FEITICEIROS
22 Adaptação
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FEITICEIROS
Por Kath Klein
Colaboração: Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 22
Adaptação
‘Você está querendo me matar mesmo do coração, não é, Sakura?’ Touya perguntou com a voz baixa, encarando a irmã que o fitava de forma desafiadora.
Ela estava com o queixo levemente levantado e o encarava com os olhos brilhantes. ‘Estou apenas querendo ser feliz.’ Respondeu.
Yukito estava um pouco mais afastado, apenas observando os dois irmãos. Kero estava pousado em um dos móveis da sala da casa deles. Desde que Syaoran retornou ao Japão, ou melhor, à vida, os dois guardiões andavam completamente sobressaltados. Eles tinham percebido a presença diferente do rapaz e não poderiam negar que estavam com muito medo pela segurança da jovem feiticeira.
Touya passou as mãos pelos cabelos, bagunçando-os mais ainda. ‘Você sabe muito bem que eu nunca vou permitir que vá morar com ele sem estar casada.’
‘A gente não precisa deste tipo de formalidade, Touya.’ Ela replicou.
‘Rá… ele que falou isso? Ele aparece vivo do nada e agora quer que você more com ele?’
‘Touya, você sabe de tudo. Você sabe exatamente o que aconteceu. Sabe por tudo que passamos… você sabe o quanto eu sofri.’ Ela fez uma pausa, fitando o irmão profundamente. ‘Ele voltou… ele está vivo. O que eu mais quero é ficar ao lado dele pelo máximo de tempo que eu puder.’
Touya franziu a testa. ‘Eu não concordo.’ Falou com o coração fisgando ao ver os olhos da jovem brilhando na iminência de lágrimas. Ele precisava ser duro agora. ‘Você precisa terminar a sua faculdade primeiro. Ele precisa terminar a faculdade. Vocês precisam ganhar a vida antes de decidirem estas coisas.’
Sakura caminhou até o irmão e segurou as mãos dele entre as suas. ‘Touya… eu o amo. Eu não sei mais o que é minha vida sem ele. Eu quase enlouqueci quando…’ Ela fez uma pausa e respirou fundo. ‘Quando ele não estava aqui comigo. Eu não quero mais perder tempo para dividir minha vida com ele.’
‘Você só tem 20 anos!!!’ Touya gritou, soltando-se das mãos dela e caminhando pela sala. Não queria brigar com a irmã, mas ela precisava entender que morar com alguém era um passo muito grande na vida.
‘E mesmo que eu tivesse 30, 40, 50 anos seria com ele que eu gostaria de viver.’
‘Sakura…’ Ele voltou a encarar a irmã. ‘Morar junto com alguém é um passo muito importante. Você é muito jovem para decidir isso.’ Falou, tentando controlar a voz.
‘Eu sei disso.’ Ela falou com a voz serena. Tentou sorrir para ele. ‘É por isso que só pode ser com ele.’
‘Mas por que tão cedo?’ O irmão novamente argumentou.
‘Porque já perdemos muito tempo separados.’ Ela replicou.
Touya respirou fundo, observando a irmã. Sabia que ela era tão ou mais teimosa que ele. Poderia ficar horas argumentando o porquê de ser completamente contrário àquela decisão precipitada.
‘Mamãe casou com papai quando tinha 16 anos, Touya.’ Ela falou para ele com a voz doce, reparando que ele voltou a encará-la. ‘Eles se amavam mais do que tudo, você lembra melhor do que eu.’
Touya sorriu de forma triste. Sim, lembrava-se claramente da relação amorosa de seus pais, mas a situação deles era outra… ou não?
‘Peraí…’ ele falou de repente e abaixou o rosto, ficando a centímetros do rosto da irmã. ‘Você e ele…’ Touya arregalou os olhos, observando quando a irmã desviou os olhos dos dele com a face levemente corada, confirmando suas suspeitas. ‘Você está grávida?!’
‘Claro que não, Touya!!!’ Ela falou olhando assustada para o irmão.
‘Você tem certeza disso?’
Sakura franziu a testa, pensando que realmente haviam esquecido de se protegerem da vez que dormiram juntos logo depois que o rapaz voltou. Sua menstruação estava um pouco atrasada, mas ela nunca fora certinha. Balançou a cabeça, tentando dissipar os pensamentos, procuraria um médico o quanto antes.
‘Então você não tem certeza?’ Ele insistiu na pergunta, observando a irmã.
Sakura voltou a fitá-lo. ‘Bem, se eu estiver grávida, aí sim que é melhor nós morarmos juntos, não acha?’
‘Isso não é brincadeira.’ O irmão falou com o rosto sério.
‘Eu sei.’ Ela replicou.
Ele suspirou novamente, pensando que cada vez mais as coisas se complicavam.
Sakura pegou novamente as mãos do irmão, forçando-o a fitá-la. ‘Por favor, Touya, você é minha única família. Não seja contrário a minha felicidade.’
Ele suavizou as feições, fitando a irmã tão amada. ‘Você é o que eu tenho de mais precioso, Sakura. Tenho medo que sofra.’
‘Então, por favor, não me impeça de ser feliz.’
Ele a abraçou com carinho. Sakura envolveu a cintura do irmão e apoiou seu rosto no tórax dele. Touya encostou o queixo na cabeça da irmã e fechou os olhos. ‘Eu não suportaria ver você tão perdida como nos últimos meses.’
‘Não tem mais como eu me perder com ele ao meu lado.’
Touya engoliu em seco. Talvez ela tivesse razão. Abriu os olhos e fitou Yukito que os estava observando em silêncio. Seria realmente justo ele impedir a irmã de morar com a pessoa que ela amava?
‘Você vai fazer isso de qualquer maneira, não é?’ Sakura ouviu o irmão perguntar com a voz chateada. Ela acenou que sim com a cabeça. Ouviu Touya suspirar, soltando o ar vagarosamente. ‘Está bem. Eu não concordo, mas aceito.’
Ela abriu um sorriso e se afastou do irmão para fitá-lo. Touya não teve como não sorrir de leve, observando o rosto da irmã se iluminar na frente dele.
‘Obrigada.’ Ela agradeceu, voltando a abraçá-lo forte. ‘Obrigada, Touya. Você é o melhor irmão do mundo!’
‘Sei…’ Foi o que ele conseguiu falar. Estava ainda tentando ruminar a informação. Olhou para Yukito que sorria para ele, acenando com a cabeça e informando-o que tinha tomado a decisão correta. ‘Mas preciso falar com ele sobre isso.’
Sakura se afastou do irmão, voltando a fitá-lo. ‘Sim… ele está ali fora.’
‘Eu sei…’ Touya falou contrariado. ‘Melhor chamá-lo para conversarmos.’ Deus o ajudasse a controlar sua vontade de simplesmente arrancar o fígado daquele moleque chinês traiçoeiro.
Sakura se afastou dele e puxou o rosto do irmão para dar um demorado beijo na bochecha esquerda. ‘Eu te amo.’ Ela falou antes de se afastar para buscar o rapaz.
Yukito se aproximou de Touya. ‘Fez a escolha certa, Touya.’
‘Que escolha?’ perguntou cruzando os braços sobre o peito. ‘A monstrenga é teimosa. Ela vai morar com ele independente de eu aceitar ou não.’
‘Mas foi sua opção ficar ao lado dela.’ Yukito retrucou.
‘Ah, cala a boca, Yuki.’ Soltou contrariado.
Yukito sorriu para ele. Logo Sakura entrou de mãos dadas com Syaoran. Touya franziu a testa, encarando o moleque chinês. Não tinha mais poderes mágicos para identificar o que Yue e Kero haviam comentado sobre a aura do rapaz. Fisicamente, ele parecia normal. Estava com a mesma cara feia que ele conhecia.
Yukito o cumprimentou de forma polida, comentando que estava feliz em revê-lo. Syaoran agradeceu de forma educada.
‘Vou fazer um chá para nós.’ Yukito falou, afastando-se deles. ‘Por favor, sentem-se.’ Apontou para o sofá com um gesto.
Sakura agradeceu e puxou Syaoran para sentar ao lado dela no sofá sob o olhar cauteloso de Touya que não falava nada. Apenas encarava o namorado da irmã.
Yukito foi até o homem dando uma cutucada. Touya balançou a cabeça e, por fim, sentou-se na poltrona em frente ao casal, batendo de leve as mãos nos joelhos.
‘Bem…’ Touya começou em tom incerto. ‘Hum… Sakura me falou… Que vocês dois…’ Ele apontou para os dois. ‘Querem morar juntos.’
‘Isso.’ Syaoran concordou.
Touya ainda ficou um tempo pensando. Não era uma conversa fácil. O que ele queria era simplesmente sumir com aquele garoto da frente dele. Pensou no seu pai e em como ele reagiria a esta situação. Fujitaka era um homem sensato e bondoso. Extremamente calmo e ponderado. Bem diferente dele. Respirou fundo, pensando que teria que se esforçar.
‘Amo sua irmã’. Ele ouviu o rapaz dizer de supetão, encarando-o de frente. ‘E quero ficar com ela para sempre. Acredite em mim, farei o possível e o impossível para fazê-la feliz.’ Sentiu que ele não mentia, mas talvez os dois não tivessem se dado conta da gravidade da situação.
Ele concordou com a cabeça. ‘E onde vocês vão morar? Espero que dê a minha irmã um lugar adequado. E nada desse negócio de me aparecerem com um sobrinho agora…’ Ele encarou a irmã.
‘Touya!’ Sakura exclamou, repreendendo o irmão que deu de ombros.
‘Vocês precisam terminar a faculdade primeiro.’ Ele sentenciou e fitou a irmã. ‘Você sabe que papai sempre sonhou em nos ver formados.’
Ela concordou. ‘Vamos continuar a faculdade. A única diferença é que, em vez de morar com a Tomoyo, vou morar com o Syaoran.’
Touya sorriu de forma irônica. ‘Rá! Realmente, a situação não tem diferença nenhuma.’ Arrependeu-se do comentário. Retornou ao tom sério que estava tentando manter. ‘Está bem… Enfim… Onde vocês vão morar?’
‘Comprei a casa da senhora Mizuki. Ela foi morar com a filha na Europa alguns meses atrás. A casa é boa e é próxima à universidade.’ Syaoran respondeu.
Touya franziu a testa. ‘E com que dinheiro? Até ontem você estava morto.’ Ele tinha que ser prático.
‘Eu mantive parte da herança do meu pai aqui no Japão. De quando vim morar aqui pela primeira vez. Não é muito, mas dá para nos sustentarmos até finalizarmos a faculdade.’
‘E a sua família?’
‘Eles ainda acham que eu estou morto.’ Não tinha porque mentir. ‘Por isso a casa está no nome da sua irmã e também transferi parte do que tenho para ela. Assim, mesmo que me aconteça alguma coisa, ela não vai ficar desamparada.’
Sakura franziu a testa e encarou o namorado, não sabia dessa parte da história. ‘Você não me falou isso.’
‘Isso é só por precaução.’ Ele respondeu, fitando-a.
Touya olhou para irmã e reparou que ela não gostou da colocação dele. Depois voltou-se para o rapaz. ‘Então quem sabe que você está vivo?’
Syaoran voltou-se para o irmão da namorada. ‘Minha mãe apenas.’
‘E se ela contar para os outros?’
‘Ela não fará isso.’ Ele respondeu, mas deu de ombros. ‘E, também, se falar, não vai mudar nada. Não volto mais para a China, e muito menos para o clã.’
‘Certo…’ Touya sussurrou, encarando-o. ‘E quando vocês pretendem… Enfim… Quando vão se mudar?’
‘Peguei a chave da casa hoje.’ Falou o rapaz.
‘Já?!’ Sakura exclamou entusiasmada. E viu o rapaz confirmar com a cabeça.
‘Tá, mas tem que arrumar a casa primeiro… Comprar móveis… Estas coisas. Além disso, estamos na metade do semestre. Você tem que pensar nas provas, Sakura. Semestre passado você foi muito mal.’ O irmão chamou a atenção dela.
A jovem se encolheu. Realmente não tinha ido nada bem nas matérias do período anterior. Chegou a colar em algumas usando magia, apenas para não perder a vaga na universidade e poder continuar morando no alojamento, mas estava tão desinteressada que passou em algumas matérias com as notas mínimas e reprovou em outras. Nas primeiras provas do semestre atual, suas notas não tinham sido muito diferentes. O irmão estava certo. Teria que se esforçar mais para não reprovar novamente.
‘Sakura decidirá quando.’ Syaoran respondeu. ‘Vou me mudar agora porque não aguento mais ficar em hotel.’
‘Está bem…’ Touya falou por fim. ‘Eu aceito a decisão de vocês, mas tenho duas exigências.’ Ele parou um pouco para pensar. ‘Na verdade três.’ Fitou o chinês que concordou com a cabeça. ‘Primeiro que Sakura não pare a faculdade e que estude corretamente para não reprovar mais.’ Sakura concordou com a cabeça. ‘Segundo, que você…’ Falou apontando para Syaoran. ‘Faça-a muito feliz.’ O rapaz concordou, sorrindo de leve. ‘E em terceiro… prometam-me que não vão me aparecer com um sobrinho daqui a pouco!’ Ele falou sério, passando a mão nos cabelos. ‘Sou muito novo para ser tio!’
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Syaoran abriu a porta da casa e olhou para Sakura ao seu lado. Fez um gesto para ela entrar primeiro. A jovem mal conseguia fechar o sorriso ao observar a sala. Deu um passo à frente e se voltou para ele, estendendo a mão e entrelaçando os dedos para entrarem juntos.
Caminharam devagar até o meio da sala que estava quase vazia. Alguns móveis estavam nos cantos. Syaoran tinha providenciado a limpeza do imóvel e alguns outros detalhes.
‘Ela é grande.’ Sakura comentou observando a sala. Antes, com tantos móveis e estantes com potinhos coloridos, ela não tinha se dado conta das dimensões do imóvel.
‘Acho um bom tamanho.’ O rapaz falou. ‘Precisa de alguns reparos.’ Comentou, olhando para os lados. ‘Mas são coisas pequenas.’
‘Sim… talvez Touya possa nos ajudar nisso.’
Syaoran sorriu de lado. ‘Não vamos abusar do seu irmão. Já foi difícil demais para ele aceitar você vir morar comigo.’
Sakura concordou. Era melhor dar um tempo para Touya se acostumar com a situação. Ele já tinha sido maravilhoso em não se opor a decisão dela. Iria se sentir infinitamente triste se tivesse que romper contato com o irmão para morar com o namorado.
Ela caminhou pela casa, puxando Syaoran pela mão e reparando em alguns detalhes. O rapaz sorriu com entusiasmo dela.
Ele tinha gostado daquela casa desde que entrara nela pela primeira vez e foi uma grata coincidência saber que ela estava vazia, porque a senhora tinha resolvido morar com a filha. Eriol tinha comentado isso, inclusive de forma um pouco chateada. Pelo jeito ele andava deixando a esposa sozinha por muito tempo e a sogra resolveu fazer companhia a ela.
Sakura foi até a cozinha. Lembrava-se de quando preparou o jantar naquela cozinha com eles mesmos quando crianças. Suspirou, lembrando da infância que tiveram. Voltou-se para o rapaz que estava logo atrás, deixando-se ser guiado pela namorada, e sorriu para ele mal contendo a felicidade.
‘Vamos conhecer o segundo piso?’ Ele sugeriu. Sakura concordou. Syaoran a puxou, atravessando a casa e subindo as escadas até o andar superior. ‘Espero que não se importe, mas providenciei algumas coisas antes sozinho.’
‘Providenciou? O quê?’ Ela perguntou, olhando desconfiada para ele que apenas sorriu de lado.
‘Hum… acho que a gente pode começar a esclarecer algumas coisas.’ Ele falou de repente, retendo-a. Sakura franziu a testa ainda o olhando desconfiada.
Ele a pegou no colo fazendo a jovem se assustar. ‘Hei, o que é isso?’ Ela exclamou.
‘Vamos começar isso como se deve.’ Ele esclareceu.
‘Como se deve?’
‘Exatamente. Você veio morar comigo, a gente ainda não casou no papel, mas você é minha esposa agora.’
Ela arregalou os olhos de leve, encarando-o. ‘Ah… então eu sou sua esposa?’
‘Claro! Vamos nos casar assim que terminarmos a faculdade para evitar um infarto do seu irmão e até lá a situação dos meus documentos estarão resolvidos. Minha mãe já está providenciando isso.’ Ela o abraçou encostando seu rosto no pescoço do namorado. Ele a apertou de leve nos braços. ‘Nós seremos muito felizes. Eu prometo.’
‘Você já está aqui comigo. Estou feliz por isso. Não vou mais deixar você se afastar de mim, Syaoran.’
‘Bem… a tradição diz que o noivo deve carregar a noiva para o leito nupcial, não é?’ Falou de forma marota.
‘Ah, sim… o noivo antes roubava a noiva e a carregava nas costas.’
‘Eu tive que roubá-la do seu irmão, não foi?’
Ela riu. ‘Foi um roubo consentido. Isso não vale.’
‘Hum… Bem, na China, o homem carrega a mulher para colocá-la no seu devido lugar.’
Sakura ergueu uma sobrancelha. ‘Colocá-la no lugar?’
Ele concordou com a cabeça, começando a caminhar em direção a um dos quartos. ‘Isso mesmo.’
‘Do que você está falando, Syaoran Li?’ Ela perguntou em um tom perigosamente baixo.
‘Que o seu lugar, minha cara Sakura, agora é ao meu lado.’ Respondeu enquanto abria a porta de um dos quartos, entrando. ‘Sempre!’ Ele completou.
Ela desviou os olhos dele e observou o quarto arrumado com a enorme cama e flores enfeitando e perfumando todo o ambiente.
‘Oh!’ Exclamou com a surpresa e sorriu para ele.
Ele caminhou com ela nos braços até a cama. ‘Seu lugar é ao meu lado assim como o meu é ao seu.’ Ele falou de forma suave.
‘Para sempre!’ Ela completou e ele concordou com a cabeça antes de beijá-la.
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Tomoyo caminhava devagar ao lado Kurogane. O rapaz estava com as mãos nos bolsos, apenas acompanhando a jovem até o alojamento dela.
‘Ainda não acredito que ele esteja vivo!’ Ela ouviu o rapaz exclamar novamente.
Sabia que ele estava se referindo a Syaoran. Fora realmente um susto enorme para o rapaz quando viu o ex-colega de alojamento no campus da universidade. Poucos alunos realmente sabiam o que tinha acontecido naqueles tempos. Fora uma verdadeira loucura. Muitos morreram, muitos simplesmente desapareceram.
Ela suspirou. ‘Sim… é inacreditável.’
‘Este lance de magia deles… você sempre soube?’
Ela fitou o rapaz e acenou que sim com a cabeça. ‘Desde que éramos crianças.’
O rapaz balançou a cabeça de leve. ‘Isso parece loucura. Parece um filme de terror barato.’
‘É. Eu sei. Mas estou tão acostumada…’ Tomoyo falou. ‘Você quer ver as filmagens que eu fiz dos dois quando crianças algum dia?’
Ele arregalou os olhos de leve, fitando a morena. ‘V-você gravava?’
Ela concordou com a cabeça, sorrindo. ‘Tenho caixas de fitas catalogadas de quase todas as capturas das cartas Clow e de quando ela transformava em cartas Sakura.’
Ele sorriu. ‘Você realmente é uma caixinha de surpresa.’
Tomoyo corou com a observação, o rapaz abriu mais o sorriso ao perceber isso.
‘Eu... Eu apenas gostava de fazer alguma coisa útil.’
‘Kinomoto tem sorte de ter uma amiga tão dedicada como você.’
Tomoyo encarou o chão com o rosto triste. ‘Eu tenho sorte de ter uma amiga tão especial como Sakura.’
‘Especial…’ Ele repetiu, desviando os olhos da morena e continuando a caminhar em silêncio ao lado dela. ‘Aquele cabeludo também é um amigo especial?’
‘Quem?’
‘Hiiraguizawa.’
‘Ah!’ Ela deixou escapar. Sorriu para ele que ainda tinha o rosto sério. ‘Eriol também é um amigo especial, assim como Syaoran.’
‘Humph.’ Kurogane murmurou. ‘Você os chama pelo primeiro nome.’
‘Somos amigos desde o primário. Eu já lhe contei toda a história de Eriol. De ele ser a reencarnação do mago Clow e…’
‘Sim… não precisa repetir.’ Ele a cortou.
Não sabia o porquê, mas não gostava quando a morena falava de Eriol. Mentira! Sabia exatamente o porquê. Já tinha visto o rapaz admirando a morena e não gostou nada do que viu. Com o surto de Kinomoto, sua princesa e o cabeludo andavam mais próximos ainda. Agora, com o retorno de Syaoran, Sakura ficaria bem, então por que o cabeludo não sumia da vida deles de uma vez? Ou melhor, não sumia da vida de sua princesa.
‘Ele não tem que voltar lá para a Inglaterra?’
Ela meneou a cabeça. ‘Acho que sim… a professora Mizuki deve estar com saudades do marido, não?’
‘Sim… o lugar dele é ao lado da esposa e não aqui.’
‘Acho que ele ainda tem receio pelo retorno de Syaoran.’
‘Isso tá me cheirando a desculpa.’ Kurogane falou irritado. Estava tentando manter a calma, mas não era lá muito bom nisto.
‘Desculpa?’ Tomoyo perguntou, franzindo a testa. ‘Não estou entendendo.’
‘Deixa para lá.’ Ele desviou os olhos dos dela. ‘Bem…’ Ele olhou para o prédio da irmandade da jovem. ‘Chegamos.’
‘Obrigada por me acompanhar.’ Ela agradeceu, sorrindo.
‘Por nada…’ Ele respondeu, sorrindo de leve. ‘Acho que…’
‘Você não quer subir e tomar um chá comigo?’ Ela convidou, mas logo se arrependeu. Corou. ‘Quer dizer… se você estiver com tempo livre…’
Kurogane sorriu suavemente, observando a jovem que olhava timidamente para o chão, evitando encará-lo. ‘Adoraria.’
Ela levantou o rosto e sorriu para ele. ‘Posso lhe mostrar alguns dos meus vídeos. Tenho alguns aqui.’
‘Também vou adorar vê-los.’ Falou. ‘Principalmente com você ao meu lado.’ Completou e a viu corar mais forte.
‘Hã… então vamos.’ Ela falou, rodando sobre os calcanhares e subindo os primeiros degraus da irmandade. Voltou-se para o rapaz e sorriu. Ele foi atrás dela.
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Sakura abriu os olhos, observando as cortinas que se agitavam graças à janela aberta do quarto. Ouviu uma trovoada ao longe. Ela detestava aquela chuva forte, parecia que o céu estava caindo. Tentou se levantar, mas sentiu o braço de Syaoran a segurando pela cintura. Sorriu. Era maravilhoso ir dormir ao lado dele, passar a noite ao lado dele, acordar ao lado dele.
Olhou novamente para o tecido movendo-se freneticamente e percebeu que a chuva estava formando uma pequena poça abaixo da janela. Suspirou, pensando que teria realmente que se levantar para fechá-la. Respirou fundo, prendendo a respiração e tentando tirar o braço de Syaoran delicadamente da sua cintura. Afastou-se um pouco do rapaz, tentando não fazer barulho para não acordá-lo e se sentou na beirada da cama. Abafou um bocejo e buscou forças para se levantar.
Caminhou até a janela e observou a chuva. Franziu a testa. Parecia até que Tempestade havia se libertado. Balançou a cabeça de leve, isso era impossível. Fechou, finalmente, a janela, evitando que a poça d’água aumentasse. Ouviu Syaoran gemer. Olhou para a cama e o viu agitado. Caminhou depressa até o leito deles e se ajoelhou na cama ao lado do rapaz. Passou a mão no rosto dele que estava suado e tentou acordá-lo para tirá-lo daquele pesadelo.
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Syaoran tinha voltado para o mundo das trevas. O céu vermelho em chamas tornava o ar pesado e hostil. Li olhou para os lados e as dunas de areia estavam lá intactas como ele as vira durante todo o tempo que esteve naquele inferno. Ele deu alguns passos, observando a tudo e pensando no porquê de voltar àquele lugar.
'O que estamos fazendo aqui?' Era a voz doce de Sakura. O rapaz petrificou, virou-se devagar para trás e viu seu anjo olhando assustada para o lugar. Syaoran foi até ela em desespero, segurou-a pelos braços com força.
‘Como veio parar aqui?'
Sakura olhou desnorteada para ele. 'Eu não sei, Syaoran. Solte-me, está me machucando.'
Li não a soltou, ele olhou para o mundo em que estavam, tentando achar uma brecha. Ele precisava fazer Sakura passar por ela, tinha que tirá-la daquele inferno. De repente, seu corpo começou a arder, a queimar como se algo o cortasse, mas de dentro para fora. Ele soltou Sakura e se encolheu, tentando controlar a dilacerante dor.
A jovem o observava, confusa. Ele levantou o rosto e pôde ver pânico nos olhos de esmeralda. A dor passou tão subitamente como surgira. Ele se levantou e encarou Sakura que o olhava assustada. Deu alguns passos até ela, mas ela recuou amedrontada. Sakura estava com medo... Dele?
'Sakura, por quê...'
'Afaste-se de mim, demônio! Não me faça mal!'
Li sentiu como uma facada no peito aquela rejeição da sua flor. Piscou os olhos e viu Sakura com as mãos a sua frente, tentando se proteger dele!
'Sou eu, minha flor.' Falou com a voz doce.
'Não! Não me faça mal!'
A moça se virou e começou a correr, fugindo dele. Li olhava atordoado para a bela figura da namorada que fugia em pânico, como se estivesse vendo a pior coisa da sua existência. E esta coisa era ele.
Syaoran levantou da cama assustado. A respiração estava acelerada como se faltasse ar para seus pulmões. Sentiu quando alguém tocou o seu ombro e quase pulou de susto.
‘Hei, Syaoran!’ Sakura falou, olhando assustada para o namorado que tinha o rosto transfigurado. ‘Você está bem?’ Ela perguntou preocupada.
Ele não respondeu, apenas a abraçou forte, tão forte que Sakura teve a impressão de que suas costelas estalaram. Ela passou as mãos pelas costas do namorado. ‘Shiii… foi só um pesadelo.’ Ela falou, tentando acalmá-lo.
‘Você está aqui…’ Ele sussurrou ainda abraçado a jovem.
‘Sim. Eu estou aqui.’ Ela falou, sorrindo de leve. ‘Estou aqui, meu amor.’
Ela deu o tempo que ele precisou para se acalmar. Quando ele se sentiu melhor, deixou-se cair de costas na cama com um braço sobre o rosto. Ainda tinha os batimentos cardíacos descontrolados. Ela observou o rapaz deitado e franziu a testa.
‘O que sonhou, Syaoran?’
Ele tirou o braço do rosto e fitou a jovem que olhava fixamente para ele. Desviou os olhos da namorada, não queria contar o que tinha sonhado. ‘Nada importante.’ Ele respondeu simplesmente.
Ela se aproximou dele, tocando no seu peito para chamar a atenção do rapaz. Syaoran voltou a fitá-la. ‘Pode confiar em mim, Syaoran…’ Falou com a voz doce.
Ele se levantou, sentando na cama e admirando-a. Ela era linda. Ele a amava tanto que não suportaria mais viver longe dela. Levantou a mão, tocando de leve a pele sedosa do rosto dela e a viu fechando os olhos, apenas apreciando o carinho que ele fazia.
‘Não consigo mais viver sem você, Sakura.’ Falou por fim. Ela sorriu e segurou a mão dele que estava em seu rosto.
Abriu os olhos fitando-o. ‘Eu também.’ Ela respondeu aproximando-se dele. Abaixou a mão do rapaz e inclinou o corpo a frente, beijando de leve os lábios do amado. Afastou-se para que pudesse fitá-lo nos olhos. ‘Foi você mesmo quem disse que meu lugar é ao seu lado, não foi?’ Ele concordou com um gesto. ‘Então…’ Falou, inclinando a cabeça enquanto tocava de leve o rosto dele com as mãos. ‘Não precisa me esconder nenhum medo, Syaoran. Eu estou aqui para enfrentar todos com você.’
Syaoran sorriu de leve. Ela tinha razão, mas ainda hesitou por alguns segundos. ‘Sonhei que tinha voltado ao inferno.’
Ela sentiu o coração acelerar, mas tentou se acalmar, não queria passar medo para ele. Ela concordou com a cabeça. ‘Você ficou lá por muito tempo.’
Ele desviou os olhos dela. ‘Não sei direito. Não tinha como medir o tempo por lá.’
‘Por que foi para lá, Syaoran? Você não fez mal algum para parar lá.’
‘Era a única maneira de voltar. Foi o preço que eu paguei… além de ser agora um…’ Ele parou de falar e a fitou novamente. Trincou os dentes.
‘Um demônio?’ Ela concluiu. ‘Era isso que você falaria?’
‘É.’ Respondeu simplesmente.
‘Então é o preço que nós vamos pagar, Syaoran.’
Ele a fitou novamente e se afastou um pouco. ‘Não quero que fique comigo porque…’
‘Hei, hei, hei…’ Ela falou, franzindo a testa ao perceber que os pensamentos do rapaz tinham-no levado a concluir algo erroneamente. ‘Você não está entendendo…’ Segurou-o pelo braço para que ele voltasse a encará-la. ‘Eu amo você. Para de duvidar disto! Para de achar que o que eu sinto por você é, sei lá… influência de Clow, por eu ser este maldito pilar, ou porque eu tenho pena de você. Para já com isso!’
Ele tentou se levantar, mas ela o segurou novamente. ‘Para com isso, Syaoran!’
Ele fechou os olhos, sentia-se verdadeiramente perdido. Tudo sempre fora tão difícil na sua vida que, às vezes, simplesmente não conseguia aceitar que ela o amava e pronto. Sentiu quando ela pegou o rosto dele entre suas mãos. Ela estava ajoelhada à frente dele. ‘Eu amo você. Eu quase enlouqueci quando você não estava mais aqui. Eu fiz muita coisa errada, Syaoran.’
‘Eu sei…’
‘Você… você sabe?’ Ela perguntou, soltando o rosto dele e afastando-se para sentar na cama.
Syaoran abriu os olhos e a fitou. ‘Estava o tempo todo atrás de você.’
‘Oh!’ Ela arregalou os olhos. ‘Então você viu que eu…’
Ele acenou que sim com a cabeça, sem esperar que ela concluísse. ‘Eu que avisava o Hiiraguizawa.’
‘E você viu também…’ Ela nem terminou e ele balançou a cabeça, concordando. ‘E quando...?’ Ela parou quando ele também concordou. ‘Ah…’ Ela abaixou os olhos, sentindo-se imensamente envergonhada. ‘Eu… eu…’ Sakura balançou a cabeça sem saber direito o que falar e agora fitava a poça de água que havia se formado abaixo da janela.
Ficaram calados por alguns minutos, apenas sentados um ao lado do outro.
Sakura respirou fundo e depois voltou-se para Syaoran. ‘Então... Você foi para o inferno para voltar porque eu estava enlouquecendo?’
‘Hei…’ Ele falou, franzindo a testa. ‘Agora não venha você deduzir as coisas erradas.’ Esclareceu. ‘Eu fui para lá porque eu queria voltar para você.’
‘Humph.’ Ela murmurou, desviando os olhos dele. ‘Você foi castigado porque não me tirou as cartas e ainda me ajudou a transformá-las. Depois morreu para proteger a mim, que sou este estúpido pilar. E depois foi para o inferno porque senão eu surtaria.’ Ela enumerava, levantando os dedos. ‘Acho que eu não sou uma boa namorada.’
Syaoran rodou os olhos. ‘Não foi por isso.’ Ele falou segurando a mão da jovem que estava levantada. ‘Um, eu não tinha como tirar as cartas de você porque elas só obedeceriam a mestra delas. Consigo manipulá-las apenas depois de uma permissão sua. Dois, eu a ajudei a transformar as cartas porque eu queria estar perto de você e isso foi uma ótima desculpa. Três, eu não protegi você, eu morri porque um amigo maluco de Clow resolveu abrir um portal enorme entre o nosso mundo e o inferno. E quatro, eu voltei porque EU queria estar ao seu lado. Eu não suportava mais estar sozinho no céu, ou no inferno, ou sei lá para onde me mandariam.’ Ele se calou e fitou a jovem que estava com os olhos arregalados a centímetros do rosto dele. ‘Entendeu?’ Perguntou em tom sério para que ela não tocasse mais neste assunto e a viu balançar a cabeça concordando. ‘Ótimo.’ Ele soltou a mão dela.
Voltaram a ficar em silêncio. Sakura olhou para a janela, notando que a tempestade tinha parado. Olhou para o namorado e percebeu que a aura dele tinha se acalmado.
Syaoran se deitou e puxou a jovem para se deitar abraçada a ele. Ela repousou a cabeça no peito dele e fechou os olhos. Estava cansada, mas não estava com sono. As pernas se entrelaçaram.
Ele beijou a cabeça da namorada. ‘Vamos tentar dormir… Quando acordarmos, temos muito o que fazer.’ Ela concordou.
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‘Pesadelo?’ Tomoyo perguntou, fitando a amiga que estava a sua frente no refeitório universitário. Como Sakura havia se mudado para morar com Li, elas se encontravam na hora do almoço e entre os intervalos das aulas quando possível.
Sakura confirmou com a cabeça. ‘Sim, está ficando cada vez mais frequente.’
‘Mas sobre o quê são os pesadelos?’
Sakura respirou fundo, apoiando o cotovelo na mesa e depois o rosto na mão. ‘Ele não me conta direito. Você sabe como o Syaoran é.’
‘Hum…’ Tomoyo murmurou. ‘O Syaoran nunca foi de falar muito sobre a vida dele. Sabia mais dele através de Meilyn do que por ele próprio.’
A ruiva franziu a testa e fitou a amiga. ‘A Meilyn contou para você o que aconteceu com Syaoran quando ele voltou para China depois que aprisionamos Vácuo?’
Tomoyo engoliu em seco. Desviou os olhos da amiga para um ponto qualquer da mesa. ‘Bem…’ Começou a falar incerta. Não gostava de mentir.
Sakura percebeu a hesitação da amiga. ‘Tomoyo…’
A morena respirou fundo. Já estava com aquele peso há muito tempo na consciência. Depois fitou a amiga e indagou se ela não estava jogando verde. ‘O que ele contou para você?’
‘Que ele foi castigado.’
Tomoyo acenou que sim com a cabeça. ‘Você sabe que eu e Meilyn ficamos muito próximas quando ela esteve aqui no Japão.’
‘Sim, eu sei… Foram vocês duas que convenceram o Syaoran a vir para cá naquela ocasião.’
Ela confirmou com a cabeça e deu de ombros. ‘Vocês eram devagar demais.’
‘Não é este o ponto, Tomoyo.’
A morena começou a apertar as mãos, sinal de que estava nervosa. ‘Bem… a Meilyn uma vez acabou desabafando comigo.’
‘Desabafando?’ Sakura repetiu devagar, semicerrando os olhos em direção a prima. ‘Do que ela estava falando?’
‘Ela me contou que batiam um bocado no Syaoran.’ Falou por fim, como se estivesse finalmente tirando o peso das costas. ‘Ela me contou que ele não podia ter perdido as cartas para você e, principalmente, tê-la ajudado a transformá-las.’
‘V-você sabia?’
Tomoyo balançou a cabeça de leve. ‘Isso foi há pouco tempo. Quando ele voltou para o Japão e eu liguei para a Meilyn para saber o que realmente ele queria aqui.’
‘Você fez isso?’ Sakura perguntou, levantando-se e encarando a amiga.
‘Oras! E o que você queria que eu fizesse? Você, naquela época, não sabia se estava feliz ou triste pela volta dele. Estava completamente perdida. Eu precisava saber se ele tinha ou não voltado por você.’
A ruiva abriu a boca para falar alguma coisa para a prima, mas estava completamente desconcertada com a certeza de que todo mundo sabia de tudo menos ela. Desabou novamente na cadeira sem nem saber o que falar para a amiga. Tomoyo inclinou o corpo e pegou a mão de Sakura entre as dela.
‘A Meilyn me fez jurar que não contaria para você. O Syaoran a fez prometer isso.’
Sakura riu de forma irônica. ‘Sim… Syaoran e sua mania de me esconder sempre as coisas que acontecem com ele.’
‘Ele a ama, Sakura. Faz isso para protegê-la.’
‘Eu não sou uma donzela em apuros para precisar de um herói.’ Ela falou entre os dentes.
‘Eu sei… Mas ele adora se colocar na posição de herói.’
‘Ele é orgulhoso demais.’
Tomoyo concordou. ‘Sakura…’ Ela a chamou com doçura. ‘Tente se colocar também no lugar dele.’
Sakura voltou a fitar a prima. ‘Como assim?’
‘Syaoran cresceu isolado. Ele sempre foi cobrado a resolver sozinho, problemas que estavam acima de algo normal para sua idade. Para ele também deve ser difícil deixar que você o ajude.’
‘Mas ele não está sozinho. Eu só quero ajudá-lo. Dividir os fardos.’
‘Mas você tem que entender que não adianta exigir isso dele. Precisa chegar devagar, Sakura, e não impondo tudo.’
‘Eu não estou impondo nada…’ Ela tentou se defender.
‘Não?’
‘Está bem… Talvez… Mas eu não quero mais este posto de donzela em que ele me colocou. Que saco!’
‘Então demonstre isso. Ao invés de apenas falar e exigir dele uma ação. Faça você a ação.’
‘Tomoyo… Eu não estou entendendo.’
A morena respirou fundo. Sakura tinha crescido, mas, para algumas coisas, ela realmente continuava lenta.
‘Seja romântica.’ A morena falou por fim.
‘Romântica?!’ Sakura falou sobressaltada. ‘Como assim?’
‘Oras, Sakura! Como assim? Eu que não tenho namorado é quem vou ensinar?! Isso não tem cabimento.’
A ruiva abriu um pequeno sorriso. ‘Acho que estou entendendo.’
‘Ótimo.’
‘Hum… E você só não tem namorado porque não quer. Kurogane está subindo pelas paredes.’
‘Ah!’ Tomoyo exclamou fitando a amiga. ‘Para me deixar constrangida você pensa bem rápido.’
Sakura riu da prima, principalmente porque a viu ficar com as bochechas rosadas apenas por ter tocado no nome do rapaz.
‘Kurogane é um bom rapaz.’ Tomoyo falou por fim. ‘Ele é muito atencioso, companheiro e me ajudou bastante na época em que a senhorita estava me dando um baita trabalho.’
Sakura fechou o sorriso. ‘Tem razão, Tomoyo… Devo-lhe desculpas. Sei que quase enlouqueci você.’
A morena concordou com a cabeça, realmente pouco tempo atrás ela vivia sobressaltada por causa da prima.
‘Kurogane foi muito legal em várias situações. Abusamos demais da boa vontade dele, inclusive quando íamos buscar Eriol em alguns buracos.’
‘Eriol também estava passando por momentos difíceis.’ A morena protegeu o rapaz.
‘Sim… Eu sei. A mor…’ Ela reteve-se, não gostava de falar “morte de Syaoran”. ‘Quando aconteceu aquilo tudo, foi muito difícil para ele também.’
A morena confirmou com a cabeça. ‘Foi difícil para todos nós.’
‘Mas a culpa foi parcialmente dele.’ Sakura falou num rompante.
‘Não foi! Foi de Clow!’
‘Está defendendo o Eriol, Tomoyo?’ Sakura perguntou para a prima e inclinou o corpo a frente, reparando nas reações da morena.
‘Não é isso. Estou tentando ser imparcial.’
‘Sei…’ Sakura murmurou, observando-a. ‘Enfim… Tenho que agradecer a Kurogane também.’
‘Você precisa ficar atenta também a Yanamoto.’ Tomoyo a alertou. ‘Lembre-se do que aquele rapaz no aeroporto falou.’
‘Sim… Mas estou com sorte, não o encontrei nenhuma vez desde que voltei.’
‘Melhor.’ A morena falou e Sakura concordou
Tomoyo olhou para o relógio para verificar a hora. ‘Tenho aula daqui a pouco. Puxei algumas matérias do curso de moda.’
Sakura sorriu. ‘Você sempre levou jeito para isso.’ A ruiva também constatou que teria aula em alguns minutos. Passaria primeiro na biblioteca para pegar um livro que o professor Sasaki tinha sugerido para ajudá-la a finalmente passar em anatomia.
As duas já estavam se encaminhando quando encontraram Chiharu e Rika que conversavam animadamente. As duas estavam fazendo faculdade de Pedagogia.
‘Olá!’ Elas cumprimentaram Sakura e Tomoyo.
‘Olá!’ Sakura respondeu feliz em rever as amigas. Tomoyo também as cumprimentou.
‘Que bom que voltou para a faculdade, Sakura.’ Rika comentou, observando a amiga.
Sakura desviou os olhos da amiga, um pouco encabulada. ‘Eu estive um pouco mal nos últimos meses.’ Voltou a fitá-la, abrindo um sorriso. ‘Mas estou bem agora.’
Chiharu sorriu para ela. ‘Sim. Você está bem mais animada. Estávamos preocupadas com você.’
‘Obrigada pela preocupação.’ Ela agradeceu sinceramente.
‘Estávamos sentindo falta da nossa melhor líder de torcida.’ Rika comentou animada.
‘Ah! Mas agora a Sakura está de volta e voltará a encantar a todos com sua graça.’ Tomoyo falou com os olhinhos, brilhando.
Sakura coçou a cabeça envergonhada. ‘Não é para tanto, Tomoyo.’
‘Logo eu serei a responsável pelos uniformes das cheerleaders! Você ficará linda!’ A morena completou.
Chirahu e Rika sorriram.
Sakura sentiu, de repente, uma forte energia explodindo sem saber exatamente de onde vinha e, logo em seguida, o chão aos seus pés começou tremer. Viu os móveis do imenso ambiente balançarem e os estudantes sacudirem de um lado para o outro. As luzes começaram a explodir, fazendo quase todos gritarem em pânico. Ela viu as amigas se abaixarem cobrindo os rostos. Algumas pessoas foram para debaixo das mesas na tentativa de se protegerem. Bandejas, pratos, copos, talheres, tudo estava caindo no chão, fazendo um barulho ensurdecedor assim como os gritos apavorados e pedidos de ajuda.
Sakura manteve-se parada. Era a única a continuar ainda de pé. Rodou o corpo, tentando identificar de onde vinha aquela energia toda. Não era um terremoto normal. Não era algo natural. Ela tinha certeza. Sentiu quando Tomoyo segurou suas pernas, choramingando assustada. Abaixou-se, protegendo a amiga e olhando em volta. Estava pronta para puxar seu pingente e usar sua magia quando o tremor parou de súbito.
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Syaoran estava assistindo a aula de Resistência dos Materiais. Estava um pouco entediado e um pouco frustrado. Teria que esperar até iniciar o próximo semestre para se inscrever corretamente na disciplina, mas tinha convencido o professor a deixá-lo assistir às aulas como ouvinte e fazer as provas. Se ficasse em casa esperando até o início do semestre para voltar a estudar, enlouqueceria.
Pensou em começar a trabalhar em alguma coisa, mas seus documentos ainda estavam em uma situação delicada. Não queria chamar atenção. Sua mãe estava já cuidando desses detalhes de forma sorrateira. Ela sempre teve mais diplomacia que ele para estas coisas. Por ele, invadiriam os lugares e sumiriam com a papelada do óbito dele, mas ele sabia que as coisas não poderiam ser assim.
Suspirou, voltando a rascunhar algumas anotações no caderno enquanto o professor falava sem parar rabiscando o quadro. Ainda bem que não era muito popular, então poucos realmente levaram um susto quando o viram. Ninguém sabia direito o que tinha acontecido a ele e a mais alguns outros alunos.
Ainda tinha o senhor Amizuki no encalço dele. O velho delegado já tinha batido na sua porta, tentando conversar sobre o que acontecera naquela época. Syaoran fora evasivo nas respostas. O Delegado não era burro, sabia que tinha alguma coisa diferente nele e na namorada, mas não tinha como provar. Além disso, era difícil de acreditar na verdade. Por fim, o velho decidiu deixar as coisas como estavam e ofereceu ajuda caso precisasse. Não era burro de negar uma ajuda daquelas. Agradeceu.
Olhou para a janela onde o sol brilhava em Tomoeda de forma maravilhosa. O céu estava azul com algumas poucas nuvens brancas. Bem diferente do céu vermelho em chamas do mundo das trevas. Desviou os olhos da janela e fitou as próprias mãos. Elas estavam envolvidas pela aura púrpura. Franziu a testa. Sabia que alguma coisa tinha mudado dentro dele, só não sabia direito até onde aquele tempo interminável no inferno o tinha afetado.
Começou a bater o lápis de forma frenética nas mãos. Sakura não havia mais comentado com ele sobre isso. Fazia isso de propósito. Para ela também estava sendo difícil. O bom é que não tinha visto mais nenhuma mancha na aura da namorada. Ela tinha voltado a ser rosa e, por vezes, multicolorida. Linda. Linda como a própria feiticeira. Era bom sentir a aura dela invadindo o corpo dele, principalmente quando se amavam. Era bom demais. Quase viciante. Sorriu de lado, lembrando da noite passada. Praticamente não dormiram.
Teriam que maneirar, mas era bom demais estar com ela nos braços, sentir-se dentro dela. Suspirou e percebeu que tinha, literalmente, desconectado da aula. Balançou a cabeça de leve, precisava se concentrar, mas não conseguia. Começou a se irritar. Aquilo era perda de tempo, o professor falava com uma voz constante, não tinha como prestar atenção a uma matéria tão chata quanto aquela. Trincou os dentes, tinha que se esforçar. Batia o lápis na mesa mais rápido e de forma frenética. Por fim, quebrou o lápis que tinha nas mãos, chamando a atenção do colega do lado que o fitou com o rosto assustado. Tentou sorrir e esconder o lápis quebrado.
‘Também estou com vontade de quebrar o pescoço dele.’ O colega falou, sorrindo para ele. Syaoran concordou. Desviou os olhos do colega e tentou achar uma caneta para continuar as anotações. Tinha vontade de simplesmente sair daquela sala e correr pelo campus. Sentia-se imensamente irritado de estar ali. Como se estivesse preso àquela cadeira. Estava irritado. Muito irritado.
Olhou para as mãos e as viu brilhando novamente de forma mais forte. Droga. O que estaria acontecendo? Olhou para a janela novamente e viu o céu antes azul completamente vermelho, como o das trevas. Arregalou os olhos.
Levantou-se não se importando de chamar atenção e olhando atordoado para os alunos que ainda prestavam atenção ao que o professor explicava.
‘Senhor Li, tem alguma dúvida?’ O professor parou sua explicação e fitou o rapaz que estava em pé na sala.
Li abriu a boca para falar quando sentiu o chão sob seus pés começar a tremer. As mesas estudantis começaram a chacoalhar assim como os estudantes, em pânico, começaram a gritar e a se esconder debaixo delas. As luzes explodiram e podia ouvir a estrutura do prédio estalar, tentando aguentar o tremor da terra. As janelas quebraram não aguentando a torção das paredes. Li ainda estava em pé, olhando assustado para tudo. Podia sentir a própria aura explodindo, mas também conseguia perceber alguma outra coisa. Aquele tremor não era um simples terremoto como os que normalmente aconteciam no Japão. Tinha algo mais.
‘Parece manifestação de Terra.’ Sussurrou estranhando. ‘Só que mais violenta.’ Com dificuldade, caminhou até a janela com os vidros quebrados e olhou para fora. Sentiu quando seguraram seu braço.
‘Tá maluco, Li! Sai de perto da janela!’ Um colega o alertou, puxando-o.
‘Eu tô legal!’ Falou, puxando o braço e olhando para o rapaz que desviou os olhos dele e voltou a se encolher debaixo da mesa estudantil. Precisava ficar calmo… Precisava identificar de onde vinha a outra presença. Fechou os olhos, tentando se manter em pé com o chacoalhar do chão e controlando a respiração. Sentiu que sua aura diminuiu e franziu a testa reparando que o tremor de terra também havia parado.
Abriu os olhos devagar. Tudo estava calmo. Um silêncio fora do normal. Olhou para os lados, dando uma volta em torno do corpo e viu os estudantes aos poucos se levantarem do chão. Ainda estavam assustados.
‘Nossa… Este foi forte mesmo.’ Ouviu um colega comentar, ajudando uma das estudantes se levantar do chão. ‘Há muito tempo não sentimos um tão forte assim em Tomoeda.’
Ouviu outros comentários a respeito do tremor e do porquê os especialistas não alertarem a todos. Nem as sirenes chegaram a ser acionadas.
‘Sakura.’ O nome da namorada saiu de seus lábios.
Precisava saber se ela estava bem. Caminhou para fora da sala de aula e viu o corredor escuro pela falta de energia. Concentrou-se e logo encontrou a presença da namorada. Pela distância devia estar no refeitório ou perto dele.
Começou a correr em direção de onde ela estava, desviando dos alunos e de alguns móveis que estavam caídos. Desceu as escadas pulando os degraus. Algumas pessoas ainda estavam paradas, tentando se recuperar do grande susto. Ele parecia ser o único a se movimentar rápido entre as pessoas. Algumas vezes foi obrigado a, literalmente, pular os lances inteiros das escadas devido a quantidade de pessoas paradas atrapalhando o seu caminho.
Chegou ao pátio e olhou para cima. O céu voltara a ser azul com poucas nuvens. O sol brilhava de forma intensa. Olhou para o complexo de prédios da universidade e reparou que tudo parecia normal. Franziu a testa e voltou a correr em direção à presença de Sakura, pulando com agilidade alguns pequenos obstáculos.
Parou, observando a jovem feiticeira sair com Tomoyo do prédio do refeitório. Ela levantou o rosto e fitaram-se por alguns segundos. Ela estava preocupada assim como ele. Sabiam que aquele tremor não tinha sido algo natural. Sakura abriu um sorriso para ele, estava aliviada de vê-lo bem. Ele tentou sorrir, mas estava preocupado demais para isso.
Continua.
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