FEITICEIROS
45 Deserção e Advento Li
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FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques e Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 45
Deserção e Advento Li
Sakura observava a baía de Hong Kong através da janela do quarto do hotel. Estava tensa devido a conversa que tivera com as cartas mais cedo. Contara para elas que não sabia o que realmente tinha acontecido com Khala’a no Mundo das Trevas. Teve que admitir que era possível ela ter ficado por lá. As cartas sentiram aquela revelação. Estavam esperando o retorno dos três e não tiveram como disfarçar a tristeza com o provável destino de quem antes era a líder delas.
Kero mostrou-se surpreso ao saber dessa parte da história. Ele não sabia quem realmente tinha sido Vácuo e o motivo de Clow tê-la lacrado e afastado-a de todas as outras. O felino também não conseguiu disfarçar a decepção com o antigo mestre e criador.
A viagem de volta de Qinghai foi silenciosa. Kero ficou o tempo todo dentro da bolsa de sua mestra.
Syaoran sabia que fora difícil para Sakura contar para as cartas o destino de Khala’a e, apesar de nenhuma julgá-la ou condená-la pelo que tinha acontecido, a jovem ruiva ainda se consumia em culpa. O rapaz pensou que, no final, Sakura acabava sempre assumindo a culpa dos eventos, ignorando que as decisões para o destino, tanto de Khala’a quanto dele próprio, foram deles e de mais ninguém.
Quando chegaram a Hong Kong, já havia anoitecido e Syaoran decidiu pernoitarem num hotel, encontrando-se com o Clã apenas no dia seguinte. Sabia que, possivelmente, aquela seria a última vez que teria oportunidade de falar com alguns membros da família e gostaria de explicar a situação. Além disso, a viagem a Qinghai fora cansativa. Inclusive para ele que teve que se controlar demais para não cair no braço com aquele cabeça de chifre petulante do Ren Tao. Controlou-se ao máximo, pois tinha prometido à esposa que assim o faria, mas parecia que aquele irritante o provocava o tempo todo.
Syaoran conseguiu um quarto com antessala para que Kero ficasse ali e permitisse o mínimo de privacidade ao casal, já que o bichano não parecia se dar conta de quando estava sendo demais.
Sakura, com a ajuda de Doces, deu bastante diversão para o guardião solar que, satisfeito, roncava no sofá.
Sakura ouviu a porta do quarto se abrindo e tirou os olhos da vista, observando o marido entrar, fechando-a em seguida. Sorriu para ele e voltou a fitar a paisagem. Estava também preocupada pelo encontro com a família dele amanhã. Ela não era tonta.
Sabia que seria tão ou mais difícil do que a última vez em que se encontraram. Eles a julgariam, certamente deixariam claro que não aprovavam o casamento deles, talvez a ofendessem… Não teria muita paciência para suportá-los. Seria um exercício de autocontrole para ela. Tanto quanto foi para Syaoran se esforçar hoje para não discutir abertamente com Tao.
Syaoran a abraçou por trás, envolvendo sua cintura e repousando o queixo no ombro da esposa. ‘É uma bonita vista.’ Ele comentou, sorrindo de leve.
‘É, sim.’ Ela concordou.
‘Sei que está tensa, mas tenho certeza que tudo vai dar certo amanhã.’
‘Eu não sei, Syaoran.’ Ela falou com sinceridade. ‘Mesmo sabendo que nesta existência você não passou por tudo aquilo…’ Ela fechou os olhos e respirou fundo. ‘Eu não sei se vou conseguir encará-los… e nem a sua mãe.’
Syaoran ficou em silêncio e a abraçou mais forte. Franziu a testa, observando a vista. Também seria um pouco complicado para ele encarar os anciões agora, com lembranças bem doloridas do final de sua infância e adolescência. Conseguia entender alguns sentimentos de repulsa e raiva que tinha por alguns anciões que, antes, pareciam apenas sem razão. Seria particularmente difícil encarar Reyume novamente e não querer quebrar-lhe o pescoço.
Ele suspirou de forma pesada. ‘Vai ser difícil.’ Teve que concordar no fim. ‘Mas estamos juntos dessa vez.’
‘Sim…’ Ela concordou, beijando o rosto do marido de forma demorada. ‘Estamos juntos e nada vai nos separar mais.’
‘Muito menos… um bando de anciões babacas.’ Ele completou, sorrindo de leve.
‘Exatamente.’ Ela se virou no braços dele e o envolveu pelo pescoço, puxando-o para beijá-lo de forma demorada.
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Syaoran parou o carro alugado em frente a mansão Li. Olhou para Sakura que estava ao seu lado. Ela apertava a bolsa que estava em seu colo, mostrando que estava tensa.
‘Eu… eu acho que me sentiria melhor se você tivesse deixado as cartas e Kerberus no hotel.’ Ele falou, batendo de leve as mãos no volante.
Ela franziu a testa. ‘Claro que eu não faria isso!’ Respondeu, olhando para ele.
‘É… eu sei que não.’ Ele falou e respirou fundo. ‘Tente ficar fria. Não vai adiantar você colocar fogo em tudo.’
‘Eu… Eu não faria isso.’ Ela respondeu, desviando os olhos dele e fitando a mansão pela janela do carro. ‘Eu acho.’ Completou, fazendo-o soltar uma risada nervosa.
‘Vamos lá, então.’ Ele disse, abrindo a porta do carro. Sakura o segurou pela mão antes que ele saísse, fazendo-o voltar a fitá-la.
‘Eu não estou com um bom pressentimento.’ Disse, fazendo-o se aproximar dela e depositar um beijo em sua testa.
‘Vai ficar tudo bem. Não importa o que aconteça aqui hoje, nós ficaremos bem.’ Garantiu, vendo-a respirar fundo e assentir com a cabeça.
Caminharam devagar até a entrada da mansão de mãos dadas. Kero estava na bolsa da sua mestra assim como as cartas. Subiram a longa escada e logo encontraram algumas crianças brincando no pátio principal. Syaoran sorriu de leve, reconhecendo alguns dos sobrinhos. Era estranho agora vê-los brincar e se lembrar de duas existências, uma na qual não tinha o menor contato com eles e outra em que tinha até uma sobrinha preferida.
Xin Qian parou de brincar com as outras e abriu um sorriso enorme, correndo em direção do casal carregando uma boneca. Syaoran se abaixou tocando um joelho no chão e a recebeu, abraçando-a com carinho.
Sakura sorriu, observando-o. Ainda era difícil de pensar em Syaoran tendo jeito com crianças.
‘Tio Xiao Lang!’ A menina gritou. ‘O senhor já voltou para casa?!’ Ela perguntou surpresa. ‘Pensei que ficaria meses no Japão!’
Ele se afastou levemente e levou uma mão ao peito, fingindo estar magoado. ‘Não está feliz em me ver, Yīnghuā?’
A menina balançou a cabeça com força. ‘Não é isso! Estou muito feliz! Apenas surpresa.’ Ela falou e mostrou a boneca que tinha nas mãos. ‘Olha! O nome dela é Yīnghuā! Assim como o senhor me chama!’
‘Que bom que gostou do presente que eu enviei.’ Ele falou sorrindo.
‘Sim! Ela é linda!’ Falou entusiasmada. Ela desviou os olhos do tio e fitou curiosamente Sakura que estava logo atrás dele, observando-os.
Syaoran olhou por sobre o ombro para a esposa e depois voltou-se para a sobrinha. ‘Quero lhe apresentar uma pessoa.’ Levantou-se, segurando a mão da menina. ‘Eu achei uma princesa de olhos verdes.’ Ele confidenciou, sorrindo.
‘Mesmo?’ A menina falou, olhando para ele. ‘E o senhor a resgatou de uma torre?’
‘Sim…’ Ele continuou. ‘E tive que enfrentar um dragão chamado Tomoyo.’
‘Ele era muito grande, tio?’
‘Enorme.’ Syaoran dizia exageradamente, fazendo Sakura rir. ‘Soltava fogo pelos olhos.’
A menina arregalou os olhos e riu dele. ‘Isso não está certo, tio! Ele tinha que soltar fogo pela boca!’ Ela retrucou.
Syaoran riu. ‘Esta é a minha princesa, Yīnghuā.’ Falou, apresentando Sakura à menina.
A ruiva se abaixou, ficando a altura da menina. ‘Níhǎo, Yīnghuā. Ní hǎo ma?’ (Olá, Yīnghuā. Como vai?)
A menina olhou para ela desconfiada, estreitou os olhos, aproximando-se de Sakura e depois voltou-se para o tio sorrindo. ‘Ela é muito bonita mesmo, tio. Mas tinha que usar uma coroa.’
Sakura sorriu para a menina. ‘Deixei a coroa em casa.’ Falou com suavidade. ‘Além disso, seu tio não usa uma coroa e ele é um príncipe, não é?’
Os olhos da menina se iluminaram com o comentário de Sakura e ela concordou, sorrindo. ‘Sim, ele é.’
De repente, os sons no quintal cessaram e as crianças pararam de brincar. Sakura pôde sentir uma presença muito parecida com a de Syaoran e fechou os olhos, respirando profundamente.
Yelan se aproximou chamando a neta que chegou a estremecer diante do tom de voz severo da avó. Xin Qian olhou para o tio que lhe deu um abraço bem apertado, antes de dizer para ela obedecer.
Sakura se levantou, observando a menina correr em direção a avó, que ainda a repreendeu, antes de entrar na casa com as outras crianças.
Syaoran respirou fundo e soltou o ar devagar. Sabia que agora as coisas se complicariam e muito. Yelan parou a frente do casal com o rosto fechado. Encarou o filho e depois seus olhos voltaram-se para Sakura que devolveu a encarada. Yelan estreitou os olhos nela.
‘Então realmente é verdade que você se casou com uma estrangeira?’ Yelan perguntou, voltando a encarar o filho.
‘Eu expliquei tudo por telefone para a senhora.’ Syaoran falou. ‘Vim aqui apresentar a minha esposa, como se deve.’
‘Apresentar sua esposa?’ Ela falou devagar. ‘Está realmente querendo levar isso adiante?’
‘Já foi feito. Estamos casados.’
Yelan comprimiu os lábios, estava irritadíssima com o filho por ter se casado com uma estrangeira e ainda se mostrar numa atitude petulante daquela com relação ao clã.
‘Seu pai sentiria vergonha de você.’ Ela declarou.
Syaoran endireitou o corpo e desviou os olhos dela. ‘Ele não está aqui para me julgar.’ Ele falou, esboçando um sorriso. ‘Mas tenho certeza que Wei ficaria orgulhoso.’
‘Wei não era seu pai!’ Ela gritou. ‘Ele foi empregado da família.’
Ele voltou a encará-la com o semblante endurecido. ‘Foi o único pai que eu conheci e o único que realmente se importava comigo.’
Yelan franziu a testa e deu um passo a frente, encarando o filho. ‘Você não pode colocar o clã na lama desta maneira.’
Syaoran viu Sakura cerrar os punhos e segurou a mão dela, num pedido silencioso de calma. ‘Não vim aqui para brigar. Vim apresentar minha esposa.’ Ele repetiu com o rosto duro para a mãe.
‘Eu não a reconheço.’
‘Pois então… não me reconhece como filho também.’
‘Você realmente quer levar as coisas por este caminho?’
‘A senhora quer realmente deixar as coisas chegarem a esse ponto?’ Respondeu com uma pergunta.
Syaoran viu o rosto da mãe se contorcer. Ela se afastou deles assim que reparou na aproximação dos anciões e outros membros do clã.
Sakura franziu a testa, observando-os e sentiu o coração acelerar. Sentiu a mão do marido apertar a sua. Eles estavam juntos, era isso que importava.
Reyume se aproximou de Yelan e trocou algumas palavras com ela, fazendo-a recuar mais um passo. O homem olhou para o casal e depois para os anciões que se mantinham mais atrás.
Syaoran observou os membros da família se aproximando. Encontravam-se ali os anciões, as mulheres, os mais jovens e crianças. Hyo Ling e os outros homens estavam trabalhando. Meilyn com certeza estava na faculdade. Era a única mulher que não estava ali. Sorriu de leve ao constatar isso.
Ele puxou Sakura pela mão e adentrou o pátio da mansão, apresentaria a esposa como se deve. Depois daria as costas a todos. Tinha os olhos cravados em Reyume; se ele abrisse a boca para falar alguma coisa de Sakura, quebraria os dentes dele. Todos!
Parou em frente a todos. ‘Vim apresentar minha esposa.’ Falou em alto e bom tom e, como imaginou, começou um murmurinho.
Olhou para as irmãs que estavam mais adiante e alguns sobrinhos. Provavelmente aquela seria a última vez que os veria. Não pôde deixar de sentir um peso no peito ao observar Xin Qian com os olhos lacrimejantes. Com certeza já a tinham colocado a par da situação real. Pelo menos tivera tempo de apresentar Sakura para ela como queria.
‘Está nos desafiando, Xiao Lang.’ Reyume falou com a voz irritada. ‘Isso não é atitude de um membro do clã.’
‘Isso não tem nada a ver com o clã.’ Ele retrucou.
‘Vai realmente dar as costas para sua família por causa de uma vadia?’
Pronto! A resposta veio com um potente soco no rosto do ancião, que foi ao chão com a boca sangrando.
‘Olha como se dirige à minha esposa.’ Ele disse, entre os dentes.
Reyume se levantou, trincando os dentes e indo para cima do rapaz, que desviou da primeira tentativa de atingi-lo, sem muito esforço. Novamente Reyume tentou acertá-lo com um soco, mas o rapaz pegou o pulso dele e girou, torcendo-o e golpeando-o em seguida. O homem se afastou, sentindo o punho.
‘Está mais forte, Xiao Lang.’ Falou franzindo o cenho.
Syaoran não respondeu, aproximou-se dele e o golpeou. Reyume tentou bloqueá-lo, mas sentiu a força do golpe no braço e não conseguiu evitar ser atingido pelo soco seguinte que o acertou no abdômen, forçando-o a dar um passo para trás. Syaoran não teve pena. Estava com tanta raiva do que tinha se lembrado que tentava apenas controlar-se para não matá-lo de uma vez.
Aproximou-se e, novamente, o homem tentou acertá-lo. O rapaz segurou o braço dele e virou-se de costas atingindo-o com uma cotovelada no meio do peito e, levantando o braço, acertou-o com as costas da mão no meio da boca. Antes de, finalmente, soltá-lo, girou o corpo e o chutou com força, fazendo-o cair no chão de costas.
Syaoran endireitou o corpo e arrumou a roupa enquanto observava Reyume levantar-se olhando para ele com fúria.
‘Acho que terei que elevar o nível desta disputa.’ O homem falou com um sorriso nos lábios que sangrava.
Syaoran estreitou os olhos nele.
‘Você vai entender o que é o verdadeiro poder, Garoto.’ Falou devagar enquanto sua espada de fogo surgia em suas mãos. ‘Você vai aprender a respeitar a sua família!’
O homem estranhou a reação apática de Syaoran que não parecia nem um pouco surpreso com a arma mágica nas suas mãos.
Syaoran estendeu a mão para lado e a esfera negra voou até sua mão. Ele jogou-a para cima duas vezes, sob os olhares surpresos de todos, inclusive de sua mãe.
‘Acho que você é quem não tem ideia do potencial deste Clã, Reyume.’ Respondeu, materializando a espada em sua mão. ‘Está na hora de quebrar de uma vez todos os seus dentes.’ Falou, aproximando-se dele com a arma em punho.
Em vez do homem atacar o rapaz, como planejara fazer, foi obrigado a se proteger das estocadas violentas que Syaoran desferia sobre ele como um especialista.
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Yelan observava o filho, surpresa por vê-lo utilizando a arma mágica. Nunca tinha observado magia vindo do filho e, mesmo agora, não conseguia notar nenhuma aura mágica nele. Não conseguia entender como ele manipulava aquela arma com tanta precisão sem parecer ter magia. Aquilo não fazia sentido. Balançou a cabeça de leve, sentindo-se atordoada.
Olhou para a jovem japonesa que estava parada, observando Syaoran lutar. Quem realmente era aquela garota? Também não conseguia sentir nenhuma magia vindo dela, mas não pôde deixar de sentir um arrepio percorrer sua espinha. Assim como acontecia quando tentava olhar para o futuro do filho, o dela era também opaco e inacessível.
Sakura desviou os olhos da luta de Syaoran e virou-se para Yelan. As duas se encararam de forma arisca. A matriarca do poderoso clã deu um passo para trás. Não conseguia sentir nenhuma magia vindo daquela mulher, mas o olhar dela era tão forte, transmitia tanta força e poder que fez com que um calafrio percorresse suas costas. Engoliu em seco, sentindo-se aliviada quando os olhos verdes da japonesa desviaram-se novamente para a luta de Syaoran.
Yelan percebeu que em nenhum momento ela se abalou, era como se tivesse certeza da força de Syaoran. Não deu um passo sequer para trás. Confiava inteiramente que o rapaz cuidaria da situação. Não tinha visto surpresa, medo, receio, nada… Quem realmente era aquela mulher? A vidente se perguntava em desespero.
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Syaoran bloqueou com a espada um golpe de Reyume, virou-se de costas para ele, segurando o pulso da mão com que o homem segurava a espada, e, com o cabo da sua arma, acertou novamente o rosto dele, finalmente quebrando todos os dentes do ancião, que cambaleou para trás com a mão na boca que sangrava.
Syaoran endireitou o corpo e transformou a espada novamente em esfera negra. ‘Você tem sorte, por eu não quebrar o seu pescoço.’ Falou friamente, observando o homem.
Voltou-se para os outros membros do clã e para a mãe. ‘Estou, definitivamente, saindo do Clã. Não quero pertencer a uma família que não reconhece a minha escolha para esposa e, ainda por cima, usa magia para intimidar e aterrorizar seus próprios membros, principalmente, quando os considera indefesos.’
Deu um passo para trás, ainda encarando o rosto assustado da mãe que, no fundo, não imaginou que o filho tivesse coragem de fazer isso, e virou-se. Estendeu a mão para o lado e logo sentiu a de Sakura segurando de forma firme a dele.
Começou a caminhar para a saída da mansão a qual pretendia nunca mais voltar.
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Sakura já estava arrumando as malas. A volta para o hotel tinha sido silenciosa, até mesmo Kero tinha se mantido em silêncio.
Syaoran chegou ao hotel e se trancou no banheiro, abriu o chuveiro e ficou debaixo dele para esfriar a cabeça. Tinha sido mais difícil do que até ele mesmo havia pensado. No fundo, ele não queria romper com a família.
Ele tinha sentido tanto quanto ela ao cortar relações com Touya. A diferença era que ela ainda tinha esperança de fazer as pazes com o irmão. Syaoran não tinha mais esta esperança.
Soltou um suspiro, pensando que parecia até cômico. Depois que eles enfrentaram quase o inferno inteiro para ficarem juntos, ficaram separados por dois longos anos, apenas com fragmentos de suas vidas em sonhos. E, agora que se encontraram e finalmente poderiam ficar juntos, tinham que enfrentar mais outros problemas. Os problemas pareciam nunca ter fim. O telefone do quarto tocou, ela foi até o aparelho e o atendeu.
‘Senhora Li, seus primos estão na recepção.’ O recepcionista do hotel informou a ela.
‘Primos?’ Ela ficou na dúvida se realmente tinha entendido a palavra corretamente.
‘Mei Ling e Hyo Ling Li, senhora.’ Ele clarificou.
‘Sim. Por favor, permita que eles entrem.’ Ela solicitou.
Sakura desligou o telefone e caminhou até o banheiro batendo a porta. ‘Syaoran…’
Ele não respondeu. Ela empurrou a porta do banheiro e o viu com cabeça debaixo do chuveiro. Pelo jeito a cabeça deveria estar bem quente para precisar de tanto tempo tentando resfriá-la. Foi até ele, tocando-o de leve nas costas para chamar sua atenção. Ele voltou-se para ela e tentou sorrir de leve.
‘Meilyn e Hyo Ling estão subindo.’ Ela informou e o viu franzir a testa.
Ele acenou com a cabeça, informando que já sairia.
Ela saiu do banheiro e respirou fundo. Foi até a antessala onde Kero estava jogando videogame como louco, enquanto comia doces, compulsivamente. Ela pensou que ele explodiria daqui a pouco.
‘Kero-chan, precisa se esconder. Meilyn-chan e o marido estão subindo.’ Ela avisou para o bichano.
‘A komusume me conhece.’ Ele respondeu, sem tirar os olhos do jogo.
Sakura desligou a televisão, deixando-o em choque. ‘Eles não se lembram de você. Agora, vá logo se esconder.’ Ordenou.
‘E eu vou para onde?’ O bichano falou, cruzando os braços. ‘No quarto, o kozou não quer que eu entre. Ele é um pervertido! Você fez muito mal em ter casado com ele.’
Sakura ergueu uma sobrancelha. ‘Você quer voltar a morar com Onii-san e Yue-san?’
‘Isso é golpe baixo.’ Ele respondeu, voltando a perguntar: ‘Onde eu me escondo?’
‘Aqui dentro.’ Ela falou, abrindo a porta do armário. ‘Aproveita e tira uma soneca.’
‘Eu vou morrer asfixiado desta maneira.’ Ainda reclamou enquanto voava em direção ao móvel.
Olhou para sua mestra ainda com os olhos suplicantes para que ela o deixasse continuar jogando, mas Sakura fez um gesto para ele entrar logo.
‘Acho que seria mais bem tratado na casa dos Tao…’ Resmungou e soltou um longo suspiro antes de entrar, deitando em cima do livro onde Sakura tinha guardado as cartas.
Sakura fechou o armário sorrindo de leve. Kero nunca mudaria. Logo ela ouviu batidas na porta do quarto e foi atender.
‘Wǎn shàng hǎo, nǐ zěnme yàng?’ (Boa noite, como vocês estão?). Ela os cumprimentou assim que abriu a porta.
‘Nós é que perguntamos: como vocês estão?’ Meilyn falou, olhando para a jovem japonesa com o rosto sério. ‘Soubemos o que aconteceu hoje.’
Sakura abriu a porta e ofereceu o sofá da antessala para eles se sentarem. ‘Estamos bem.’ Sakura falou, sorrindo de leve e tentando passar confiança.
Meilyn ergueu uma sobrancelha para a jovem. ‘Aqueles velhos são uns babacas. Não precisa ser educada.’
‘Qīn'ài...’ (Querida…) Hyo Ling recriminou a esposa que cruzou os braços, soltando um suspiro aborrecido.
‘Está tudo bem, sim, comigo.’ Sakura falou, mas olhou para o quarto e suspirou. ‘Syaoran é que…’ Ela reteve-se e mordeu de leve o lábio inferior.
‘Deve ter sido difícil para ele.’ Hyo Ling falou.
‘Sim… Mas já passamos por tantas coisas tão mais complicadas…’ Ela comentou distraidamente, olhando para a porta do quarto.
‘Como assim?’ Meilyn perguntou, estreitando os olhos na japonesa. ‘Do que você está falando?’
Sakura arregalou os olhos, recriminando-se por ter falado demais. Eles não tinham ideia sobre a história dela e de Syaoran. A porta do quarto se abriu e Syaoran saiu por ela, observando os primos. Sakura reparou no semblante pesado do marido.
‘Wǎn shàng hǎo.’ Ele cumprimentou-os.
‘Como você está?’ Meilyn perguntou, levantando-se e parando a frente dele.
‘Bem.’ Respondeu de forma contida. ‘Foi como eu esperava.’ Falou por fim.
Meilyn o abraçou com carinho. ‘Será sempre meu primo querido, Xiao Lang.’
‘Obrigado.’ Agradeceu sinceramente.
A chinesa se afastou dele sorrindo e voltou-se para o marido que pigarreou. ‘Não é porque você é um cabeça-oca que vai deixar de ser meu primo.’ Falou de forma contida.
Syaoran sorriu de leve. ‘Não quero criar problemas para vocês.’ Declarou, tentando ser objetivo. Sabia como o Clã agia e não queria que os primos, por algum motivo, sofressem qualquer retaliação pela decisão dele.
Hyo Ling acenou de leve, desconsiderando o comentário dele. ‘Eu não sei exatamente o que você fez…’ Começou a falar. ‘Porque o Clã tentou impedir a validação do seu casamento aqui na China… No entanto, parece que não conseguiram.’
Syaoran meneou a cabeça, sabia que tinha esse risco e, verdade seja dita, já estava até esperando que isso lhe desse bastante dor de cabeça, mas, quando foi verificar a situação, a validação do casamento tinha saído até mais rápido do que imaginara.
‘Não conseguiram?’ Ele falou por fim. ‘Pela rapidez com que foi processado, cheguei a pensar que eles não tivessem tentado nada.’
Hyo Ling riu. ‘Não seja ingênuo. Sua mãe moveria a terra e os céus para anular seu casamento.’
‘O que acha que aconteceu?’ Syaoran perguntou, encarando o primo.
‘Parece que alguém bem importante andou frustrando as tentativas do clã sobre isso.’ Ele respondeu.
Syaoran franziu a testa, cruzando os braços. ‘Não sei quem poderia ser.’ Respondeu sinceramente.
Olhou para Sakura que estava sentada, acompanhando o diálogo em silêncio. Será que…? Não… Ele não o ajudaria. Sakura olhou em sua direção e sorriu de leve, parecendo ter pensado o mesmo que ele. Droga! Syaoran sabia muito bem que Tao era bem capaz de se meter onde não foi chamado. Era petulante o suficiente para isso.
‘Humph’. Murmurou por fim.
‘Bem…’ Hyo Ling chamou a atenção dele. ‘Eu conversei com a senhora Daidouji e ela aceitou contratá-lo como autônomo para continuar seu trabalho na empresa. Até porque você sabe que o clã agora quer sua cabeça. Mas eles são temperamentais demais. Eu tenho que ser mais prático.’ Ele falou, olhando para o primo. ‘Quero que continue acompanhando a fusão. Não tem como eu mandar nenhuma outra pessoa. Você sabe muito bem como os nossos outros primos reagem ao comando de uma mulher.’ Ele ouviu Meilyn bufar, contrariada. ‘Você tem qualificação, tem a cabeça mais aberta com relação a isso e eu confio em você.’
‘Não é necessário, Hyo Ling. Posso conseguir trabalho em outra empresa.’ Syaoran falou, não por orgulho, mas porque realmente não gostaria que o primo se complicasse.
‘Estou sendo prático, Xiao Lang. Não tenho outra pessoa para substituí-lo. Vou ter problemas com qualquer um que mandar para lá. E investimos dinheiro demais nesse negócio. Não é por causa de um problema familiar que vamos colocar em risco um negócio deste porte.’ Ele falou de forma clara. ‘O Clã, sem dinheiro, não é tão poderoso quanto acha que é.’ Completou sorrindo de lado. ‘Considere que estará fazendo um favor para mim ao ficar neste cargo. Lembre-se que está me devendo.’
Syaoran endireitou o corpo, pensativo, enquanto encarava o primo. Não sabia exatamente se o discurso dele era verdade ou não. Hyo Ling era diplomático demais, às vezes achava que o primo tinha sangue de barata, mas era bem mais esperto do que ele, que tinha a cabeça quente, para os negócios.
No final, apesar de tentarem sempre manipulá-lo, Hyo Ling conseguia se esquivar fazendo valer suas decisões. Tinha autorizado Meilyn a cursar faculdade e, apesar de todos esbravejarem, ninguém ousou tirá-lo do cargo.
Franziu a testa de leve, provavelmente a revolta da mãe se devia, em grande parte, ao fato de que, agora que ele tinha definitivamente rompido com o clã, não conseguiriam mais tirar Hyo Ling da posição. Balançou a cabeça. Por algum motivo sentimental, até pensou que ela poderia ter ficado realmente triste por perder contato com ele, mas ponderando de forma fria, ele caindo fora do clã, tornava Hyo Ling realmente mais forte, e menos manipulável por eles.
‘Não sei se acredito nesse seu discurso, mas se realmente for para ajudá-lo, aceito a proposta.’ Falou por fim.
‘Ótimo!’ Hyo Ling falou satisfeito abrindo um sorriso. ‘Você não precisará se preocupar com o clã. Ninguém vai lhe encher o saco.’
‘Só você.’ Syaoran soltou, sorrindo de lado.
‘Pode ter certeza que sim.’ O primo confirmou. ‘Sabe muito bem o tamanho do investimento, então sabe o quanto quero que fique em cima deles.’
Meilyn sorriu observando o primo e o marido, depois observou a japonesa que sorria de leve fitando Syaoran. Ergueu uma sobrancelha, não sabia exatamente o porquê, mas realmente começava a gostar daquela garota.
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Sakura sentou na beirada da cama, fechou os olhos e tentou relaxar o pescoço. Haviam chegado de Hong Kong naquela tarde. Não tinham muito o que fazer lá, então, assim que Syaoran pegou toda a documentação confirmando o casamento deles, voltaram para casa.
Além disso, o casamento de Tomoyo estava próximo e ela gostaria de estar com a prima que, muito provavelmente, devia estar quase explodindo. Pensou que seria uma boa se ela tomasse alguma coisa para relaxar, ou acabaria tendo uma crise de pânico na hora de se casar e, ao invés de seguir em direção a Kurogane, sairia correndo.
Sentia-se também um pouco indisposta. Provavelmente por stress e por toda tensão gerada durante a viagem.
‘E a bola de pelo?’ Ouviu o marido perguntar. Ele já estava deitado, lendo um livro.
‘Arrumei o quarto do início do corredor para ele.’ Ela respondeu. ‘Ele está instalando o videogame que compramos no shopping do aeroporto. Está enlouquecido.’
Syaoran suspirou. ‘É… esta bola de pelo vai dar prejuízo.’
Sakura sorriu de leve, pensando que o irmão falava a mesma coisa de Kero. Franziu a testa de leve e voltou-se para o marido.
‘Será que Yue-san já despertou?’
‘É provável.’ Ele respondeu. ‘Ou… talvez agora com sua presença por perto é que tenha feito isso.’
‘Ainda tenho esperança que, talvez, Yue-san ajude Onii-san a recuperar as lembranças sobre nós dois.’ Ela falou.
‘Seria bom.’ Ele respondeu. ‘Aguarde mais um pouco.’
Ela concordou com a cabeça e se aproximou dele, aconchegando-se no peito do marido. ‘Como você está?’
Syaoran suspirou, colocando o livro sobre a mesa de cabeceira e passou o braço pelos ombros dela, acariciando-a de leve nas costas. ‘Chateado.’ Foi sincero. ‘Mas já era de se esperar.’
Ela concordou com a cabeça. ‘Eu realmente sinto muito, Syaoran.’
Ele sorriu de leve. ‘Não sinta.’ Beijou a cabeça da esposa. ‘Estou exatamente onde eu quero estar.’
Sakura afastou-se do peito do marido e levantou o rosto, fitando-o de perto. ‘Eu também.’ Falou antes de alcançar os lábios dele, beijando-o.
Syaoran a abraçou, inclinando-a para ficar de costas na cama enquanto acariciava o corpo da esposa e a beijava. Estavam se beijando de forma intensa quando ouviram a campainha da casa tocar.
Syaoran afastou-se dela com o rosto sério. ‘Quem seria maluco de visitar a essa hora?’ Falou, fitando o relógio do quarto que indicava que já era bem tarde da noite. Levantou-se da cama com o rosto contrariado e vestiu uma camisa, sussurrando alguns palavrões de revolta por ter sido interrompido no que estava prestes a fazer.
Sakura se levantou da cama preocupada, colocou o robe e acompanhou o esposo que descia, bem contrariado, as escadas para o andar térreo da casa.
A campainha tocou novamente e, desta vez, ela ouviu em alto e bom tom o marido xingando o inconveniente visitante. Ele abriu a porta e encarou, com cara de poucos amigos, o homem alto que estava inclinado sob o batente da porta.
‘Kinomoto?’ Syaoran perguntou, franzindo a testa.
Touya levantou o rosto e encarou o cunhado. ‘Como vai, Li-san? Preciso falar com Sakura.’
‘A hora é um pouco inapropriada, não?’ Ele retrucou.
Touya suspirou de forma pesada. ‘Yue acabou de despertar.’ Ele esclareceu.
‘Yue?’ Syaoran repetiu, observando o semblante pesado do cunhado.
‘É…’ Touya confirmou. ‘E eu… bem… eu me lembrei de tudo.’
Syaoran fechou a porta para retirar a corrente de proteção, abrindo-a para encarar o cunhado.
‘Onde ele está?’ Syaoran perguntou.
‘Ficou em casa. Pedi para vir sozinho.’ Touya respondeu. ‘Eu não vou demorar. Mas não conseguiria dormir sem falar com Sakura.’
Syaoran confirmou com a cabeça, saindo da frente dele para que pudesse entrar. Touya deu um passo à frente e encarou o chinês. Sorriu sem graça. ‘Estou feliz que tenha voltado.’ Falou, colocando a mão no ombro do chinês.
Syaoran franziu a testa, encarando-o. ‘Estou feliz que tenha vindo fazer as pazes com sua irmã.’
Touya concordou com a cabeça e virou o rosto, observando Sakura descendo devagar a escada. Ela sorriu para ele que sorriu de volta.
‘Desculpe-me, Kaijuu.’ Falou sinceramente.
‘Nii-san.’ Ela correu até ele, abraçando-o pela cintura.
Touya envolveu-a com seus braços e apertou o corpo pequeno da sua florzinha. Estava satisfeito por ter certeza agora que sua irmã estava realmente feliz com o homem que ela amava e que também a amava. E devidamente casada.
‘Sabe…’ Ele falou e Sakura afastou o rosto do peito dele, levantando-o para fitar o irmão. ‘Preciso lhe dar os parabéns pelo casamento.’ Sorriu, fazendo-a abrir mais ainda o sorriso.
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Sakura observava o marido e Touya conversando de forma amigável. Estavam os três, mais Yukito, sentados em uma das mesas da festa de casamento de Tomoyo e Kurogane. A cerimônia foi linda. Tomoyo estava uma noiva deslumbrante, embora estivesse mais pálida que o normal. Estava nervosa, mas pelo menos não saiu correndo em pânico.
Kurogane era só sorrisos por finalmente “transformar sua princesa em sua rainha”, como ele mesmo colocara no discurso ao início da festa. Sonomi chorava como todas as mães de noivas costumam chorar durante a cerimônia.
A mansão Daidouji estava toda iluminada e enfeitada para a cerimônia e agora para a festa. Devia ter pelo menos uns 400 convidados. Sakura pensou que a maioria eram amigos de Sonomi ou colegas de trabalho. Convidados dos noivos, realmente, se tivesse uns 100 era muito.
Kero tinha ficado triste por não poder ir ao casamento de Tomoyo. Na verdade, ele estava bem triste por ela não se lembrar dele nem de nada relacionado a magia. O guardião solar adorava a morena e a forma como ela sempre o tratara com carinho, dando-lhe doces e até mesmo fazendo trajes especiais para ele na época que Sakura e Syaoran eram card captors. Kero sentia falta de assistir às fitas com suas maravilhosas façanhas e, até ele entender que elas não existiam mais, fora bem difícil e penoso.
Ela sorriu de leve, vendo Syaoran conversar com Touya sobre o trabalho e alguns outros assuntos aleatórios. Estavam se dando bem, apesar de ainda tratarem-se de forma contida. Yue havia aparecido no dia seguinte ao que Touya foi visitá-los. O guardião lunar tinha ficado bem chateado por ela tê-lo adormecido, mas concordou que foi uma alternativa melhor do que ser lacrado como aconteceu com Kerberus.
Syaoran bem que tentou convencê-la, de forma sutil, a deixar Kero com Touya, mas a ruiva achou melhor o bichano ficar com eles. Eles se implicavam quase todo o tempo, mas ela sabia que, no fundo, Kero gostava do “ero-kozou”, como ele chamava Syaoran agora; e o marido gostava da bola de pelo.
Ela não era tonta, percebeu que os dois se implicavam apenas quando ela estava por perto, quando se encontravam sozinhos até conversavam de forma amigável.
Yue e Kerberus perguntaram por “Clow” e Sakura entrou em contato com o primo distante, Eriol. Tentou falar algo, de forma indireta, sobre os dois, mas percebeu que, realmente, Hiiraguizawa não tinha lembranças sobre as Cartas.
Ela também falou que havia se casado com Syaoran Li e o único comentário que ele fez foi sobre conhecer a mãe dele e ter ouvido que o rapaz tinha abandonado o clã. Não falou de forma aberta, mas Sakura sabia que provavelmente eles se conheciam do Círculo.
Sakura tinha percebido que Yelan possuía magia, assim como alguns outros anciões do Clã Li, então, era óbvio deduzir que Eriol ainda mantinha a magia na vida dele. Ele continuava sendo a reencarnação do mago Reed Clow. No entanto, parecia que tudo relacionado ao Caos, às cartas Clow, Yue, Kerberus, Syaoran e a ela própria foram apagados também da mente de Eriol Hiiraguizawa.
Yue sentiu, apesar de tentar disfarçar. Ele tinha verdadeira adoração pelo seu criador e, com certeza, a confirmação de que Clow não se lembrava dele foi um golpe bem dolorido. Ela conhecia bem o guardião lunar que, apesar de sempre sério, não conseguia esconder de sua mestra seus sentimentos.
Touya ainda não conseguia entender como e por que tudo aconteceu. Às vezes, sentia-se meio perdido tentando saber exatamente o que nas suas lembranças fazia parte da sua atual existência e o que era parte da anterior. Isso também acabou sendo um ponto que o aproximou bastante de Syaoran.
‘Sakura-chan!’ Ela ouviu lhe chamarem.
Virou-se para a direita, observando um sorridente casal que se aproximava. Levantou-se sorrindo e cumprimentou Chiharu e Yamazaki. Os dois também já estavam com casamento marcado, mas seria apenas no próximo ano.
‘É muito bom vê-la fora da escola.’ Chiharu comentou depois de abraçar a amiga. Elas trabalhavam juntas na escola primária de Tomoeda.
‘É verdade!’ Sakura sorriu, voltando-se para Syaoran que se levantou e respirou fundo.
Para ele devia ser bem complicado ter que ser reapresentado a todos os amigos.
‘Eu quero lhes apresentar a meu marido.’ Ela falou, apertando brevemente a mão dele. ‘Syaoran Li.’
Chiharu e Yamazaki não conseguiram disfarçar a surpresa ao saber que a amiga estava casada. Eles não sabiam nem mesmo que ela estava namorando antes.
Syaoran cumprimentou os dois de forma polida e, depois de se esquivarem das perguntas típicas de “como vocês se conheceram?” e “por que se casaram tão rápido?”, começaram a conversar sobre assuntos mais agradáveis.
Yamazaki, em pouquíssimo tempo, inclusive já estava convidando Syaoran a participar das partidas de futebol do clube de Tomoeda, onde ele jogava com alguns colegas do tempo de escola e faculdade.
Chiharu comentou que gostaria de marcar um encontro dos ex-alunos da escola primária de Tomoeda e mencionou que Naoko estava nos Estados Unidos como correspondente internacional. Ela gostaria muito de estar presente na cerimônia do casamento de Tomoyo, mas não havia conseguido uma folga do trabalho.
Rika se aproximou do grupo de ex-colegas de escola. Ela tinha feito faculdade de Pedagogia com Chiharu, mas trabalhava no ginasial. As três ainda se viam com certa frequência durante o ano escolar, já que as duas escolas eram vizinhas. Também não conseguiu disfarçar muito bem a surpresa ao ser apresentada a Syaoran como sendo esposo de Sakura.
‘E nem quis fazer uma festa ou chamar os amigos...’ Yamazaki comentou, erguendo o indicador. ‘Você sabia que, no antigo Egito, caso um casamento fosse celebrado sem uma grande festa, com fartura e muitos amigos, os noivos poderiam até mesmo ser amaldiçoados pelos faraós?’
‘Mesmo?’ Sakura perguntou desconfiada, franzindo a testa de leve.
‘Ainda bem que não estamos no Antigo Egito, então.’ Syaoran falou balançando o corpo de leve. Realmente o rapaz não tinha perdido a mania de contar histórias. ‘Na China, estas cerimônias espalhafatosas, inclusive, podem trazer muita má sorte para o casal.’
Yamazaki olhou para ele, erguendo uma sobrancelha. ‘Essa história eu não conhecia.’
‘Para você ver como as culturas são diversificadas.’ Comentou, sorrindo de forma irônica.
Sakura olhou de esguelha o marido. Reconhecia muito bem o tom do rapaz, deu uma leve cutucada nele que olhou para a esposa erguendo as sobrancelhas.
‘Estou apenas divulgando a cultura do meu país.’ Ele respondeu, fingindo inocência.
Yamazaki percebeu a interação entre os dois, deu uma longa risada, colocando a mão no ombro de Syaoran e virou-se para Sakura. ‘Eu acho que Li-san e eu nos daremos muito bem. Tem um ótimo senso de humor.’
Sakura quase caiu na gargalhada ao ouvir isso. O senso de humor do marido era realmente instável.
Chiharu observou os dois rapazes e balançou a cabeça de leve. Se Yamazaki encontrasse um companheiro de histórias, aí sim que teria problemas em controlar o noivo. Apostaria que, da próxima vez que se encontrasse com seus pais, o noivo contaria esta mesma história que Li contou, inclusive, usando isso como justificativa para tentar diminuir o orçamento que tinham estabelecido para o casamento dos dois.
Os amigos acabaram se sentando com eles à mesa para conversarem. Syaoran falava de forma animada com Yamazaki e Yukito. Touya inclusive era o mais contido.
Sakura deu um longo suspiro, observando os amigos. Há uns quantos dias sentia-se indisposta. Não sabia direito o que era. Pensou em procurar um médico, pois logo começariam as aulas e não poderia ficar sentindo-se mal no trabalho.
Kurogane se aproximou junto com Tomoyo para cumprimentá-los. O altão era só sorrisos. Tomoyo parecia menos nervosa, mas ainda ficava olhando para os lados, verificando se tudo transcorria de forma correta. Assim que o casal chegou à mesa dos amigos, Kurogane franziu a testa observando Syaoran conversar com Touya. Ponderou que, talvez, Touya estivesse com o nível de teor alcoólico mais alto para mostrar-se tão bem entrosado com o cunhado.
‘Tomoyo-chan, parabéns!’ Chiharu abraçou a amiga, desejando-lhe felicidades. ‘A festa está perfeita.’
Tomoyo sorriu agradecendo e recebeu os outros cumprimentos dos amigos.
Syaoran cumprimentou Kurogane. ‘Parabéns.’ Falou, mas foi surpreendido pelo rapaz que o abraçou, dando tapinhas nas suas costas.
Kurogane devia ter tomado algumas taças de champanhe a mais. O altão afastou-se de Syaoran e olhou para Touya que lhe lançou dardos pelos olhos, apenas estendendo a mão e informando que se ele tentasse fazer algo parecido não se responsabilizaria por dar um soco no noivo. Apertou a mão de Kinomoto e mal ouviu a congratulação sussurrada por ele. Cumprimentou a todos da mesa sorrindo, mal conseguindo esconder a felicidade com relação ao casamento.
Sakura abraçou a prima. ‘Foi tudo perfeito, Tomoyo-chan. Você foi a noiva mais linda de todos os tempos.’ Ela falou, observando a prima ficar corada. ‘Viu como você também pode ser uma linda modelo para seus próprios desenhos?’
Tomoyo sorriu corando mais ainda. ‘Ainda bem que Okaasama me deixou, pelo menos, escolher meu vestido de noiva.’ Falou, soltando um suspiro aliviado.
A ruiva se aproximou ao ouvido da prima. ‘Kurogane-kun não vai ter tanto trabalho para tirá-lo, não é?’ Perguntou, rindo e vendo-a corar mais ainda, mesmo que os olhos da morena se desviassem para o marido que conversava com Syaoran e Yamazaki.
‘Estou muito feliz, Sakura-chan.’ Tomoyo falou e finalmente conseguiu sorrir de forma aliviada. ‘Acho que tudo deu certo.’
‘Eu sempre soube que daria tudo certo. Sua festa foi linda.’
‘Obrigada por me aguentar nestes últimos meses.’ Ela falou, sabendo que estivera uma pilha de nervos. ‘Se não fosse você, acho que eu realmente explodiria.’
Sakura sorriu. ‘Amigas são para estas coisas.’
Tomoyo tirou os olhos dela e fitou Syaoran. ‘Você está bem?’
‘Não poderia estar melhor. Estou feliz e agora sei que está feliz também.’
Tomoyo comprimiu os lábios, voltando a fitá-la. ‘Yuo fala muito bem de Li-san.’
‘Você tem que dar uma chance para, pelo menos, conhecê-lo, não?’ Disse seriamente.
Tomoyo franziu a testa de leve e depois suspirou. ‘Marcaremos um jantar quando eu voltar de lua de mel, pode ser?’
Sakura abriu um imenso sorriso. ‘Combinado.’
A ruiva voltou-se para trás e encontrou o marido admirando-a. Sorriu para ele que sorriu de volta. Estava tudo se ajeitando. Eles, com certeza, ficariam bem.
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Sakura havia pedido para sair mais cedo da escola naquele dia. Chegou em casa um pouco depois das quatro da tarde. Esperava que desse tempo para preparar tudo. Syaoran costumava chegar em casa às seis, mas ela tinha pedido que Kurogane o apertasse um pouco mais no trabalho hoje, para que ele chegasse perto das sete da noite.
Ela também pediu para Kero ficar na casa do irmão e que voltasse apenas na manhã do dia seguinte. O bichano reclamou, Touya bufou e Yukito concordou sorrindo. Então, depois de subornar o guardião solar com doces e uma sutil ameaça de confisco do videogame, o guardião solar aceitou passar a noite na casa do irmão de Sakura.
Entrou na cozinha com o pacote de compras e o deixou sobre o balcão. Logo pediu que Espelho a ajudasse no preparo da janta e que Flor enfeitasse a casa.
As cartas voltaram a fazer parte de sua rotina como anteriormente. Sakura não as trancara mais. Dava até certa liberdade para elas, apenas solicitava que não prejudicassem ninguém.
Syaoran inicialmente ficou hesitante com relação a elas. Como Khala’a não estava mais presente, pensou que agora elas estariam ligadas unicamente a Sakura, mas se surpreendeu ao perceber que elas continuavam a chamá-lo de Mestre e a atendê-lo, além de demonstrar imenso carinho por ele.
Para Sakura isso era evidente, independente da história que Khala’a havia contado a Syaoran sobre a questão da hierarquia do grupo. Syaoran era parte dela, assim como ela sabia ser parte dele. Se as cartas a amavam, era óbvio que elas o amariam também. No entanto, para Syaoran, estas questões nem sempre pareciam tão claras como eram para ela. Até mesmo Kero tentava se controlar melhor perto dele.
No final, tudo havia se ajeitado da melhor maneira possível. O marido ainda sentia pelo rompimento com o clã. Volta e meia, ele comentava alguma coisa sobre os brinquedos que a empresa Daidouji produzia e que seriam do agrado de alguns de seus sobrinhos, principalmente de sua Yīnghuā. Ele também se sentia um pouco decepcionado com a mãe e, apesar de nunca falar isso abertamente, Sakura percebia o olhar do marido às vezes triste.
Sakura pegou o papel onde tinha anotado as receitas para uma refeição típica chinesa e do doce preferido do marido que havia pegado com Meilyn. Suspirou e olhou para Espelho que sorriu para ela.
‘Tudo vai sair perfeito, Mestra.’ Ela falou sorrindo.
‘Espero não estragar tudo. Vai ser a primeira vez que tento fazer.’ Sakura comentou, retirando as compras das sacolas.
Espelho meneou a cabeça. ‘Qualquer coisa… Doces pode lhe ajudar com o Dim Sum.’ Ela falou.
Sakura sorriu. ‘Vamos tentar fazer sozinhas.’ Falou tirando da sacola a farinha de trigo para o preparo da massa do wonton, o camarão, que seria usado para rechear os pastéis, e os legumes que havia comprado para fazer uma sopa de wonton típica de Hong Kong. ‘Vamos começar pela sopa.’ Ela se organizava. ‘Depois vamos para o chop suey de carne.’ Determinou, tirando o restante das compras enquanto passava os olhos no papel em que tinha anotado as receitas. Deu um longo suspiro. ‘É... o Dim Sum que é mesmo o mais complicadinho.’
‘Vai dar tudo certo.’ Espelho falou, animando-a. ‘Em último caso… Tempo pode nos ajudar.’ Disse, soltando uma risadinha.
Meilyn e Hyo Ling mantinham contato com eles. Hyo Ling, principalmente, por causa do trabalho e dos relatórios semanais que Syaoran tinha que enviar para ele sobre a empresa, mas a conversa sempre se encaminhava para assuntos em comum dos dois.
Meilyn ligava algumas vezes para ele e sempre conversava com Sakura depois. No final, acabaram virando amigas. Ela sempre reclamava do clã, mas se queixava principalmente das mulheres que ainda a olhavam torto.
Syaoran não achava muito justo Sakura voltar a se dar tão bem com Meilyn, enquanto Tomoyo ainda lhe soltava dardos pelos olhos quando se encontravam. Para a morena, ele ainda era um chinês louco que seduziu a prima. Pelo menos sua relação com Kurogane estava mais próxima do que era. Voltaram, inclusive, a treinar juntos algumas vezes pela manhã, como faziam antes.
O problema era conseguir separar bem as duas existências que havia vivido com o amigo. Uma em que estudaram juntos e dividiram um alojamento estudantil e outra em que se conheceram apenas como colegas de trabalho. Quanto a Tomoyo, ele já até havia se acostumado a chamá-la de “sua noiva” e agora, de “sua esposa”.
Sakura sabia que ele estava ressentido por isso e, para dizer a verdade, ela só tolerara aquela situação em consideração ao nervosismo da prima quanto ao casamento. Durante a festa do casamento da amiga, ela tinha comentado de marcar um jantar.
Seria uma primeira tentativa de aproximação em que Tomoyo poderia baixar a guarda perto de Syaoran. Esperava, sinceramente, que nessa ocasião ela realmente melhorasse a relação com ele. Se isso não acontecesse, teria que ser mais assertiva com a prima. Não admitiria que ela continuasse a tratá-lo daquela forma. Syaoran já tinha aberto mão de muitas coisas, não era justo ainda receber olhares julgadores.
Sakura olhou por sobre o ombro direito, vendo flores enfeitando a casa inteira. Soltou um suspiro, tinha pedido para ela dar uma vida na casa, mas era melhor chamar a atenção dela ou a sala pareceria um jardim.
Caminhou até a porta da cozinha e viu a Carta dançando enquanto enfeitava o ambiente. Desistiu. Ela estava feliz demais para ser repreendida. Pequeno e Grande arrumavam a mesa da sala conforme Sakura as orientara. Na verdade, elas mais discutiam do que realmente seguiam as recomendações da Mestra.
Voltou-se para a cozinha, passando os olhos pelo relógio da sala. A sopa já estava pronta, agora era a vez da carne. Os legumes usados para fazer o caldo da sopa de wonton seriam usadas para o chop suey, esperava só que não estivessem cozidos demais.
Assim que jogou o óleo de gergelim na panela para refogar a carne, respirou fundo sentindo o aroma se espalhar pela casa.
Não foi difícil finalizar a carne. Sorriu, sentindo-se satisfeita de ter conseguido fazer sem grandes dificuldades os pratos. Agora vinha a sobremesa. Dim Sum. Verdade que realmente sentiu-se tentada a pedir para Doces ajudá-la nisso, mas não seria o correto.
‘Vamos lá.’ Ela falou para si mesma. ‘Vamos fazer a massa e rechear com um creme de chocolate, que ele gosta. Talvez eu possa adicionar um pouco de licor de menta.’
Espelho sorriu para ela. ‘Ele vai gostar, independente do que você fizer.’
‘Droga…’ Ela soltou aborrecida. ‘Esqueci de comprar as cestas de bambu.’ Falou franzindo a testa levemente. Olhou para Espelho e sorriu para ela. ‘Criatividade pode me ajudar, não?’
Ela mal tinha perguntado e a Carta já estava se manifestando, fazendo aparecer os cestos tradicionais chineses a frente de sua mestra que sorriu satisfeita e agradeceu.
Fez a massa conforme a orientação da receita e fez o recheio de chocolate e menta. Esperava que a sua ideia de juntar as duas coisas que o marido gostava desse certo. Nunca tinha visto Dim Sum daquele sabor, mas seria, pelo menos, inusitado.
Assim que colocou os bolinhos translúcidos para assar no vapor nas cestas de bambu, foi para sala para ver como estava a organização. Encontrou Grande e Pequeno ainda discutindo sobre onde colocar os talheres e Nuvem sobrevoando a sala enquanto ria da briga das duas.
‘Hei! Assim não vai dar certo.’ Ela falou com ar de zangada, mas rindo-se.
Arrumou a mesa como achava que ficaria melhor. Ergueu uma sobrancelha, pensando que esqueceu de um detalhe: a bebida. Estavam no meio da semana, Syaoran trabalharia no dia seguinte e ela também. Voltou-se para a cozinha abrindo os armários, pensando no que poderia servir.
‘Suco de limão.’ Falou decidida.
Era saudável, refrescante e sabia que o marido gostava. Além de combinar com os pratos que eram praticamente todos adocicados. Pegou os limões já pedindo para Espelho espremê-los enquanto ela ia tomar um banho e se arrumar, ou Syaoran chegaria em casa e a encontraria de avental ainda na cintura.
Correu para o segundo andar, tomou banho e colocou uma roupa que o marido já tinha elogiado antes. Olhou-se no espelho do quarto, pensando que poderia usar o vestido mais curto já que estavam em casa e não sairiam para um restaurante. Com raras exceções, Syaoran não demonstrava abertamente que era ciumento, embora também não conseguisse disfarçar muito bem. Puxou o vestido para cima, deixando-o mais curto e sorriu satisfeita.
Foi até o armário e pegou o embrulho de presente que tinha escondido ali para que Syaoran não o visse antes. Abriu ainda mais o sorriso pensando que tinha conseguido fazer o que queria. Desceu para o térreo e sentiu-se satisfeita por tudo estar pronto. E bem a tempo.
Arregalou os olhos, percebendo a presença do marido se aproximar e já foi pedindo para as cartas voltarem a forma de lâminas mágicas. Agora era para deixarem tudo com ela. Só pediu que Brilho desse o toque final no ambiente todo decorado. Apagou as luzes da casa e esperou por ele, balançando levemente o corpo de ansiedade.
Syaoran abriu a porta e franziu a testa, sentindo o aroma de shoyu e óleo de gergelim. Entrou na casa e sorriu de leve, vendo a sala toda decorada com flores, a mesa posta para o jantar e o ambiente apenas iluminado por Brilho.
Sakura estava no meio da sala, sorrindo para ele. Ela estava linda. Ergueu uma sobrancelha, reparando que o vestido estava mais curto do que ele se lembrava e sorriu de lado.
‘Qual é a ocasião?’ Ele perguntou.
Não se lembrava de nenhuma data especial hoje. Ou ele tinha esquecido de alguma? Talvez o dia que eles se conheceram? Não. Quando ele se declarou? Também não. Será que era quando eles assumiram o namoro? Não.
‘Oras… só quis fazer um jantar especial para você.’ Ela falou manhosa. ‘Venha.’ Chamou-o, estendendo a mão a frente. ‘Lave suas mãos e sente-se logo. Vou trazer a entrada.’ Falou satisfeita.
Syaoran caminhou até ela, ainda olhando desconfiado para a esposa, e depositou um beijo na testa. Ela sorriu de forma linda para ele.
‘Vá logo.’ Ordenou, já saindo para a cozinha.
Ele a acompanhou com o olhar até cruzar a porta e olhou em volta. Sorriu apreciando o exagero de flores pela sala, com certeza Flor deveria ter quase enlouquecido Sakura. Caminhou até o lavabo, lavou-se e logo voltou.
Ouviu alguns barulhos na cozinha e perguntou se a esposa precisava de ajuda, mas logo o rosto dela apareceu na porta, falando que não precisava se preocupar. Era para ele se sentar e esperar que ela já serviria.
Ele se ajeitou na cadeira, olhando em volta. Por algum motivo sentia-se ansioso. Lembrou-se do dia que foi jantar na casa de Sakura logo depois que a encontrou no parque de diversões antes de capturarem Khala’a. Era estranho sentir-se como um convidado, pois normalmente eles preparavam juntos as refeições.
Sakura se aproximou com duas tigelas e colocou uma a frente dele que arregalou os olhos de leve. ‘Sopa de wonton?’ Perguntou apenas para confirmar.
‘Isso mesmo.’ Ela respondeu sorrindo. ‘Fiz conforme servem em Hong Kong.’ Ela mordeu de leve o lábio inferior. ‘Só espero que esteja boa. Foi a primeira vez que tentei fazer.’ Desviou os olhos dele.
Syaoran sorriu. ‘Tenho certeza que está boa. Estava com saudades de comida típica chinesa.’ Comentou satisfeito.
‘Ah, então acertei o cardápio!’ Ela exclamou. ‘Fiz como prato principal Chop suey de carne!’
Syaoran, que já estava comendo, levantou os olhos para ela. ‘Mesmo?’
Ela confirmou sorrindo.
‘Tem certeza que não é nenhuma data especial? Eu realmente não me lembro…’
‘Hei!’ Ela o interrompeu. ‘É só um jantar, Syaoran.’
Ele olhou em volta. ‘Só um jantar…’ Repetiu, voltando a tomar a sopa.
Logo depois da sopa, ela serviu a carne que também foi elogiada por ele e, finalmente, colocou a frente dele a cestinha de bambu com os Dim Sum exóticos.
Ele, assim que experimentou, riu e comentou ter sido a primeira vez que comia Dim Sum de chocolate, mas que estava muito gostoso e refrescante com o toque de menta.
Finalizou a refeição e se encostou na cadeira ouvindo a esposa comentar que deveria patentear sua criação de Dim Sum de chocomenta, pois ela mesma também tinha gostado.
‘Ah! Tem mais uma coisa!’ Ela falou, levantando-se e pegando a caixinha de presente. Estendeu para ele que a pegou, colocando-a sobre a mesa. Sakura deu a volta e sentou-se observando o marido abrir a caixa desconfiado.
Ele ainda perguntou, mais uma vez, se realmente não era uma ocasião especial, a qual ele tinha esquecido.
‘Você não esqueceu de nada, Syaoran.’ Ela o tranquilizou, rindo-se. ‘Abre logo…’
Ele se ajeitou na cadeira e abriu a caixa, franziu a testa de leve, afastando os papéis de seda e tirando, finalmente, de dentro dela um par de sapatinhos de bebê verde. Ele arregalou os olhos e levantou o rosto, fitando a esposa.
‘Ainda bem que eu ainda me lembrava como se tricotava.’ Ela falou, sorrindo.
‘Espera…’ Ele falou, ainda tentando entender. ‘Você… nós…’
‘Você vai ser papai.’ Sakura falou e o viu abrir um sorriso enorme.
Syaoran ainda olhou por alguns segundos para os sapatinhos e Sakura notou que os olhos dele se tornaram mais brilhantes, umedecidos por lágrimas que ele tentava espantar, piscando repetidamente. Ele se levantou, indo até a esposa e estendeu a mão para ela, que a segurou, levantando-se. Ele não conseguia fechar o sorriso dos lábios. Abraçou-a pela cintura.
‘Você hoje me fez o homem mais feliz do mundo.’ Falou antes de se inclinar e beijá-la nos lábios.
Continua.
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