FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão:Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 24

A Parte Humana

Sakura arregalou os olhos apavorada com o que se revelava do canto escuro do campus universitário. Deixou cair os livros das mãos e levou-as à boca para abafar um grito de terror ao ver diante de si um kyonshi de Syaoran.

‘O-o que você fez, Yanamoto?’ Ela falou sem conseguir ainda tirar os olhos do monstro.

‘Oras… Fiz o que eu tinha proposto para você.’

O kyonshi deu uns passos a frente, parando diante da jovem que se mantinha estática sem conseguir se mexer. Era tão ou mais terrível do que os seus pesadelos. Os olhos de Syaoran estavam frios, vazios. Sentiu um bolo se formar na sua garganta e uma vontade louca de começar a chorar.

‘Isso é um pesadelo…’ Ela sussurrou, rezando a Deus que realmente fosse.

Seiya parou ao lado do kyonshi observando a jovem. ‘Acho que agora você entende que só assim o terá de volta, não é?’

‘Isso… Isso não é Syaoran.’ Ela falou com a voz falhada.

‘Sim, minha querida. Isso é a única coisa que sobrou dele.’

‘Isso não é real.’ Ela falou, fechando os olhos e colocando as mãos na cabeça, sentindo-se atordoada. ‘Isso não é real.’

Seiya deu a ordem e o kyonshi segurou a jovem pelos braços.

Ela abriu os olhos, encarando-o aterrorizada. Sentia as mãos frias e duras segurando seus braços. O cheiro de carne podre embrulhava seu estômago. Gritou apavorada. O kyonshi levantou-a do chão e Sakura observou o rosto tão amado completamente deformado a sua frente. Nem em seus piores pesadelos tinha visto aquilo.

Começou a se debater para tentar se soltar, mas as mãos de ferro a seguravam mais forte. Ela o chutou, tentando fazer com que a soltasse, mas foi em vão. Ele não se mexia, nem afrouxou as mãos que a prendiam. Não sentia dor, não sentia nada.

“Os kyonshis são cadáveres, cascas de restos humanos. São mortos-vivos.” Ela lembrou-se das palavras de Ren Tao. “Mesmo com a alma original do corpo, é tudo o que eles podem ser. São programados para obedecerem comandos, como robôs, marionetes.”

‘Isso é só uma marionete…’ Ela sussurrou.

‘Exatamente. Ele não vai soltá-la.’ Ela ouviu a voz irritante de Seiya. ‘Ele só obedece ao meu comando.’

‘Você é mais maluco do que eu pensava!’ Ela gritou.

Sakura fechou os olhos, expandindo sua aura. ‘Força.’ Sussurrou, sentindo o poder da carta inundar o seu corpo.

Chutou novamente o kyonshi que finalmente a soltou, caindo para trás.

Seiya olhou assustado para o que a garota tinha feito.

Ela ainda observou o kyonshi se levantar e voltar a ficar em pé. Fechou os olhos, não conseguia ver aquele monstro como seu amado. Syaoran estava em casa, esperando-a. Balançou a cabeça novamente. Era difícil lutar contra um pesadelo.

‘É só uma marionete.’ Repetiu, tentando desassociar a criatura que estava a sua frente do namorado.

‘Eu disse que faria tudo por você. Agora você está vendo a única forma em que poderá tê-lo de volta. Não adianta você ficar estudando e procurando os Taos.’

‘Os Taos fizeram isso?’ Ela perguntou, fitando o rapaz.

‘Eles se recusaram. Mas não são os únicos capazes de fazer kyonshis.’

‘Você é louco, Yanamoto!’ Ela gritou. ‘O que você acha que vai conseguir com isso?!’

‘Provar que não tem mais como ele voltar. Não adianta você ser uma feiticeira. Ele ser um feiticeiro. Vocês não podem mais ficar juntos!’ Gritou na cara dela. ‘Ele está morto!’

‘Quem está morto, idiota?’ Sakura ouviu a voz de Syaoran atrás de si.

B-b-b-b-back back back

Voltei, voltei, voltei

Seiya desviou os olhos da jovem e observou o rapaz se aproximando dos dois devagar. Arregalou os olhos assustado. ‘C-como?’

B-b-b-b-back back back

Voltei, voltei, voltei

‘Acho que você não entende nada de magia.’ Li respondeu, parando ao lado da namorada e encarando-o.

Seiya deu um passo para trás sem conseguir acreditar que estava a frente do chinês. Olhou para trás e viu o kyonshi, feito com o corpo do rapaz, parado, esperando por suas ordens. Voltou a fitá-lo sem poder acreditar.

Sakura virou o rosto, observando o perfil do namorado que encarava Yanamoto.

Ele desviou os olhos e viu o kyonshi parado atrás daquele idiota. Franziu a testa. Ver-se naquele estado não era algo agradável. Voltou-se para Seiya. ‘Você teve coragem de roubar o meu corpo?!’ Falou, pegando-o pela camisa e levantando-o do chão.

Seiya se debatia. ‘Você está morto! Você está morto! Ataque!’

Cold and black inside this coffin

Gelado, escuro, vamos fechar este caixão

Cause you all try to keep me down

Porque todos vocês tentam me por no chão

How it feels to be forgotten

Como se sente ao ser esquecido

But you'll never forget me now

Mas você nunca irá me esquecer agora

O kyonshi se aproximou, tentando golpear Syaoran que soltou Seiya para se defender.

O rapaz franziu a testa, observando seu corpo em posição de luta. Realmente não era nem um pouco agradável analisar como ficou depois de morto. Sem pensar, tocou seus braços apenas para saber se conseguia senti-los.

‘Ele não é você.’ Ouviu a voz da namorada ao seu lado. Syaoran não respondeu.

Enemies clawing at my eyes

Inimigos, arranhando meus olhos que

I scratch and bleed just to stay alive yeah

Eu me machuco e sangram, apenas para viver, sim

The zombies come out at night

Os zumbis vêm esta noite

O kyonshi aproximou-se, tentando desferir um chute alto no rapaz que se protegeu com o braço e se abaixou, golpeando-o com um gancho de baixo para cima, atingindo o queixo do adversário que deu um passo para trás. Syaoran sentiu o fedor que emanava dele. O kyonshi atacou novamente, tentando acertá-lo de todas as formas com socos e chutes que o rapaz conseguia bloquear sem dificuldades. O problema era atacá-lo. Por mais que tentasse se convencer que aquilo não era ele, não tinha como não se sentir estranho em se ver naquele estado. O estado real do seu corpo humano.

They'll never catch me, they'll never catch me

Eles nunca vão me pegar, eles nunca vão me pegar

Sakura observou os dois lutando e depois fitou Seiya que estava enlouquecido. O rapaz não tinha ideia do que fizera. Entrar no mundo da magia sem possuí-la era por demais arriscado. A jovem observou a energia vital do rapaz alimentando o corpo do kyonshi que atacava Syaoran de forma violenta.

‘Yanamoto!’ Ela chamou o rapaz, parando perto dele. ‘Precisa parar. Você vai morrer se continuar com isso.’

Seiya olhou para ela com descrença. ‘Você acha que eu vou desistir de acabar com ele? Nunca!’

‘Você está usando sua força vital para mover aquilo!’ Ela falou, apontando para o kyonshi. ‘Você vai morrer!’

‘Você mente!’ Ele gritou.

‘Preste atenção no seu corpo!’ Ela gritou para ele. ‘Olhe para você! Acha que só porque leu meia dúzia de livros entende tudo? Quem fez este kyonshi não explicou o preço a pagar!’

‘Eu paguei! Paguei muito dinheiro!’

‘Na magia, Yanamoto, dinheiro não é nada.’ Ela respondeu com o rosto duro. Pegou o pulso do rapaz e, ainda usando a Força, ergueu-a com facilidade até a altura do rosto do rapaz que finalmente notou sua mão envelhecendo. Arregalou os olhos.

‘O quê?!’ Perguntou desesperado.

Sakura o largou e ele caiu sentado no chão com as mãos no rosto.

Yanamoto sentia sua pele envelhecendo conforme sua energia vital era sugada para que o kyonshi mantivesse seu ataque furioso contra Syaoran.

‘O quê você está fazendo comigo?’ Seiya perguntou, fitando a feiticeira a sua frente em um misto de raiva e pavor.

‘Não estou fazendo nada. Você é que está usando sua força para dar vida a algo que está morto.’

‘Isso… isso não é possível.’

‘Eles não explicaram?!’ Ela perguntou. ‘Você realmente é um arrogante idiota em entrar em algo que não entende. Agora pare já com isso!’

‘Não! A culpa é sua!’ Gritou, fazendo Sakura arregalar os olhos. ‘Você é quem me enlouqueceu!’

‘Pare já com isso, Yanamoto!’ Ela ordenou novamente.

Estava realmente preocupada com o rapaz; se ele não parasse de dar sua energia, estaria morto em poucos minutos. Ela ouvia ainda o barulho de Syaoran lutando contra o kyonshi. A aura do rapaz estava agitada, agitada demais. Sabia que ele não estava conseguindo golpear e atacar seu próprio corpo. Olhou para Seiya que estava, aos poucos, envelhecendo.

Ela voltou-se para a luta e respirou fundo. Teria que fazer alguma coisa, só não sabia exatamente o quê. Só tinha uma maneira de fazer Seiya parar de ceder energia para o kyonshi, parando o boneco de uma vez. Franziu a testa e pegou Vento. Usaria a carta para aprisionar o kyonshi.

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B-b-b-b-back back back

Voltei, voltei, voltei

Syaoran novamente se defendeu de um chute giratório do kyonshi. Aquilo o estava irritando demais. Simplesmente não conseguia encarar de frente o boneco. Droga! Era naquilo que havia se transformado. Num monte de carne podre manipulada por um idiota como Yanamoto. Levantou os olhos novamente, vendo o corpo todo retalhado, com a cor cinza e aquele cheiro insuportável de carniça a lhe embrulhar o estômago.

B-b-b-b-back back back

Voltei, voltei, voltei

O cadáver aproximou-se, tentando atingi-lo de inúmeras formas, mas estava ficando cada vez mais fraco e o feiticeiro percebeu isso. A mandíbula estava deslocada devido a um golpe que havia desferido, o olhar vazio.

Sacudiu a cabeça de leve, dando um passo para trás. Ele estava morto. Aquilo era, sem dúvida, o que de humano ainda existia dele. Droga. Por que ele tinha que ter morrido? O que ele era agora, afinal?

Sentiu sua presença aumentar devido a sua irritação pela situação bizarra em que o idiota do Yanamoto o havia colocado. Estava lutando com a única coisa humana que ainda existia dele na terra. E a estava vendo, aos poucos, decompor-se mostrando a ele que, no fundo, não era nada.

‘Inferno!’ Gritou e sentiu sua aura explodir.

Light it up light it up

Ilumine, ilumine

Now I'm burning

Agora estou em chamas

Feel the rush feel the rush of adrenaline

Sinta a descarga, sentir a descarga de adrenalina

We are young we are strong we will rise

Nós somos jovens,nós somos fortes, nós vamos subir

Cause I'm back back back from the dead tonight

Porque eu voltei, voltei, voltei da morte esta noite

Syaoran arregalou os olhos, vendo que Vento havia sido libertada por Sakura, provavelmente, para aprisionar o kyonshi, mas, diferente do que foi ordenado pela sua mestra, a carta tomou sua forma original, envolveu o corpo do kyonshi e continuou a girar de forma louca e violenta, formando um redemoinho que começava a engolir tudo.

‘Sakura!’ Ele gritou pela namorada, que estava tão assustada quanto ele, vendo o tornado se formar na frente dos dois.

O redemoinho aumentou, arrancando algumas árvores mais fracas, Sakura pegou Seiya pelo braço e o puxou para protegê-lo.

‘É Vento?!’ Syaoran perguntou para Sakura que acenou que sim.

‘Não estou conseguindo controlá-la.’ A feiticeira informou assustada.

‘Isso não é possível.’ Ele falou nervoso.

Afastaram-se do local, observando o tornado girar e carregar tudo que podia. Estava incontrolável.

To the floor to the floor

Para o chão, para o chão

Hit the redline

Acerte a linha vermelha

Flying high flying high

Voe alto, voe alto

At the speed of light

Na velocidade da luz

‘Vai em direção àquelas casas.’ Sakura falou nervosa, apontando para as casas perto do campus universitário.

‘Você tem que pará-la.’

‘Não estou conseguindo!’ A feiticeira respondeu, gritando para o namorado. ‘Ela não me obedece!’ Ela arregalou os olhos vendo a aura do namorado intensa e depois observou o pequeno tornado que Vento fazia. Franziu a testa. Syaoran estava controlando a carta? Tinha alguma coisa errada. Ela foi até o namorado e segurou seus braços. ‘Você precisa se acalmar.’

For the love for the life for the fight

Por amor, pela luz, para a luta

Cause I'm back back back from the dead tonight

Porque eu voltei, voltei, voltei da morte esta noite

‘Eu?!’ Ele perguntou para ela, sem entender.

‘Sim! Fica frio!’ Sakura gritou para ele. ‘Eu vou tentar desviá-la para o lago. Mas você precisa ficar frio!’

A feiticeira invocou Alada e foi até o tornado, parando em frente às casas. Pegou Tempestade e, apertando a carta nas suas mãos, fechou os olhos. Tinha que elevar sua aura para se sobrepor à de Syaoran. Alguma coisa estava fazendo as cartas saírem do seu controle e ela já começava a desconfiar do que poderia ser.

‘Tempestade!’ Ela gritou, explodindo sua magia. Outro tornado se formou e se chocou com Vento.

Ela pediu para sua Tempestade girar ao contrário de Vento anulando assim o poder de destruição da carta. Sentiu que teve que usar mais magia do que as Cartas normalmente exigiam dela. Percebeu que estava impondo sua vontade sobre as cartas como fazia quando era obrigada a aprisioná-las e depois transformá-las em cartas Sakura.

As duas cartas voltaram à forma de lâminas mágicas e a feiticeira as pegou. Observou Vento na sua mão, estranhando o comportamento dela. Olhou para o namorado que ainda estava olhando para tudo atordoado.

O kyonshi havia caído no lago assim como algumas árvores, bancos e postes que foram arrancados pelo poder de Vento. No entanto, logo, ele emergiu das águas agitadas e caminhou em direção a jovem. Ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha olhando para a figura do namorado naquele estado. Fechou os olhos com força e pegou uma carta. Não tinha outra saída. Aquilo não era o namorado. Aquilo não era seu amado Syaoran. Ela não gostaria de usar esta carta, mas não tinha outro jeito.

Break the skin

Rompendo a pele

You spread like poison

Espalhou-se como veneno

‘Névoa!’ Falou, jogando a carta para cima e vendo a névoa esverdeada envolver o kyonshi.

A feiticeira sentiu o coração bater de forma descompassada e os olhos arderem vendo a figura ficar imóvel como uma estátua. Tentou engolir o bolo que estava na sua garganta e ele desceu arrastado. A criatura foi, aos poucos, desintegrando-se até restar apenas o pó que era levado pelo vento. Fechou os olhos, sentindo as lágrimas finalmente saírem de seus olhos. Era uma parte de Syaoran que virara pó.

Dying slow under your attack

Morrendo lentamente quando todos nós atacamos

Lembrou-se de quando foi ao cemitério com Yelan, até a lápide do rapaz. Caiu de joelhos no chão. Não soube se foi por ter explodido com sua magia ou se, simplesmente, sentia seu peito doer pelo que tinha acabado de fazer.

Syaoran ainda ficou um tempo observando o vento levar o que restava de seu corpo. Agora tudo era pó. Olhou para suas mãos, questionando o que ele realmente era. No que havia se tornado. Desviou os olhos, observando o corpo da namorada ainda de joelhos, chorando. Ela sentiu quando teve que usar a carta no corpo dele. Talvez porque ela soubesse que aquele kyonshi era o que ainda havia de humano dele. E agora não existia mais nada.

E se ele se transformasse num demônio de verdade? E se ele fosse um demônio de verdade? O que ela faria? Ela teria que… Desviou os olhos da jovem e olhou para onde o kyonshi havia desaparecido na frente de seus olhos. Por mais que soubesse que aquele boneco não era ele, não teve como não pensar que, agora, não existia mais nada de si. Balançou a cabeça de leve e passou as mãos no cabelo. Precisava de um tempo. Precisava pensar no que ele realmente era agora. Deu um passo para trás, ainda observando Sakura e abaixou os olhos. Engoliu em seco e virou-se. Precisava colocar a cabeça no lugar.

Sakura levantou os olhos, observando o rapaz se afastar. Secou as lágrimas com as mãos e levantou-se. Ainda sentia o peito dolorido. Seiya conseguiu lhe dar um golpe bem fundo. Cerrou os olhos no namorado sumindo da sua vista. Um golpe forte demais nos dois com aquela loucura toda.

‘Sakura!’ Ela ouviu a voz de Eriol que se aproximou dela devagar. Parou ao lado dela, fitando-a de forma interrogativa. ‘O que aconteceu?’ Ele reparou nas marcas de lágrimas no rosto da jovem.

Sakura comprimiu os lábios, tentando não chorar novamente. ‘Foi horrível.’ Ela falou antes de se jogar nos braços do rapaz que a envolveu de forma carinhosa.

Ele tinha sentido a presença da feiticeira aumentar, assim como a de Syaoran. Depois avistou o tornado, na verdade os dois tornados que desapareceram. Olhou em torno ainda com a jovem em seus braços, apertando sua cintura enquanto ela tentava se recompor. Avistou um vulto se levantando e caminhando em direção a eles. O jovem franziu a testa, encarando-o. Não o conhecia.

‘Outro homem, Sakura? Você realmente é uma vadia.’ A feiticeira reconheceu a voz de Yanamoto, mas ela estava diferente, envelhecida.

‘Quem é você?’ Eriol perguntou, franzindo a testa.

Sakura afastou-se de Eriol e encarou Seiya que a olhava com raiva. Ele estava com aparência de mais de 50 anos. Ela o avisara, no final, ao destruir o kyonshi de Syaoran, tinha salvado a vida dele.

‘Você é louco, Yanamoto.’ Repetiu novamente. ‘Veja o que fez consigo mesmo.’

‘Você é que fez isso comigo!’ Ele gritou.

‘Não. Eu salvei você! Se continuasse a dar sua energia para aquele kyonshi você estaria morto!’ Ela o encarou.

‘Você… Vocês todos vão me pagar.’ Seiya falou, encarando os dois, antes de rodar sobre os calcanhares e se afastar.

Sakura acompanhou Seiya desaparecer na penumbra da noite. Voltou-se para Eriol e suspirou fundo.

‘Acho que seria melhor você conversar com Syaoran.’ Ela falou para ele. Eriol sentiu a voz dela chateada.

‘O que aconteceu, Sakura?’

Ela balançou a cabeça de leve. ‘Eu não sei direito.’

‘O que foram aqueles dois tornados que eu vi?’ Eriol insistiu.

‘Vento e Tempestade.’ Ela respondeu. ‘Mas isso não é hora. Depois tentamos entender o que aconteceu. Estou mais preocupada com Syaoran.’ Ela percebeu o rosto interrogativo do mago para ela. Precisaria explicar, mas não tinha forças para narrar aquele episódio dolorido. ‘Eriol… Ajude-me a encontrar Syaoran. Ele não está bem.’

‘Você não está bem!’ O mago quase gritou, segurando-a pelos braços. ‘Você está esgotada. Mas que diabos aconteceu aqui? Onde Li se meteu?’

‘Acho que ele foi colocar a cabeça no lugar.’ Ela respondeu. ‘Pena que sempre faz isso sozinho.’

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Syaoran corria pela cidade, abaixou-se para pegar impulso e saltou por cima das latas de lixo, depois pelo muro, alcançando o telhado de uma casa menor e logo em seguida um prédio alto. Observou a cidade de Tomoeda por cima. As luzes piscavam. A imensa lua cheia estava acima da cabeça dele. Passou uma das mãos no rosto e depois os dedos pelos cabelos suados. No que havia se tornado? O que ele era realmente?

How it feels

Como se sente

To be the broken

Ao ser o quebrado

‘Nada.’ Respondeu confuso.

Nunca tinha se questionado sobre como tinha retornado do mundo das trevas. No mundo da magia, nem todas as respostas são tão claras quanto ele gostaria. O problema era que, constatar como ficou o seu corpo depois que deixou a terra, tornava mais evidente que não era mais a mesma pessoa de antes de morrer.

‘Que confusão…’ Soltou irritado. Voltou-se novamente, continuando a correr, não sabendo exatamente para onde ia, só queria tentar colocar os pensamentos em ordem e não conseguiria fazer isso parado.

You took a piece now I'm biting back

Você pegou um pedaço agora estou mordendo de volta

Sakura tinha pedido para ele ficar frio. Ela estava desconfiada de alguma coisa. A feiticeira não era tola como ele supunha quando eram crianças. Sakura podia ser distraída quando o assunto eram sentimentos, mas sempre teve sensibilidade ímpar para detectar magia. Ele sempre a ajudava, mas era uma questão de escolha dele. A feiticeira saberia decidir qual Carta usar, talvez levasse um pouco mais de tempo, mas ela daria um jeito em tudo no final.

Corria pelo bosque de Tomoeda agora. Estava escuro e deserto àquela hora da noite.

“Só que, ao ir para lá, se conseguir voltar, não terá mais a natureza humana. Será um demônio.” Ele lembrou-se das palavras de Gabriel, explicando-lhe o que aconteceria. Estava ciente dos riscos. “Seu pior inimigo será você mesmo se ajustando a sua nova natureza.”

Enemies clawing at my eyes I

Inimigos arranhando meus olhos, eu

Pensando friamente, o que realmente Gabriel quis dizer com isso? Ele disse que daria conta, mas começava a pensar que vacilaria. Ver aquele kyonshi foi penoso demais. Observar Sakura destruindo-o com sua magia também não foi legal. Mesmo sabendo que ela não tinha outra escolha, fora dolorido demais.

Começou a socar uma árvore para tentar descontar a raiva que crescia dentro dele. E se ele enlouquecesse, o que ela teria que fazer? Soco. Ele não era mais o guardião, ele era agora o que os dois sempre perseguiram para eliminar. Chute alto. Soco. Para proteger as pessoas de coisas como ele. Soco. Soco. Chute.

Scratch and bleed just to stay alive yeah

Me machuco e sangro apenas para permanecer vivo, sim

Materializou sua espada e cortou a grande árvore ao meio. Girou a arma em volta do corpo e acertou mais duas que estavam por perto. Inferno! Tinha tanta raiva dentro dele que não conseguia nem se controlar. Raiva por tudo que tinha passado, por tudo que não pôde decidir por si mesmo.

Cravou a espada no chão e soltou vários palavrões. Como é que ele poderia pensar em ficar com a feiticeira se ele não era mais humano? Ele nem sabia o que era de verdade. Será que ele envelheceria? Seria capaz de ter filhos? Seria capaz de ter uma vida normal com a mestra das cartas?

The zombies come out at night

Os zumbis vêm esta noite

Franziu a testa, observando uma criatura se aproximando dele. Puxou a espada percebendo a presença mágica. Syaoran ergueu uma sobrancelha reconhecendo a figura de uma carta Sakura, mas tinha algo diferente nela. A presença dela oscilava entre uma carta Sakura e uma outra coisa.

‘Mas que diabos está fazendo aqui?!’ Ele perguntou, encarando Luta quando ela parou a sua frente.

They'll never catch me they'll never catch me

Eles nunca vão me pegar,eles nunca vão me pegar

Luta deu um passo a frente, encarando o rapaz e se colocando em posição de batalha. Syaoran não entendeu o que estava acontecendo. Por que a carta estava ali? Onde estaria Sakura? Será que ela havia ordenado que viesse até ele?

Take down for the count don't you dare count me out

Pare a contagem, não se atreva a não contar comigo

Não teve tempo para pensar nas respostas, pois viu Luta vindo em sua direção para atacá-lo. Arregalou os olhos e desviou do primeiro golpe por pouco, mas mal teve tempo para preparar um contra-ataque. A Carta veio para cima dele, tentando dar uma voadora, ele deu um passo para trás, e ela tentou atacá-lo em seguida com um chute alto, deu uma volta no corpo tentando atingi-lo com um chute giratório, ele desviou e ela se abaixou tentando dar uma rasteira nele.

Li desviava da sequência rápida de golpes, dando alguns passos para trás, protegendo-se com os braços e pulando para evitar ter as pernas atingidas. A carta estava mais rápida e também bem mais violenta que o normal nos ataques, não deixando espaço para ele contra-atacar, apenas se defendia como podia.

Never break never bow never beg, not a doubt

Nunca quebre, nunca ceda, nunca implore, não duvide

Li bateu as costas numa árvore e quase foi atingido pelo punho potente de Luta que desferiu um soco com tudo, quebrando a árvore.

‘O que você está fazendo? Onde está Sakura?’ Li perguntou novamente irritado e, como antes, não obteve resposta.

The zombies come out at night

Os zumbis vêm esta noite

A Carta voltou a golpeá-lo com tudo. Achou que já era demais e começou a reagir em vez de apenas se defender. Estava tentando encontrar a aura da namorada, mas não conseguia. Estava irritado demais com as coisas que aconteceram e agora com a carta atacando-o, conseguiria eliminar a raiva que sentia por todo seu corpo. Começou a lutar para valer.

Trocaram socos, chutes e voadoras. Golpes baixos e golpes altos destruindo tudo que estivesse no caminho dos dois. Syaoran conseguiu atingir a carta que recuou alguns passos, mas voltou a atacá-lo, logo em seguida. Quanto mais lutavam um contra o outro, mais rápidos e fortes se tornavam. Syaoran foi atingido no rosto e caiu no chão, com o impacto do golpe, usou os braços dando um impulso nas pernas, golpeando Luta e arremessando-a longe.

They'll never catch me

Eles nunca vão me pegar

Ela bateu numa árvore, mas usou o impacto, pegando impulso e saltou em direção ao rapaz, pronta para golpeá-lo com uma joelhada, que foi impedida pelos braços dele. Aproveitando que ela estava com uma perna só no chão, Syaoran golpeou-a, fazendo-a cair. Ela girou o corpo acertando-o agora nas pernas. Ele rolou, evitando novamente ser atingido e levantou-se, já impedindo um novo ataque furioso da carta. Desviou, novamente, girou o corpo e, aproveitando a força da inércia, deu um golpe com as costas da mão. A carta cambaleou, mas voltou a atacá-lo.

O rapaz sentia o corpo dolorido, tinha sido atingido várias vezes, mas sorriu de lado. No fundo estava gostando de lutar. De alguma forma, aquela luta tinha desviado suas atenções do que o perturbava tanto.

They'll never catch me

Eles nunca vão me pegar

De repente, Luta parou, observando-o. Ele estava com a respiração ofegante, mas ainda estava pronto para voltar à luta. Ela virou-se para o lado e observou sua mestra se aproximando devagar. Sakura franziu a testa, observando os dois. Eriol estava logo atrás dela, também olhando assustado para a forma original da carta.

‘Não é a energia de uma carta Sakura!’ O mago falou, verificando a diferença da presença do ser mágico. ‘Tenha cuidado!’ Alertou para sua sucessora.

Sakura ainda fitava a carta, tentando entender o porquê a presença dela estava oscilante. Levantou o báculo. ‘Volte à forma humilde que merece!’ Ela ordenou, mas não foi obedecida.

‘Eu lhe disse que não é uma carta Sakura!’ Eriol repetiu.

‘É, sim!’ A Feiticeira falou, parando em frente a carta e a encarando. A presença dela estava diferente, mas ela reconhecia sua carta. Levantou novamente o báculo e a encarou.

‘Sakura…’ Syaoran chamou a namorada que não o ouviu.

Ela não sabia o que estava acontecendo. Havia se concentrado para tentar identificar onde estava Syaoran e se assustou quando sentiu uma presença mágica diferente perto do namorado. Mas agora entendia, Luta a guiara para que chegasse até ele. O como e o porquê ela não sabia ainda, mas reconhecia suas amigas e, principalmente, conseguia reconhecer que elas estavam diferentes por algum motivo.

Como uma mãe de adolescentes, ela novamente teria que impor sua magia para fazer com que a obedecessem e para que sua vontade se sobrepusesse às manifestações autônomas das Cartas.

Sakura apertou o báculo com as mãos e fechou os olhos. Explodindo sua presença mágica. ‘Volte à forma humilde que merece!’

A aura da feiticeira aumentou de forma estupenda e a carta foi pega de surpresa pela energia de sua mestra. Apesar de lutar, inicialmente, para evitar voltar a ser uma lâmina mágica, acabou se tornando uma e pousou nas mãos de sua mestra.

Sakura mal sentiu as pernas. Acabou de joelhos com as mãos a sua frente para evitar cair totalmente ao chão. Tinha usado bastante magia de uma só vez, mas, principalmente, estava esgotada psicologicamente com os eventos da noite.

Syaoran se aproximou dela, abaixando-se a sua frente e segurando os ombros da feiticeira. ‘Você está bem?’

Ela respirava com dificuldade. Estava realmente cansada. Fechou os olhos. ‘As cartas…’ Ela sussurrou.

‘O que tem elas, Sakura?’ Ele perguntou.

Ela não conseguiu responder, acabou caindo sem os sentidos a frente do rapaz que a pegou antes de bater no chão. ‘Sakura!’ Ele ainda a chamou, mas ela não respondeu. Eriol se aproximou, observando o rapaz pegar a namorada nos braços.

‘O que está acontecendo aqui, Hiiraguizawa?’ Ele perguntou, fitando o rapaz com o rosto duro.

‘Eu é que pergunto!’ Eriol respondeu com uma outra pergunta. ‘O que está acontecendo com vocês dois e as cartas?’

Syaoran apertou a namorada nos braços. Verdade era que lutar contra a carta de Sakura o ajudara a descontar a raiva e colocar a cabeça no lugar, mas não entendeu o porquê dela ter aparecido para ele e, principalmente, o porquê dela se recusar a obedecer de imediato sua mestra.

Eriol deu um passo à frente e fitou Sakura nos braços de Li. ‘Ela está esgotada. Precisa descansar para se recuperar.’

‘Vamos para casa.’ Syaoran falou, começando a caminhar em direção a casa deles.

Eriol foi logo atrás, tinha que tentar entender o que estava acontecendo, pois suas suspeitas sobre o possível descontrole das cartas poderia levá-lo a conclusões muito perigosas.

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Tomoyo olhava para a amiga ainda adormecida. Syaoran tinha chegado em casa com ela desacordada nos braços. O rapaz estava com vários ferimentos no corpo, mas informara à jovem que estava bem. Eram só ferimentos superficiais. Eriol vinha com ele.

Ela tinha combinado com a amiga de se encontrarem aquela noite para discutirem os preparativos para a despedida do inglês, mas não chegavam nunca em casa. Estava morta de preocupação quando os viu chegar.

‘Isso parece que nunca vai terminar….’ A jovem deixou sair de seus lábios.

‘Parece que não, Tomoyo.’ Ela ouviu a voz de Eriol vindo da porta do quarto onde estava.

A jovem se virou para ele. ‘E Syaoran?’

‘Está tomando banho.’

‘Ele estava muito machucado.’

Eriol confirmou com a cabeça. ‘Mas parece que está melhor. Recusou-se a ir ao hospital.’

Tomoyo passou a mão no rosto da jovem e se levantou. Parou em frente a Eriol. ‘Agora você me conte o que houve.’

Ele balançou a cabeça de leve. ‘Eu não sei. Estou aqui justamente esperando para eles me explicarem.’

‘Eu vou tentar falar com Syaoran’ Ela falou. ‘Tentar colocá-lo, novamente, contra a parede para ver se fala alguma coisa.’

‘Como sempre…’

‘Sim… Syaoran tem muita dificuldade de falar o que sente. Desde criança.’

Ele sorriu para ela. ‘E você sabe exatamente como arrancar as coisas dele, não?’

Tomoyo franziu a testa. ‘O que você quer dizer com isto?’

Ele inclinou o rosto a frente e fitou a jovem. ‘Você, no fundo, é igual a mim.’

‘Do que você está falando?’

Eriol se afastou dela e começou a descer as escadas para a sala. Tomoyo foi atrás dele. ‘Hei! Do que você está falando, Eriol?’

Ele não respondeu. Tinha se arrependido de insinuar algo para a morena. Ele estava chateado com ela porque vinha passando o tempo todo com Kurogane desde que voltaram da China. Se ela amava Sakura por que continuava a dar esperanças para o rapaz? Seria mais honesto simplesmente dar um fora nele. Isso não era justo.

O rapaz balançou a cabeça de leve, quem era ele para determinar o que era certo ou errado? Por que estaria se sentindo incomodado pelo que a amiga de infância estava fazendo da vida dela? Sentiu quando a jovem segurou seu braço com força, obrigando-o a parar e encará-la novamente.

‘Você não me respondeu.’

‘Eu não tenho todas as respostas.’

‘Então não faça comentários do que não entende. O que você quis insinuar entre eu e Syaoran?’

‘Eu não quis insinuar nada. Eu simplesmente falei que você sempre soube pressioná-lo para arrancar dele a verdade.’

‘Syaoran é um rapaz muito gentil e foi um menino muito bom.’

‘Ah, sim… Ele é o herói e eu!’ Falou apontando para si. ‘Eu sou o vilão.’

‘Hei?! O que está acontecendo com você?’ A jovem perguntou, soltando-o.

‘Nada!’ Ele falou irritado. Estava desviando o assunto do seu principal motivo de sua irritação.

‘Você está fugindo da resposta.’ Tomoyo falou de forma firme. ‘O que está acontecendo com você?’ Repetiu devagar.

‘Vocês não precisam mais de mim. Eu vou voltar para a Inglaterra.’

‘Sakura e Syaoran sempre vão precisar de você, Eriol.’ Ela falou, colocando uma mão no ombro do rapaz. ‘Foi você quem os uniu. Mesmo que com uma ideia errada no começo, foi justamente o que você fez que resultou nos sentimentos de um pelo outro.’

Eriol pousou sua mão em cima da mão da jovem. ‘Eu… Eu realmente não tenho tanta certeza disso.’

‘Pois tenha a certeza.’

Ele suspirou. ‘Onde está aquele seu amigo que vive me encarando?’ Finalmente perguntou o que queria.

‘Yuo?’ Ela perguntou, sentindo o total desvio do assunto.

‘Yuo? Já se tratam pelo primeiro nome?’

‘Assim como trato você e Syaoran pelo primeiro nome!’ Falou irritada.

O rapaz sorriu de maneira zombeteira. ‘E ele não está aqui ao seu lado, por quê?’

‘Ora, acho que está estudando a esta hora.’ Ela olhou o relógio de parede. ‘Ah, não! Hoje ele tinha treino de basquete.’

‘Você sabe tudo dele, não é?’ Perguntou, recriminando-se logo em seguida. A jovem o encarou com o rosto interrogativo. ‘Desculpe-me pelo comentário. Estou apenas… Nervoso com a situação de Sakura e Li.’ Deu como desculpa.

‘E onde está sua esposa agora, Eriol?’ Tomoyo perguntou com o rosto sério para o rapaz que arregalou os olhos.

‘Está em Londres, claro!’ Respondeu com tom irônico.

Tomoyo parou a frente dele, encarando-o. ‘Está na hora de você saber mais sobre sua esposa do que apenas em que cidade do mundo ela está, não acha?’

Eriol trincou os dentes. Ela estava certa. Tomoyo sempre estava certa. Estava na hora de voltar para casa, para sua vida pacata de antes. O problema é que não queria. Queria permanecer no Japão. Estava preocupado com Sakura e Syaoran. Preocupado com as Cartas, preocupado com o que o Círculo queria com sua sucessora. Também estava preocupado com Tomoyo... Mas por quê?

‘Acho que você está certa.’

‘Sim. Eu estou. Agora coloque sua cabeça no lugar. Você não é assim.’ Ela falou com a voz firme.

O rapaz tentou relaxar. ‘Estou tentando.’

‘O seu problema, Eriol, é que você não suporta saber que não tem as coisas sob o seu controle. Você acha que pode prever tudo, como Clow, mas não entende que até mesmo Clow errou suas previsões. Olha só a confusão em que estamos justamente porque ele achou que tinha todas as respostas!’

Ele desviou os olhos da morena. ‘Não gosto dessa incerteza.’ Falou com sinceridade. ‘Não gosto de não saber o que está acontecendo. Principalmente comigo mesmo.’

‘Pois está na hora de colocar a sua cabeça no lugar para poder ajudar seus amigos. Sua sucessora e seu descendente.’

‘Eu não sou Clow!’ Ele falou entre os dentes.

‘Você foi Clow. Então, se tem alguém que pode ter as respostas, mesmo que interpretadas erradas inicialmente, é você.’

‘Eu não sei nem o que se passa comigo.’ Ele sussurrou, afastando-se da jovem que pegou seu rosto com as mãos, forçando-o a olhar para ela. Ele sentiu o rosto esquentar e o coração bater de forma descontrolada com o toque suave da morena.

‘Você precisa colocar a cabeça no lugar, Eriol. Você precisa orientar os dois.’

Contemplaram-se de forma profunda. Eriol levantou as mãos, segurando as de Tomoyo, que estavam sobre seu rosto. Engoliu em seco e desceu os olhos, fitando os lábios rosados e pequeninos da amiga de infância. O que estaria acontecendo com ele? Inclinou-se para frente e sentiu que Tomoyo se afastaria, mas segurou as mãos dela, evitando que ela as tirasse de seu rosto.

A jovem arregalou os olhos, observando a aproximação do amigo. Realmente tentou se afastar dele, mas ele segurou suas mãos de forma tão firme. Sentiu o coraçãozinho começar a bater de forma descontrolada. Abriu os lábios sem querer e os sentiu secos.

‘Tomoyo!’ Eles ouviram a voz de Syaoran, chamando a amiga. Afastaram-se com um pulo e observaram o rapaz encarando-os de forma séria. Tomoyo desviou os olhos para qualquer canto da sala que não fosse Li ou Eriol.

Syaoran observou o completo desconcerto dos amigos de infância. Não era bobo como quando menino. Estava acontecendo alguma coisa ali e resolveu intervir pela amiga. Eriol era um homem casado. Isso não estava certo.

O chinês estava com o rosto duro, encarando Eriol que também estava se sentindo perdido pelo que quase acontecera e sentindo-se incrivelmente sem graça por ter sido pego em flagrante por Syaoran. Sentiu o olhar de desaprovação dele e detestou isso.

Li parou perto de Tomoyo, mas ainda encarava Eriol. ‘Melhor ficar com Sakura, Tomoyo. Ela deve acordar daqui a pouco.’ Ele falou e viu a amiga concordar com a cabeça antes de subir as escadas em direção ao quarto. ‘Acho que seria melhor a gente falar com Yue e Kerberus, não acha?’

O mago deu de ombros. ‘Acho que sim.’

O rapaz parou a frente dele. ‘Olha… Não vou me meter na sua vida, mas um homem não fica em cima do muro.’

Eriol encarou o rapaz. ‘Do que você está falando?’

‘Não sou mais um garoto, Hiiraguizawa. Então não me trate como um idiota. E não confunda as outras pessoas. Decida o que você quer primeiro, antes de envolver os outros.’

‘Não sei do que está falando.’ Ele falou irritado e se afastando do rapaz.

‘Sabe, sim. Você não tem mais idade para ficar fazendo confusão na vida alheia e se divertindo com isso. Entendeu?’

Ele tinha entendido. Encararam-se por alguns segundos antes do chinês decidir ligar para Touya e chamar os guardiões de Sakura. Tinham que tentar entender o que estava acontecendo com as cartas e, talvez, Kerberus e Yue pudessem ajudá-los, já que, pelo jeito, Eriol estava com problemas humanos demais na cabeça.

Continua.

Notas finais
Música do Capítulo: Back From The Dead (Voltei da Morte) by Skillet