos, diferente de todos na festa que fugiam para longe. Sakura levou uns três encontrões com jovens desesperados, correndo na direção contrária. Li segurou seu pulso ajudando-a, ele corria na frente levando a maioria dos empurrões dos jovens em fuga.

Perto da entrada da festa os dois encararam um grupo de sete seres das trevas. Eles tinham aparência humana, eram altos com braços e pernas fortes. Olhar vazio. Pele alva como se não existisse sangue nenhum correndo por seus corpos.

‘Feiticeiros....’ Um deles sussurrou encarando o casal.

Sakura e Li fitaram-se rapidamente e pensaram, ao mesmo tempo, que deveriam mesmo ser muito loucos para, ao invés de fugir como todos, simplesmente terem ido de encontro ao terrível grupo. Um dos vampiros terminou de matar sua vítima, um jovem, e jogou o corpo para o lado. Limpou a boca suja de sangue e, assim como todos os outros que pararam de torturar suas vítimas, encarou os feiticeiros.

‘Ora ora... o que um casalzinho de feiticeiros anda fazendo a esta hora da noite?’ Um perguntou em tom de brincadeira. O salão de festa, antes abarrotado de jovens, estava vazio. Estavam eles, os seres das trevas e mais uns dez corpos estirados no chão. Era possível ouvir a agonia de uma jovem que não tinha morrido ainda, vítima de ferimentos fatais.

Sakura engoliu em seco, desviou os olhos para seu lado direito onde reparou em um pedaço de madeira, na verdade, o pé de uma das mesas que tinha se quebrado com a correria dos jovens. Vampiros, estacas. O raciocínio foi lógico desta vez. Arregalou os olhos vendo o grupo se aproximar deles com velocidade, Li a empurrou para o lado, fazendo a garota se livrar do primeiro ataque raivoso. Ela caiu no chão com tudo. Não tinha nem conseguido se recuperar e percebeu que um dos seres avançou para cima dela, chutou o monstro com força e rolou para o lado pegando a estaca com uma das mãos, assim que o monstro voltou a tentar atacá-la, cravou o pedaço de madeira no meio do peito dele. Pelo menos aquelas malditas aulas de anatomia tinham lhe ensinado exatamente onde era o coração e pudera fazer a investida contra o vampiro de forma certeira. Bendito professor Sasaki! Nunca mais o xingaria novamente, pensou a jovem, levantando-se e puxando a estaca do coração do ser que virou pó negro.

Ouviu um barulho de briga e arregalou os olhos, vendo Syaoran lutar contra cinco de uma só vez, ele tinha também um pedaço de madeira nas mãos. Era muito habilidoso na luta corporal, sorriu de lado admirando ainda mais o rapaz. Sua distração de admiradora babona lhe rendeu um ataque pelas costas, chegou a sentir a boca do vampiro tentando abocanhar sua jugular, jogou-se no chão dando uma cambalhota e conseguindo se livrar do monstro. Ele ainda tentou acertá-la com suas garras que lhe fizeram pequenos arranhões nos braços e no rosto. Bateu com força na cabeça do monstro, girou o corpo e abaixou-se evitando uma nova investida violenta. Levantou-se rapidamente e bateu com tudo que podia na barriga dele que se dobrou ao meio. Sentia-se ligeiramente mais forte e foi quando reparou em uma aura rosada nas suas mãos. Assustou-se com o que estava acontecendo com ela. Novamente sentiu o golpe do seu adversário e caiu batendo a cabeça em alguma coisa, sentiu-se tonta.

‘Vou matá-la lentamente, Bruxa.’ Ouviu a ameaça, mas não temeu. Que ele viesse. Apertou a estaca improvisada na mão direita, quando ouviu a aproximação do monstro, abaixou-se desviando o corpo do ataque, rodou e cravou finalmente o pedaço de madeira no coração dele, que virou pó negro.

Ela puxou o ar com força para entrar em seus pulmões, sentia seu sangue correr rápido pelas veias, informando a ela que seu nível de adrenalina estava alto com aquela luta. Nunca pensou que viveria um momento como aquele. Li teria levado-a para que mundo louco depois daquele beijo na pista de dança?

Voltou sua atenção para o rapaz observando a luta. Agora só tinha mais três oponentes dos cinco iniciais, provavelmente tinha transformado os outros em cinzas negras. Ela semicerrou os olhos e percebeu uma aura esverdeada envolvendo o rapaz. Sacudiu a cabeça, aquilo não era hora para ficar vendo luzes estranhas.

‘Vamos mandar você e sua namoradinha para o inferno, Feiticeiro.’ Um falou correndo na direção de Li, que desferiu dois socos certeiros no vampiro, e ainda girou o corpo chutando o que o atacaria pelas costas. O primeiro se recuperou e tentou atacá-lo de todos as maneiras, mas Li se esquivava com agilidade. Bloqueou um ataque e segurou o pescoço do monstro.

‘Já estou de saco cheio disso.’ Falou girando o corpo e atingindo-o com uma cotovelada, fazendo-o cambalear. Pulou por cima do adversário segurando seu braço e quebrando-o, o monstro urrou. Um terceiro, que ainda tentava entender como atingir aquela máquina de luta, aproximou-se, juntamente com o segundo, tentando atacá-lo ao mesmo tempo. Foi uma troca de socos e pontapés entre os três. Li abaixou-se e pensou que tinha que terminar com aquilo, sua estaca improvisada havia se perdido. Abaixou pensando no que poderia usar como arma.

Sakura reparou que o rapaz estava sem arma na mão, buscou sua estaca e deu um passo a frente. Li sentiu a aproximação dela, e quando os três assassinos correram para atacá-lo ele estendeu o braço, Sakura entendeu o recado e jogou a estaca para ele que a pegou prontamente, desviou de um ataque raivoso, pegando a estaca no ar. Caiu no chão, rolou desviando da investida violenta de dois oponentes e enterrou a estaca no terceiro. Menos um. Puxou a estaca precisando dela para acabar com os outros dois. Com um salto levantou-se e fitou os dois enquanto rodava a estaca nas mãos. Sakura tinha achado uma arma mais resistente que a sua. “Boa Garota.” Não pôde deixar de pensar.

O ataque veio em seguida, novamente uma sucessão de socos, chutes e pauladas que o rapaz dava usando o pedaço de madeira resistente. Atingiu com força um monstro que se dobrou, o rapaz rolou por suas costas e atingiu o outro com um poderoso chute. O morto vivo cambaleou com o impacto e desnorteado abriu a guarda. Foi seu último erro, acabou sendo atingindo de forma certeira no coração.

O último, vendo que todo o grupo havia sido eliminado pelos dois feiticeiros, gritou com raiva e voou para cima do rapaz tentando acertá-lo de todas as formas, suas mãos tinham garras afiadas e a boca estava aberta pronta para abocanhar o caçador. Li não desviou do ataque, abaixou apenas para pegar impulso e saltou, dando um giro em torno do corpo para usar a inércia a seu favor e deu uma voadora no vampiro que, atingido, voou longe batendo em algumas mesas que, até aquele momento, ainda estavam inteiras. Ele se levantou cambaleando e correu na direção do rapaz, que o atingiu duas vezes com o bastão em cada lado do rosto fazendo-o ir ao chão novamente. O vampiro não se deu por vencido, pulou para cima de Li, agarrando sua garganta.

‘Syaoran!’ Sakura gritou vendo a fúria do monstro e correu na direção dos dois quando viu o corpulento monstro virar uma nuvem de pó. Li tinha atingido-o no coração. Ela parou e observou o rapaz que estava sentado no chão largar a estaca que rolou para um canto do salão.

Ele levantou o rosto e encarou a garota. Sorriu. ‘Quem realmente é você, garota?’

Sakura riu para ele e estendeu uma mão para ajudá-lo a se levantar. ‘Pergunto o mesmo para você.’ Ele segurou a mão e ela o puxou com força, pois sabia que ele era pesado. Deu um passo para trás, mas o rapaz a segurou novamente pela cintura.

‘Onde estávamos mesmo antes de sermos interrompidos?’ Perguntou de forma marota aproximando seu rosto do da jovem.

Ela levantou uma sobrancelha, olhando desconfiada para ele. ‘Acho que estávamos aqui.’ Falou, beijando-o e sendo retribuída.

‘Sakura!!!!’ Ouviram um grito. Pararam de se beijar, mas ainda estavam um nos braços do outro. Sakura rolou os olhos reconhecendo a voz do irmão.

‘Droga...’ Foi só o que sussurrou, finalmente soltando Li que fez o mesmo. Depois de enfrentar um monte de seres, saídos direto das telas de cinema que estavam loucos para mandar tanto ela quanto Li para o inferno, surgia o pior deles: seu irmão.

Syaoran tentou relaxar os músculos das costas. Também estava cansado, se tivesse que fazer qualquer coisa a mais naquela noite, seria pegar a jovem de olhos glaucos e levá-la para seu dormitório para tomá-la nos braços. Não estava a fim de discutir com um projeto de maluco.

Touya se aproximou seguido por Yue e Kerberus. Tomoyo vinha logo atrás. A morena quando vira a confusão, ligara para Yue pelo celular.

‘Xiao Lang!! Você está ficando maluco?!’ Meilyn falou empurrando Touya para o lado e caminhando duro em direção ao primo. ‘Você falou que não se lembrava de nada e que eu é que estava ficando maluca por falar de coisas sobrenaturais, mas encara um bando de seres das trevas sem invocar uma só magia! Nem sua espada você usou!’

Li soltou um longo suspiro. ‘Se eu tivesse poderes mágicos sumia com vocês todos daqui.’ murmurou baixinho, mas o suficiente para Sakura ouvir e começar a rir, ela também estava pensando na mesma coisa. Ele riu também e sentiu uma fisgada na altura do abdômen à direita. O grupo conseguiu ouvir ao longe as sirenes da polícia.

‘Hei, você está bem?’ Sakura falou não se importando com as acusações de todos e parando perto de Syaoran. Ela repousou sua mãos por cima das do rapaz e sentiu algo viscoso, era sangue. ‘Dá para parar de gritar como um maluco e me ajudar aqui, Touya. Ele está machucado. Hei, você de asas aí, me ajuda, também.’ Falou para Yue.

‘Eu estou bem.’ Li ainda falou. ‘Melhor a gente cair fora daqui ou vamos parar na delegacia.’

‘Vamos para o hospital.’ Sakura não pediu, ordenou.

‘Isso! Vamos para um hospital. Os dois precisam de cuidados médicos.’ Tomoyo falou de forma sensata. ‘Ajuda lá, Yue, porque o Touya está lerdo de tanta raiva.’

‘Ah, agora ele é a vítima que tem que ir para o hospital, mas estava se agarrando há menos de dois minutos com a minha irmã!’ Touya ainda tentou argumentar sem sucesso.

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‘Eu realmente não sei onde estes jovens andam procurando diversão.’ O enfermeiro Taniguchi falava enquanto dava os pontos em Li abaixo do braço direito.

Sakura estava sentada a frente do rapaz, outra enfermeira dava pontos, no pequeno corte que a jovem tinha perto do supercílio direito. Syaoran observava a jovem que tinha os punhos cerrados enquanto a mulher trabalhava em seu curativo. Nunca imaginou que uma jovem de aparência tão frágil tivesse tanta força dentro de si. Ele a viu lutando e, verdade seja dita, aquele machucado mais profundo era resultado de sua distração por observá-la, ou melhor admirá-la. Ela tinha sido incrível, além disso, ele podia perceber uma luz rosada circulando o corpo da jovem. Será que aquela luz era efeito da bebida que tinha ingerido antes de tudo começar?

Depois que eles se beijaram foi uma sucessão de loucuras e agora eles estava ali no hospital de Tomoeda sendo tratados.

‘É a terceira vez que estou lhe dando pontos, Senhor Li. Este sexo animal de vocês dois vai acabar matando-os. Estão me ouvindo?’ O enfermeiro falava rindo e deixando os dois mais vermelhos que tomates maduros.

‘Olha o respeito, Taniguchi! Eu estou aqui!’ A enfermeira que tratava de Sakura o alertou. O homem só ria e se divertia com os dois pombinhos que pelo jeito adoravam parar no hospital no turno dele. Já estava até simpatizando com o casal.

Assim que finalizou os seus curativos, Sakura permaneceu esperando por Syaoran. Verdade que estava cansada e só queria ir para seu quarto e dormir, mas só em pensar que, se atravessasse aquela porta, teria que encarar Touya novamente, começava a ficar tentada a pedir para que o enfermeiro engraçadinho informasse o irmão que os ferimentos eram muito graves e ela precisaria ficar ali por, pelo menos, uns dois dias, sem visitas.

Syaoran estava sentado na maca, sem camisa e com o braço levantado, sua mão segurava uma barra de ferro deixando assim o acesso livre para o enfermeiro fazer os pontos necessários no profundo corte. Sakura cerrou os olhos no rapaz a sua frente. Era muito bonito, muito bonito mesmo. Realmente não tinha como não ter uma imaginação bem fértil com aquele rapaz. Li percebendo que estava sendo observado desviou os olhos do trabalho do enfermeiro e fitou Sakura que mordia o lábio inferior. Sorriu de lado e pensou que aquela garota realmente era muito, muito atrevida mesmo.

O homem finalizou os pontos e já iniciava os curativos. ‘O mesmo de antes, senhorita Kinomoto.’ Falou assustando a jovem que sacudiu a cabeça para desanuviar seus delírios eróticos com o rapaz a sua frente e voltando a terra.

‘Como disse, senhor?’

‘O mesmo da outra vez que vocês estiveram aqui. Limpar pelo menos uma vez ao dia com antisséptico, colocar a pomada cicatrizante e cobrir com bandagem.’ Ele falava enquanto fazia a receita médica. ‘Vou passar o mesmo anti-inflamatório da outra vez. Compre para a senhorita também por conta deste corte na testa.’ Por fim, estendeu o papel para ela que o pegou sem desviar os olhos do rosto do enfermeiro. ‘E novamente, senhorita Kinomoto, nada de sexo selvagem. Os pontos podem arrebentar igual da outra vez.’

‘Outra vez?’ Ela sussurrou sem entender. Sentiu as faces esquentarem. Será que realmente ela e Li eram namorados e tinham transado de forma louca para pararem no hospital? Será que as brincadeiras do colega de alojamento dele não eram brincadeiras e sim a pura verdade? Ora já tinha ouvido que os chineses tinham alguns hábitos pitorescos e violentos para fazer sexo. Será que ela já tinha transado com Li antes de sua desmemoriação? Todo mundo continuava a insistir que eles eram namorados e todos conheciam Li, menos ela.

Pela primeira vez sentiu-se realmente perdida desde que tinha sido acordada pela prima no parque do Rei Pinguim. Estava levando na brincadeira aquela história que ela e Li namoravam, mas depois de tantas evidências, depois de constatar uma aura envolvendo tanto ela quanto Li, da maneira como os dois se comunicaram durante a luta contra os vampiros sem nem ao menos se falarem e, principalmente, depois dos dois beijos que trocaram, começava a acreditar que o problema era ela e não... todos.

Estava envolta em sua confusão mental quando sentiu a mão de Syaoran repousar no seu ombro. ‘Vamos para casa, Sakura.’ Repetiu o nome dela com carinho, fazendo-a sorrir em meio aqueles pensamentos. Ela assentiu com a cabeça e sentiu quando ele a envolveu em seus braços, abraçando-a com cuidado. Ela apenas afundou o rosto no peito do rapaz sentindo-se embriagada com aquele cheiro maravilhoso que emanava dele. ‘Estamos cansados’. Ele disse.

‘Sim.’ Ela concordou. Talvez ele tivesse razão. Estavam cansados demais para tirar qualquer conclusão.

‘Ótimo!’ O enfermeiro Taniguchi falou. ‘Vão para casa e descansem.’ Completou dando um tapinha no ombro de Li. O rapaz agradeceu ao homem e caminhou com Sakura para fora da enfermaria.

Touya estava sacudindo a perna direita, mostrando claramente que estava irritado, muito irritado. Sakura só podia estar de sacanagem com ele. Yukito estava ao seu lado, nem falava mais nada tentando acalmar o homem, estava com o semblante cansado depois de ter se transformado em Yue. Tomoyo estava com uma bolsa no colo em que carregava Kero dormindo, o bichano andava muito cansado ultimamente, mais preguiçoso que o normal. Já Meilyn, como era próprio dela, estava caminhando de um lado para o outro.

Quando o casal saiu da emergência, ela voou para cima dos dois. ‘Vocês são dois cabeças ocas! Perderam além da memória, noção do perigo?’ Ela perguntou. Sakura afastou-se de Li, era prima dele, ele que controlasse a fera. Foi até Touya que levantou-se e a abraçou, beijando a cabeça da irmã com carinho. Ele realmente estava preocupado com ela. Franziu a testa observando Yukito, ele sorriu para ela, mas estava claramente cansado. Coitado de Yuki por ter que aguentar o grosso do Touya.

‘Quero dormir, Touya. Estou... estamos todos muito cansados.’ Sakura suplicou para o irmão que aceitou. Passou o braço sobre os ombros da irmã começando a levá-la em direção a saída do hospital.

Sakura deixou-se ser guiada pelo irmão. Virou-se para trás só por um momento e fitou Li que a observava se afastar, ainda com Meilyn falando ao seu lado.

Podia não se lembrar daquele rapaz, mas tinha uma certeza depois daquela noite: ele era muito importante para ela.

Continua.