FEITICEIROS
58 Acerto de Contas
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FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 58
Acerto de Contas
Syaoran passou a mão pelo rosto, sentindo a barba por fazer, e logo depois pelos cabelos, bagunçando-os mais ainda. Ainda estava irritado e tenso com o que tinha acontecido com sua família. Sakura recusou-se a ir para o hospital. Queria apenas ir para casa e descansar.
Kero havia quase enlouquecido quando eles chegaram em casa machucados, aproveitando que não precisava mais se fazer de boneco na frente de Kasumi ficou voando de um lado para o outro perguntando o que tinha acontecido, mas todos estavam cansados demais para explicar tudo ao guardião solar. Ele acabou recorrendo às Cartas que, pelo jeito, também estavam de mau humor e má vontade para explicar qualquer coisa a ele. Todas estavam em formas de lâminas, quietinhas dentro do livro.
Kero ainda tentou convencer Doces e até mesmo Bolhas a lhe contar o que tinha acontecido, mas as duas lhe disseram o mesmo que as outras: quando entendessem, explicariam, mas, por ora, tinham a obrigação de pouparem suas energias para protegerem seus mestres em ataques futuros. As Cartas tinham, entre elas, algumas regras e acordos sutis.
Syaoran já tinha percebido que, agora que podiam agir de forma mais independente, sem estarem completamente apoiadas na magia de Sakura, na dele ou mesmo na de Shaolin ou Kazuo, uma cedia energia para a outra. Então, embora Bolhas e Doces não fossem Cartas combativas, emprestavam a própria energia para as outras de forma que, mesmo indiretamente, todas contribuíssem para ajudar e proteger seus mestres.
No final, Kero simplesmente deitou por cima do livro onde as Cartas estavam descansando e dormiu. Ele, ultimamente, andava fazendo muito isso: adorava dormir em cima do livro, como que ajudando a energizar as Cartas. Syaoran, algumas vezes, perguntava-se se o tempo em que ele esteve lacrado junto delas fora tão ruim quanto ele adorava melodramatizar.
Assim que Sakura chegou a casa, sentou-se no sofá, ainda se fazendo de forte, como se pudesse perder alguma decisão da família caso decidisse dormir no quarto. Embora não houvesse nem sinal da presença da mãe dele ainda, ele conhecia a esposa e sabia que ela estava com receio que Yelan aparecesse e resolvesse levar tanto Shaolin quanto Kazuo para a China. Ele não podia negar que também estava receoso, pois não sabia se Yelan viria sozinha ou acompanhada por mais alguém do clã. Mais especificamente, algum ancião babaca.
Ele também conhecia a esposa bem o suficiente para saber que ela apenas se irritaria caso começasse a tratá-la como se fosse frágil “feito uma boneca de porcelana”, mesmo que a dor que ela estava sentindo transparecesse em suas feições com uma clareza assustadora. Para não acabar enlouquecendo, decidiu concentrar suas atenções nos filhos.
Kazuo apenas quis um analgésico, o que ele chamava de “pílulas de felicidade” por não conseguir se lembrar do nome. Syaoran sorriu de lado, pensando que sua última incursão ao Mundo das Trevas teria sido bem menos dolorosa se tivesse levado analgésicos.
O primogênito tinha ainda discutido com Marie que o chamou de frouxo por insistir em tomar o remédio. Ele a mandou cuidar da própria vida e não encher o saco, mas surpreendeu a todos, especialmente Marie, quando foi pegar o analgésico no banheiro e voltou carregando o kit de primeiros-socorros, que entregou para jovem ruiva, mandando-a cuidar do braço machucado. Depois, simplesmente, deu meia-volta e se trancou no banheiro para tomar um banho gelado.
Shaolin, assim que entrou na casa, invadiu o quarto dos pais para tomar banho no banheiro deles, reclamando que o irmão não saía nunca do banheiro que os dois dividiam. Ele havia ficado lá fora, tentando convencer Kasumi a ir para casa, mas a menina era tão teimosa quanto Sakura e o filho acabou desistindo, embora isso apenas o deixasse irritadiço.
Syaoran não falou nada, deixou o caçula tomar banho e esfriar a cabeça. Depois veria como estavam os machucados dele. Shaolin não tinha o mesmo recurso de Kazuo, o que lhe gerava mais preocupação. Realmente tinha alguns cortes e escoriações pelo rosto e corpo.
Sakura até tentou tratar dos ferimentos do filho, mas estava fraca demais e quem acabou fazendo os curativos, tanto de Shaolin como de Marie, foi Kasumi que, novamente, surpreendeu-o, mostrando bastante habilidade e sangue frio para tratar as feridas dos amigos.
Syaoran sorriu ao reparar no rosto vermelho do filho, que estava sem a camiseta para que ela tratasse dos ferimentos em suas costas e abdômen. Shaolin olhava para o chão, evitando olhar diretamente para ela. O pai percebeu a aura do menino agitada de nervosismo e teve uma leve sensação de déjà vu, vendo-os daquele jeito.
O filho tinha brigado com a menina algum tempo atrás porque não a queria envolvida com magia, mas Syaoran percebia que, na verdade, Shaolin era quem realmente resistia em envolver-se com magia e não Kasumi.
Syaoran estava preocupado com as últimas revelações de Retorno. Se Kasumi era e sempre foi humana, por que sentiam aquela oscilação de energia provinda das trevas? E por que estava bloqueada? Apenas seres das trevas ou que foram demônios em suas primeiras encarnações a possuíam, como era o caso de Kazuo e Marie, respectivamente. Kasumi não se encaixava em nenhum dos casos. Ele e Sakura acharam, por bem, manter isso ainda em segredo do filho.
Shaolin também não negava o DNA da família, tendo ficado enciumado quando a menina perguntou para Kazuo como ele estava e se não precisava cuidar dos machucados.
Kazuo realmente havia ficado bem machucado depois da luta, mas, depois de tomar o analgésico e ficar quase uma hora embaixo do chuveiro, estava como que novo em folha. Além disso, o rapaz já estava compreendendo melhor a situação e, embora Syaoran soubesse que ele até gostaria de receber a atenção dela, estava ciente que aquilo complicaria a sua relação com o irmão, então apenas recusou, abrindo um sorriso e informando que não havia com o que ela se preocupar.
Syaoran permaneceu observando os adolescentes interagirem. Se naquela época tivesse a experiência de agora, seria poupado de muito desgaste e sofrimento ao se descobrir apaixonado por Sakura. Esperava que o filho fosse mais rápido em entender o que se passava dentro dele.
Antes de Marie ir embora, levando Kasumi para casa, tinha comentado com ele que alguns rapazes do grupo que os atacaram tinham invocado magia muito semelhante à usada por ele e Shaolin. Isso indicava que os inimigos tiveram treinamento em magia chinesa.
Franziu a testa, pensando que havia reparado nas diversas armas mágicas usadas por eles e na habilidade considerável em luta. Eram habilidades muito semelhantes às que ele próprio tinha aprendido desde criança e aprimorado durante o treinamento. Respirou fundo e soltou o ar devagar, perguntando-se o que aquilo significava.
Olhou para o sofá da sala e sorriu de leve, debruçando-se no batente da janela enquanto observava sua família. Sakura estava dormindo sentada, com os pés cruzados sobre a mesinha de centro. Shaolin estava adormecido com a cabeça deitada no colo dela e Kazuo, que tentara, bravamente, manter-se acordado, foi vencido pelo cansaço e dormiu com a cabeça apoiada no ombro da esposa. Sakura, ao sentir o peso em seu ombro direito, fez carinho no rosto dele, encostando o rosto na cabeça dele.
Estreitou os olhos neles e cerrou os punhos com força. Não permitiria que ninguém lhes fizesse mal. Mesmo nascendo em uma família, em um clã, com milênios de tradição e tudo aquilo que a mãe sempre insistia em repetir… nunca havia se sentido parte de algo tão poderoso e forte como com eles três. Os quatro, as Cartas e até mesmo aquela bola de pelo irritante eram uma família, e ele os protegeria de tudo e de todos, nem que, para isso, fosse obrigado a lutar contra o inferno, o céu e todos os universos.
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Marie e Kasumi caminhavam devagar e em silêncio uma ao lado da outra pelas ruas de Tomoeda.
A jovem ruiva pegou o celular e olhou o display que mostrava inúmeras ligações dos pais e vários avisos de mensagens. Soltou um suspiro, voltando a guardar o aparelho.
‘Não vou nem olhar o meu.’ Ouviu a voz de Kasumi e logo depois um suspiro da menina. ‘Na verdade, acho que esqueci o meu celular dentro da pasta na sala de aula.’ Falou, dando-se conta da ausência do aparelho agora. Bateu as mãos nos bolsos da saia do uniforme escolar e constatou que realmente havia esquecido do aparelho.
‘Posso tentar trazer seu material usando magia…’ Marie comentou, franzindo a testa de leve. ‘Ficou mesmo na escola?’
Kasumi soltou um suspiro. ‘Não precisa se incomodar, Nee-san. Alguém deve ter guardado o meu material quando percebeu que não voltei para a sala.’
Na verdade, ela já tinha até ideia de quem faria isso. Franziu a testa, pensando que ele seria bem capaz de levar o material até a casa dela, revelando que havia cabulado aula junto com Shaolin. Se ele realmente se intrometeu, daria mais dor de cabeça ainda explicar ou inventar alguma desculpa.
O pai de Shimizu-kun trabalhava nas Empresas Daidouji e a residência das duas famílias eram relativamente próximas. O garoto fazia parte do grupo que a acompanhava na ida e volta da escola e Kasumi já tinha percebido que ele estava tentando se aproximar dela usando o trabalho do pai como desculpa. Isso era chato demais. Incômodo demais.
‘Tem certeza?’ Marie insistiu.
Kasumi sorriu de leve. ‘Poupe-se, Nee-san. Gastou muita energia hoje.’
Marie sorriu para ela e balançou a cabeça de leve. ‘Quer que eu entre com você e tente explicar, então?’
Kasumi virou-se para a amiga de deu de ombros. ‘Não tem muito o quê explicar, né? Syaoran-ji-san pediu para não falar nada sobre magia para os meus pais. Disse que seria mais seguro eles não saberem.’ Ela soltou outro suspiro, agora incomodado. ‘É realmente um saco esconder alguma coisa. Não tenho muita criatividade para inventar histórias, mas entendo a situação. Além disso…’ Ela deu uma risadinha. ‘Tousan é mais cético que eu, não acreditaria também. Capaz de achar que comi demais e isso fez mal para minha cabeça.’ Falou tocando de leve o indicador na cabeça e fazendo Marie rir.
‘Não dá para culpá-lo. É difícil de acreditar mesmo.’ A jovem rebateu e olhou para o curativo que a menina lhe fez no braço. ‘Não sabia que você sabia fazer curativos tão bem.’
‘Oras… Quem você acha que cuidava dos machucados de Shaolin quando ele queria esconder de Sakura-ba-san que tínhamos feito travessura?’ Ela falou e encolheu os ombros de leve. ‘Embora ele nunca tenha conseguido enganá-la por muito tempo.’ Soltou rindo-se. ‘Já chegava em casa com cara de culpado.’
Marie sorriu para ela com carinho e passou a mão de leve na cabeça da amiga. Continuaram a caminhar em silêncio pela cidade.
‘Quando Shaolin me contou… Na verdade, quando ele invocou magia na minha frente pela primeira vez…’ Kasumi começou a falar devagar. Franziu a testa de leve. ‘Hum… Pelo menos quando invocou e não escondeu. Também custei a acreditar… Não em magia em si, mas...’ Soltou outro suspiro, deixando morrer a frase.
Marie sentiu a voz dela chateada. ‘Sabe… Agora você sabe mais ou menos o que Shaolin-kun sentia quando não podia falar sobre isso com você. No fundo, ele não queria que você tivesse que mentir para seus pais por causa dele. Ele se importa muito com você e… Também a conhece muito bem. Sabia que você se sentiria mal por ter que mentir.’
Kasumi ficou em silêncio e cerrou os punhos, sentindo-se incomodada e achou melhor colocar as mãos nos bolsos do casaco que tinha pego emprestado da tia. ‘Acho que sim.’
Ela estava chateada com ele. Não por ele ter escondido dela a situação sobre magia. Ela até tinha entendido, na verdade já desconfiava que era algo grande e importante que o unia à prima e era paciente para esperar ele se sentir confiante para contar o que era. O que a deixou magoada mesmo foi ele pedir para ela se afastar da confusão, isto é, afastar-se dele para protegê-la. Ela se machucar ou não por estar ao lado dele, deveria ser uma decisão dela e de mais ninguém. Mas, pelo visto… Shaolin queria resolver as coisas sozinho. Bem… Tentaria fazer o que ele pediu. Por enquanto. Mas só porque ele já estava com problemas demais, não queria ser mais um.
Além disso, sabia que logo o Arcanjo apareceria para lhe contar o que realmente estava acontecendo. Assim como voltar à mesma ladainha de que não deveria usar armas. Soltou um suspiro pesado. No fundo, andava chateada também pelo olhar severo que vinha recebendo dele no lugar do semblante gentil de antes. Não fora culpa dela o que quer que tenha acontecido no dia em que entrou em contato com as Cartas de forma aberta, mas, pelo visto, ele já a fora julgando.
‘Ele gosta muito de você, Kasumi-chan.’ Marie falou, fazendo a menina interromper seus pensamentos. Levou um segundo para entender que Marie falava de Shaolin e sentiu o rosto corar.
‘Fomos criados juntos...’ Ela falou em tom triste.
Marie balançou a cabeça de leve. Voltaram a ficar em silêncio, caminhando uma ao lado da outra. O telefone da ruiva tocou novamente, mas ela não o atendeu.
‘Por que não atende de uma vez?’ Kasumi perguntou por conta do irritante barulho do celular de Marie. ‘Pelo menos seus pais sabem sobre magia. Inclusive foram eles quem a instruíram, não foi?’
Marie franziu a testa olhando para o chão. ‘É complicado.’
Kasumi estalou a língua. ‘Tudo é muito complicado para vocês, né? Nii-san é um demônio e é complicado ele viver entre humanos. Shaolin é feiticeiro e é complicado falar com qualquer um sobre magia. Os tios são... Sei lá… o tal do Pilar e do Guardião e estão numa baita confusão agora por conta disso. É realmente complicado.’
‘Você fala isso porque não sabe de tudo.’ Marie rebateu. ‘E porque é uma pirralha muito metida também.’
Kasumi estreitou os olhos na ruiva. ‘Vocês é que complicam as coisas. Se um problema existe, ele deve ser solucionado. Se uma missão é dada, ela deve ser cumprida. Se ficarem divagando ou hesitando, o alvo escapa, não é eliminado e vocês não completam a missão. Simples assim.’
A jovem arregalou os olhos, assustada com o tom de voz da menina. ‘Do que está falando?’
‘Eu não sou trouxa. Entendi o que aqueles anjos querem. A destruição das setes chaves. O negócio é bem difícil, mas o Shaolin tem que fazer isso porque não é um demônio como nii-san e não tem uma presença como a sua que veio das trevas.’
‘Entende de magia agora é, pirralha?’ Marie ficou incomodada.
Kasumi sorriu para ela de leve. ‘Apenas não sou surda… E não sou boba.’
Marie sorriu e balançou a cabeça de leve. ‘Eu tenho certeza que não é… Quer que eu explique?’
A menina deu de ombros. ‘Não quero que me explique por obrigação, nee-san.’ Kasumi levantou o rosto e olhou para o céu com poucas estrelas.
Marie ficou um tempo calada. Olhou de esguelha para Kasumi ao seu lado e sorriu de leve. Lembrou-se das vezes em que ouviu o primo se queixar de não poder falar com ela sobre magia. E, mais tarde, do receio de que, quando ela soubesse, ela o rejeitaria e ficaria com medo dele, afastando-se e preferindo a companhia apenas de pessoas normais. Balançou a cabeça de leve, o primo era um baka mesmo por ser tão inseguro e achar que a ligação entre ele e Kasumi era tão frágil daquela forma.
‘Eu era um demônio antes de reencarnar. Esta é minha primeira existência como humana.’ Ela falou, de repente.
Kasumi virou-se para ela e ergueu uma sobrancelha. ‘Então é por isso que você se sente tão próxima a nii-san?’
Marie arregalou os olhos. ‘Você está maluca, pirralha?! O que é que eu tenho a ver com aquele baka?!’
A menina deu de ombros. ‘Está na cara que você gosta dele…’
‘O quê?!’ Marie falou com o rosto vermelho, controlando a vontade de fazer Kasumi voar pelos ares pelo desaforo. Pirralha maliciosa! ‘Você está realmente maluca! Eu não tenho nada com aquele… aquele irritante, metido, arrogante, cheio de si…’
‘Tá, tá, tá!’ Kasumi interrompeu-a, balançando as mãos a frente. ‘Mas você não consegue tirar os olhos de nii-san.’
Marie trincou os dentes. ‘E você não tira os olhos de Shaolin-kun!’
Kasumi deu de ombros, olhando para a ruiva com um leve sorriso. ‘Exatamente.’
Marie ficou mais vermelha que um tomate maduro e desviou o olhar, evitando encará-la. Havia entendido exatamente o que ela quis dizer com aquela colocação e a irritava não conseguir pensar em algo para responder.
Estavam próximas à casa dos Kurogane quando Marie começou a sentir a presença do pai se aproximando. Soltou um longo suspiro, encolhendo os ombros. ‘Otousan está vindo.’
‘Melhor ter uma conversa com ele de forma aberta, Nee-san. Se realmente vai ajudar Shaolin e nii-san, ele precisa saber.’
‘Eu e otousan estamos com problemas.’ Ela admitiu, chateada.
‘Por causa do que se lembrou da sua encarnação passada, né?’ Ela perguntou e viu a jovem assentir com a cabeça. ‘Já parou para pensar que esse seja o motivo de serem pai e filha agora?’
‘Como assim?’ Marie perguntou, franzindo a testa.
‘As reencarnações são chances para acertar os erros das existências passadas, não são?’ Falou suavemente, chutando distraidamente uma pedrinha e vendo-a rolar pela calçada até parar alguns metros à frente. ‘São chances de reencontrar pessoas… Viver coisas que foram impossíveis antes… Perdoar. Aprender. São novas chances, novas oportunidades...’
Marie observou a amiga, sentindo um sorriso se desenhar em seus lábios. ‘Você… Você realmente é uma caixinha de surpresas como Shaolin-kun sempre fala.’
Kasumi balançou o corpo de leve. ‘Talvez eu apenas veja as coisas de forma mais simples que vocês…’
Pararam em frente a casa dos Kurogane. ‘Obrigada por ter me acompanhado até aqui.’
‘Não quer mesmo que eu entre e fale com seus pais?’
Ela negou com a cabeça. ‘Não precisa. Eu sei como me acertar com eles. Espero que você também saiba se acertar com o seu pai.’ Kasumi deu um passo à frente e abraçou Marie pela cintura. ‘Cuide de Shaolin, Nee-san, por favor.’
A ruiva sorriu de leve e abraçou a menina com carinho. ‘Pode deixar que eu vou ficar de olho no seu namoradinho, está bem?’
Kasumi não retrucou, sabia que ela a estava provocando para fugir do assunto sobre o pai.
‘Cuide-se também. Principalmente cuide do seu coração. Ele está muito confuso.’ Falou, afastando-se e abrindo portão do quintal de sua casa. Virou-se para ela, acenando. ‘Boa noite, nee-san.’
Marie piscou algumas vezes, observando a menina cruzar o quintal da casa dela até a porta principal da residência. Franziu de leve a testa. Kasumi tinha razão em uma coisa, ela não conseguia encarar nada do que sentia de forma simples. Sorriu de leve. A pirralha, com aquela calma e simplicidade, conseguiria sair de forma tranquila da situação com os pais.
Kasumi era esperta. Sabia que o pai, apesar de bravo, não faria nada contra ela e que a mãe, com certeza, ligaria para a tia para averiguar qualquer história que contasse. Então, provavelmente, entraria em casa falando que estava cansada ou indisposta e se trancaria no quarto. Resolveria o problema ao evitar falar sobre o assunto. Simples e eficiente. Como tudo que Kasumi faz.
Soltou um suspiro e começou a caminhar em direção ao pai. Talvez a pirralha também tivesse razão sobre ela complicar tudo, mas aquela era a sua primeira existência como humana. Era para ser tudo complicado, mesmo… ou não?
Se não tivesse suas lembranças de volta, provavelmente nem pensaria nisso. E, verdade seja dita, até começar a recuperá-las, era feliz com sua família e não tinha dúvidas do que sentia pelo seu pai. Não teria dúvidas do que sentia em seu coração.
Levou a mão ao peito, sentindo, de forma fraquinha, a presença da Carta do Coração Alado que havia ganhado de seus mestres. Sorriu de leve. Esperava conseguir usá-la quando, finalmente, encontrasse a sua “pessoa mais importante”.
Franziu a testa de leve e trincou os dentes ao lembrar do comentário malicioso da pirralha sobre aquele baka! Ela devia ter dado um cascudo em Kasumi. Onde já se viu? Falar uma coisa daquelas para ela… Absolutamente nada a ver!
Soltou um suspiro e balançou a cabeça de leve. Estava sentindo a presença do pai mais próxima e logo conseguiu avistá-lo. A aura dele estava agitada, estava nervoso e preocupado. Assim que estava perto o suficiente, viu que ele estava com o rosto tenso.
Pararam um a frente do outro até que o homem a envolveu em seus braços e a abraçou forte.
‘Fiquei preocupado com você, Marie.’ Ele falou, ainda não a soltando de seus braços. ‘Senti diversas presenças hostis e a sua aura se expandiu.’
‘Está tudo bem comigo, tousan.’ Ela falou com o rosto contra o peito dele. Levantou os braços e o abraçou pela cintura.
Ficaram em silêncio por um tempo, apenas abraçados, até Eriol beijar a cabeça da filha e a afastar, para que pudesse contemplar o rosto que tanto amava.
‘O que aconteceu?’ Ele perguntou. ‘Eu estava a caminho de Tókio quando tudo aconteceu. Voltei o mais rápido que pude. E todas aquelas presenças… De quem eram? Elas desapareceram de repente.’
Marie soltou um longo suspiro. ‘A gente não sabe direito quem eram, mas…’ Ela reteve-se e desviou os olhos do pai.
‘Mas…’ Ele repetiu, encorajando-a a continuar.
Ela voltou a fitá-lo. ‘Tousan… Shaolin-kun vai precisar da minha ajuda. Assim com os meus mes…’ Ela reteve-se, novamente, vendo o semblante de Eriol tornar-se mais sério. ‘Assim como os tios precisaram de mim antes.’
‘Como Khala’a?’ Ele perguntou devagar, franzindo a testa.
Ela sentiu que as mãos dele em seus braços apertaram-na com mais firmeza e acenou que sim com a cabeça.
Ele engoliu em seco. ‘Você não é ela. Você é humana, Marie. Se você se cortar, sangra. Se você se machucar, dói. Você não é mais ela… nunca mais.’ Falou devagar, tentando controlar a voz.
‘Tousan…’ Ela falou com um fio de voz. ‘Eu tenho que fazer isso… foi uma das condições para eu renascer.’
Eriol fechou os olhos e balançou a cabeça de leve. ‘Eu vou no seu lugar, então.’
Ela arregalou os olhos de leve e fitou-o. ‘O senhor não pode!’ A voz dela realmente era preocupada. ‘Shaolin-kun precisa recuperar umas chaves que estão espalhadas pelo mundo. Os caras que atacaram Sakura-ba-san hoje não são tão fracos e sabemos que eles são só a ponta do iceberg.’
‘Eu sei quem é o inimigo.’ Ele falou. ‘Reconheceria aquela presença nojenta em qualquer lugar do mundo. Ele não é forte.’
‘Você sabe?’ Ela perguntou, erguendo um pouco as sobrancelhas. ‘Mas quem é então?’
‘Balthazar Smith. Ele é um feiticeiro que fazia parte do Círculo.’ Eriol trincou os dentes. ‘Eu sabia que ele estava aprontando, principalmente quando resolveu se afastar do Círculo. Ele e outros.’
Marie franziu a testa. ‘O velho mijão…’ Ela falou. Voltou-se para o pai. ‘Mas ele não está sozinho, ele tem quase um exército com ele agora. Com energias mágicas consideráveis.’ Ela esclareceu. ‘E eu sei que isso é só o começo. Eu preciso fazer isso.’
Eriol encarou a filha por um longo tempo em silêncio. ‘Eu não posso permitir, Marie. Você é minha filha. Você só tem 16 anos, não tem como eu aceitar você se envolver nessa loucura toda sabendo quem são os ratos que estão nela.’
Marie afastou-se de Eriol e o encarou. ‘Não pode me proibir. Eu dei minha palavra.’
‘Sem me consultar primeiro?’ Ele falou com o rosto sério. ‘Eu sou seu responsável.’
Ela cerrou os punhos. ‘Eu não preciso consultá-lo para cumprir minha missão.’ Ela o fitou de forma dura. ‘Eu vou de qualquer maneira. Preciso estar ao lado de Shaolin-kun e de Kazuo-san.’
‘Os dois vão saber se proteger sem você.’ Ele rebateu.
Marie franziu a testa. ‘Você sabe que eles não podem sozinhos. Eles precisam de mim.’
‘Que parte de “você só tem 16 anos” você não entendeu?!’ Eriol repetiu com o tom de voz um tom mais alto.
‘Os mestres tinham 10 anos quando nos caçavam pela cidade.’ Ela rebateu, aumentando o tom de voz.
‘Eles não são mais seus mestres!’ Eriol quase gritou. ‘Você!’ Falou, apontando para ela. ‘Não é mais uma Carta!’
Marie calou-se, observando o pai. Sabia que ele estava nervoso, mas que se dane. Ela tinha que fazer isso, tinha que proteger Shaolin e Kazuo. Era seu dever e, principalmente, era o que queria fazer. Queria estar ao lado deles.
‘Eles são minha família.’ Ela respondeu.
‘Quem é sua família, Marie?’ Ele perguntou, franzindo a testa. ‘Eu e sua mãe somos sua família. As Cartas não são sua família, eram apenas parte do seu grupo antes de se tornarem cartas…’
‘Antes de sermos aprisionadas em cartas.’ Ela o corrigiu e viu o rosto do pai ficar ainda mais sério.
Eriol deu um longo suspiro. ‘Elas não são sua família.’
‘Shaolin-kun e Kazuo-san são meus primos. Preciso ajudá-los.’ Ela falou, tentando manter a calma, mas sentiu que sua aura mágica tinha aumentado.
‘Sakura-san e eu não somos realmente parentes! Você sabe disso. Foi uma manobra para que eu e ela nos mantivéssemos em contato, nem que fosse de forma frágil, nesta existência.’ Ele respondeu.
‘Mesmo assim… Convivi com Shaolin-kun desde os meus 10 anos. Ele é meu primo. Eu me importo com ele... e também me importo com Kazuo-san, um pouco…’
‘Kazuo-san é um demônio!’ Eriol gritou, finalmente, perdendo a calma. ‘Filho de Li-san com um demônio feminino. Não sabemos nem quais são as verdadeiras intenções dele para estar aqui neste universo.’
‘Eu já falei que fui eu quem o trouxe!’ Ela agora gritava também. ‘E o senhor se esqueceu que eu!’ Bateu no próprio peito. ‘Também sou um?’
‘Foi!’ Ele consertou rapidamente. ‘Você foi um!’
Ela fechou os olhos com força, tentando controlar desesperadamente a explosão da sua aura. ‘O senhor não prestou atenção no que obasan disse? Demônios não são, essencialmente, maus… Não prestou atenção?’
Ele engoliu em seco. Tinha prestado, sim, atenção ao que ela tinha dito. Tinha já divagado muito a respeito disto, mas era mais fácil quando a questão dos demônios ficava restrita à vida de Sakura. Marie era o que mais amava no mundo. Não queria que ela corresse perigo, não queria que ela estivesse envolvida com nada daquilo.
Marie era sua pequena, parecia tão frágil que não conseguia e não queria reconhecer aquele poder absurdo que ela possuía. Para ele, ela sempre seria aquela menina que o chamava para contar uma história antes de dormir. Ou, ainda, que o chamava com medo de seus pesadelos durante a noite.
Eriol balançou a cabeça. ‘Eu não posso aceitar.’ Ele falou, observando a filha. ‘Você não vai se colocar em risco desta maneira.’
Ela engoliu em seco e sentiu o seu peito doer. ‘Eu vou fazer isso, independente de você aceitar ou não.’ Foi firme. ‘O risco… quem deve medir sou eu e não você. Você não sabe da minha capacidade. Você tem medo de enxergá-la.’ Disse, começando a caminhar e se afastando do pai.
‘A conversa ainda não acabou.’ Ele falou. ‘Volte aqui, Marie.’
‘Não há mais nada a ser conversado. Tudo já foi decido.’ Ela voltou-se para ele, fitando-o. ‘E, como okaasan sempre fala: “não existem coincidências, apenas o inevitável”. Eu não sei por que eu trouxe Kazuo-san do mundo das trevas. Eu não sei o que realmente está por trás disso tudo, mas eu sei que, o que está acontecendo… nem eu nem o senhor, poderemos impedir.’
‘O que quer que esteja acontecendo, não é responsabilidade sua!’ Ele ainda falou.
Ela desviou os olhos dele. ‘Eu… eu tenho uma dívida com a mes… com Sakura-ba-san.’ Ela falou e voltou-se para ele. ‘Não posso deixar Shaolin-kun se ferir. E isso, otousan, já estava definido antes de eu nascer.’ Disse, voltando a se afastar do pai.
Ouviu-o soltar alguns palavrões pela primeira vez na vida e encolheu os ombros. Sabia que estava agindo certo, mas, apesar da mágoa enorme que tinha de Clow, discutir com o pai ainda lhe era dolorido demais.
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Sakura caminhava devagar pela casa, sentia-se ansiosa, nervosa. Há muito tempo não tinha aquela sensação de perigo iminente à flor da pele. Da última vez em que sentiu isso foi quando Syaoran estava para voltar ao Mundo das trevas e ela não podia fazer nada para impedir. Agora sentia como se o filho estivesse pronto para enfrentar algo parecido. E ele era ainda tão jovem. Tão novinho.
Sentou na cama e apoiou os cotovelos no joelho e a cabeça nas mãos. ‘Inferno.’ Soltou.
Estava sentindo a presença de Yelan se aproximando e isso significava que ela estaria trazendo o Rashinban para Shaolin ir atrás daquelas malditas chaves.
Soltou um suspiro, antes ela e Syaoran tinham que ir atrás das Cartas. Agora o filho tinha que ir atrás de chaves. Não queria encontrar-se com Yelan. O último encontro das duas, mais de cinco anos atrás, fora tenso demais.
Sentia a presença de Syaoran também agitada. Ele nunca mais havia falado com a mãe depois daquele encontro. Perguntava por ela através de Hyo Ling e Meilyn, mas não tentou uma reaproximação. Sakura sentia-se culpada por isso, também. Sabia o quanto fora sofrido para Syaoran simplesmente romper todas as relações com a família.
Ele sempre deixou claro que não se arrependia das escolhas que tomou, mas ela sabia que arrependimento não era a mesma coisa que esquecimento. Ele sentia por demais este afastamento da mãe, das irmãs e dos sobrinhos. Sendo assim, era óbvio que estava nervoso com a proximidade da presença de Yelan.
Ela abriu os olhos e levantou-se. Respirou fundo e pensou que não adiantava nada ficar naquele estado de nervos. Não resolveria os problemas. Precisava ser prática. Caminhou decidida, pronta para descer e falar com o filho e Kazuo, quando novamente sentiu aquela maldita dor no peito que parecia esmagar seu coração. Que inferno!
Syaoran entrou correndo no quarto e a amparou. Havia sentido a energia dela caindo de forma vertiginosa novamente. ‘Vai ficar tudo bem, minha flor.’ Ele falou, abraçando-a apertado contra o peito.
‘Que inferno, Syaoran! Parece que nunca vamos viver em paz…’ Falou, agarrando-se a ele.
‘Fique calma. Vamos resolver isso.’ Ele falou e sentiu quando ela acenou com a cabeça.
Ela respirou fundo e tentou se afastar dele. ‘Eu vou ficar bem.’
Syaoran percebeu que ela ainda estava sentindo dor. Franziu a testa reparando que a aura dela, quando expandida, tinha pequenas manchas negras e opacas às quais a energia multicolorida empurrava, afastando de seu corpo.
Sakura levantou o rosto para ele e sorriu de leve. ‘Eu vou ficar bem.’ Repetiu. ‘Porque você está ao meu lado.’
Ele forçou um sorriso e se aproximou, abraçando-a novamente. Sentiu quando sua aura e a dela se fundiram. ‘E vou sempre estar.’
‘Eu sei disso.’ Disse, levantando o rosto e logo sentiu quando Syaoran encostou seus lábios nos dela, beijando-a de leve. Contemplaram-se de forma profunda antes dela apoiar novamente a cabeça no peito dele, fechando os olhos e soltando um suspiro dolorido.
Syaoran franziu a testa. Quando as auras se misturavam, conseguia sentir parte da dor que a esposa estava sentindo. Passou a mão nos cabelos sedosos dela e abriu os olhos, vendo o filho na porta do quarto observando-os.
Shaolin estava tenso. Ele estava pálido e tão assustado quanto depois do pesadelo que o acordou aos gritos alguns dias antes.
Reparou que a presença da mãe estava bem próxima e que, logo, ela chegaria. Soltou um longo suspiro e apertou a esposa entre seus braços, beijando a cabeça dela.
‘Sua mãe está chegando.’ Sakura sussurrou.
‘Eu sei.’ Ele falou. Reparou que Shaolin se afastou da porta. Esperava que o filho não estivesse se sentindo responsável por salvar Sakura do que estava acontecendo. Trincou os dentes.
‘Melhor estarmos ao lado de Shaolin.’ Sakura falou, afastando-se do esposo. Sentia ainda aquela sensação ruim, mas tinha que tentar superá-la. ‘Vamos.’ Falou, caminhando em direção a saída do quarto, segurando-o pela mão.
Syaoran reparou que ela se segurou ao batente da porta, travando uma luta contínua contra aquela influência externa em sua aura mágica. Passou o braço em volta da cintura dela, acompanhando-a até o andar de baixo.
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Shaolin desceu as escadas e encontrou Kazuo na cozinha, conversando com Kero. O guardião solar estava nervoso, o que lhe rendia uma ótima desculpa para comer sem parar. Ele sentia-se ainda mais desesperado porque, quando pediu ajuda de Doces para se acalmar, a Carta disse que estava se poupando e que não lhe daria doce algum, fazendo o bichano literalmente atacar a geladeira sem dó nem piedade.
‘Você é muito guloso.’ Kazuo falou para ele, olhando-o de forma recriminatória enquanto comia um pedaço do bolo que tinha conseguido pegar para si.
‘Preciso manter minha energia elevada.’ Kero tentou explicar. ‘Se eu não como, fico fraco.’
‘Sei…’ Kazuo falou antes de colocar um pedaço de bolo na boca.
‘O que você sabe, kozou?!’ Kero perguntou bravo. ‘Detesto este seu olhar petulante para mim.’
Kazuo rodou os olhos. ‘Eu só estou olhando o quanto você é olho-grande. Um dia é capaz de explodir.’
Kero colocou praticamente a fatia inteira de bolo na boca e se sentou com as mãos na barriga. ‘Já falei que preciso manter minha energia elevada.’
Shaolin se aproximou da mesa e viu o prato de bolo vazio. ‘Você comeu tudo sozinho?’ O garoto perguntou, olhando para Kero.
‘Este seu irmão quem comeu.’ Kero rebateu.
‘Eu só peguei um pedaço, seu bicho mentiroso.’ Kazuo falou, espetando de leve o garfo na barrigona de Kero.
‘Kozou...’ Kero falou e caiu para trás com a barriga enorme para cima. ‘Acho que comi demais mesmo. Agora tenho energia suficiente até a Sakura assar o próximo bolo.’
Shaolin se serviu com um copo de suco e sentou à mesa ao lado do irmão, olhando para Kero. ‘Ele já está pensando no próximo bolo? Um dia vai explodir.’
‘Já falei para ele sobre isso.’ Kazuo pegou uma garfada e olhou para Shaolin, sentindo-se desconfortável. Talvez devesse ter separado uma fatia para o irmão também. ‘Quer um pedaço?’
Shaolin abriu um sorriso de leve e balançou a cabeça, negando. ‘Como está seu ferimento?’
‘Estou novo em folha.’ Ele falou, sorrindo de lado.
Kazuo soltou um suspiro e olhou de esguelha para o irmão que sorria enquanto tocava a ponta do dedo na barriga de Kero que, de tão pesado, não conseguia levantar voo para se afastar da implicância do garoto. ‘E você?’ Perguntou. ‘Você tem se machucado muito, não?’
‘São só arranhões.’ Ele respondeu.
O rapaz pigarreou. ‘Sua mandala mudou.’ Ele falou. ‘E eu reparei que parou de hesitar tanto.’
‘As Cartas me ajudaram.’ Ele respondeu, ainda com a atenção em Kero, que virou para o lado tentando afastar o seu dedo para dormir. Shaolin riu e pegou o bichano para levá-lo até seu quarto-gaveta.
‘Só que elas não vão estar sempre ao seu lado, Shaolin.’ Kazuo falou em tom preocupado. ‘Você… você não pode hesitar tanto. Aqueles caras não estavam de brincadeira como aquelas coisas que a Marie cria. Eles vão atacar você de verdade. Machucar você de verdade.’
Shaolin voltou-se para o irmão com Kero dormindo nos braços e sorriu para ele. ‘Vai, no final, dar tudo certo, Kazuo. Eu vou conseguir as tais chaves com a sua ajuda e da Marie.’
Kazuo sorriu para ele e concordou com a cabeça.
O garoto voltou-se para trás e franziu a testa. Viu a mãe e o pai descendo as escadas com os rostos tensos. Voltou-se para Kazuo. ‘Acho que logo você vai conhecer a obaasama. Ela já está chegando.’
Kazuo se levantou. ‘Então é dela esta energia que está se aproximando?’
Shaolin concordou com a cabeça. ‘Sim. Não mudou muito desde que eu a encontrei anos atrás.’ O garoto encolheu os ombros. ‘Vou deixar Kero com as Cartas. Ele anda muito próximo a elas ultimamente.’ Avisou antes de se afastar do irmão que se encaminhou devagar até a sala.
A campainha tocou e ele reparou que Sakura e o pai se entreolharam, até ele dar um beijo na testa da esposa e caminhar em direção à porta. Passou por Kazuo e bateu de leve no ombro do rapaz.
‘Vai conhecer sua avó, filho.’ Falou, abrindo um sorriso triste.
O rapaz franziu a testa de leve, reparando nisso. Virou-se para Sakura, que estava com o rosto também entristecido, acompanhando o pai com os olhos. Será que ela estava se sentindo bem? Tinha reparado na instabilidade da aura dela alguns minutos atrás. Caminhou até ela e parou ao seu lado.
Sakura voltou-se para ele e tentou sorrir. Foi bem frustrada a sua tentativa de disfarçar aquela tensão com a chegada da tal “avó”.
Syaoran abriu a porta e encarou a mãe. O rosto dela era sério, como sempre. Não falaram nada um para o outro, ele desviou o corpo, dando espaço para que ela entrasse na casa.
Kazuo reparou que ela parou à frente do pai e colocou a mão no ombro dele, sem falar nada. Depois caminhou devagar, entrando na casa e parando no centro da sala, olhando para Sakura e depois para Kazuo. Ela estreitou os olhos no rapaz que pigarreou, incomodado.
‘Sua presença, rapaz…’ Ela começou a falar, franzindo a testa de leve. Voltou-se para o filho que estava parado logo atrás dela.
‘Este é Kazuo. É meu filho também.’ Ele falou.
Tomou cuidado para não apresentá-lo como neto dela, mas achou melhor ser direto. Ele não permitiria que ela falasse algo que o magoasse.
‘Seu filho?’ Ela falou devagar. ‘Sim… é, realmente, muito parecido com você. E tem a mesma presença que você tinha quando voltou do plano inferior.’
‘Exatamente.’ Syaoran esclareceu.
Ela voltou-se para Sakura e franziu a testa de leve, observando-a, em silêncio por alguns segundos, até desviar o olhar para Shaolin que acabara de entrar na sala, tendo deixado Kero no escritório.
Yelan abriu um fraco sorriso para ele e caminhou até o neto devagar.
Sakura deu um passo à frente, mas se deteve, olhando para o esposo e, depois, para o filho. Balançou a cabeça de leve, cerrando os punhos ao lado do corpo.
Kazuo olhava a tudo intrigado. Tinha alguma coisa ali que não se encaixava.
‘Seu pai ainda lhe ensina mandarim ou ele já esqueceu que é chinês?’ Ela perguntou, olhando para o menino.
‘Conversamos em mandarim com bastante frequência, com kaasan também.’ O menino respondeu. ‘Ela fala muito bem.’
‘Isso é bom. Não devemos esquecer as nossas raízes, não acha?’
‘Acho que sim. Kazuo começou a aprender também.’ Ele falou, sorrindo de leve.
Kazuo franziu a testa, tinha entendido o seu nome, apesar de ainda não entender o que os dois estavam falando. Desviou os olhos para o pai que olhava os dois ainda daquele jeito esquisito. A aura dele estava estranha. Olhou de esguelha para Sakura que estava bem agitada desde que a senhora tinha chegado e, agora, mal conseguia se controlar com ela próxima ao irmão. Estranhou a maneira como aquela senhora e o pai se cumprimentaram. Não era bem o que esperava.
‘Seu irmão, não é?’ Yelan perguntou para Shaolin e o menino confirmou com a cabeça.
Sakura franziu a testa com a observação da senhora e segurou o braço do rapaz que estava um pouco atrás de si e o puxou para o seu lado.
Ele não entendeu a atitude da esposa do pai, mas tinha certeza que tinha alguma coisa errada. Nunca tinha visto tanto ela quanto o pai tão tensos daquela forma, com exceção de quando estavam lidando com os anjos. Parecia que a velha se transformaria num monstro e tentaria abocanhar primeiro a Shaolin e depois a todos eles.
‘Sim…’ Shaolin confirmou. ‘Ele é filho do pai, então, é seu neto também, não?’
Syaoran franziu a testa, o filho não deveria ter falado isso de forma tão aberta. Ele sabia muito bem o que a mãe achava de seres das trevas e, apesar dele já ter sido um por algum tempo, e dela tê-lo ajudado, sempre deixou claro que ele deveria se manter afastado.
Yelan deu um longo suspiro, levantou o braço e passou a mão na cabeça do garoto. ‘Você cresceu muito desde a última vez que nos vimos. Espero que esteja forte o suficiente para o que terá que fazer.’
‘Eu estou. E não estarei sozinho. O Kazuo vai me ajudar.’
‘Mesmo?’ Ela perguntou, franzindo a testa. Voltou-se para o filho. ‘Você concordou com isso? Não acha perigoso demais?’
Syaoran não gostou da colocação da mãe. Tentou disfarçar e olhou rapidamente para o filho mais velho que sacou na hora que o problema ali era ele.
Kazuo podia não entender mandarim, mas sabia identificar seu nome muito bem e, principalmente, já conseguia interpretar o semblante do pai, do irmão e de Sakura. Tirando Shaolin, que mantinha a calma, com um certo tom de petulância no que falava, o pai e a esposa dele estavam muito tensos. Na verdade, oscilavam da tristeza ao incômodo pelo aparecimento da senhora.
‘Acho que a senhora veio aqui apenas para entregar algo ao Xiao Ling, certo?’ Syaoran tentou ser objetivo.
Ela confirmou com a cabeça e pegou o Rashinban de sua bolsa, estendendo-o para o garoto. ‘Foi de seu avô e de seu pai.’ Ela disse com um leve sorriso. ‘Está na família há gerações e agora está em suas mãos. Espero que faça bom uso dele. Que honre sua responsabilidade. Lembre-se que você é um Li.’
Sakura rolou os olhos, tentando controlar a irritação. Grande coisa ele ser um Li. Voltou a fitar o esposo e o viu esboçar aquele sorriso triste enquanto balançava a cabeça de leve e, provavelmente, pensando o mesmo que ela.
Shaolin olhou para a senhora e desviou os olhos para o pai, engolindo em seco. Sentiu-se mal em pegar o tabuleiro. Viu o pai fazer um pequeno gesto, autorizando-o a pegar a peça que a avó lhe estendia. Respirou profundamente, pegando-o das mãos de Yelan, e o encarou.
Era só um tabuleiro, virou-o nas mãos, analisando-o de leve e não entendendo muito bem aquela colocação da avó quanto a fazer parte da família há gerações.
‘Eu soube que Reyume abandonou o clã também, não é?’ Syaoran falou, chamando a atenção da mãe.
‘Exatamente. Ele o abandonou e nunca mais soubemos dele.’
‘Ele não tem participado das reuniões do Círculo?’
‘Você sabe que isso é confidencial.’
Syaoran rolou os olhos. Perguntaria para Hiiraguizawa depois, embora aquela resposta evasiva já servisse para confirmar suas suspeitas. ‘Não tem ideia de onde ele anda metido, então?’
‘Por que o interesse em Reyume?’ Ela sorriu de lado. ‘No final, tanto ele quanto você abandonaram o Clã, não foi?’
‘Nossos motivos foram bem diferentes.’ Ele rebateu e balançou a cabeça de leve. Era melhor abrir o jogo. Com a mãe, as coisas sempre funcionaram assim, de forma clara e objetiva. ‘Os inimigos que nos atacaram estavam usando as técnicas desenvolvidas para o treinamento do clã. Inclusive em magia.’ Ele mencionou finalmente e a viu arregalar de leve os olhos. ‘Quais são as chances de um grupo de jovens que não fazem parte do clã ter acesso a este treinamento?’
‘Nenhuma.’ Ela respondeu com convicção. ‘Por isso insisti para que Xiao Ling fizesse o treinamento cinco anos atrás.’
‘Será?’ Ele rebateu novamente, estreitando os olhos nela e percebendo que pela primeira vez ela se mostrava nervosa. ‘Não precisa me responder, você não tem a menor ideia de onde está Reyume e ele também não tem dado as caras nas reuniões do Círculo.’
‘Vários feiticeiros e outros detentores de magia estão se afastando do Círculo. A ordem está enfraquecida.’
‘Isso é o normal.’ Syaoran falou, sorrindo de forma irônica. ‘Sempre que a coisa começa a se complicar os ratos são os primeiros a caírem fora, não?’ Ele deu um longo suspiro cansado. ‘E quem tem que resolver somos sempre eu, Sakura e nossa família.’
‘Você fez suas escolhas.’ Ela o lembrou.
‘Assim como a senhora fez as suas!’ Ele se zangou.
Os dois ficaram em silêncio se encarando, até Sakura dar uns passos a frente, chamando a atenção de Yelan. ‘Já entregou o Rashinban para Shaolin.’ Ela falou em japonês para que Kazuo não fosse excluído do diálogo.
Yelan concordou com a cabeça. ‘Sua aura está instável novamente.’ Ela falou.
‘Sim… mas eu vou conseguir controlar o que está acontecendo.’ Ela falou com a voz firme. ‘Syaoran está comigo agora.’
A senhora desviou os olhos dela e fitou Kazuo, que estava uns passos atrás da esposa do filho, com o rosto sério.
‘Cuidado com este rapaz, Sakura. Ele não é o que aparenta.’ Ela falou de forma firme.
Sakura arregalou os olhos. Kazuo franziu a testa e sentiu-se nervoso. Shaolin, pela primeira vez, olhou realmente feio para a avó, mas foi Syaoran quem caminhou até ela e parou a frente da senhora com olhar em fúria.
‘É meu filho!’ Fez questão de falar em mandarim para que não houvesse dúvidas de que ela entenderia. ‘Já fez o que devia. Está na hora de nos deixar em paz novamente.’
Yelan olhou para o filho e franziu a testa. Não gostava quando ele a olhava daquela forma desafiadora, não importava se fosse um moleque, um rapaz ou um homem agora. Levantou o queixo também em atitude desafiadora.
‘Apenas depois de ter certeza que Xiao Ling é capaz de usar o Rashinban como se deve. Quero ver se você e sua esposa fizeram o que me prometeram e o desenvolveram de maneira adequada ou…’
‘Ou o quê?’ Syaoran falou interrompendo-a.
‘Ou eu ficarei aqui para ajudar o meu neto a enfrentar o que está para vir.’ Ela falou estreitando os olhos nele.
Shaolin viu tanto a aura do pai quanto da avó se expandirem. Caminhou até eles e parou entre os dois. Yelan fitou o neto.
‘Vai dar tudo certo.’ Ele falou sorrindo de leve, tentando passar confiança para ela.
Ela sorriu para ele. ‘Vamos ver primeiro se consegue ativar o Rashinban, certo?’
Shaolin concordou com a cabeça. Olhou novamente para o tabuleiro e o girou um pouco nas mãos.
‘Tranquilo.’ Ele falou. ‘Acho que já sei o que fazer.’
‘Sabe?’ Syaoran perguntou, erguendo uma sobrancelha.
Shaolin coçou a cabeça e olhou para o pai sem graça. ‘Eu sonhei algumas vezes com isso. Só que eu não sabia que era o Rashinban.’
Syaoran sorriu de leve para o filho e passou a mão na cabeça de Shaolin. ‘Tente… se não der certo de primeira, não tem problema. Não é responsável pelo que está acontecendo, Shaolin. Se não conseguir…’ Ele deu de ombros. ‘A gente tenta de outra maneira até funcionar para você, certo?’
Shaolin sorriu para o pai e concordou com a cabeça.
‘Sabe que se ele não conseguir…’ Yelan começou a falar.
‘A gente tenta de novo.’ Syaoran a interrompeu, olhando sério para mãe. ‘Se não for hoje, agora, conseguirá quando não estiver sob tanta pressão, entendeu?’
‘Você está sendo mole.’ Ela falou, cruzando os braços.
Syaoran respirou fundo e rolou os olhos novamente. Ignorando o comentário dela, voltou-se para o filho e assentiu com a cabeça. ‘Tente, filho.’ Falou com a voz suave, incentivando Shaolin.
Kazuo olhou para o irmão e depois para o pai. Cruzou os braços, sabia que o garoto conseguiria. Na verdade, todo mundo ali sabia que ele conseguiria, menos a tal “avó”.
Reparou no diálogo e no tom entre ela e o pai e, por algum motivo, lembrou-se de Midoriko. Queria, realmente, que ela fosse embora de uma vez. A estada dela ali o incomodava, causando transtorno na harmonia da casa.
Shaolin concordou com a cabeça e pegou o Rashinban com ambas as mãos. Fechou os olhos e respirou fundo. Tivera alguns sonhos com aquele objeto antes. Só precisava lembrar.
Com os olhos fechados, conseguia sentir melhor a presença de todos. Franziu a testa reparando que a presença da mãe, além de instável, estava por demais agitada. A presença do pai estava também alterada, mas ele tentava se controlar. As presenças dos pais pulsavam em sincronia e, toda vez que a aura da mãe se projetava, quase convulsivamente, a do pai se expandia em sua direção, envolvendo-a e equilibrando.
A presença da avó era a mesma de que ele se lembrava. E a presença do irmão… Franziu a testa. Kazuo estava nervoso. Não era para menos, depois do que a avó tinha falado.
Voltou sua atenção para o tabuleiro e respirou fundo novamente. A mandala surgiu aos seus pés.
Syaoran sorriu de leve, vendo que ela tinha mudado. Shaolin não se apoiava mais na sua magia. Os trigramas do baguá tinham, agora, a configuração do céu primordial, o que indicava que a magia do filho era bem mais equilibrada que a sua. Nunca duvidou do potencial dele, mas se sentiu verdadeiramente orgulhoso pelo quanto ele tinha evoluído. No centro não existia mais o símbolo Yin-Yang, mas a estrela de Sakura com o sol e a lua de cada lado. Desviou os olhos da mandala do filho, olhando para a esposa e alargou o sorriso ao vê-la sorrir de leve.
‘As quatro direções dos poderes sagrados.’ O Rashinban começou a brilhar nas mãos do garoto e as coordenadas começaram a se mover de forma frenética. ‘Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas que dominam os cinco elementos.’ Shaolin sentiu quando o tabuleiro começou a tremer de leve e o segurou com mais firmeza nas mãos. Sentiu que sua magia circulava de forma rápida em torno de seu corpo. ‘Metal, Madeira, Água, Fogo, Terra…’ Abriu os olhos devagar e reparou nas mudanças no tabuleiro. Franziu a testa de leve. ‘Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas que dominam os cinco elementos. Mostrem-me com seu raio de luz a chave…’ Ele reteve-se um segundo, pensando em seu último sonho. ‘...a chave do deus Janus que está escondida nesta região.’ Solicitou com a voz firme e viu a configuração finalmente se estabilizar e um raio de luz sair do tabuleiro.
O garoto olhou para Kazuo que acenou com a cabeça. Sem falarem nada, saíram os dois correndo porta afora seguindo a direção que o raio indicava.
‘Hei! Vocês dois!’ Sakura os chamou, assustada com a atitude deles.
Syaoran viu os filhos, literalmente, correrem para fora de casa. ‘Shaolin! Kazuo!’ Chamou-os, mas eles não pararam, estava indo atrás deles quando a mãe o segurou pelo braço.
‘Deixe-o ir. É a missão dele.’ Ela falou, mas Syaoran se desvencilhou da mão dela.
‘São meus filhos.’ Falou, seriamente. ‘A missão é dele, mas não quer dizer que não possamos ajudá-lo.’ Esclareceu com a voz dura para a mãe, dando as costas a ela.
Syaoran e Sakura pararam em frente a casa e olharam para a rua. ‘Eles foram por ali.’ Sakura falou, apontando. ‘Vamos.’
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Shaolin corria pelas ruas de Tomoeda ao lado de Kazuo. ‘Para lá.’ Ele apontou e os dois pularam a cerca de uma casa, cruzaram o quintal dela e subiram no telhado, correndo por cima dele.
‘Tem certeza que este negócio está certo?’ Kazuo perguntou.
‘Não.’ Shaolin respondeu com sinceridade.
Pularam para o telhado de outra casa, e desceram a lateral dela. Correram pelas ruas, tentando desviar de alguns pedestres que os repreenderam pela corrida desenfreada. O raio seguia em direção à área nobre da cidade. Atravessaram um parque onde algumas crianças brincavam, mas pararam para observá-los correndo.
‘Como soube fazer este negócio funcionar?’ Kazuo perguntou.
‘No sonho que tive noite passada, Gabriel me falou que eu precisava achar a chave de Janus.’
‘Gabriel é aquele anjo babaca?’
‘Se você está falando do anjo que apareceu para a gente logo depois que nos atacaram, é ele mesmo.’
‘Tinha dois anjos babacas…’ Kazuo falou, parando em frente ao lago.
Shaolin parou ao lado do irmão, olhando para a mansão que estava do outro lado do lago. ‘A chave está ali.’
‘Esta chave está com quem?’ Kazuo falou, estreitando os olhos na mansão.
‘Acho que está com aquele velho mijão.’ Shaolin respondeu.
‘Não estou sentindo a presença dele e nem do que sobrou do bando dele.’ Kazuo retrucou.
Shaolin balançou a cabeça de leve e desativou o Rashinban. ‘Mas ela está ali dentro.’ Encolheu os ombros. ‘Não estou sentindo presença alguma… nada… isso é estranho.’
Kazuo concordou. ‘Sim… Há uma distorção das energias.’
‘Como um vácuo.’ Shaolin completou. ‘Deve ser uma magia para camuflar. Apagar consegue fazer algo parecido.’ O garoto olhou em volta. ‘Não tem nem pessoas passando por aqui.’
‘Bem… se o velho está ali com o bando dele, vamos lá fazer uma visita.’ Falou pegando a esfera negra de dentro do bolso e começando a caminhar pela lateral do lago para chegar até a luxuosa residência.
‘Vamos só pegar a chave, Kazuo.’ Shaolin falou, olhando para o irmão e seguindo ao lado dele.
‘E você acha que eles vão dá-la para a gente na boa, Shaolin?’ Kazuo falou, olhando sério para o irmão. ‘Acho melhor você ficar aqui e eu entro lá sozinho.’
Shaolin franziu a testa. ‘Você não tem ideia de como é esta chave.’
‘Eu soco um até ele me falar onde ela está.’ Ele respondeu. ‘Não preciso saber como ela é.’ Kazuo segurou o braço do irmão, fazendo-o parar de andar. ‘Estou falando sério… Qualquer coisa, se o escolhido não aguentar, você entra depois que eu fizer a limpeza, entendeu?’
‘Não pode sair matando as pessoas assim.’ Shaolin falou sério, recomeçando a caminhar. ‘Não é assim que as coisas funcionam por aqui, Kazuo’.
‘Olha só! Não quero ter que levar você todo machucado para oyaji e para a sua mãe.’
‘A gente entra, deixa o pessoal desacordado, pega a chave e vai embora.’ Shaolin falou, pegando sua esfera negra do bolso.
‘Você é teimoso pra caramba, Shaolin!’ Kazuo falou irritado.
‘Humph.’ Shaolin murmurou. ‘Igual a você.’
Deram a volta no lago e estavam perto da residência quando encontraram Marie encostada em uma árvore com os braços cruzados.
‘Estava me perguntando quanto tempo vocês dois levariam para chegar até aqui discutindo desta maneira.’ Ela falou, afastando-se da árvore e caminhando até eles.
Shaolin franziu a testa. ‘Nee-san, como soube… Como soube que a chave estava ali?’
‘Não soube. Senti sua aura expandindo e imaginei que estivesse com problemas.’
Kazuo sorriu para o irmão de forma irônica. ‘Ela é sua babá.’
Shaolin olhou torto para o irmão. ‘Vamos logo pegar essa chave.’ Falou, afastando-se dos dois e caminhando em direção a mansão.
Marie disfarçou o sorriso pela provocação de Kazuo e começou a caminhar atrás do garoto, seguida logo depois pelo rapaz.
A ruiva olhou para a luxuosa construção e franziu a testa. Estavam usando alguma magia parecida com Apagar, criando uma barreira mágica que tornava as presenças mágica imperceptíveis. Como uma bolha de distorção, ela pensou, olhando para a mansão enquanto caminhavam em direção a ela.
‘Hei, Shaolin-kun!’ Ela o chamou, fazendo o garoto voltar-se para ela. ‘Foi este tabuleiro que trouxe vocês para cá atrás da tal chave?’
Shaolin concordou com a cabeça. Marie pensou que o tabuleiro talvez pudesse achar o ponto da distorção para que eles pudessem anular este efeito.
‘E você sabe usar isso aí direito?’
‘Não.’ Kazuo respondeu pelo irmão. ‘Ele acabou de aprender. A gente não sabe nem se está certo.’
‘O que você quer, Nee-san?’ Shaolin perguntou, ignorando o comentário do irmão. Quando ele estava com a prima, parecia que ficava disputando com ela quem o provocava mais.
‘Tenta achar o ponto de distorção com isso aí. Vamos ver se funciona.’
Shaolin coçou a cabeça, não tinha sonhado sobre como usar o Rashinban para achar alguma outra coisa que não fosse a chave. Deu de ombros, não custava nada tentar, não é? Se não desse certo, Marie e Kazuo o provocariam. Mas, se desse certo… A quem ele queria enganar? Eles o provocariam de qualquer forma. Pegou o tabuleiro e se lembrou das palavras mágicas, faria alguns ajustes de improviso.
‘As quatro direções dos poderes sagrados. Deuses dos relâmpagos e das tempestades elétricas. Mostrem-me, com seu raio de luz, o ponto de distorção mágica que envolve esta região.’
Novamente, o tabuleiro mudou sua configuração e um raio de luz saiu dele, indicando um ponto em cima do telhado da mansão em frente a eles.
Marie sorriu de lado e passou a mão na cabeça do garoto. ‘Bom menino.’ Falou e se concentrou no ponto indicado pelo feixe de luz. ‘Névoa.’ Invocou seu poder.
Uma nuvem mágica pairou sobre o lugar indicado e, aos poucos, dissolveu por completo a magia que camuflava as presenças mágicas.
Kazuo arregalou os olhos de leve, percebendo claramente as inúmeras presenças dentro da mansão. Elas estavam agitadas, provavelmente por perceberem que foram descobertas.
‘São muitos ainda.’ O rapaz falou, franzindo a testa.
‘Mas acho que, logo, teremos reforços.’ Marie falou. ‘Enquanto isso, a gente tenta pegar a chave de uma vez. E aproveita para fazer algum estrago.’
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Sakura corria pelas ruas de Tomoeda. Sentia uma gota de suor escorrer pela lateral do seu rosto, mas não era pelo esforço físico da corrida. Estava desesperadamente preocupada tanto com Shaolin quanto com Kazuo. Os dois filhos cabeça dura do senhor Li realmente a enlouqueceriam igual o pai. Onde já se viu saírem correndo daquela forma? A vontade que tinha era de pegar os dois pelas orelhas e trazê-los para casa.
Syaoran corria ao lado dela, olhava às vezes de esguelha para a esposa, percebendo o quanto ela estava se esforçando pela preocupação com os garotos. Nem tentou convencê-la a ficar em casa e deixar que ele fosse atrás dos dois. Ela tinha ido ao inferno atrás dele, não ficaria quietinha no sofá ao lado da mãe dele esperando que ele resolvesse o assunto com os dois filhos. Não… Sakura não faria isso.
Ele arregalou os olhos, parando ao sentir a aura dela enfraquecer, de repente, obrigando-o a segurá-la ou ela cairia com tudo no chão.
‘Inferno!’ Ela gritou irritada por aquela dor limitá-la tanto daquela forma.
‘Ficar desta maneira só piorará a situação.’ Syaoran falou, tentando manter a calma.
Sakura agarrou-se as roupas dele e tentou ficar em pé, ignorando aquela dor terrível no peito. ‘Precisamos seguir… os garotos…’ Ela falou e fechou os olhos, tentando se controlar. Respirou fundo e soltou as roupas do marido, tentando manter o equilíbrio por ela mesma, mas não conseguiu.
Syaoran respirou fundo e se abaixou de costas na frente dela. ‘Vamos fazer como quando éramos crianças. Fica mais fácil se eu carregá-la e correr.’
Ela sorriu, fracamente, e deu um beijo no rosto dele agradecida. Subiu nas costas do esposo e o abraçou. Syaoran levantou-se e voltou a correr atrás da presença dos filhos. Franziu a testa, percebendo que, conforme se aproximava de onde os garotos estavam, começava a sentir a presença de vários outros feiticeiros. Pelo menos percebeu que Marie estava com eles. Sabia que a garota tinha uma cabeça melhor para medir os riscos que Kazuo e poderia proteger melhor Shaolin. Kazuo era cabeça quente, igual a ele.
Parou em frente ao parque na área nobre da cidade. Agora as presenças eram nítidas. Olhou para o lado observando Eriol se aproximar correndo.
O inglês parou em frente aos amigos e arregalou os olhos, percebendo o estado debilitado de Sakura. ‘Se a situação não fosse tão séria, eu poderia dizer que em algum momento, já estivemos os três assim.’ Eriol falou tentando romper a tensão que sentia.
Syaoran suspirou e ajeitou Sakura nas suas costas. ‘Ela está fraca demais. Como quando convertia as cartas Clow em Sakura.’ Ele falou para Hiiraguizawa. ‘Precisamos achar as crianças. Elas são muito inconsequentes.’
‘Eu sei.’ Eriol falou com o rosto sério. ‘Vamos.’
Os dois correram em direção à mansão na qual sentiam a presença dos filhos. Pararam em frente ao lago, observando a mansão e sentindo as presenças explodindo.
Sentiram uma forte energia aproximando-se deles de forma rápida. ‘Liberte-se!’ Eriol invocou seu báculo e formou um escudo, protegendo a ele e os amigos.
A frente deles apareceu um grupo de quase 15 feiticeiros. Syaoran cravou os olhos no homem que seguia em frente ao grupo. Franziu a testa e sorriu de leve, agora quebraria o pescoço dele sem nem sentir pena.
Ruby Moon e Spinel Sun aproximaram-se de Eriol, parando ao lado de seu mestre. Syaoran percebeu a aproximação de Kerberus e das cartas em direção a eles. Em poucos minutos, estariam ali para proteger Sakura.
‘Xiao Lang… é realmente um prazer reencontrá-lo depois de tanto tempo.’
‘Só se for para você, Reyume. Não me agrada em nada ver a sua cara novamente.’ Syaoran respondeu. ‘Embora, saber que agora posso quebrar seu pescoço sem sentir remorso, ah… isso me agrada bastante.’
Eriol fez um gesto para Ruby Moon segurar Sakura que ainda se sentia fraca.
Syaoran deu um demorado beijo na testa da esposa. ‘Fique tranquila. Eu já volto, minha flor.’
Sakura concordou com um gesto, deixando-se ser amparada pela guardiã do amigo.
Syaoran pegou a esfera negra que tinha no bolso e caminhou em direção ao grupo. Jogou a esfera na mão duas vezes com os olhos cravados em Reyume.
‘Eu sabia que foi você quem andou treinando esse pessoal.’ Syaoran falou.
‘Eles já tinham os apontamentos de um tal de Clow com várias informações sobre as tradições do Clã Li, apenas segui as instruções dele.’
Eriol arregalou os olhos de leve, surpreso pelos apontamentos de Clow estarem nas mãos de Smith.
‘Aposto como foram você e aquele rato do Ming Cheng que entregaram os livros de Clow que estavam com o clã para aquele idiota.’
‘Não sei do que está falando. Não tenho a menor ideia de como esse tal de Clow tinha conhecimento sobre o treinamento do clã.’
Syaoran sorriu de lado e jogou, pela última vez, a esfera negra para o alto, pegando finalmente a empunhadura da sua espada. ‘Isso só constata, Reyume… que você realmente é muito fraco.’ Falou sabendo que, se o homem não tinha recuperado suas lembranças da outra existência, então era porque o nível de magia dele não tinha evoluído em nada.
‘Vou fazer você engolir estas palavras, Xiao Lang.’ Reyume falou, invocando sua espada mágica e a apontando em direção a Syaoran.
‘Humph.’ Syaoran murmurou. ‘Você fala demais.’ Falou, avançando sobre o homem. ‘Para alguém que não tem ideia do que está fazendo…’
Reyume arregalou os olhos, surpreso com a energia que explodiu em torno de Syaoran. Não imaginava que a presença dele pudesse chegar àquele nível. Conseguiu bloquear o ataque com a espada mágica, mas acabou sendo arrastado por alguns metros para trás.
Os dois pularam em sentidos opostos, afastando-se um do outro. Encararam-se de forma hostil. Reyume atacou Syaoran novamente, tentando acertá-lo com a espada pela direita.
Syaoran bloqueou o golpe com a espada e acertou um soco no rosto do adversário que cambaleou para trás. Deu um passo na direção dele e acertou-o com um chute alto, girou o corpo e o acertou ainda com uma cotovelada nas costas, fazendo-o cair no chão. Estava para acertá-lo novamente quando outro homem parou a sua frente. Franziu a testa, tendo a impressão de que o conhecia de algum lugar.
‘Vou matá-lo de uma vez! Vingarei meu irmão.’ Takeda falou, fazendo finalmente Syaoran reconhecer o viajante do futuro que o atacara tantos anos atrás.
Entendeu porque tinha reconhecido a magia que ele havia usado para viajar ao passado tentando atacá-lo e Sakura com 11 anos. O idiota tinha recebido um treinamento parecido com o dele. Agora as sensações de estranhamento de quando havia lutado contra ele e a outra louca no passado faziam sentido. A força dos dois e o estilo de luta tão semelhante ao clã e tão difícil para ele, naquela época, derrotá-los.
Era melhor o cara realmente correr para o passado, pois, agora, não teria chances mesmo de combatê-lo. No entanto, ficou curioso por ele mencionar um irmão.
‘Não conheço seu irmão, idiota.’ Syaoran falou, encarando-o.
Takeda empunhou a espada, ficando em posição de luta e encarando-o com fúria. ‘Seiya Yanamoto.’
Syaoran estalou a língua. ‘Você é irmão do Yanamoto.’ Entendeu o porquê do homem ter tanta raiva dele quando o atacou no passado. Na época, não conseguia entender que raiva era aquela que o fazia querer matá-lo de forma insana. ‘Seu irmão se meteu onde não deveria. Ele provocou a própria morte.’ Rebateu.
‘Você mente!’ Takeda disse entre os dentes, avançando sobre Syaoran que defendeu os sucessivos ataques do rapaz.
Reyume levantou-se e juntou-se a Takeda nas tentativas de acertá-lo com ataques combinados.
Syaoran sorriu de lado. Há muito tempo não lutava para valer. Estava na hora de desenferrujar. Abaixou-se, evitando um ataque de Takeda e girou o corpo, acertando as pernas de Reyume desequilibrando-o e levantou-se, já avançando em direção a Takeda que deu alguns passos para trás, fazendo as duas espada mágicas se chocarem.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!‘Você não tem chance contra mim.’ Syaoran falou, pegou o punho do rapaz e o puxou para frente, acertando-o com uma joelhada que o fez dobrar-se ao meio. Soltou o punho do rapaz e levantou o braço, acertando-o nas costas com a empunhadura da espada, fazendo-o cair com rosto no chão.
Sentiu uma energia se aproximando às suas costas e pegou um talismã. ‘Deus do trovão, vinde a mim!’ Solicitou sua magia, fazendo a magia descer dos céus, e ser refletida no talismã que estava contra a espada mágica, anulando a energia que vinha na sua direção. Olhou para o grupo de jovens a sua frente.
‘Não é nada honroso atacar desse jeito pelas costas.’ Falou, erguendo o corpo e encarando-os. ‘Muito bem, quem vai ser o primeiro?’ Perguntou, estreitando os olhos neles.
Os jovens se entreolharam. Takeda tentava se levantar depois de ter sido atingido, cuspindo sangue. Reyume levantou-se também com dificuldade e isso porque mal tinha sido acertado por Syaoran.
‘Acho que podem vir todos de uma vez.’ Syaoran respondeu, chamando-os com a mão.
Os garotos trincaram os dentes e avançaram, tentando golpeá-lo.
Eriol observou o amigo lutando contra o grupo numeroso. Percebeu que, diferente do que fez com Reyume, Syaoran não os golpeava de forma raivosa. Talvez desconfiasse que os garotos mal soubessem no que estavam envolvidos. Acertava-os apenas para deixá-los desacordados. Olhou para trás e viu Sakura olhando o marido lutar, sentido-se inútil.
A feiticeira observou Ruby Moon e Spinel Sun ao seu lado para protegê-la, por estar fraca. Estava atrapalhando mais do que ajudando. Era cabeça dura, mas sabia das limitações em que agora se encontrava.
‘Ora… se não é um ilustre membro do decadente Círculo.’ Eriol ouviu a voz de Smith e virou-se para trás.
‘Smith… sabia que estava por trás disso.’ Eriol falou, trincando os dentes.
‘E que alegria! Você trouxe um presente para mim!’ Ele falou, desviando os olhos de Eriol e fitando Sakura.
Eriol trincou os dentes, colocando-se entre Smith e Sakura. ‘Você é um idiota arrogante que não tem ideia da merda que está fazendo.’
Smith riu com o comentário agressivo. ‘Um gentleman usando uma linguagem tão baixa desta maneira… tsc tsc tsc... Pensei que fosse um lord, Hiiraguizawa.’
‘Você me irrita por sua imbecilidade.’ Eriol falou. ‘E está envolvendo meus amigos e minha família nesta sua loucura.’
Smith ainda tinha um sorriso irônico nos lábios. Desviou os olhos de Eriol e fez um gesto com a cabeça apontando para a luta de Syaoran com seus pupilos. ‘Acho que estou dando trabalho para o Guardião.’
Eriol ergueu uma sobrancelha. ‘Você está brincando? O único “trabalho” que Li-san está tendo é o de controlar sua força para não matar aqueles jovens. Eles não têm ideia de em que você os envolveu. Agora você… caro Smith…’ Eriol abriu um sorriso perigoso. ‘Não queria estar na sua pele quando ele o pegar.’
Smith fechou o sorriso que tinha no rosto e voltou a fitar Eriol. ‘Ele nunca conseguirá me pegar.’
Hiiraguizawa deu um passo à frente, aproximando-se de Smith. ‘Acho que tem razão… Porque eu vou acabar com você primeiro.’
Continua.
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