FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 30

Arrependimentos

Sakura abriu os olhos e sorriu. Estava abraçada a Syaoran. As pernas estavam entrelaçadas, os corpos juntos. A cabeça dela repousava no peito do namorado possibilitando que ouvisse as batidas suaves do coração dele. Syaoran já estava acordado, acariciava os cabelos dela de forma terna. Assim era muito melhor de acordar do que sozinha naquela cama dura do hospital de Tomoeda.

Ela suspirou, inalando o perfume gostoso do rapaz e voltou a fechar os olhos, aconchegando-se melhor ao corpo dele. Queria acordar todos os dias da sua vida daquela maneira.

Sentiu-o beijar sua cabeça de forma demorada. ‘Bom dia.’ Ele murmurou.

‘Bom dia.’ Ela falou, ajeitando-se melhor e afundando o rosto na linha do pescoço do rapaz, fazendo-o fechar os olhos e sorrir. ‘Estou com saudades...’ Ela sussurrou, beijando de leve o pescoço dele.

‘Você ainda não pode se esforçar.’ Ele a advertiu.

‘Fazemos bem devagar.’ Ela ainda insistiu.

‘Não faça isso comigo.’ Syaoran pediu, engolindo em seco. ‘Você realmente não pode agora.’

Sakura suspirou. Ele tinha razão. Voltou a acomodar sua cabeça no peito dele e sossegou. O enfermeiro Taniguchi tinha razão, eles precisavam ser comedidos agora.

Syaoran voltou a acariciar os cabelos dela. Ficaram um tempo em silêncio apenas curtindo estarem abraçados.

‘Hiiraguizawa provavelmente passará aqui mais tarde para saber como você está.’ Syaoran disse, de repente. ‘Quer conversar sobre as Cartas e o fato de estarem descontroladas.’

Sakura franziu a testa. ‘Elas não estão descontroladas, apenas um pouco rebeldes.’

Voltaram a ficar em silêncio. Syaoran observava os raios solares que invadiam o quarto.

‘Sabe…’ Syaoran começou. ‘Eu tive uma conversa interessante com Esperança.’

Sakura se levantou e sentou na cama, fitando-o. ‘Como assim?’

Ele se ajeitou, erguendo-se para ficar encostado na cabeceira da cama. ‘Naquela hora que tudo aconteceu, Trevas se manifestou e não queria por nada voltar. Acho que estava esperando por você.’

Sakura lembrava-se disso. ‘Verdade.’ Ela franziu a testa de leve, com estranhamento. ‘Eriol a controlou?’

Ele negou com um gesto, fazendo a jovem inclinar um pouco a cabeça e sorrir. ‘Você a controlou.’

Ele semicerrou os olhos nela. ‘Você sabia disto, não é?’

Ela deu de ombros. ‘Era óbvio, não?’

‘Claro que não. Eu só as controlei quando você autorizou.’

Ela suspirou. ‘Sabe, Syaoran, você é bem cabeça dura para aceitar algumas coisas, não?’

Syaoran coçou a cabeça e sorriu. ‘Acho que sim.’

‘O que Esperança conversou com você?’ Ela voltou ao ponto.

Ele ficou um tempo em silêncio, observando a namorada.

Ela mordeu os lábios, ansiosa. ‘Fala logo.’

‘Sobre a carta que você criou sozinha.’

‘Ah!’ Ela arregalou os olhos e os desviou dele.

‘Por que não contou para ninguém?’

‘Eu ia contar para você, mas estava sem coragem. Eu não conseguia nem falar dos meus sentimentos, parecia que tudo atrapalhava.’ Ela falou. ‘Depois ela desapareceu, quer dizer… Eu não sei bem o que aconteceu quando transformamos a carta Vácuo.’ Falou com sinceridade. ‘Aquela carta surgiu quando eu me dei conta que o amava.’ Ela falou, sorrindo para ele de forma meiga. ‘E eu realmente não sei o que fiz.’

Ele sorriu para ela. ‘Fico lisonjeado por isso. Você era muito nova para conseguir criar uma carta.’

Ela ficou sem jeito. ‘Fiquei com vergonha de mostrá-la antes de falar dos meus sentimentos e não queria mostrar para ninguém antes de você. Por isso não contei para Kero, Yue ou Eriol.’

Syaoran assentiu com a cabeça. ‘Foi ela quem salvou os meus sentimentos quando Vácuo foi transformada. Por isso ela virou Esperança, pois foi a combinação dela com a carta que você criou.’

‘Ela lhe contou isso?!’ Sakura mostrou-se surpresa. ‘Mas por que ela explicou isso para você?’

Ele suspirou. ‘Eu precisava ouvir algumas coisas.’

‘Como o quê?’ Ela falou, semicerrando os olhos nele.

‘Ela era a líder de todas as outras cartas quando ainda eram demônios.’

‘Líder?’

Ele respirou fundo. Não gostava de falar do tempo que esteve lá, mas tinha que explicar. ‘Quando estive no mundo das trevas, aprendi que há várias categorias de demônios. Normalmente, os mais fracos são seguidores dos mais fortes. Quanto mais forte um demônio, mais seguidores ele tem. É como uma hierarquia para a sobrevivência.’ Ela mantinha-se calada ouvindo a narrativa. Ele quase nunca falava sobre o mundo das Trevas. ‘Vácuo era a líder de todas. Ela era um demônio de categoria alta.’

‘Assim como você é agora?’ Ela perguntou.

‘Não sou tão poderoso assim.’ Ele respondeu, desviando os olhos dela. ‘Não tinha seguidores, nem pensei nisso… Tinha dois que me ajudaram quando estive lá.’

‘Por quê?’

‘Porque um queria me matar e eu o derrotei e o outro precisava de mim para matar o inimigo dele. Era um acordo entre “cavalheiros”, por assim dizer. Eu precisava achar uma brecha e eles sabiam onde eu poderia encontrá-la. Para passar por essa brecha, eu teria que matar o guardião dela, que era quem os dois queriam morto.’

‘Entendo.’ Ela falou devagar, tentando acompanhar as informações. ‘Então Vácuo era a líder de todas… Hum… Faz um certo sentido. Ela queria reunir todas quando rompeu o selo.’

‘Sim, queria reunir novamente o seu grupo.’ Syaoran continuou.

‘Nunca entendi direito o porquê de Clow tê-la selado e escondido.’ Sakura comentou. ‘Deve ter sido muito triste ficar sozinha por tanto tempo.’

‘Por que ele não podia com ela.’ Syaoran respondeu o que a carta tinha lhe informado. ‘Ela, como líder, seria sempre uma concorrente para o mestre das cartas.’ Ele soltou um suspiro. ‘Pelo jeito ela era bem exigente para aceitar um mestre e acho que Clow não tinha as qualidades que ela considerava válidas ou não quis pagar o preço que ela exigiu pela sua lealdade.’

‘Preço?’ Sakura perguntou, sem entender direito.

‘O preço que ela cobrou a você foi o seu sentimento mais importante na época.’ Ele respondeu

Sakura sorriu e balançou a cabeça de leve, desviando os olhos dele. ‘Quantas vezes ainda vou precisar repetir, até entrar nessa sua cabeça dura, que o meu sentimento por você é o mais importante da minha vida? Independente da época em que eu esteja.’ Perguntou e depois levantou o rosto, encarando-o de forma serena.

Syaoran franziu a testa de leve, desviou os olhos dela por um segundo e voltou a contemplar o rosto lindo da namorada.

‘Nunca mais.’ Ele falou e sorriu, fazendo-a sorrir em seguida. ‘Nunca mais. Prometo!’ Confirmou de forma firme.

Sorriram um para o outro de forma feliz por estarem juntos novamente. Ela balançou a cabeça novamente, fechando os olhos e voltou a abri-los encarando-o.

‘Será que Clow não quis dar a ela o que ela exigiu?’ A feiticeira voltou ao ponto novamente.

Syaoran encolheu os ombros de leve. ‘Realmente não sei, mas deu para entender que Clow nunca conseguiria ter o controle total das cartas com a presença dela. Por isso ele a lacrou e a escondeu.’

‘Ah… Deve ter sido horrível para ela.’ Sakura falou, sentindo os olhos marejados. ‘Agora entendo toda a revolta de quando foi deslacrada.’

Syaoran sorriu de forma doce, observando a reação da Feiticeira. Esperança tinha razão. Ela as via como amigas, como seres independentes. Não as via como instrumentos a serem manipulados.

‘Clow não tinha o direito de fazer isso.’ Ela sentenciou com o tom sério. Estava realmente zangada.

‘Você não está preocupada se ela, de alguma maneira, ameaçou a sua autoridade com as cartas?’ Ele perguntou, observando a jovem.

‘Autoridade? Syaoran, eu as peço apenas para que não machuquem ninguém e nem causem problema na vida dos outros. Elas são especiais. Elas me ajudam e me protegem. Elas me amam assim como eu as amo.’ A feiticeira falava ansiosa. ‘Elas não estão descontroladas. Estão apenas querendo um pouco de liberdade. Não deve ser fácil estarem presas e eu não posso e não sei como libertá-las neste universo, mas gostaria de fazer tudo que estiver ao meu alcance para que elas sejam felizes.’

Ele sorriu para ela. ‘Quando Vácuo virou carta Sakura e se uniu à carta que você criou, você deu a ela parte dos seus sentimentos por mim.’

Sakura mostrava-se surpresa. ‘Não entendo.’

‘Por isso eu não perdi os meus sentimentos por você, porque, no final, você deu parte dos seus sentimentos para ela.’

‘Ah!’ Ela exclamou, finalmente entendendo o que aconteceu naquele dia.

‘E é justamente este sentimento que se uniu à líder delas que faz com que todas as cartas aceitem o meu comando…’ Ele reteve-se. ‘...Aos meus pedidos.’ Consertou.

Sakura ficou um tempo em silêncio, tentando assimilar todas as informações. Voltou a fitá-lo. ‘E por que Esperança lhe contou tudo isso?’

Ele sorriu. ‘Porque ela queria me dizer que, se o seu amor a salvou, também me salvaria da minha natureza atual.’

A jovem Feiticeira sorriu. Novamente as suas amigas cartas estavam ajudando-a a preservar o que era mais importante para elas. Estavam preocupadas com Syaoran. Ela se aproximou e passou a mão no rosto do rapaz. ‘Assim como você me salvou do buraco negro em que estava entrando na sua ausência.’

Ele a abraçou com carinho. ‘Você tem razão Sakura. Não há porque eu ter mais medo.’ Falou com sinceridade. ‘Nós vamos enfrentar tudo juntos.’

Ela sorriu abertamente e abraçando-o. ‘Sim. Nós vamos.’

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Eriol parou em frente ao sobrado branco da rua do templo Tsukimine. Sorriu de leve, lembrando-se de que foi ali que contara tudo para Sakura e Syaoran sobre o Caos. Sua sucessora tinha sido bem dura com ele naquele momento, mas ela tinha lhe falado a verdade.

Era estranho agora olhar para aquela construção e saber que os dois, no final, tinham-na escolhido para montar seu lar.

‘Eriol?’ Ele ouviu e virou-se para o lado onde encontrou Tomoyo se aproximando devagar.

Ela parou ao lado dele em frente à casa. Tinha marcado com Sakura uma visita para conversarem. A ruiva gostaria de preparar alguma coisa para o aniversário do namorado, que seria em breve e, como ainda estava parcialmente debilitada e Syaoran não a deixava sair muito de casa para que descansasse e se recuperasse totalmente, pediu ajuda da amiga.

‘Como vai, Tomoyo?’ Ele a cumprimentou.

‘Estou bem.’ A jovem respondeu. ‘E você?’

Ele suspirou. ‘Também.’

‘Veio para ajudá-los com relação às cartas?’ A morena perguntou.

‘Eles não precisam de ajuda, minha querida…’ Respondeu, sorrindo de leve.

‘Tenho certeza que precisam, sim.’ Ela falou, tentando passar a ele confiança, pois percebeu que ele estava desanimado.

O rapaz desviou os olhos dela. ‘Eu queria pedir desculpas pela última vez que nos vimos.’

A morena também desviou os olhos dele. Sentia-se encabulada, principalmente depois da brincadeira sem graça dos dois amigos. Ela bem que pensou em se recusar a ajudar Sakura por causa daquilo, mas simplesmente era impossível fazer isso. Tinha perdoado a amiga.

‘Hum…’ Foi só o que conseguiu murmurar.

‘Bem ou mal, você está namorando aquele altão, não é?’

Ela franziu a testa. ‘A colocação correta é que você está casado com a Kaho, não é?’ Tomoyo falou. Não estava realmente namorando Kurogane, mas não quis esclarecer o comentário do amigo.

‘Você, como sempre, está certa.’ Ele falou, sorrindo de leve para ela.

‘Acho que sim.’ Ela concordou.

Ficaram um tempo em silêncio, apenas se encarando até a porta do sobrado se abrir e Sakura aparecer, observando-os.

Ela tinha sentido a presença de Eriol e estava estranhando a demora dele em tocar a campainha. Franziu a testa, fitando a amiga. Lembrou-se do comentário de Syaoran depois da brincadeira que eles fizeram no hospital.

‘Vocês não querem entrar?’ Ela perguntou, convidando os dois amigos.

Tomoyo caminhou em direção à ruiva e parou a frente dela, abraçando-a com carinho. ‘Deveria estar brava com você, mas não consigo.’ Ela falou, baixinho, ainda abraçada à jovem.

Sakura sorriu. ‘Para de ser boba. Você sabe que foi brincadeira.’

Tomoyo afastou-se dela e entrou na casa. Sakura observou Eriol que estava no quintal da casa, olhando-as.

‘Olá, Eriol.’ A ruiva o cumprimentou. ‘É bom vê-lo.’

Ele sorriu de leve e foi até a jovem, parando a frente dela. ‘Você deu um susto bem grande em todo mundo, Sakura.’

‘Acho que sim.’ Ela respondeu

‘Cuide-se, por favor.’ Ele pediu, abraçando a amiga com carinho. ‘Você é muito importante para nós.’

Alguma coisa na forma como Eriol disse aquilo fez Sakura se sentir levemente incomodada. ‘Estou fazendo isso.’ Respondeu. Eles se afastaram e ela o fitou. ‘Kaho não veio com você?’

Eriol suspirou. ‘Ela chega de Londres amanhã. Está com muitas saudades de você.’

‘Também estou com saudades dela.’ Sakura falou com um sorriso de leve. ‘Vocês estarão aqui no aniversário de Syaoran?’ Indagou, animada ao se lembrar da comemoração. ‘Será muito bom tê-los conosco.’

‘Claro.’ Ele respondeu.

‘Vamos, entre. Vou fazer um chá para nós. Syaoran me avisou que você gostaria de conversar comigo.’

‘Sim.’

Ela deu passagem para o amigo. Em poucos minutos eles estavam sentados na sala da casa da ruiva enquanto Sakura servia o chá para eles.

‘E Li?’ Eriol perguntou, querendo saber se deveriam esperá-lo ou não.

‘Ele deve estar chegando daqui a pouco. Tem aula até mais tarde hoje.’ Sakura esclareceu antes de tomar um gole de chá. ‘E então, o que quer falar comigo?’ Ela foi direta.

Percebeu que o rapaz estava se sentindo incomodado e isso era raro vindo de Hiiraguizawa. Olhou de esguelha para Tomoyo que também se mostrava tensa. A morena tentava disfarçar, mas apertava com força desnecessária a xícara de chá que tinha nas mãos. Se Tomoyo achava que a conhecia como a palma da mão, a ruiva também conhecia a prima muito bem.

Eriol se ajeitou melhor no sofá. ‘Yue me falou que as cartas estão descontroladas.’

‘Yue está enganado. Elas não estão descontroladas.’ Sakura o interrompeu. ‘Elas estão apenas agindo com mais liberdade. Um pouco de rebeldia, talvez. Isso é normal já que são criaturas independentes, como você mesmo me ensinou.’ A jovem se posicionou em defesa das amigas. Desde que soube da história de Esperança ter sido lacrada e escondida, vivendo isolada, não conseguia mais ficar indiferente.

‘Sim. Mas liberdade demais pode ser perigoso, não é?’ Eriol continuou.

‘Não sei por quê.’ A jovem falou, dando de ombros. ‘Elas não fizeram mal para ninguém.’

Eriol franziu a testa. ‘Trevas deixou a cidade por mais de 24 horas no escuro.’

‘Trevas estava preocupada comigo. Todas elas estavam. E tudo foi resolvido agora.’

‘E se não tivesse sido resolvido?’ Ele rebateu. ‘Elas não podem ser independentes. Elas devem obedecer ao seu mestre para que se mantenham equilibradas.’ Eriol fitou a ruiva e ergueu uma sobrancelha. ‘Você estava fraca, como é que Trevas conseguiu poder para permanecer ativa por tanto tempo?’

Sakura o fitou. ‘Como eu disse, elas estão agindo com mais liberdade, mas não com más intenções.’

‘Não é isso.’ Ele falou e semicerrou os olhos em Sakura, ela estava escondendo alguma coisa. ‘Eu percebi que a presença da carta Luta, daquela vez, estava oscilando entre a de uma carta Sakura e de outra coisa.’

Sakura franziu a testa, encarando-o. ‘O que você está querendo dizer com isso, Eriol?’

O rapaz ficou em silêncio, observando a amiga de infância. Tomoyo olhava de um para outro, sentindo a tensão no ar. Achou melhor ficar quieta.

‘É o Li, não é?’ Eriol concluiu.

‘O que tem ele?’ Sakura questionou, incomodada.

‘Você não devia tê-lo permitido comandar as cartas. Isso está acontecendo porque elas obedecem a vocês dois. E agora a energia dele não é…’ Ele parou de falar ao reparar o rosto sério da amiga. ‘A energia dele é muito parecida com a energia original das cartas; de antes delas serem cartas.’

‘E se for?’ Sakura o fitava intensamente. ‘Qual o problema?’

‘Isso é perigoso demais, Sakura. Você lembra do esforço que fez para fazer Luta voltar a ser carta? E agora esta autonomia de Trevas. Isso é muito perigoso.’ Repetia tentando convencer a amiga.

‘Quanto à Luta, eu estava cansada porque fui obrigada a fazer algo que me doeu e não porque pedi para ela voltar a forma de carta.’ Rebateu. ‘De qualquer forma, o que você me sugere?’ Ela perguntou, suspirando.

‘Talvez seja melhor trancá-las novamente.’

‘O quê?’ A jovem exclamou, levantando-se. ‘Você está de brincadeira comigo?! Eu não vou lacrá-las novamente!’

‘Elas são perigosas, principalmente, agora junto de Li.’

‘Não! Elas estão apenas se adaptando a energia dele. Apenas isso, Eriol. Você é dramático demais.’

O rapaz se levantou. ‘E você está sendo leviana!’

‘Eu conheço minhas cartas! Eu conheço os meus limites. Acredite em mim: elas não estão descontroladas.’ Nesse ponto, ela já gritava com Eriol.

‘Hei!’ Tomoyo chamou a atenção dos dois. Ela olhou para o inglês. ‘Sakura não pode se alterar. Ainda está em recuperação.’

‘Eu estou ótima.’ A ruiva rebateu.

‘Tomoyo tem razão.’ Eriol se recriminou por ter perdido a calma com a amiga.

Ela realmente não deveria se alterar. Mas estava preocupado demais com tudo. O poder das cartas descontroladas, poderia colocar em risco todos da cidade.

‘Sakura.’ A morena a chamou. ‘Por favor, sente-se e vamos conversar com calma.’ Ela falou, olhando para Hiiraguizawa. ‘Com calma.’ Repetiu.

Ficaram em silêncio, até que a porta da frente se abriu e ouviram a voz faceira de Meilyn conversando com alguém.

Eriol franziu a testa quando viu a chinesa entrar na casa acompanhada da figura de Sakura. Olhou para a amiga e balançou a cabeça de leve, reconhecendo Espelho. As duas estavam com sacolas de mercado. Tinham ido juntas fazer as compras.

Espelho olhou para sua mestra e chegou a se tremer ao receber um olhar de reprovação da reencarnação de seu mestre anterior.

‘Com licença.’ Ela falou de forma tímida, dirigindo-se à cozinha com os ombros encolhidos como uma criança que tinha recebido uma bronca do pai.

Sakura franziu a testa e encarou Eriol, séria. Não gostava da maneira como o amigo encarava as cartas.

Meilyn acompanhou com os olhos, enquanto Espelho praticamente corria para a cozinha e voltou-se para o grupo com o rosto interrogativo. Estranhou os semblantes tensos.

‘Boa tarde!’ Ela os cumprimentou de forma pausada. ‘Está tudo bem?’ Não conseguiu evitar a pergunta.

‘Espero que esteja, Meilyn.’ Sakura respondeu para a chinesa, tentando sorrir, mas fracassando de forma miserável.

Tomoyo e Eriol a cumprimentaram. A chinesa franziu a testa e foi até a cozinha para deixar as compras e ajudar Espelho e Movimento a guardá-las. Syaoran tinha pedido para a prima organizar isso, poupando Sakura o máximo que podia. Com isso, ela se sentia muito útil e menos envergonhada de estar na casa deles.

Além disso estava adorando conviver com as cartas, apesar de achar que, às vezes, elas eram barulhentas demais, principalmente, pela manhã quando ela gostava de dormir até um pouco mais tarde. Frequentemente, Corrida pulava em cima dela na cama, solicitando atenção.

Sakura acompanhou a chinesa seguir para a cozinha e sorriu de leve. Meilyn a estava ajudando bastante nos últimos tempos. Tanto ela quanto as cartas que, de forma hesitante, começaram a quererem participar das atividades da casa.

Bolhas começou a pedir para lavar a louça suja e as roupas. Espelho estava sendo uma boa companhia a Meilyn em fazer as compras e ajudando com a preparação das refeições. Corrida e Troca adoravam brincar pela sala e pular na cama em cima de Meilyn, divertindo-se em acordá-la pela manhã.

Até mesmo a faxina da casa, ultimamente, tinha virado uma verdadeira loucura. Muitas vezes Silêncio simplesmente fazia todas se calarem, pois não aguentava mais a barulheira e algazarra delas todas juntas.

Flores adorava cuidar do jardim e Bosque, do quintal dos fundos. Água e Chuva disputavam sobre quem deveria regar as plantas. E Movimento parecia estar sempre junto de Sakura para ajudá-la a se movimentar pela casa sem fazer muito esforço físico.

Sakura percebeu a aproximação de Eriol justamente por, de repente, todas pararem o que estavam fazendo e voltarem a forma de lâminas mágicas, recolhendo-se no livro. Apenas Espelho e Movimento ainda ficaram em suas formas originais.

Sakura voltou-se para Eriol e reparou que ele observava Tomoyo. Franziu a testa. Não entendia o amigo. Se ela hoje enxergava as cartas como suas amigas e companheiras, era porque ele a ensinara a pensar assim. Ainda se lembrava de quando o menino Eriol a ajudara a tocar o piano para presenteá-las no Natal.

Sentou-se no sofá e respirou fundo. Aquela conversa estava sendo desgastante demais. Reparou que o rapaz permanecia em pé, olhando a amiga. Eriol, às vezes, parecia se contradizer. Falava uma coisa, entretanto agia de forma diferente. Pensou que não deveria ser muito fácil para ele, ser tão jovem, assim como ela, mas com uma carga tão pesada do passado.

Ele tentava agir da forma que Clow agiria, mas ele não era Clow. Gostaria que o amigo fosse verdadeiramente feliz. Era verdade que tinha ficado muito aborrecida com ele quando descobriu que seu interesse por Yukito era apenas manipulação dele, ou de Clow, enfim… Ela tinha sofrido bastante não conseguindo entender o sentimento que tinha por Syaoran, pois seu referencial de amor era o que sentia por Yukito.

Ele justificou que era para protegê-la. Que estava pensando apenas no bem dela. Será que ele achava que assim ela seria feliz? Que, se estivesse segura, estaria feliz? Será que Clow ou Eriol não tinham a menor ideia do que realmente era o amor?

‘Sabe Eriol, você tem uma visão muito distorcida do que é o amor. Não sei se isso é reflexo das suas lembranças como o Mago Clow, mas você deveria rever isso.’

O rapaz arregalou os olhos e fitou a amiga. ‘Do que está falando, Sakura?’

‘Clow achava que, se eu amasse Yukito e ele me amasse, eu estaria protegida. Ele achava que, se as cartas me amassem, elas me obedeceriam. Amor não é isso, Eriol.’ Ela falou devagar para que ele pudesse entender. ‘O amor não é um sentimento que serve de ferramenta para um fim. Para um objetivo. O amor a gente sente de forma plena. Sem esperar nada do outro. Apenas querendo estar perto da pessoa que a gente ama para ser feliz.’

Eriol desviou o olhar, sentindo-se incomodado com a colocação de Sakura.

‘Eu amo Syaoran. Quero estar com ele porque assim eu sou feliz, não é para ele me proteger. Eu amo as cartas porque elas são criaturas especiais. Cada uma com sua personalidade, com suas características. Elas não são más.’

‘Elas foram demônios!’ Ele retrucou. ‘Estavam no nosso universo para…’

‘Estavam no nosso universo porque Clow abriu um portal e elas ficaram presas. Não foram elas que o abriram.’ Ela o interrompeu. ‘Não foi culpa delas pararem aqui.’

Ele riu de forma irônica. ‘Foi minha culpa, então?’

‘Não se trata de culpa. Isso foi consequência das escolhas de Clow.’ Ela respondeu, olhando-o seriamente. ‘Você não é ele, Eriol. Você tem a chance de aprender o que realmente é o amor nesta sua existência.’

Eriol a fitou, sentindo o bolo se formar na sua garganta. Ela estava certa. Ele sempre vira o amor como o meio para um fim, inclusive no que dizia respeito a sua vida pessoal. Como Reed Clow, casou-se com uma maga do Clã Li para gerar descendentes. Como Eriol Hiiraguizawa, casou-se com Kaho Mizuki por ela ser uma companheira importante em seus objetivos na magia. Desviou os olhos da ruiva e fitou um canto qualquer da sala.

Tomoyo observava o rapaz com um peso no peito. Sabia que estava sendo difícil ouvir aquilo de Sakura. Ela tinha acompanhado também o desespero do mago enquanto sua sucessora estava completamente desequilibrada com a morte de Li. Eriol sentia-se responsável pela infelicidade dela e pela morte de Syaoran, chegando até mesmo a exagerar em bebidas alcoólicas. A morena se levantou, aproximando-se dele. Pousou a mão em seu ombro e tentou sorrir para lhe passar apoio. O rapaz segurou a mão dela e a fitou.

Sakura novamente observou os dois. Não era mais uma menina tonta, sabia que alguma coisa estava acontecendo ali, só não sabia exatamente o que era.

‘Você tem que saber exatamente o que você quer, Eriol.’ Ela falou chamando a atenção do mago, que desviou os olhos de Tomoyo para fitar Sakura. ‘Você agora tem que descobrir os seus verdadeiros sentimentos.’

Ele riu de leve, pensando que Syaoran tinha lhe falado a mesma coisa, não muito tempo atrás. Era estranho constatar que os dois estavam lhe dando conselhos, sendo que, quando eram crianças, era ele quem os aconselhava. Sakura e Syaoran cresceram e amadureceram enquanto ele parou no tempo.

‘Está certa, Sakura.’ Ele concordou.

Sentiu que a voz lhe falhou. Realmente sentia-se desorientado. Todas as suas previsões como Clow para a vida de sua sucessora foram interpretadas de forma errada ou incompleta e, agora, até mesmo sua vida pessoal, parecia que tinha sido formada erroneamente.

Apertou mais forte a mão de Tomoyo que estava sobre o seu ombro. O que realmente sentia por ela? O que realmente sentia por Kaho?

‘Tomoyo…’ Sakura chamou a amiga que observava o rapaz. ‘Poderia ajudar a Meilyn? Acho que ela está atrapalhada na cozinha. Espelho e Movimento sentiram-se constrangidos e voltaram para o livro.’ Pediu com gentileza. A morena assentiu e se afastou dos dois.

Sakura a acompanhou com os olhos até ela desaparecer. Depois voltou-se para o inglês. ‘Primeiro descubra o que você quer, não envolva outras pessoas na sua jornada de autodescobrimento, Eriol.’

Ele franziu a testa. ‘Do que você está falando?’

‘De Tomoyo. Não vou admitir que você a machuque. Decida o que você quer.’ Ela falou com o rosto sério para ele.

‘Eu…’

‘Não adianta me falar nada. Decida. Você é um homem casado! Respeite sua esposa e respeite sua amiga.’

Eriol arregalou os olhos surpreso pela colocação da amiga.

‘Sakura, eu…’ Ele nem sabia o que falar para ela.

De repente parecia que Sakura tinha lido toda a sua alma. Nunca se sentiu tão transparente para uma pessoa. Sorriu de leve e de forma triste. Quando a escolheu como sua sucessora, Clow imaginou que ele a ensinaria lições de magia, superação e força. Mas, no final, quem estava ensinando coisas muito mais importantes, era ela, para ele.

‘As cartas não estão descontroladas, Eriol.’ Ela repetiu. ‘Elas estão se manifestando sem machucar ninguém, apenas estão expressando o amor que sentem por mim… E por Syaoran.’

O rapaz a fitou novamente. ‘Eu… Eu acho que você está certa.’ Concluiu, forçando um sorriso.

Sakura sorriu para ele. ‘Que bom que você entendeu. Fico muito feliz em saber disso.’

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Syaoran observava a casa cheia. Sakura tinha o obrigado a aceitar uma comemoração do seu aniversário. Ela sabia que ele não gostava deste tipo de evento, mas simplesmente não teve como contrariá-la. Sorriu de lado, observando a namorada conversar de forma alegre com Kaho, Meilyn, Nakuru e Tomoyo. Ela, Nakuru e Meilyn eram as mais alegres, falavam, gesticulavam e riam. Tomoyo e Kaho eram mais contidas, mas riam de forma discreta e comentavam algo de vez em quando.

Fechou os olhos rapidamente, estava um pouco cansado, era verdade. Tinha acordado cedo e ido treinar no bosque. Kurogane estava indo com ele. O ex-colega de alojamento tinha pedido para treinarem juntos pela manhã bem cedo. Kurogane havia praticado artes marciais quando adolescente e acabou parando por falta de tempo e, também, por galinhagem. Mas, agora que era um homem quase comprometido, havia sossegado.

Syaoran teve a impressão que o rapaz resolveu treinar com ele para voltarem a se falar com maior frequência. O que era bom. Também sentia falta dele, inclusive dos seus comentários petulantes e irritantes.

‘Está tudo bem?’ Ouviu a voz de Eriol e abriu os olhos. Respirou fundo.

‘Um pouco cansado.’ Respondeu antes de levar o copo com a bebida à boca e tomar um gole.

Eriol tinha os olhos também fixos no grupo de mulheres que estavam sentadas no centro da sala rindo. Os homens ficavam mais afastados. Kurogane, Touya e Yukito estavam conversando sobre alguma coisa perto da cozinha. E Syaoran, como era de seu temperamento, estava num canto, doido para se trancar no quarto. Só não fez isso porque sabia que magoaria Sakura.

Li observou Kero e Suppy descendo do segundo andar, onde faziam uma disputa de videogame, e voarem em direção à cozinha. Sorriu de lado, pensando que eles atacariam os doces que a namorada, a prima e Doces haviam preparado durante a tarde inteira. Para benefício próprio, resolveu não avisar a namorada sobre a ameaça que pairava sobre seus doces.

‘E você, Hiiraguizawa?’ Ele perguntou de repente. ‘Como você está?’

‘Não muito bem. Muitos problemas.’

‘Minha mãe me contou que a reunião com aqueles babacas do Círculo foi bem difícil. Queria agradecê-lo.’

Eriol suspirou. ‘Foi mesmo. Nunca tive tanta vontade de pulverizar alguém da face da terra.’ Falou referindo-se a Smith.

Syaoran sorriu. ‘Então, o controlado Eriol Hiiraguizawa também perde o controle?’

‘Sou humano.’ Ele rebateu.

‘Eu sei. Eu que sou o demônio aqui.’ Falou, rindo.

Eriol engoliu em seco, constrangido. ‘Não foi minha intenção…’

Syaoran gargalhou. ‘Eu sei que não foi.’ Tranquilizou-o. ‘É bom você ter em mente que é realmente humano, Hiiraguizawa. Ficar a vida inteira preso à sombra de uma encarnação passada não é muito legal.’

Eriol arregalou os olhos de leve. ‘Você já me deu lição de moral demais, não acha? Está ficando muito petulante.’

Syaoran deu de ombros. ‘Sempre fui.’ Respondeu, bebendo mais um gole. Estava no fundo se divertindo com aquela conversa com Eriol. Era prazeroso deixar o amigo desconcertado. ‘Minha mãe falou que os xamãs também ficaram ao seu lado.’ Comentou agora em tom sério. ‘Eles não costumam se posicionar sobre nada.’

‘Sim.’ Eriol respondeu, colocando as mãos nos bolsos e encostando-se num móvel ao lado de Li. ‘Foi bem estranho. Eles me dão arrepios.’

‘Você consegue ver espíritos, Hiiraguizawa.’ Li falou, olhando o rapaz de esguelha. ‘Também sentia arrepios quando me via?’

Eriol franziu a testa. ‘E também anda por demais malicioso, Li.’

Ele riu novamente, estava realmente relaxado depois da conversa que tivera com Sakura em que esclareceram o que aconteceu. Aquele medo de ser rejeitado já não existia mais. Ele sabia que poderia contar com ela em tudo. Não precisava carregar seu fardo sozinho, ela estaria ao seu lado.

‘Sei que lhe dei muito trabalho quando era um fantasma.’ Falou, sorrindo para o rapaz ao seu lado.

‘Ser acordado no meio da noite por um espírito não é lá muito agradável.’

‘Eu imagino.’ Ele concordou.

Ficaram em silêncio, ainda observando as pessoas da sala.

‘Sakura parece muito bem. E muito feliz.’ Eriol comentou.

Syaoran sorriu e suspirou pesadamente. ‘Sim. Ela me deu um baita susto.’

Eriol pigarreou. ‘Li…’ Ele começou a falar devagar, precisava achar as palavras corretas. ‘Quando Sakura levou o tiro…’ Syaoran franziu a testa, ouvindo o amigo. ‘Detentores de magia do mundo todo sentiram uma presença muito forte.’ Syaoran bebeu outro gole da bebida, ouvindo com atenção. Já tinha ideia do que viria. ‘Na verdade, duas presenças.’ Ele consertou. ‘Uma delas era de um demônio superior e a outra era muito próxima à manifestação do Pilar.’

‘Você conhece a minha presença, Hiiraguizawa.’ Ele falou.

O rapaz balançou a cabeça de leve. ‘Era muito mais forte. Como uma explosão.’

‘E qual é sua teoria?’ Ele perguntou, fazendo-se de desentendido.

Hiiraguizawa virou-se para o rapaz que o encarou. ‘Que você evoluiu, de alguma forma, expandindo o seu poder e que Sakura usou o dela para controlá-lo e para voltar à vida.’

Syaoran o encarou em silêncio sem responder. Depois desviou os olhos dele e voltou a fitar a namorada que ainda conversava com as amigas. ‘Ela é incrível.’ Ele falou, não confirmando diretamente a teoria do amigo.

‘Sim. Ela é.’ Eriol concordou.

‘Sabe, Hiiraguizawa. A gente deveria conversar sobre futebol. Você precisa abrir seus horizontes.’

Eriol riu e balançou a cabeça de leve. ‘Futebol?’

‘Ou, sei lá… O que vocês britânicos gostam? Rugby?’ Syaoran falou, rindo. ‘Você não tem nenhum outro interesse que não seja magia?’

‘Música clássica.’ Ele respondeu.

‘Ah, sim… Como Tomoyo.’ Syaoran rebateu.

Semicerrou os olhos na morena que mantinha-se tensa ao lado de Kaho. Quem a conhecia sabia disto. Desviou os olhos para Kurogane que estava no canto admirando a jovem e que, como se soubesse estar sendo observado, encarou Li e logo depois Eriol. Syaoran conseguiu ver a careta discreta que o amigo fez ao observar o reencarnação de Clow.

‘E como Kaho.’ Eriol falou.

‘Foi por isso que você casou com ela, não? Por afinidade.’ Syaoran comentou.

‘Acho que sim.’

‘Acha?’

Eriol arrependeu-se da resposta que deu sem pensar. Gostava de Kaho. Admirou a esposa que estava sentada graciosamente ao lado de Sakura, tinha o rosto suave, os cabelos ruivos compridos e belos. Era uma mulher elegante, bonita. Seus olhos desviaram para Tomoyo que estava no outro lado de Sakura. A morena também era uma mulher lindíssima. A pele branca como a neve contrastava com os cabelos negros, destacando os olhos violeta belíssimos e a boca rosada.

Tomoyo estivera ao seu lado nos piores momentos de sua vida, quando sentira-se miseravelmente culpado pela morte do amigo, que agora estava ao seu lado, e pela infinita dor e desespero de Sakura. Tinha perdido as contas de quantas vezes a morena teve que praticamente carregá-lo para o hotel porque tinha exagerado na bebida.

Depois que Li morreu no que acreditava que fora o Caos e Sakura estava completamente desequilibrada, ele sentira-se completamente perdido, era Tomoyo quem estava ao seu lado, apoiando-o. Naquelas horas, ele não era o poderoso mago Clow, era apenas Eriol Hiiraguizawa completamente perdido e com receio dos acontecimentos.

‘Sabe, Hiiraguizawa.’ Li chamou a atenção dele novamente. ‘Este negócio de amor é muito complicado.’ Eriol concordou. ‘Tem muita coisa que faz a gente se sentir perdido, mas… Precisamos saber exatamente o que se passa dentro da gente. E distinguir cada sentimento.’

‘Entendo.’ Eriol murmurou. ‘Humph… Nunca imaginei você me dando conselhos.’

‘Pode não parecer, mas temos a mesma idade.’ Ele falou. ‘Você não é Clow. Precisa colocar isso na sua cabeça.’

‘Você e Sakura andaram conversando sobre mim?’

‘Sakura tem muita estima por você. Ela está preocupada.’ Ele respondeu, sem negar. ‘E eu também.’

O inglês sorriu de leve, no fundo gostou de saber que os amigos o estimavam daquela forma. ‘Fica difícil me dissociar de Clow quando todo mundo me trata apenas como uma sombra dele.’

‘Isso só vai acontecer enquanto você permitir.’ Syaoran falou de forma firme e olhou para o rapaz.

Eriol engoliu em seco. O chinês estava certo.

Sakura de repente levantou-se e encarou o namorado com um sorriso. ‘Está na hora de cantar o parabéns!’ Ela falou animada.

Syaoran fez uma careta. Ela estava de sacanagem. Sabia que ele não gostava disto. Sakura caminhou até ele e parou a sua frente, sorrindo docemente. Ela também sabia que, se viesse pedindo com aquele sorriso, ele acabaria cedendo. Balançou a cabeça de leve.

‘Não é necessário isso.’ Ele tentou ainda negociar. ‘Não sou criança.’

‘Deixa de ser ranzinza. Venha!’ Sakura falou, pegando a mão do namorado e puxando-o até a cozinha.

Ele até tentou resistir, mas acabou sendo levado pela namorada. Sabia que estava vermelho. Não gostava de ser o centro das atenções.

Estavam entrando na cozinha quando Sakura estaqueou observando a mesa onde Kero e Suppy estavam deitados com as barrigas enormes para cima. No meio da mesa, onde deveria estar o bolo que ela e Meilyn fizeram de forma caprichada, restavam apenas os farelos.

‘KERO!!!!’ Ela gritou, avançando em cima do bichano.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Num elegante restaurante do centro londrino, dois homens conversavam numa das mesas mais afastadas.

‘E para quê você precisa de mais dinheiro, Smith?’ O senhor perguntou franzindo a testa.

‘Tivemos que expandir nossas pesquisas. Não pudemos ficar retidos apenas às anotações de Reed Clow e Muy Shyrai.’ Smith tentou explicar. ‘Alguns estudos para possíveis aberturas de brechas foram abandonadas pelos magos quando seguiram em direção ao artefato que Shyrai obteve.’

‘E não tem como pegar este artefato?’ O senhor perguntou irritado.

‘Não. Ele foi dividido em duas partes e está nas mãos de duas pessoas que não podemos combater.’

‘Hum… Entendo.’ O senhor falou. ‘Uma destas pessoas é a garota?’

Smith confirmou com a cabeça. ‘Ela mesma.’

Ficaram em silêncio. A cara e sofisticada refeição que pediram estava intocada na mesa. Apenas o vinho era consumido, principalmente pelo acompanhante de Smith.

‘Esta garota tem tantos poderes assim?’ O homem perguntou.

‘Temo que sim.’

‘Ela deveria estar morta.’ Ele falou. ‘Aquela garota ressuscitou.’

‘Como eu lhe falei, ela tem poderes muito além do que podemos imaginar.’

O acompanhante de Smith suspirou de forma pesada antes de tomar mais um demorado gole de vinho. Colocou a taça na mesa, observando o líquido avermelhado. ‘Se ela é tão especial assim, dá para entender porque meu filho era louco por ela.’ Ele falou em tom triste.

‘Eu o adverti que estava entrando numa área perigosa.’ Smith falou com urgência.

O outro concordou com a cabeça, voltaram a ficar em silêncio.

‘Quero aquele garoto morto, Smith. Estou lhe dando rios de dinheiro para que ele desapareça da face da Terra, entendeu?’

‘Sim, senhor.’ Smith falou. ‘Estamos trabalhando de forma incansável para trazer alguém que possa matá-lo. Sabemos que no final de outubro há uma possibilidade de abrir um portal que traga um novo guardião, mas ainda não sabemos como fazer uma brecha e atraí-lo.’ Ele tentou explicar e viu que o homem fez uma cara de quem não gostou da informação. ‘Mas já temos uma pista de um outro artefato que pode nos ajudar nisto. Acreditamos que seja uma das chaves capazes de abrir portais entre os universos. Só precisamos ter certeza antes de roubá-la.’

‘Entendo. Realmente é melhor ser cauteloso nisto. Não quero meu nome envolvido em nada.’

‘Não se preocupe, senhor. Para todos os efeitos, eu sou o patrocinador das pesquisas.’

‘E você ganha muito bem para ser meu testa de ferro.’

Smith se ajeitou melhor na cadeira. ‘Conforme nosso acordo.’

‘Exatamente.’ O senhor falou e inclinou o corpo encarando-o. ‘Se você falhar desta vez, Smith, pode ter certeza que nenhuma magia do mundo será capaz de lhe salvar de um tiro entre os olhos. Não sou idiota e impulsivo como Seiya. Então faça exatamente o que acordamos.’ O mago concordou com a cabeça. ‘Amanhã, pela manhã, o dinheiro já estará em sua conta.’

‘Obrigado, senhor.’

‘Não me agradeça, apenas cumpra sua parte do nosso acordo. Mate aquele garoto.’

‘Syaoran Li logo estará morto, senhor. Pela segunda vez.’

‘Mate-o quantas vezes forem necessárias.’ Foi a resposta que recebeu.

*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*

Meilyn caminhava animada pelo campus da faculdade em direção ao alojamento que agora dividia com Tomoyo. Ela pedira para ir morar com a morena, por sentir-se mal de tirar a liberdade do casal de Feiticeiros.

Não é que não gostava de morar com eles e as cartas, apesar de Nuvem, toda manhã, ficar sobrevoando pela casa e o frizz do seu cabelo fazê-la acordar de mais mau humor do que quando Corrida ou Troca pulavam em cima dela. Era divertido conviver com todas, além delas ajudarem e muito nas tarefas domésticas.

No entanto, a casa, às vezes, parecia uma loucura tão grande que a estressava. Não conseguia nem mesmo ler os livros sugeridos pelos professores nas aulas de que estava participando como ouvinte.

Não queria ser ingrata. Tinha ficado, até saber que Sakura havia se recuperado totalmente da cirurgia de emergência.

Além disso, verdade seja dita, quando os dois feiticeiros voltavam para casa, e depois que as cartas se acalmavam, eles pareciam estar em lua de mel. O que não deixava de ser justo, considerando os últimos acontecimentos. Já estava sentindo-se mal pela quantidade de vezes que havia flagrado os dois em situações embaraçosas. Por mais que eles insistissem que ela poderia ficar com eles, ela sabia quando estava sendo demais.

Kurogane a estava ajudando com a documentação para a faculdade. A jovem sorriu, pensando que o petulante admirador de Tomoyo até que estava sendo um cara bem legal. Realmente ele era bem articulado com o pessoal da faculdade. Conseguiu que ela fosse aceita como aluna ouvinte de algumas matérias, para saber se era realmente Direito que gostaria de cursar.

Apertou os dois livros que tinha pego emprestados na biblioteca para ler aquela semana. Estava realmente radiante com as novas perspectivas que se abriam para ela. Ela estudaria! Ela se formaria! Seria uma advogada! Uma profissional! Trabalharia! Quem sabe poderia ser promotora... Ou Juíza! Seus sonhos agora não tinham limites.

Sorriu novamente, mal conseguindo disfarçar a imensa felicidade que era começar a ver um futuro para si. Hyo Ling com certeza se orgulharia dela. Parou de caminhar e fechou o sorriso apertando os livros entre os braços.

‘Hyo Ling…’ Sussurrou o nome do marido e olhou para a aliança que ainda tinha em seu dedo anelar. Será que ele ainda estaria usando a aliança? Será que ele estaria pensando nela? Sentiu um calafrio. Preferiria que ele a odiasse, a saber que a esquecera.

Fechou os olhos e sorriu de leve, lembrando da primeira noite que passaram juntos. Em como ele havia sido carinhoso quando a fez sua esposa. Sentia falta dos beijos dele, sentia falta do corpo dele, sentia falta do cheiro dele, sentia falta de ouvi-lo sussurrando ao seu ouvido que a amava, que ela era a mulher mais linda do mundo… Sentia falta dele. Demais.

Sentiu os olhos arderem, mas balançou a cabeça decidida. Em alguns momentos, arrependia-se do que tinha decidido, mas sabia que fora o melhor. Não queria que Hyo Ling ficasse preso a ela. Ele tinha o direito de ser feliz com uma mulher que o amasse, assim como ela o amava, mas que pudesse lhe dar filhos.

Arregalou os olhos novamente, assustando-se com aquele pensamento. Ela o amava! Sentiu o coração acelerar de tal forma que parecia querer sair de seu peito e as lágrimas deslizaram pelos seus olhos, engoliu em seco, secando o rosto.

Não tinha porque chorar. Não adiantaria nada chorar, mas aquela vontade apenas crescia mais e mais em seu peito, parecendo transbordar. Bem, quem disse que conseguia mandar em tudo? Abaixou o rosto e começou a caminhar mais rápido em direção ao alojamento. Queria se enfiar debaixo das cobertas e chorar tudo o que pudesse, antes de Tomoyo chegar.

Estava em frente ao alojamento da irmandade Kαß quando esbarrou em alguém que estava parado em frente ao prédio.

‘Desculpe-me! Estava distraída.’ Falou, sem nem levantar o rosto envergonhada.

‘Mei Ling…’ Ela ouviu o seu nome e arregalou os olhos, reconhecendo a voz dele. Balançou a cabeça, pensando que sua mente deveria estar lhe pregando uma peça e de muito mau gosto.

What have I done

(O que foi que eu fiz?)

Wish I could run

(Queria poder fugir)

Away from this ship going under

(Desse navio afundando)

Just trying to help

(Apenas tentando ajudar)

Hurt everyone else

(Machuco todo mundo)

Now I feel the weight of the world

(Agora eu sinto o peso do mundo)

Is on my shoulders

(Está nos meus ombros)

Levantou o rosto e mal acreditou quando viu o marido a sua frente. Balançou a cabeça de leve, pensando que, provavelmente, ele era fruto da sua imaginação. No entanto continuava a ver o semblante sério do marido a sua frente. Desviou os olhos dele, sem saber direito o que fazer. O que ele estaria fazendo ali?

‘Hyo Ling?’ Ela ainda perguntou, na dúvida se o rapaz realmente era real ou não.

Surpreendeu-se ao vê-lo sorrir de leve para ela. A jovem deu um passo para trás assustada. Sentiu o corpo tremer de leve e a garganta secar. Era ele! Ele estava ali!

‘Nǐ hǎo, Mei Ling. Nǐ hǎo ma?’ (Olá Meiling, como você está?) Ele a cumprimentou com brandura em mandarim, observando a jovem.

‘Hã…’ Ela ficou sem saber direito o que fazer, estava se sentindo nervosa, ansiosa. Sentia um imenso prazer e felicidade em vê-lo novamente, mas não podia negar que também sentia receio. ‘Hèn hǎo.’ (Muito bem). Falou com um fio de voz. Droga! Quando estava na frente dele era sempre assim.

Ele respirou fundo e desviou os olhos dela, observando o campus universitário. Antes dela esbarrar nele, estava justamente tentando decidir se entrava ou não. Agora estava com a cabeça mais fria do que da última vez em que estivera naquele mesmo lugar.

What can you do

(O que você pode fazer)

When your good isn't good enough

(Quando o seu melhor não é bom o suficiente)

And all that you touch tumbles down

(E tudo que você toca desmorona)

Cause my best intentions

(Porque minhas melhores intenções)

Keep making a mess of things

(Continuam fazendo uma confusão de coisas)

I just wanna fix it somehow

(Eu apenas quero corrigir isto de alguma forma)

But how many times will it take

(Mas quantas vezes serão necessárias)

Oh how many times will it take

(Oh quantas vezes serão necessárias)

For me to get it right

(Para eu acertar)

To get it right

(Para acertar)

Meilyn levantou o rosto e admirou o rapaz que olhava para a agitação dos jovens no campus universitário. Ele estava lindo, pensou sorrindo de leve. Como se soubesse que estava sendo observado, ele voltou-se para ela. A jovem sentiu o rosto esquentar e desviou os olhos dele. ‘O-o que você faz aqui?’

Hyo Ling franziu a testa. ‘Parece óbvio, não? Vim procurar por você.’

Ela assentiu com a cabeça, permanecendo em silêncio.

‘Precisamos conversar.’ Falou.

Ela concordou novamente. ‘Acho que a gente pode subir. Tomoyo só chegará mais tarde hoje.’ Ela falou, começando a caminhar em direção à entrada do alojamento.

Voltou-se para o marido que a olhava fixamente e sentiu novamente o corpo estremecer. Voltou a caminhar e agora sabia que estava sendo seguida por ele.

Eles seguiram em silêncio pelos corredores, a jovem pegou a chave do bolso e abriu a porta do alojamento, entrando e deixando a porta aberta para ele passar. O rapaz analisou a porta.

Can I start again

(Posso começar novamente)

With my faith shaken

(Com minha fé abalada?)

Cause I can't go back and undo this

(Porque eu não posso voltar atrás e desfazer isso)

I just have to stay and face my mistakes

(Eu só tenho que ficar e encarar os meus erros)

But if I get stronger and wiser

(Mas se eu ficar mais forte e sábia)

I'll get through this

(Eu vou passar por isso)

‘Ainda bem que consertaram-na corretamente.’ Comentou antes de fechá-la. Sentia-se envergonhado pelo que tinha feito da primeira vez que esteve naquele mesmo alojamento.

‘Por favor, sente-se.’ Ela falou, oferecendo uma cadeira.

Ele ainda ficou um tempo observando-a e deixando-a levemente desconcertada. Caminhou devagar até uma das cadeiras sentando-se.

‘Está morando aqui com a mestra das cartas e a amiga dela?’ Ele perguntou.

‘Sakura está morando…’ Ela mordeu os lábios. Respirou fundo, não queria mentir para o marido. ‘Ela não mora mais aqui. Estou morando só com Tomoyo.’ Meilyn respondeu, deixando os livros em cima da escrivaninha e respirando fundo.

Hyo Ling cravou os olhos nos livros e franziu o cenho, reconhecendo os títulos. Conhecia-os bem. ‘Está estudando Direito?’ Perguntou um pouco surpreso.

‘Estou como ouvinte de algumas aulas.’ Ela explicou. ‘Estou pensando em me matricular no próximo semestre.’ Voltou-se para ele, encostando no móvel.

‘Hum…’ Ele murmurou. ‘Não imaginei que quisesse estudar.’

‘Acho que nem eu tinha pensado nisto antes, mas agora…’ Ela desviou os olhos dele. ‘Parece uma boa alternativa.’

‘E você escolheu justamente estudar Direito?’ Perguntou surpreso. Fazendo a jovem morder os lábios de leve e desviar os olhos dele.

‘Estou apenas assistindo umas aulas. Não decidi ainda.’

Ficaram em silêncio por um tempo.

What can you do

(O que você pode fazer)

When your good isn't good enough

(Quando o seu melhor não é bom o suficiente)

And all that you touch tumbles down

(E tudo que você toca desmorona)

Cause my best intentions

(Porque minhas melhores intenções)

Keep making a mess of things

(Continuam fazendo uma confusão de coisas)

I just wanna fix it somehow

(Eu apenas quero corrigir isto de alguma forma)

But how many times will it take

(Mas quantas vezes serão necessárias)

Oh how many times will it take

(Oh quantas vezes serão necessárias)

For me to get it right

(Para eu acertar)

‘Vou preparar um chá para nós.’ Ela falou de repente. Caminhou até a cozinha e colocou a água para ferver. ‘Tem um aqui que eu tenho certeza que você irá gostar. A mãe da Tomoyo trouxe de uma das viagens que fez para a Europa. É chá preto com algumas especiarias.’

Ele sorriu de leve, sentindo-se satisfeito em saber que ela ainda lembrava de seu gosto por chás. Observou-a preparando com cuidado a bebida. Estava com saudades dela. Muitas saudades.

A jovem o serviu exatamente como ele gostava. Ele pegou a xícara, agradecendo e a observou se servindo antes de sentar-se em frente dele à mesa. Tomaram o chá devagar. Ela o observou levar a xícara à boca e reparou que ele não usava mais a aliança de casamento.

Abaixou os olhos, sentindo-se triste por constatar isso. Mas era o óbvio, não? Ela o tinha abandonado. Tinha arrumado suas coisas dentro de uma mala e saído no meio do dia, sem avisá-lo. Quando ele chegou simplesmente não a encontrou. Não deixou um bilhete, não deixou um recado no celular. Simplesmente fugiu.

‘É realmente muito bom.’ Ele comentou.

‘Sabia que você iria gostar.’ Falou sorrindo de forma triste.

Observou-o sorrir e teve que controlar a vontade de simplesmente pular a mesa que os separava e abraçá-lo. Desviou os olhos, fitando com intensidade a xícara a sua frente.

‘Nosso casamento…’ Ela começou a falar. ‘Já foi anulado?’ Perguntou, mesmo temendo pela resposta. Levantou o rosto e o fitou. Hyo Ling permanecia em silêncio, observando-a.

‘Shì de’ (Sim). Foi a resposta dele. A jovem sentiu como estocada no peito.

‘Wǒ míngbái’ (Entendo). Ela falou e sentiu os lábios tremerem. Tinha que ser forte, não queria e não choraria na frente dele. Levou a xícara à boca, bebendo mais um gole, o gosto já não era mais tão bom como antes.

Ele suspirou fundo. ‘Eu não entendi o porquê de você ter ido embora até encontrar o resultado dos exames que você escondeu no armário.’ Ele falou com a voz triste. ‘Você deveria ter me contado.’

‘Não adiantaria lhe contar.’ Ela rebateu. ‘Isso não tem solução, Hyo Ling. Agora você está livre e pode se casar novamente com uma esposa que possa lhe dar filhos…’ Ela falava devagar, tentando controlar a voz que falhava. ‘...Como o patriarca do Clã deve.’

‘Você tomou a decisão sozinha.’

‘De que adiantaria lhe contar? No final, o resultado seria o mesmo.’

‘Então, você achou que me abandonando o problema simplesmente se resolveria?’

‘Era a melhor solução. Mais rápida, sem complicação.’

‘Para você ou para mim?’

Ela arregalou os olhos, encarando-o. ‘Oras! Para você! Você agora está livre, Hyo Ling! Você pode se casar novamente.’

Ele sorriu de leve. ‘Acho que fui ingênuo em pensar que você um dia me amou, não é?’

So I throw up my fist

(Então, eu levanto os meus punhos)

Throw a punch in the air and

(Dou um soco no ar e)

Accept the truth that sometimes life isn't fair

(Aceito a verdade, que às vezes a vida não é justa)

Yeah I'll send out a wish

(Sim, eu faço um desejo)

Yeah I'll send up a prayer

(Sim eu faço uma oração)

And finally someone will see

(E finalmente alguém vê)

How much I care

(O quanto me importo)

Meilyn sentiu um frio no estômago como se um buraco surgisse aos seus pés, fazendo-a cair de forma vertiginosa. Levantou-se e debruçou-se na mesa, batendo as mãos nela e inclinando o corpo em direção do rapaz.

‘Foi justamente por amá-lo que eu tive que ir embora! Eu não poderia fazer você decidir entre mim e o clã.’ Arregalou os olhos, dando-se conta do que tinha dito e estava recuando quando Hyo Ling se levantou e pegou seu pulso, impedindo-a de voltar a se sentar.

‘O que disse?’

Ela desviou os olhos dele, sentia-se envergonhada como nunca havia se sentido antes. Talvez apenas na noite de núpcias deles. ‘Isso não importa.’ Sussurrou.

Sentiu a mão dele apertando o seu pulso. ‘Para mim, importa.’ Ele falou com a voz firme.

‘Já se passou muito tempo, Hyo Ling. Nosso casamento foi anulado. Eu te amar ou não, não faz a menor diferença agora.’

‘Você tem ideia de quanto tempo eu sonhei com isso?’

Ela levantou o rosto finalmente, fitando-o de forma profunda. Não conseguia mais controlar as lágrimas que desciam pelos seus olhos. Detestava que a vissem chorando, mas simplesmente não conseguia mais segurá-las.

‘Isso não importa mais, Hyo Ling. Não podemos mais ficar juntos.’ Ela falou, tentando soltar-se dele. ‘O clã…’

‘Que se dane o Clã, Mei Ling!’ Ele falou. ‘Eu pensei que você soubesse o que eu sinto por você. Eu nunca escondi que entre você e o clã, eu não teria dúvidas.’

Ela arregalou os olhos. ‘Você não está medindo o que está falando. Você precisa permanecer no clã. Depois do que aconteceu, só você poderia assumir o posto de patriarca. Você precisa fazer isso.’

Hyo Ling soltou o pulso dela. Meilyn se afastou, caindo sentada na cadeira. Olhou para o rapaz que ainda estava em pé, fitando-a profundamente.

‘Tome.’ Ele estendeu um lenço para ela secar as lágrimas.

Ela o pegou agradecendo. Não pôde deixar de inspirar fundo, sentindo o perfume do marido no pedaço de pano. A vontade que tinha era de abraçá-lo e beijá-lo.

Ficaram em silêncio novamente. Hyo Ling ainda estava de pé, com as mãos nos bolsos e olhava pela janela do alojamento.

What can you do

(O que você pode fazer)

When your good isn't good enough

(Quando o seu melhor não é bom o suficiente)

And all that you touch tumbles down

(E tudo que você toca desmorona)

Oh my best intentions

(Porque minhas melhores intenções)

Keep making a mess of things

(Continuam fazendo uma confusão de coisas)

Just wanna fix it somehow

(Eu apenas quero corrigir isto de alguma forma)

But how many times will it take

(Mas quantas vezes serão necessárias)

Oh, how many times will it take

(Oh quantas vezes serão necessárias)

‘Marcaram um novo casamento para mim.’ Ele falou, quebrando o silêncio. Meilyn encolheu os ombros mordendo os lábios forte para não começar a soluçar. Apertou o lenço contra o rosto.

‘Então já escolheu sua noiva…’

‘Não. Minha primeira mudança no clã foi justamente esta. Não há mais casamentos arranjados. Ou, pelo menos, é o que eu estou tentando mudar.’ Ele falou, balançando de leve o corpo. ‘Yelan é uma mulher forte e decidida, mas também é tradicional. Algumas vezes entramos em conflito.’

‘Ela deve estar lhe cobrando muito, não?’

‘Acho que não tanto quanto cobrou de Xiao Lang.’ Ele falou, sorrindo de forma triste ao pensar no primo. Observou o alojamento, lembrando-se de quando esteve nele pela última vez. ‘Não foi justo o que aconteceu com ele.’ Falou, recordando da interação e cumplicidade que viu entre ele e a mestra das cartas. ‘Ele estava tão feliz antes de morrer.’

Meilyn engoliu em seco, na dúvida se contava ou não a verdade sobre o primo para o marido… Ou melhor, ex-marido pensou com pesar.

‘Como está Kinomoto?’ O rapaz perguntou, de repente, por lembrar-se da jovem.

‘Hum… Ela está bem.’ A chinesa respondeu incerta.

‘Gostaria de vê-la.’

‘Hyo Ling… Acho que talvez… Não sei bem se ela ficará confortável em vê-lo.’ Ela respondeu sem encará-lo.

‘Eu preciso saber o que aconteceu comigo aquele dia. Yelan e os anciões se recusam a me contar. Ela é uma mulher muito inflexível em suas decisões. Se tem alguém que pode me explicar alguma coisa, é Kinomoto.’ Falou, voltando a encarar a chinesa.

‘Já conversamos sobre isso, Hyo Ling. Por que não deixa tudo no passado?’ Meilyn falou, encarando o rapaz.

‘Porque eu não posso.’ Ele respondeu. ‘Preciso saber o que aconteceu. Falaram-me que manipulei as cartas dela, falaram que eu era Xiao Lang. Não quero viver à sombra dele. Não é justo comigo, e nem com ele. Quero que ele descanse em paz e que não seja lembrado o tempo todo pela minha presença.’

Ela observou o rosto decidido dele. Hyo Ling tinha razão, ele tinha o direito de saber o que aconteceu. O problema é que, como ninguém sabia exatamente o que aconteceu, distorciam as coisas conforme seus interesses. Faziam o rapaz se sentir como um boneco sendo manipulado, uma peça de um jogo de xadrez na disputa pelo poder do clã.

Hyo Ling não era ingênuo de não perceber isso. Se estava aceitando até agora a situação, era porque, de alguma forma, via que poderia fazer valer sua vontade, mas o buraco era mais embaixo. Ele queria mudanças, Yelan também as queria, mas não todas.

‘Hyo Ling…’ Ela começou a falar, brincando com as mãos, na dúvida se contava ou não que Syaoran estava vivo.

Ele respirou fundo. ‘Vou ficar aqui até o final da semana.’ Interrompeu-a.

Meilyn apertou o lenço que tinha nas mãos. Ela observou o rapaz em pé ainda com as mãos nos bolsos, balançando o corpo devagar. Ele sempre fazia isso quando estava ansioso. Sorriu, lembrando-se dele fazendo a mesma coisa quando se declarou para ela.

‘Eu vim até aqui para pedir que volte comigo, mas apenas se você quiser.’ Ele continuou devagar. ‘Não quero que fique comigo por se sentir forçada.’ Disse, voltando a fitá-la. ‘Vou lhe enviar uma quantia de dinheiro todo mês para que fique aqui com sua amiga e faça a faculdade que você desejar, caso não queira voltar.’

‘Wǒ bú yào! (Eu não quero!) Eu não preciso de esmola.’ Ela falou decidida.

‘Não é esmola. Fomos casados, bem ou mal, sou responsável por você. Sei que seus pais não a estão apoiando.’

‘Eu sabia das consequências da minha decisão.’ Falou decidida. ‘Não preciso da sua ajuda.’ Exclamou decidida, levantando-se da cadeira e o encarando.

Ele a fitou pensando em como ela era teimosa e orgulhosa. DNA dos Li. Cabeça dura. ‘Pondere melhor suas opções. Cabeça quente só faz droga. Eu sei bem o que é isso.’

Meilyn engoliu em seco. Ele tinha certa razão. Realmente não tinha uma fonte de renda. Ele fora gentil ao dizer que seus pais não a apoiavam. Na verdade, para eles, ela estava morta. Não poderia ficar sempre contando com a ajuda de Xiao Lang e Sakura. Não era justo.

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‘Eu vou começar a trabalhar.’ Ela falou.

‘Ou você trabalha ou estuda.’ Ele rebateu. ‘Como eu falei, pondere bem suas opções.’

Ela franziu a testa. ‘E por que você faria isso? Por que me ajudaria, mesmo eu tendo o abandonado e não querendo voltar para você?’

‘Porque, apesar de você não acreditar, Mei Ling... Wǒ ài nǐ (eu amo você).’ Ele falou com simplicidade, fitando-a profundamente. ‘Pensei que ao nos casarmos a faria tão feliz que você me amaria, também, mas não foi o que aconteceu.’

Ela sentiu o bolo novamente na garganta. ‘Hyo Ling… Eu…’ Ela abaixou os olhos.

Hyo Ling respirou fundo, também desviando os olhos da jovem. ‘Se estudar a fará feliz, então eu gostaria de apoiá-la nisso.’

Ela sorriu de leve. ‘Como você sempre fez, não é? Sempre me apoiou. Mesmo sendo contra as regras do clã.’

‘Já falei, entre você e o clã, eu não tenho dúvidas.’ Ele respondeu. ‘Agora, se você as tem… Eu realmente não posso… Não tem como… Eu decidir por você.’

Voltaram a se fitar de forma profunda em silêncio, quando ouviram o barulho da chave girando na fechadura e a porta se abriu. Tomoyo entrou, conversando alegremente com Kurogane.

A morena arregalou os olhos, vendo o marido da amiga no meio do alojamento delas. Kurogane observou o casal de chineses, sorriu de lado. Pela cara da colega de alojamento de Tomoyo, estava óbvio que aquele ali era o marido abandonado.

‘Daidouji.’ Hyo Ling cumprimentou-a de forma polida. A morena não sabia nem o que responder, olhou para Meilyn que, pela cara, tentava se controlar para não voltar a chorar. Sentiu-se tentada a dar meia volta com Kurogane para deixá-los sozinho.

Kurogane aproximou-se do rapaz e estendeu a mão para se apresentar e cumprimentá-lo. ‘Yuo Kurogane.’

‘Hyo Ling Li.’ O chinês apertou a mão dele de forma cortês.

‘Ah, sim. O marido da Meilyn.’ Ele falou animadamente. ‘É bom conhecê-lo, ela me falou muito a seu respeito. Inclusive que foi o melhor aluno da faculdade de Direito de Hong Kong. Eu me formo ano que vem, também em Direito.’

Hyo Ling sorriu de leve, gostando de saber que a jovem tinha falado sobre ele. ‘Não fui o melhor. Na época, eu estava conciliando os estudos com o treinamento pelo clã.’

‘Ah, sim… Aquele treinamento pesado que os homens da família são obrigados a fazer. Ela também me disse que você era o único páreo para o Li… Para o Syaoran. Fui colega de alojamento dele.’

Hyo Ling olhou de esguelha para a jovem ao seu lado.

‘Você é muito petulante, Kurogane.’ A jovem falou. ‘E muito fofoqueiro.’

‘Xiao Lang sempre foi o melhor no treinamento.’ O chinês respondeu com sinceridade. ‘Ele era muito cobrado.’

‘Imagino que sim. Mas você é o patriarca do clã, agora, não? Como é que você falou mesmo, Li?’ Ele se dirigiu, brevemente, à chinesa. ‘Ah, lembrei! É um cargo de muito orgulho e que precisa de alguém com muitas qualidades.’

‘Você tem a língua solta demais, Kurogane.’ A chinesa falou para ele com o olhar assassino.

Kurogane sorriu de leve. Tomoyo sorria abertamente, realmente aquele rapaz petulante era incrível. Reparou o sorriso de satisfação do chinês ao saber que a esposa o havia elogiado para outras pessoas e o rosto encabulado e envergonhado de Meilyn. Quem sabe assim os dois não se acertassem de uma vez. Já tinha flagrado a amiga chorando baixinho algumas vezes à noite. Ela sentia falta, e muita, do marido. Só era cabeça dura demais para admitir isso.

‘Hã… Acho que vamos passar na casa de Sakura hoje.’ Tomoyo falou. ‘Vamos, Yuo?’ Ela chamou o rapaz para deixar os dois chineses sozinhos novamente.

‘Por favor…’ Hyo Ling interrompeu os dois. ‘Eu já estava de saída.’ Ele falou, respirando fundo.

Meilyn arregalou os olhos, não queria que ele fosse embora. Olhou para Tomoyo que se mostrava sem saber o que fazer.

Hyo Ling voltou-se para Meilyn. Tirou um cartão do bolso e colocou em cima da mesa, empurrando-o na direção dela. ‘Estou neste hotel. Aqui tem o nome do advogado que está cuidando da anulação do nosso casamento, caso você prefira tratar com ele. Você precisa assinar alguns papéis e ver o que é seu de direito.’ Falou em japonês para não ser indelicado com Tomoyo e seu acompanhante. Deixou o pedaço de papel sobre a mesa.

Meilyn desviou os olhos do rosto dele e fitou o cartão. ‘Eu abandonei o clã, não tenho direito a nada.’

Ele sorriu de leve. ‘Eu passei algumas coisas para o seu nome. É bom você esfriar sua cabeça, deixar de ser orgulhosa e ver o que tem. Como lhe falei: Pondere suas opções.’

Tomoyo e Kurogane se entreolharam, observando o casal. O rapaz balançou a cabeça de leve, reparando como a chinesa era cabeça dura. Parecida com a sua princesa.

Hyo Ling caminhou até Meilyn e se inclinou, dando um beijo demorado na testa da jovem. A chinesa fechou os olhos, deixando que, finalmente, as lágrimas que controlava escorressem livres. Tinha vontade de agarrar a roupa dele e impedir que ele se afastasse dela, mas a única coisa que conseguiu fazer foi apertar mais forte o lenço do rapaz que tinha nas mãos.

‘Cuide-se’. Ele falou carinhosamente, afastando-se dela e sorrindo de leve. Voltou-se para Tomoyo e Kurogane. ‘Boa noite.’ Cumprimentou de forma educada.

To get it right

(Para acertar)

‘Eu também já vou.’ Kurogane falou, desviando os olhos da chinesa que mal conseguia se controlar agora. Olhou para sua princesa e sorriu de leve. ‘Encontro você mais tarde.’

Tomoyo sorriu para ele. Como ela imaginava, o rapaz tinha sensibilidade para entender o que estava acontecendo.

‘Eu o acompanharei, Li.’ Falou, caminhando atrás do rapaz que já estava abrindo a porta do alojamento.

Os dois saíram e Kurogane fechou a porta. Tomoyo puxou uma das cadeiras e sentou em frente a amiga que, assim como há mais de dez anos, ajoelhou-se a sua frente, abraçando sua cintura e, novamente, molhou os seus joelhos.

To get it right

(Para acertar)

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‘E então? Conseguiu?’ Smith perguntou ansioso olhando para o homem à sua frente. Tinha contratado um ladrão profissional perito em relíquias históricas. O mercado negro deste tipo de mercadoria, era restrito e muito perigoso, inclusive para feiticeiros. Além do risco, discrição, pois teve que investir uma grande quantidade de dinheiro sem um retorno garantido. O senhor Yanamoto andava cada vez mais ansioso pelos resultados.

Eles estavam numa das mesas do lado de fora de um dos restaurantes perto do Musée de l'Opéra, em Paris. O homem fumava de forma tranquila. Fez um gesto, oferecendo a outra cadeira da mesa onde estava. Smith estava louco para recusar, mas sentou-se a contragosto.

‘E então?’ Insistiu.

‘Vous êtes trés précipité et ennuyeux.’ (Você é muito apressado e irritante) O homem falou incomodado. Continuou a fumar. Tirou um embrulho de dentro do sobretudo e colocou em cima da mesa. Smith quase avançou para pegar o embrulho, mas o homem o pegou de volta. ‘O pagamento, Monsieur.’

Smith trincou os dentes e pegou a pasta que estava ao seu lado, colocando-a perto do homem que soltou novamente o embrulho e pegou a pasta. Colocou-a no colo e a abriu. Sorriu de lado. ‘Merci’ (Obrigado). Falou, levantando-se com a maleta numa das mãos. Jogou o cigarro no chão e pisou nele para apagá-lo. ‘Bonsoir.’ (Boa noite) Desejou, afastando-se.

Smith acompanhou o ladrão com os olhos até que sumisse pelos becos escuros da cidade Luz. Sem conseguir aguentar a curiosidade, abriu o pacote e sorriu de lado. Lá estava a peça que faltava para conseguirem abrir um portal.

Fox estava certo que aquele objeto, atribuído ao deus de origem pré-latina, Janus, cultuado pelos romanos, possibilitaria a abertura controlada de um portal. Janus era considerado o Deus da dualidade e o porteiro celestial e dos portais.

O artefato tinha sido encontrado dentro de uma das estátuas nas ruínas do templo dedicado a Janus, na antiga estrada de Argileto, na cidade de Roma. Esta tinha se quebrado por consequência de uma sucessão de fortes terremotos que atingiu Roma alguns anos atrás.

Rosas tinha usado de sua influência para conseguir um curador que realizasse uma exposição das peças encontradas recentemente nos arredores de Roma, no Louvre. Era a ocasião perfeita para se realizar o roubo aumentando as chances de sucesso e discrição.

Franziu a testa, observando o objeto. Era uma chave antiga fundida em cobre como muitos artefatos, estava com manchas verdes resultado da oxidação pelo tempo, mesmo estando tão bem guardada dentro de uma das estátuas de duas cabeças do Deus ao qual era associada. Vendo assim, não parecia muito diferente de várias outras chaves encontradas em antiquários.

Arregalou de leve os olhos ao reparar na luz pálida que envolvia o objeto. Sorriu de lado e respirou aliviado. A negociação tinha dado certo. Agora era só acertar os preparativos. O Halloween seria no final do mês. Tinham muita coisa ainda para prepararem.

Continua.

Notas finais
Música do capítulo: Get It Right (Acertar) by Lea Michele (Glee Cast Version) #ATENÇÃO! A partir de agora, os capítulos serão postados, regularmente, um por semana, todas as quintas-feiras. Agradecemos a quem tem acompanhado e deixado comentários. Obs.: Para ouvir as músicas inseridas nos capítulos, acesse a playlist de Feiticeiros no spotify: https://play.spotify.com/user/22rlnulqqvg674k2ys6fjo35y/playlist/7k4ae3qiQIE2y8l0Mv4Nv4