FEITICEIROS
64 A Chave da Temperança
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FEITICEIROS
Por Kath Klein & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 64
A Chave da Temperança
Shaolin caminhava devagar atrás do grande homem à sua frente. Olhou em volta e reparou na casa de madeira. Havia muita magia circulando por todos os cantos daquele lugar. Reparou nos símbolos que Marie havia comentado e ficou curioso para tentar entendê-los.
‘Meu nome é Shaolin Li.’ Ele falou e o homem voltou-se para trás, observando o garoto por sobre o ombro esquerdo.
‘Thorbjørn Aarhus.’ Ele finalmente se apresentou para o garoto e sorriu de leve. ‘Você tem muita coragem ou realmente não tem a menor noção do perigo que está correndo, garoto.’ Ele falou.
‘Não tive escolha.’ Respondeu, dando de ombros.
‘Sempre a temos.’
Shaolin ergueu uma sobrancelha. ‘Assim como sempre é possível reconsiderar nossas convicções, não?’
Thorbjørn sorriu de leve e balançou a cabeça. ‘Você é esperto. Está falando isso por causa daqueles que o estavam acompanhando. Deveria ficar atento.’
‘A estrela sempre terá cinco pontas, Aarhus-san. Tudo é uma questão de percepção. De onde você a está olhando.’
Thorbjørn parou de caminhar e voltou-se para o garoto, encarando-o com o rosto sério. ‘Sou sucessor do mago Eliphas Levi, garoto. Aquele que, juntamente com Edward Lytton, iniciou os contatos com seres de outras esferas de realidade e que teve a revelação das sete chaves que agora você está fadado a destruir.’
Shaolin arregalou os olhos, observando-o. O homem suspirou e desviou os olhos dele.
‘Ele foi traído pelo Mago Papus que publicou seus estudos e distorceu tudo. Transformou a revelação das sete chaves nos sete selos do Apocalipse de forma que todo o conhecimento adquirido por eles fosse considerado profano.’ Ele explicou e voltou a encará-lo. ‘Por isso o advirto para que não confie tanto assim naqueles que se dizem seus amigos.’
‘Por isso que vive isolado desta forma?’ Shaolin comentou. ‘Tem medo de ser traído como seu mestre?’ O homem ficou em silêncio um tempo. ‘Não acha muito extremo tomar para si as experiências dos outros? Mesmo que seja seu mestre.’
Thorbjørn sorriu de forma triste. ‘Eu também fui traído. Por meu amigo de infância, aquele a quem considerava como irmão. Conheço exatamente o gosto amargo.’ Esclareceu e voltou a caminhar seguido por Shaolin. Finalmente chegaram a uma câmara redonda.
Shaolin observou o lugar. Nas paredes havia várias inscrições rúnicas, além de inúmeras prateleiras com livros e manuscritos. Reparou em alguns símbolos da cabala que estavam por todo o ambiente assim como as runas. Olhou para cima e viu um grande pentagrama inscrito com magia no teto.
O menino abaixou o rosto e fitou o objeto exótico no centro da sala. Parecia uma grande corneta de metal no formato de um chifre. Thorbjørn caminhou até ele e o pegou com as duas mãos, virando-se para Shaolin.
‘Assim que o segurar, estará sozinho.’ Ele falou para Shaolin que assentiu com a cabeça e estendeu os braços em direção a ele.
O homem hesitou alguns segundos, olhando para o menino a sua frente e pensando se realmente seria justo dar a ele aquele tipo de responsabilidade. Abaixou os olhos para o Gjallarhorn e o apertou de leve em suas mãos.
‘Você tem certeza?’ Perguntou mais uma vez, hesitante.
Shaolin inclinou a cabeça, observando-o. ‘Tudo vai dar certo.’
Thorbjørn concordou com a cabeça. ‘Espero que esteja certo.’ Disse, finalmente, estendendo Gjallarhorn para o menino que o segurou com as duas mãos.
O objeto mágico começou a brilhar de forma intensa, obrigando Shaolin a fechar os olhos e, assim que os abriu, viu-se, novamente, no vazio.
Respirou fundo. ‘Vamos lá, mais uma vez, para a sessão de perguntas complexas.’ Murmurou para si.
Franziu a testa, não encontrando ninguém. Deu uma volta em torno de si, estranhando. Onde estaria o tal do Heimdall?
‘Olá!’ Chamou, olhando para os lados e para trás, mas só via o vazio. Coçou a cabeça sem entender direito o que fazer. ‘E agora o que eu faço?’ Perguntou para si.
‘Não pode fazer nada agora.’ Finalmente ouviu uma voz às suas costas e virou-se, notando em um senhor sentado com as pernas cruzadas numa cadeira.
Não tinha uma postura muito ameaçadora como Janus ou Shamash. Caminhou até ele parando a sua frente. ‘Estou aqui para destruir a chave de Heimdall.’
O senhor assentiu com a cabeça sem falar nada, apenas fitou o menino e sorriu de leve, como se esperasse alguma coisa.
Shaolin franziu a testa. ‘Não vai me fazer um monte de perguntas?’
O senhor cruzou os braços. ‘Não.’ Respondeu, fazendo Shaolin arregalar os olhos de leve. ‘O certo é você me fazer as perguntas para as quais quer a resposta. Não fui eu que o procurei, foi você quem veio até mim.’
‘Humph.’ Shaolin murmurou. Estava preparado para responder e não para fazer perguntas. Desviou os olhos dele, sem saber o que fazer agora. ‘Você é Heimdall?’
O senhor assentiu com a cabeça. ‘Esta é a forma que eu escolhi para estar à sua frente.’
‘Pelo menos não é ameaçadora.’ Ele comentou, sorrindo de leve.
‘Nem sempre a força física é o que faz alguém ser forte.’
Shaolin assentiu com a cabeça. ‘Técnica também é muito importante.’
‘Exatamente. Estudo. Conhecimento.’ Ele completou
‘Mas a prática também é importante. Apenas saber algo de forma teórica não dá o resultado necessário.’ Shaolin comentou, pensativo.
‘Conhecimento também pode ser adquirido de forma empírica.’
‘Isso. A prática pode levar à perfeição, não?’ Shaolin falou.
‘Sim. Mas nem sempre há tempo e oportunidades para isso. Conhecimento prévio faz com que metade do problema já seja solucionado.’
‘Sim… tousan sempre fala que conhecer o inimigo já é metade da luta ganha.’
‘A Arte da Guerra. Muito bom.’ Heimdall comentou, sentindo-se satisfeito.
‘Preciso saber como destruir estas chaves…’ Shaolin começou e hesitou por alguns segundos. ‘Pode me dizer o que preciso fazer?’
‘Você já destruiu duas e ainda não entendeu…’ Ele balançou a cabeça de leve e o fitou. ‘Está vendo que, nem sempre, apenas a prática lhe dará as respostas.’
Shaolin desviou os olhos dele. ‘Preciso destruir logo. Meu irmão me espera e ele não é muito paciente. Como posso fazer isso?’ Voltou a fitar o senhor. ‘Você pode me fazer todas as perguntas que quiser e eu responderei.’
Heimdall deu um longo suspiro. ‘Aqui…’ Ele falou, levantando o braço e, de repente, os dois foram cercados por infinitas prateleiras cobertas de livros e manuscritos, como uma imensa e infinita biblioteca. ‘Existem todas as respostas. Então… faça você as perguntas.’
Shaolin olhou abismado para a quantidade de livros e textos que circulava os dois. Deu uma volta em torno de si sem conseguir ver onde começavam e onde terminavam as prateleiras. Fitou novamente o senhor e sorriu. ‘Então posso fazer qualquer pergunta e você me dará as respostas?’
O senhor assentiu com a cabeça.
‘Como destruo as chaves?’
‘Você é testado. Cada chave testa uma de suas virtudes.’
‘Virtudes? Como assim?’
Heimdall deu um suspiro entediado. ‘Na chave de Janus foi testada a sua avareza. Nem sempre a avareza é apenas a ganância por bens materiais. Também podemos considerar avareza o apego àquilo que já se tem, o endurecimento do coração para não abrir mão de algo. E ao fazer isso, você estava enganando a si mesmo e aos outros, não é? Quando você admitiu para si mesmo que amava de forma não-fraternal sua amiga de infância, superou sua avareza no coração.’
Shaolin concordou com a cabeça entendendo o que ele estava explicando.
‘Na segunda chave você foi testado quanto a acídia.’ Heimdall riu ao ver o semblante interrogativo do menino. ‘Acídia é a preguiça da busca espiritual. É quando a pessoa fica acomodada e passa a deixar que os outros tomem todas as decisões morais e espirituais por elas. Preguiça de pensar por si e a aceitação automática do que os outros lhe passam. Algumas pessoas acham que isso é considerado senso comum…’ O ancião franziu a testa, mostrando-se incomodado. ‘Isso é mais uma definição para a “preguiça de pensar” coletiva. Logo, quando redefiniu suas próprias definições de certo e errado, independentemente do código de ética em que você foi instruído, libertou-se da acídia. Foi então que as chaves foram destruídas.’
Shaolin franziu a testa de leve pensando. ‘Então vou ser testado ainda com a gula, ira, inveja, luxúria e orgulho…’ Falou enumerando com os dedos da mão.
‘Exatamente.’ Heimdall respondeu de forma suave. ‘Mas não adianta apenas saber disso, todos conseguem ler sua alma. Não tem como nos enganar.’
‘Isso não seria honesto.’ O menino falou, encolhendo os ombros. ‘Apesar de que não foi bem este o treinamento que tousan me deu durante tanto tempo.’
‘E, mesmo assim, você recebeu os ensinamentos necessários para passar nos testes.’
‘E por que isso tudo está acontecendo? O que está acontecendo com a kassan?’
‘Ela recebeu um poder extraordinário sem o devido treinamento. Todo poder requer um preço, mas Aquele que está acima de todos nós foi sábio e contornou a situação fazendo sua mãe e seu pai serem almas gêmeas. A sabedoria está acima da compreensão humana.’ O senhor respondeu e deu um suspiro. ‘O que está acontecendo com ela é consequência da ganância de um grupo de indivíduos que buscam o poder que ela recebeu.’
‘São estas pessoas que estão nos atacando?’ Shaolin perguntou, sentindo-se satisfeito por finalmente ter suas perguntas respondidas de forma direta.
‘Exatamente.’
Shaolin franziu a testa de leve, olhou para o senhor ainda um pouco desconfiado. ‘Eu posso perguntar tudo que eu quiser?’
‘Claro. Como eu falei, aqui você pode ter todas as respostas que procura. Pode saciar toda a sua curiosidade, sua busca por conhecimento e sabedoria.’
‘O que está acontecendo comigo? Por que estou sentindo aquelas presenças ou energias diferentes?’
‘Sua magia está aumentando. Isso o torna mais sensível a todas as energias que circulam o ambiente e não apenas as energias mágicas. As emoções humanas vibram em cadências diferentes, a energia flui em frequências diferentes, e é justamente isso que você está percebendo melhor.’
‘Mas por que isso está acontecendo agora?’
O ancião sorriu de leve. ‘Você sempre teve sensibilidade para isso. Por isso quando percebeu que sua amiga de infância sentia por você algo maior que apenas amor fraternal, teve o estalo para perceber que também sentia por ela algo que estava bem longe de ser amor entre irmãos. Só que tinha medo, não?’
Shaolin desviou os olhos do ancião, sentindo o rosto esquentar.
‘Ah! A juventude. Sempre tão intensos.’ Heimdall comentou, rindo levemente. ‘Além disso…’ Continuou. ‘Foi fácil para você perceber que seu irmão, mesmo tendo vindo das trevas, tinha sentimentos bons com relação a sua família e inclusive com você. Você sempre teve esse dom, apenas o está evoluindo. Expandindo-o. Tornando-o mais e mais forte.’
Shaolin encolheu os ombros. ‘Não adianta nada conseguir perceber isso e preferir ignorar, não é?’
O senhor estreitou os olhos no menino a sua frente.
Shaolin levantou os olhos para ele. ‘Foi como você mesmo falou…’ Começou e soltou um longo suspiro. ‘Eu tinha percebido os sentimentos de Kasumi, mas preferi forçar tudo a permanecer como antes. O status quo era mais seguro, eu achava. Para ela… e para mim.’
Heimdall finalmente levantou-se e caminhou até o menino, parando a sua frente. ‘Você pode fazer qualquer outra pergunta. Todas as respostas estão aqui. Você pode ter o conhecimento infinito.’
Shaolin levantou o rosto, fitando o homem e depois desviou os olhos para os infinitos livros. ‘Eu sabia que, no fundo, Kazuo era uma boa pessoa.’ Ele continuou a falar. ‘Mas estava com tanta raiva por desconfiar do meu pai que fui hostil com ele. Fui agressivo. Magoei meu pai e minha mãe. Sabia que Kazuo tinha vindo do inferno onde sofreu horrores, mas estava preso à minha própria dor.’
‘Você tinha apenas parte do conhecimento.’ Heimdall ponderou. ‘Por isso é importante saber. Ter as respostas…’
‘Talvez…’ Shaolin falou, encolhendo os ombros envergonhado. ‘Estava querendo ser racional e não queria enxergar as atitudes deles, queria ignorar o que eu estava percebendo. Tanto de Kasumi, como de Kazuo… e talvez de outras pessoas à minha volta.’
‘Pergunte e eu lhe darei toda e qualquer resposta.’ Heimdall insistiu.
Shaolin abaixou o rosto, sentindo-se mais envergonhado ainda no que concluía. ‘Não adianta eu ter todas as respostas se não consigo controlar e entender a mim mesmo. Eu não conseguia admitir que amava Kasumi de forma romântica. Eu sonhava com ela, desejava tê-la em meus braços. Morria de ciúmes quando qualquer garoto se aproximava dela, mas mesmo assim continuava querendo acreditar que eu a amava como uma irmã.’ Soltou um suspiro dolorido. ‘Também não conseguia aceitar Kazuo como irmão… Marie me explicava as coisas e eu simplesmente não queria acreditar. Não adianta ter acesso à informação e à sabedoria se sua mente está fechada para o que está acessando.’
Heimdall calou-se e apenas fitou o menino a sua frente. Esperando. ‘Você não quer mesmo fazer nenhuma pergunta?’ Finalmente perguntou algo.
‘Quero fazer milhões de perguntas, mas antes de querer entender sobre o mundo, sobre o universo ou universos, preciso entender o que se passa comigo.’ Falou apontando para seu peito e sentindo-se decepcionado com ele próprio.
‘“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o universo e os deuses”, já dizia Sócrates.’ Heimdall falou, sorrindo abertamente para o garoto.
As estantes começaram a girar em volta dos dois, envolvidas por uma luz cálida que aumentou conforme a velocidade em que giravam. Shaolin fechou os olhos, incomodado com a luminosidade e levantou o braço, colocando-o à frente do rosto.
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Marie se afastou de Kazuo que ainda tinha a respiração ofegante, mas parecia mais controlado.
‘Você está bem?’ Falou, pegando o rosto dele entre suas mãos e fitando-o.
Ele respondeu que sim com um gesto e desviou os olhos dela, fechando-os por alguns instantes. Voltou a abri-los, segurando as mãos dela. ‘Precisamos ir atrás de Shaolin.’ Ele falou e abaixou as mãos de Marie.
‘Sim.’ Ela concordou, levantando-se. Observou o rapaz levantar, o corpo dele ainda estava trêmulo e não era de frio por causa da chuva. ‘Você está bem mesmo?’ Perguntou, observando-o de forma preocupada.
‘Estou.’ Ele respondeu. ‘Foi apenas um pesadelo.’ Repetiu o que ela tinha lhe falado.
‘Isso.’ Marie confirmou mais uma vez.
Kazuo respirou fundo e endireitou o corpo. Olhou para onde o tal Englund ainda tentava se livrar dos ramos mágicos que o prendiam firmemente. Franziu a testa.
‘Bruxo desgraçado…’ Sussurrou entre os dentes. ‘Não tinha o direito de entrar na minha cabeça.’ Falou, estendendo a mão para o lado e fazendo a espada voar até ela.
Apertou mais forte a empunhadura tentado a ir até o homem e cortá-lo ao meio por obrigá-lo a viver aquele pesadelo. Chegou a dar um passo em direção a ele, mas voltou-se para trás, observando a casa do tal Thorbjørn Aarhus.
Sua prioridade agora era o irmão, já tinham se passado muito mais que os 10 minutos e Shaolin ainda não havia retornado. Caminhou em passos duros em direção a porta por onde o menino tinha atravessado junto com o protetor da chave e a chutou com força, fazendo-a abrir. Marie observou a aura do rapaz expandir de forma rápida, ele estava bem nervoso e agitado. Foi atrás dele.
Kazuo se concentrou procurando a presença do irmão que estava bem fraca. Ele devia ainda estar em transe. Caminhou pelo corredor com a espada a frente do corpo e esperando pelo grandão arrogante que não o deixou entrar junto com o garoto.
Logo alcançaram o amplo ambiente circular no qual estavam Thorbjørn e Shaolin. Arregalou os olhos de leve e franziu a testa, vendo novamente o irmão naquele estado em que odiava. Pelo menos não estava em nada que se parecesse com aquela Dama de Ferro. Sentiu-se aliviado por isso.
Thorbjørn Aarhus desviou os olhos do menino e fitou, surpreso, o casal que havia invadido sua residência, franziu a testa incomodado e foi até os dois, com o rosto contrariado.
‘Já falei que seres como vocês não entram em minha casa! Saiam daqui!’ Ordenou, impedindo que Kazuo se aproximasse do irmão.
Kazuo levantou a espada a sua frente. ‘Já dei mais que 10 minutos. Vim buscar meu irmão.’
‘Ele ainda não voltou. Se tirá-lo daqui, ele morre.’
‘Então eu vou acordá-lo! Saia da minha frente.’ Kazuo rebateu.
Marie parou entre os dois. ‘Parem!’ Ela gritou. Olhou para Thorbjørn com o rosto sério. ‘Seu amigo apareceu e nos atacou! Para quem tem um discurso convicto de que tudo é preto ou branco, você tem amigos muito peculiares.’
Ele arregalou os olhos de leve. ‘Do que está falando, Feiticeira?’
‘Wilder Englund’. Marie respondeu. ‘Veio fazer uma visita para você e nos atacou.’
‘Wilder?!’ Ele falou em tom de urgência. Franziu a testa, concentrando-se brevemente e arregalou os olhos surpreso por finalmente perceber a energia nociva do ex-amigo. Estranhou ao perceber que ele estava parado em frente a sua casa e não a tinha invadido ainda. Virou-se para o menino que ainda estava em transe e voltou-se para o casal com o rosto preocupado. Não sabia exatamente o que fazer naquele momento. Sua missão era ficar ali até o garoto retornar ou... voltar a guardar o gjallarhorn. Se o pior acontecesse, não saberia o que fazer com o corpo do menino.
Kazuo desviou de Marie e tentou se aproximar do irmão, mas Thorbjørn novamente se colocou no caminho dele.
‘Só pode se aproximar quando a chave for destruída ou quando ele a soltar.’
‘Aquele chifre horroroso nas mãos dele é a tal chave?’ Kazuo perguntou e Thorbjørn assentiu com a cabeça.
Marie olhou para o primo e depois para Kazuo. Pelo tempo que Shaolin entrou, ele já deveria ter voltado, quanto mais tempo ele passasse em transe, mais a alma dele se desconectaria do corpo.
‘Agora chega.’ O rapaz falou, empurrando o grandão a sua frente. ‘Vou acordá-lo de qualquer maneira.’ Falou, aproximando-se do irmão quando se assustou ao ver o tal chifre nas mãos dele explodir em energia mágica e o menino cair sentado no chão.
Thorbjørn sorriu de leve, percebendo que o garoto tinha conseguido. Realmente chegou a pensar que teria que voltar a guardar o gjallarhorn. Estava para se aproximar, mas se reteve, observando o rapaz que se ajoelhava à frente do garoto, largando a espada no chão e segurando-o pelos ombros, enquanto o chamava. Ele estava verdadeiramente preocupado com o irmão.
Inclinou a cabeça de lado intrigado ao observar as duas auras mágica tão diferentes e opostas estarem próximas daquela maneira de forma harmoniosa. Realmente eram irmãos, não havia dúvidas.
Marie passou pelo grandão e o olhou de esguelha. ‘Entre o branco e o preto, existem várias tonalidades de cinza, senhor Thorbjørn Aarhus.’ Comentou, aproximando-se dos dois e abaixando-se para ver como o primo estava.
Thorbjørn ouviu o que a garota falou e novamente concentrou-se na presença do ex-amigo que se mantinha lá fora. Reparou que a energia dele aumentou e franziu a testa.
‘Fiquem aqui.’ Ele ordenou, caminhando em direção à entrada da casa para reencontrar Wilder Englund. Tinham algumas contas a serem ajustadas.
Marie desviou os olhos de Shaolin, que estava sendo sacudido novamente por Kazuo, e observou o homem saindo do recinto. Voltou-se para Kazuo e repousou a mão no ombro dele. ‘Acalme-se. Ele já conseguiu destruir a chave, logo acordará.’
Kazuo segurou mais forte os ombros do irmão a sua frente. ‘Está demorando demais desta vez. Ele ficou muito tempo em transe.’ Respondeu sem tirar os olhos do irmão.
Sentia que a temperatura do corpo do garoto estava baixa e, por estar com as roupas molhadas, devido a chuva que pegaram, tinha a impressão de que estava mais gelado que nas outras vezes.
Marie empurrou Kazuo de leve e pegou o rosto de Shaolin entre as suas mãos, também percebeu isso. Olhou para o lado e concentrou sua magia para que uma labareda queimasse ao lado deles, aquecendo o ambiente para elevar a temperatura do garoto.
‘A respiração dele está mais fraca.’ Kazuo observou. ‘Droga! Eu vou matar aquele desgraçado por me ter feito perder tempo.’
‘Shaolin-kun.’ Marie chamou o primo, apertando as mãos no rosto dele. ‘Shaolin, acorda logo, pirralho!’ Falou, começando a perder a calma que tentava ter para controlar Kazuo.
Shaolin abriu os olhos devagar. Piscando algumas vezes e fazendo tanto ela quanto Kazuo voltarem a respirar.
Marie sorriu para o primo aliviada e o abraçou. ‘Você realmente adora dar susto na gente, pirralho.’
Shaolin sorriu de leve. Estava virando rotina, pelo visto, a prima abraçá-lo toda vez que o via. Não se lembrava dela ser tão carinhosa desta forma, antes. ‘Poderia parar de me chamar de pirralho, não?’ Shaolin retrucou.
Marie se afastou dele, franzindo a testa, mas ainda o segurava pelos ombros. ‘Você sempre será um pirralho teimoso.’ Ela retrucou, fazendo-o fechar os olhos e balançar a cabeça de leve, conformado com o eterno apelido que a prima lhe deu.
‘Eu estou legal.’ Ele falou, afastando-se ela e tentando se levantar, mas ainda não tinha força no corpo. ‘Só preciso de um tempo agora.’
Kazuo tocou no ombro dele, fazendo o garoto se voltar para o irmão. ‘Como você está?’
Shaolin sorriu de leve. ‘Acho que sem machucados novos.’ Respondeu, tentando brincar, mas viu que o irmão ainda mantinha o rosto sério. ‘Estou bem, Kazuo. Sinto-me melhor do que das outras duas vezes.’
‘Vamos… eu o ajudo a se levantar.’ Falou pronto para pegar o irmão.
‘Espere um pouco.’ Shaolin falou, voltando-se para a entrada do cômodo onde estavam. ‘Vamos ficar aqui mais um tempo. Vamos dar tempo para os dois se acertarem lá fora.’
Marie franziu a testa. ‘Do que está falando?’
Shaolin fez um gesto com a cabeça em direção a saída. ‘De Aarhus-san e seu amigo de infância.’ Respondeu.
Kazuo e Marie se entreolharam. ‘Como sabe…’ A jovem começou a perguntar.
‘As magias são parecidas.’ O garoto respondeu e deu um suspiro. ‘Além disso, dá para sentir que tem mágoa demais entre eles.’ Shaolin olhou para a prima e ergueu uma sobrancelha. ‘Aarhus-san me contou sobre um amigo que o traiu. Eu apenas deduzi que fosse ele… Não consigo ler mentes. Ainda.’
Marie estreitou os olhos no primo, percebendo que a magia dele estava cada vez mais forte. ‘Tem certeza?’
Shaolin suspirou novamente cansado. Olhou para a prima e depois para o irmão, ambos com os rostos preocupados para ele. ‘Não precisa ler mentes para saber que vocês dois estão com medo que eu morra. Ainda faltam quatro chaves. Se ficarem assim toda vez, vão infartar realmente. Já deveriam ter se acostumado.’
‘Humph.’ Kazuo murmurou. ‘Desta vez, voltou bem petulante, pirralho.’
Shaolin sorriu para ele ao ouvi-lo, chamando daquela forma. Sabia que, se ele o fez, era porque já estava mais calmo.
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Ras! Aan boord!
(Todos a bordo!)
Kasumi respirou fundo, soltando o ar devagar. Viu-se apoiada no galho de uma das copas das inúmeras árvores da floresta onde estava. A lua cheia dava ótima visibilidade para ela. Respirou fundo e soltou o ar devagar novamente.
Ainda não tinha entendido exatamente porque Boss havia lhe enviado aquela missão através de Wave, apesar de que… Balançou a cabeça de leve, Najenda era uma mulher inteligente, tinha enviado tropas para conter o inimigo, mas foram exterminadas assim como os vilarejos vizinhos. O único que ainda parecia se manter protegido era aquele, mas ela sabia que tinha algo errado.
Além disso, era bom ter uma missão para se focar e evitar pensamentos vazios que não a levariam a lugar nenhum, além de não resolverem sua eterna solidão. Se havia sobrevivido, era porque tinha algum motivo ainda. Precisava acreditar nisso para continuar a respirar.
The wind across the water
(O vento sobre a água)
Is carrying my words
(Carrega minhas palavras)
Hoping they will reach you
(Espero que elas cheguem até você)
Wishing I'll endure
(Espero suportar)
Estreitou os olhos no grupo que caminhava em direção a estrada. Três meninas com cerca de 10 anos estavam à frente, encolhidas e chorando. Atrás delas, seguia um grupo de homens.
Trincou os dentes, lembrando-se de quando ela e a irmã foram levadas para a tal iniciação e soltas na floresta para enfrentarem o frio, a fome e a morte. Haviam sobrevivido àquele maldito teste para depois serem separadas e treinadas como assassinas.
‘Fiquem aqui.’ Um dos homens falou de forma dura para as meninas que se abraçavam apavoradas.
‘Vamos embora… Logo eles chegarão…’ Ouviu outro resmungar, literalmente apavorado.
Kasumi desceu da árvore com a agilidade de um gato sem chamar atenção, observando os homens correndo para dentro do vilarejo onde acreditavam estar seguros.
“Covardes idiotas” Pensou, erguendo o corpo e levando a mão até Murasame que estava presa à sua cintura. Olhou sobre o ombro esquerdo, sentindo a presença dos demônios que se aproximavam de suas “oferendas”. Teria que ser rápida.
Caminhou até as três garotas, que a olharam mais apavoradas, pensando que se tratava do inimigo.
‘Corram.’ Ela ordenou com a voz firme e baixa.
Uma das garotas levantou o rosto molhado e a encarou. ‘Q-quem é você?’
Kasumi virou de costas para ela e soltou a lâmina de Murasame da bainha com o polegar. Estreitou os olhos nos vultos que começavam a se aproximar.
‘Corram agora ou vão morrer aqui.’ Ela alertou mais uma vez e ouviu os passos infantis atrás de si. Não desviou os olhos dos seres que se aproximavam e logo a luz lunar fora capaz de mostrar a ela quem eram os inimigos.
What I'd give
(Eu daria tudo)
To hold you in my arms
(Para ter você nos braços)
And be together
(e ficarmos juntos)
Though the sea
(Embora o mar)
Has called your name
(tenha chamado por você)
In ever sweet surrender
(Em vez de nos entregarmos)
We will find our way
(Encontraremos nosso caminho)
Tinham a forma humana tanto de homens como mulheres. Arregalou os olhos de leve ao perceber nas marcas em seus corpos similares às que ela mesma tinha. Segurou a empunhadura da katana, apertando-a entre os dedos.
Eram muitos… e também estava na cara que já não eram mais seres humanos, eram demônios. E para complicar ainda mais a situação, ela teria que lutar sozinha como sempre.
Não fora a toa que Boss a enviara para aquela missão. Começava a entender o porquê dos militares enviados antes para proteger a vila vizinha terem sido exterminados junto com os habitantes.
Os seres pararam, observando-a com interesse. Um deles foi a frente e abriu um sorriso para ela. ‘Ora, se não é a humana que conseguiu controlar Murasame.’
Kasumi franziu a testa e flexionou de leve os joelhos, já em posição para se defender de qualquer ataque.
‘Será que realmente ainda é humana?’ Ele perguntou sem desviar os olhos dela. ‘Pelas marcas em seu corpo, você também foi transformada. Por que não se junta a nós?’
‘Humph.’ Ela murmurou incomodada. ‘Não deveriam estar aqui.’
‘Não voltaremos para aquele inferno.’ Ele falou olhando em volta. ‘Agora entendo porque Murasame era tão fascinado pelos humanos.’ Fitou a jovem novamente e abriu um sorriso perigoso. ‘O sangue humano é maravilhoso. Corromper a alma humana é por demais prazeroso. Quanto mais inocente… mais fascinante… mais doce e delicioso.’
Your ship has left the harbour
(seu navio zarpou)
On her way to distant shores
(a caminho de destinos distantes)
May her arms protect you
(que ele lhe proteja)
When the gale wind roars
(quando os vendavais rugirem)
Ele deu alguns passos na direção dela sem desviar os olhos negros da íris vermelha da assassina. ‘Venha… junte-se a nós.’
Kasumi baixou de leve a cabeça, flexionando mais os joelhos para pegar impulso e avançar em direção ao seu alvo. Desembainhou Murasame e, com velocidade sobrehumana, retalhou o demônio em questão de segundos. Os pedaços dele caíram ao chão formando uma poça de sangue perto dela que apontou a espada para os outros.
Jogou a katana para cima, pegando a empunhadura da espada ao contrário. Ao mesmo tempo em que os inimigos corriam na direção dela, tentando agarrá-la e abocanhá-la, a jovem os atacou, girando o corpo e golpeando-os com a afiada lâmina de sua arma imperial. Virou o corpo, jogando a cabeça para trás de leve para evitar de ser atingida por um dos demônios e segurou mais firme a espada, levantando-a para cortá-lo, literalmente, ao meio de baixo para cima.
Girou novamente o corpo, tentando escapar das investidas de vários adversários ao mesmo tempo e saltou por cima deles, golpeando-os com poderosos chutes enquanto as estocadas de sua katana contra eles tornavam-se cada vez mais precisas e violentas. O local da floresta onde a batalha de uma assassina contra o enorme grupo de demônios acontecia já estava repleto de poças de sangue pelo chão.
What I’d give to hold you
(Eu daria tudo para segurá-lo)
In my arms and be together
(em meus braços e ficarmos juntos)
On the sea of hope we sail
(Navegamos no mar de esperança)
Calling saints and angels
(clamando por santos e anjos)
To guide you on your trail
(Para guiá-lo em sua viagem)
Kasumi sabia que não adiantava apenas acertá-los com Murasame. Eram demônios, com almas corrompidas. O veneno de sua arma imperial era inútil contra eles, seus golpes deveriam ser mais potentes e certeiros se quisesse sair viva daquele confronto.
Saltou por cima de um deles, pisando em sua cabeça para conseguir escapar da investida de outros que tentavam agarrá-la. De sua posição superior, estreitou os olhos nele, girou o corpo de forma ultra-rápida com a espada a sua frente, descendo em direção aos demônios para cortá-los em pedaços. Tocou o chão e rolou para a direita, novamente escapando de múltiplos ataques.
Ras! Aan boord trossen los!
(Todos à bordo! Vamos zarpar!)
One look at you and you
(Apenas olhar para você e você)
Light up the sky and my emotions
(ilumina o céu e minhas emoções)
Sentiu a respiração ofegante pelo cansaço físico. Eram muitos e os golpes tinham que ser fortes para retalhá-los ou não deixariam de existir. Trincou os dentes, constatando que por mais que tivesse eliminado vários, ainda restavam muitos. Viu-se cercada por todos os lados.
Não conseguiria enfrentá-los de forma eficaz se também ficasse se preocupando em evitar que a atingissem, contaminando-a pelo veneno que carregavam em seus corpos.
Hijs Het zeil anker op!
(Içar a vela, levantar âncora)
Return to me from the mist
(Volte para mim da névoa)
Of the endless sea
(Do mar sem fim)
Ergueu o corpo, seria melhor finalizar de uma vez com aquilo. Sabia que tinha que ser comedida ao usar aquele recurso, a única vez que o usou antes foi quando lutou contra Esdeath. Sabia que, quanto mais o utilizasse, mais se aproximaria da natureza daqueles contra quem lutava, afastando-se de sua humanidade.
Ponderou de forma rápida que o risco de controlar a corrupção de Murasame era menor do que lidar com o veneno daqueles que a cercavam.
Levantou a mão esquerda, aproximando a katana de sua palma para fazer o corte em sua pele e transformar-se temporariamente. Eliminaria todos aqueles demônios e salvaria a vida dos habitantes do vilarejo, além de vingar aqueles que foram dilacerados por eles. Essa era sua missão. Sorriu de leve, pronta para se cortar quando sentiu segurarem seu pulso esquerdo, afastando sua mão da lâmina de Murasame.
Virou o rosto assustada por não ter percebido a aproximação de qualquer inimigo, porém sua surpresa foi maior do que se tivesse sido alcançada por um dos demônios.
Arregalou os olhos e entreabriu os lábios sem conseguir acreditar que o rapaz de cabelos claros e olhos verdes estava ao seu lado. Ele estava morto! Ele havia morrido nos seus braços! Como podia estar ali?
‘Não faça isso.’ Ouviu a voz dele ainda sem conseguir acreditar. Sentia a mão dele segurando seu pulso com força, forçando-a a se afastar da lâmina.
‘Ta-Tatsumi…’ Balbuciou finalmente.
Ouviu a aproximação dos adversários e sentiu quando ele a puxou para desviarem do ataque dos demônios, evitando que fossem atingidos.
Balançou a cabeça de leve, tentando entender o que estava acontecendo. Quem sabe fosse uma alucinação de algum dos inimigos que a atingiu sem que ela percebesse.
‘Eu estou com você, Akame.’ Ele falou, finalmente soltando o pulso dela e segurando a espada que tinha em mãos a frente do corpo. ‘Vamos mandá-los de volta para o inferno.’
Ela sorriu de leve. Talvez estivesse realmente sonhando ou tendo alguma alucinação de que ele estivesse ao seu lado. Não importava agora. Franziu a testa de leve, estreitando novamente os olhos no grupo e ficando na posição para reiniciar a batalha.
Sua mente voltou a se concentrar na sua missão de eliminar todas aquelas criaturas que estavam matando em seu país. Abaixou-se de leve, tocando a mão no chão e, novamente, pegou impulso para de forma rápida e mortal avançar sobre eles, golpeando-os com fúria de forma precisa. De forma sutil e com maestria, desviava de qualquer tentativa de acertá-la.
Apesar de tudo, não teve como seus olhos não cruzarem com os olhos verdes de Tatsumi que também lutava de forma violenta contra a outra parte do grupo. Ele estava mais rápido, ela constatou de forma satisfeita e orgulhosa.
Inclinou o corpo para trás, novamente evitando de ser atingida, flexionou a perna esquerda, pegando impulso e girando o corpo para acertar o demônio que tentara acertá-la. Ele não teve tempo de entender o que aconteceu nem de se levantar e ela já estava passando a mortal lâmina acima de seus ombros, decapitando-o.
Sentiu novamente a respiração ofegante pela luta intensa que travava com o que parecia ser um exército inteiro. Sentia a mão que segurava a empunhadura de Murasame melada de sangue. Nunca havia retalhado tantos inimigos de uma só vez.
Olhou para trás, sobre o ombro direito e arregalou os olhos de leve ao constatar que um dos demônios estava para golpeá-la pelas costas. Antes mesmo que pudesse desviar da emboscada, viu-o ser cortado ao meio de cima a baixo e os dois lados do antigo corpo humano caíram ao chão.
I vow to be courageous
(Prometo ser corajosa)
Not allow myself undone
(Não permitir que se forme)
A gentle storm within me
(Uma tormenta dentro de mim)
My vigil has begun
(minha vigília começou)
Observou Tatsumi erguer o corpo devagar depois de golpear o último deles. A espada que ele tinha na mão direita também estava com a lâmina coberta de sangue assim como a lâmina de Murasame.
Fitaram-se em silêncio, apenas ouvindo o vento que circulava pela floresta e não mais os ruídos das espadas golpeando sem trégua e os últimos gemidos dos adversários abatidos pelos dois assassinos. Também conseguiam ouvir as respirações ofegantes de ambos, que aos poucos se normalizavam, depois da batalha intensa sem conseguirem desviar os olhos um do outro.
‘Akame…’ Ele sussurrou e sorriu de leve.
Ela mordeu de leve o lábio inferior e, ao mesmo tempo que sentia a adrenalina diminuir, sentia-o tremendo sem motivo aparente.
‘Tatsumi.’ Ela conseguiu que o nome dele saísse de seus lábios enquanto seus olhos ardiam, mesmo ela lutando para não chorar na frente dele.
Ele deu um passo a frente e parou mais próximo a ela, levantando o braço para tocar de leve o rosto dela e secar com o polegar as lágrimas que saíam do canto dos olhos. Era bom demais sentir o toque dele.
Os dois soltaram as espadas ao mesmo tempo, deixando-as cair no chão e se abraçaram com força. Kasumi abraçou-o pela cintura, sentindo-o envolvê-la de forma carinhosa.
What I’d give to hold you
(Eu daria tudo para segurá-lo)
In my arms and be together
(em meus braços e ficarmos juntos)
Though the waves have drown you in
(Mesmo que as ondas afogarem)
My everlasting love for you
(meu eterno amor por você)
Will keep you safe within
(Mantê-lo-á seguro)
Ela pensou que nunca mais poderia estar no único lugar onde se sentiu tão amada. Não conseguia controlar as lágrimas que saíam de seus olhos. O cheiro dele era tão bom, afundou o rosto no peito dele, sentindo-se aquecida e acolhida. Como havia sonhado e desejado voltar a se sentir daquela forma. Viva e não apenas um corpo vazio e que apenas continuava a matar como obrigação. Sentir-se aconchegada daquela forma voltava a fazer seu coração palpitar, mostrando que ainda era capaz de amar.
Sorriu apertando-o entre seus braços quando percebeu que ele beijava demoradamente sua cabeça.
Ras! Aan boord trossen los!
(Todos à bordo! Vamos zarpar!)
One look at you and you
(Apenas olhar para você e você)
Light up the sky and my emotions
(ilumina o céu e minhas emoções)
‘Estava com saudades…’ Ele murmurou ao ouvido dela.
‘Eu também.’ Ela respondeu de volta sem conseguir acreditar que estava novamente sentindo-o entre seus braços.
Se era um sonho, não queria acordar. Se era uma alucinação queria continuar intoxicada…
Subitamente, deixou de senti-lo entre seus braços e perdeu o apoio do corpo do rapaz, caindo no chão. Espalmou as mãos a frente e sentiu os joelhos baterem no chão de terra melada de sangue.
Abriu os olhos e voltou-se para trás, olhando para Tatsumi que se virou devagar para voltarem a se fitar. Ele trincou os dentes e cerrou os punhos.
Kasumi se levantou devagar sem desviar os olhos dele, ainda tentando entender o que tinha acontecido... o que estava acontecendo. Alguns segundos atrás estava nos braços dele, sentindo o calor do corpo dele contra o seu e agora sentia apenas o frio cortante daquela noite.
Hijs Het zeil anker op!
(Içar a vela, levantar âncora)
Return to me from the mist
(Volte para mim da névoa)
Of the endless sea
(Do mar sem fim)
You’ll be back from the endless sea
(Você voltará do mar sem fim)
‘Eu sinto muito, Akame…’ Ele novamente se desculpou, sem esconder a decepção de não mais tê-la entre os seus braços.
Ela estendeu a mão na direção dele que fez o mesmo. Foi então que ela finalmente se deu conta do que estava acontecendo. Apesar de parecer que poderia tocá-lo se estendesse a mão, não o sentia mais. Era como um espectro a sua frente, uma ilusão.
Ras! Aan boord trossen los!
(Todos à bordo! Vamos zarpar!)
One look at you and you
(Apenas olhar para você e você)
Light up the sky and my emotions
(ilumina o céu e minhas emoções)
‘Que merda está acontecendo?’ Ela perguntou sem conseguir conter as lágrimas de decepção e desespero agora.
‘Eu vou estar sempre ao seu lado.’ Ele respondeu com a voz falhada e abaixou o rosto.
Kasumi tentou mais uma vez tocá-lo, mas sua mão passou por ele. Estava realmente diante de um fantasma. Ela deu um passo para trás, tropeçando num dos pedaços dos inimigos que os dois dizimaram e quase caindo. ‘Por que isso? Por que, Tatsumi?!’
Ele levantou o rosto para ela e trincou os dentes. ‘Estamos em planos diferentes… Eu estou morto!’ Gritou. ‘Sou um maldito fantasma!’
Kasumi balançou a cabeça de leve, voltou a dar um passo à frente para tocá-lo. Pouco tempo atrás estavam abraçados, o que tinha acontecido? Que brincadeira era aquela? Que merda estava acontecendo? Mostrava-se desorientada e confusa.
Ela fechou os olhos e abaixou o rosto sentindo as lágrimas rolarem pelo belo rosto de forma livre.
Hijs Het zeil anker op!
(Içar a vela, levantar âncora)
Return to me from the mist
(Volte para mim da névoa)
Of the endless sea
(Do mar sem fim)
‘Inferno.’ Ela o ouviu sussurrar, chamando sua atenção. Voltou a fitá-lo e o viu com a mão no rosto tentando se controlar também pela situação em que estavam. Ele abaixou a mão, encarando-a nos olhos sem esconder também as próprias lágrimas. ‘Este é o nosso inferno, Akame.’
Kasumi arregalou os olhos, vendo-o desaparecer aos poucos da sua frente. Foi até ele tentando segurá-lo, mas seus braços apenas cruzaram o ar.
‘Você prometeu!’ Ela gritou. ‘Tatsumi!’ Chamou-o mais uma vez antes que ele desaparecesse completamente da sua frente. Caiu de joelhos no chão e gritou de frustração, raiva e tristeza. ‘Você… prometeu…’ Sussurrou baixinho.
You return from the endless sea
(Retorne do mar sem fim)
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
‘Você está bem Kurogane-san?!’ Ela ouviu lhe chamarem e sentiu quando lhe seguraram pelos ombros com força.
Abriu um sorriso enorme, pensando que era ele e levantou o rosto. Arregalou os olhos, fitando o rosto de um dos colegas de sala que estava ajoelhado a sua frente.
Fechou o sorriso decepcionada e piscou os olhos algumas vezes, tentando entender o que estava acontecendo. Desviou os olhos do rosto do menino e reparou que não era mais noite e sim dia. Estava na escola. Estava agora sentada sobre suas pernas na grama do pátio com o menino a sua frente.
Droga! Tivera mais um escape de realidade. Voltou a fechar os olhos, parte por raiva, parte por ainda sentir aquela dor dilacerante no peito, parte por vergonha. Sentiu quando o menino a segurou mais forte pelos ombros.
‘Vou levá-la para a enfermaria.’ Ele falou, levantando-se e a puxando junto.
Kasumi abriu os olhos. ‘Não… não…’ Ela negou enquanto secava o rosto. ‘Já estou melhor. Tive apenas… apenas sei lá… queda de pressão.’ Falou como desculpa, firmando as pernas e impedindo que o colega a arrastasse.
Olhou em volta e viu que outros alunos a estavam cercando, curiosos. Estava na hora do almoço, tinha ido dar uma volta no pátio para espairecer antes de ter aquele maldito escape.
‘Não!’ O garoto falou de maneira firme, encarando-a de perto. ‘Você não está se sentindo bem. Vou levá-la de qualquer maneira, nem que seja arrastada.’
Ela franziu a testa e o olhou atravessado. ‘Não se meta na minha vida, Shimizu-kun.’ Falou em tom baixo.
Uma das colegas de Kasumi se aproximou e a tocou no ombro, chamando sua atenção. ‘Por favor, Kurogane-chan… Você não anda bem de saúde. Precisa se cuidar.’ Falou com a voz suave, mas mostrando verdadeira preocupação.
Kasumi fechou os olhos, respirou fundo e soltou o ar devagar. Voltou a abri-los e fitou a menina. ‘Prefiro ir com você até a enfermaria, Onora-chan.’ Falou levemente.
A menina abriu um sorriso enorme, ao mesmo tempo que o menino fechava mais ainda o rosto. ‘Claro que sim!’ Falou, pegando a mão dela entre as suas. ‘Vamos.’
Shimizu ainda tentou argumentar que era melhor ele ir junto, mas voltou a falar de forma assertiva que preferiria ir apenas com Onora, fazendo o menino apenas acatar a decisão dela.
Kasumi sentiu Onora apertando sua mão e a puxando em direção a enfermaria. Ela inclinou a cabeça de leve, observando a nova colega de classe de olhos âmbares e cabelos castanho-claros curtos e lisos. “Tsukushi…” O nome veio à sua mente. Onora, de alguma forma, lembrava-lhe muito a jovem que apareceu algumas vezes em seus sonhos e escapes. Balançou a cabeça de leve. Aquilo tinha que parar, ou senão, enlouqueceria.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Eriol respirou fundo e tirou os óculos. Jogou-se para trás, encostando-se no assento da cadeira e tentando relaxar um pouco. Estava exausto e irritado por, novamente, ver-se em meio àquele monte de anotações e livros, tentando, desesperadamente, encontrar a solução ou, pelo menos, alguma indicação que levasse à solução dos problemas que seus amigos enfrentavam.
Fechou os olhos. Estava, também, preocupado demais com a filha. Ela não tinha entrado em contato com ele, nem sequer para tranquilizá-lo, dizendo que estava, até o momento, bem. Ponderou que ela, provavelmente, mantinha-se em silêncio para não entrarem numa discussão inútil. Ela viajaria de qualquer maneira e ele a repreenderia de qualquer maneira. O impasse entre eles seria eterno.
Abriu os olhos e fitou o porta retrato com a fotografia dela sorrindo. Sorriu de leve, pensando que era tão raro conseguir tirar um sorriso dela que tornava aquela fotografia quase uma preciosidade. Marie sempre fora séria e reservada demais. As notas sempre eram altas, as lições de magia sempre executadas com perfeição e controle, mas a filha nunca recebia amigas do colégio em casa ou saía com elas.
As únicas pessoas que realmente eram próximas dela eram Shaolin, o filho de Sakura e Syaoran e ironicamente Kasumi, filha de Tomoyo. Soltou outro suspiro e balançou a cabeça de leve lembrando-se da menina de longos cabelos negros. Lembrava muito Tomoyo. O semblante calmo e o rosto bonito. Franziu a testa, concluindo que se sentia de certa forma incomodado com o afastamento de Tomoyo da sua vida atual.
Kasumi tinha a personalidade mais contida e não tão amável como Tomoyo. Quando vinha visitar Marie, inicialmente mantinha-se apenas observando e quieta. Também, com um pai complicado como aquele, não era a toa que a filha fosse assim…
Olhou em volta, reparando nos livros e papéis ao seu redor. Lembrou-se quando sem querer ouviu uma conversa da filha com a menina.
Marie estava reclamando que ele vivia enfurnado no escritório estudando, Kasumi respondeu que ela não deveria se sentir assim, que Marie não deveria ter dúvidas sobre o que o pai sentia por ela por manter-se afastado estudando. Completou, dizendo que às vezes este afastamento é necessário e que Marie não deveria associar isso ao fato do pai preferir estar estudando e afastado, a estar com ela. Era apenas necessário.
Pelo visto, a menina tinha a mesma percepção e temperamento calmo que a mãe.
Já com Shaolin, desde que ele e Marie se conheceram, estavam juntos sempre que possível. Ele percebia a animação da filha quando chegava o horário das aulas de magia porque receberia o primo em casa e teria a companhia dele por algumas horas. Às vezes, implicando-se como se realmente fossem irmãos.
De forma egoísta, sentia-se bem com a situação. Ela sempre estava sob seus olhos atentos. Não precisava se preocupar com os meninos que poderiam querer se aproximar de sua garotinha. Não precisava se preocupar se ela estava em más companhias ou criando problemas como a maioria dos adolescentes.
Só que isso não estava certo. Marie era madura demais para a idade dela e ele sempre soube que isso era por conta de sua magia. Sempre detectou a magia fortíssima e advinda das trevas na filha, mas era mais fácil ignorar ou fingir que não enxergava isso.
Pegou o porta retrato, aproximando-o do rosto e aumentou o sorriso admirando-a. Marie era o que mais amava no mundo. Quando Kaho anunciou a gravidez, havia ficado assustado, quase em pânico. Não pretendia ter filhos, gostaria de continuar seus estudos em magia e talvez entender-se melhor como Eriol Hiiragizawa para deixar Reed Clow realmente no passado.
Além disso, lembrava-se claramente que em sua outra existência, estava ainda balançado por Tomoyo.
Mas quando a pegou nos braços pela primeira vez, de forma desengonçada e morrendo de medo de deixar aquela criaturinha cair, foi como se o mundo se iluminasse para ele de tal forma, tão brilhante e belo, como ele nunca imaginou ver um dia. Observar cada evolução dela, cada conquista, cada vitória… ouvir sua voz cantando ou até mesmo ouvir suas histórias enquanto encenava com as bonecas eram as partes do seu dia que mais valiam a pena.
Sim, ele não pretendia ter filhos para tentar se entender melhor como Eriol Hiiragizawa, mas apenas quando se tornou pai, sentiu-se verdadeiramente desvinculado de sua vida passada.
O telefone tocou e ele olhou para o aparelho, sentindo preguiça de levantar para atendê-lo. Considerou deixar a secretária eletrônica atender e depois retornaria para a pessoa, mas se levantou e caminhou até o aparelho com o porta retrato em sua mão.
‘Hiiraguizawa.’ Ele falou assim que atendeu o aparelho.
‘Tousan.’ Ele ouviu a voz da filha e fechou os olhos, abrindo novamente um sorriso. ‘Tousan, sou eu: Marie.’ Ela falou devido ao silêncio do outro lado da linha.
‘Como você está, filha?’ Ele perguntou.
‘Está tudo bem. Eu estou bem.’ Ela respondeu e ficou em silêncio. Provavelmente, esperando por alguma repreensão.
‘E onde vocês estão agora?’
‘Hã… na Noruega. O Shaolin-kun destruiu a chave de Heimdall.’ Ela respondeu. ‘Na verdade, acabamos de voltar da casa do senhor Aarhus, que era o protetor dela.’ Voltou a ficar em silêncio por alguns segundos e suspirou. ‘Como o senhor está?’
‘Preocupado… com você.’ Ele respondeu de forma sincera. ‘Mas… Não adianta a gente discutir isso agora. Quando você voltar… Vou colocá-la de castigo por um ano…’ Falou, sorrindo de leve e depois balançou a cabeça. ‘Cuide-se por favor, Marie.’
‘Estou me cuidando. Está tudo realmente bem comigo. Estou com Shaolin-kun e Kazuo-kun.’
Eriol suspirou. ‘Certo. Shaolin-san… Como ele está?’
‘Está menos cansado, mas ainda entra naquele transe esquisito para destruir as chaves. Ainda vai matar eu e Kazuo-kun de susto.’
‘Kazuo-san está cuidando do irmão?’
‘Sim. Se não fosse por ele, seria mais complicado proteger Shaolin-kun sozinha.’
‘Está bem. Acredito em você.’
Ficaram em silêncio um tempo.
‘Tousan…’ Marie chamou-o e calou-se por alguns segundos. ‘Desculpe-me por ter fugido de casa.’
‘Desde que você volte sã e salva, eu a desculparei. Mas não fugirá do castigo, ouviu bem?’ Ele respondeu e ouviu uma risadinha dela no outro lado da linha.
‘O senhor pode me colocar de castigo pelo resto da vida.’
Ele sorriu com a resposta, tinha vontade realmente de colocá-la de castigo o resto da vida, mas sabia que isso não seria possível.
‘Tousan…’ Ela o chamou novamente com o tom incerto. ‘Hum… estou com saudades.’
Eriol abriu o sorriso largo. ‘Eu também, minha querida. Eu também estou com muitas saudades de você.’
‘Logo essa loucura terminará.’ Ela falou.
‘Sim.’ Eriol falou. ‘Não se arrisque demais, Marie.’ Suspirou brevemente. ‘Você pode ter um poder enorme, mas é uma menina de 16 anos. Seu corpo tem limites. Não os ultrapasse.’
‘Sim… eu sei.’ Ela falou. ‘Hã… é por isso também que estou preocupada com Shaolin-kun. A magia dele está aumentando demais. A cada chave que ele destrói, volta mais forte. O senhor sempre falou que toda evolução na magia deve ser gradual…’
Ele sorriu, percebendo que ela havia prestado atenção nas lições que havia recebido. ‘Eu estou ciente. Syaoran-san entrou em contato comigo. Estou procurando… Tentando achar alguma coisa que possa evitar o que você está temendo.’
‘Ele não pode morrer.’ Ela falou com a voz baixinha. ‘Eu nunca vou me perdoar se isso acontecer.’
‘Isso está acima da sua capacidade, Marie. Não pode se sentir culpada por algo que não fez.’
‘Tenho uma dívida com Sakura-ba-san…’ Ela falou e não conseguiu continuar.
Eriol franziu a testa de leve. ‘Você é Marie. Marie não tem nenhuma dívida com ninguém. Você teme pela vida do seu primo porque gosta muito dele. Ele é seu amigo.’ Ele falou com a voz assertiva. ‘Eu vou encontrar uma solução, Marie. Estou procurando uma solução… mas se o pior acontecer, isso não será culpa sua. Você está fazendo o seu melhor.’ Ele suspirou novamente. ‘Não carregue tanta culpa, Marie… ou acabará amargurada como eu.’
Novamente ficaram em silêncio.
‘Hum… eu tenho que ir agora…’ Ela falou. ‘Obrigada, tousan… obrigada por tudo.’
‘Volte logo para casa, filha. Estou esperando por você.’
‘Eu sei disso. Manda um beijo para kaasan... Tchau, tousan.’
‘Tchau, querida.’ Despediu-se e ouviu o barulho dela desligando o telefone.
Ainda ficou com o aparelho na mão e olhou novamente para a fotografia da filha. Estava com muitas saudades dela e estava feliz por ela ter ligado, dizendo sentir o mesmo.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
‘Não é possível!!!’ Smith gritou irado, jogando o objeto mais próximo no chão com raiva. ‘Como eles conseguiram destruir a maldita chave de Heimdall?!’ Perguntou para um de seus discípulos que acabara de reportar o eventos transcorridos em Bergen.
‘Acabaram de me informar que Wilder Englund foi derrotado. Ele teve uma luta terrível e, por pouco, não perdeu a vida.’ O rapaz falou com a voz temerosa.
‘Não é possível que um demônio pivete e uma feiticeira fedelha tenham conseguido derrotar Englund!!!’ Ele falou, caminhando de um lado para o outro. ‘Ele é um dos mais fortes feiticeiros das trevas do mundo! Os dois não teriam poderes para derrotá-lo.’
O rapaz olhou para o mestre e franziu a testa. ‘Mas o senhor os viu lutar. São muito fortes. Eles, o Guardião e seu filho conseguiram derrotar o grande grupo que foi com o senhor para o Japão.’
Smith olhou furiosamente para o rapaz. ‘O que está querendo insinuar?’ Perguntou em tom baixo.
O rapaz estreitou os olhos no seu mestre. ‘Que eles são tão fortes que o senhor está fazendo acordos com pessoas como Englund, que possuem magia negra.’
‘Você está me repreendendo, moleque?’ Smith falou, caminhando e parando a frente do rapaz.
‘Estou apenas dizendo que o mestre deve colocar a cabeça no lugar antes de fazer acordos tão perigosos.’
‘Vocês são uns inúteis!’ Smith afastou-se aos berros. ‘Saia da minha frente. Nem todos vocês juntos conseguiram eliminar aqueles insetos! Saia! Agora!’
O rapaz ainda ficou alguns segundos olhando para seu mestre antes de rodar sobre os calcanhares e sair do escritório, deixando Smith sozinho novamente.
Smith olhou para um dos cantos do aposentou e fitou Takeda que estava parado, encostado à parede e de braços cruzados acompanhando a discussão. ‘Precisamos tentar a viagem.’ Smith falou.
Takeda abaixou os braços e caminhou devagar em direção ao seu mestre. ‘Sim.’
‘Eu não posso garantir que funcionará.’
‘É um risco que eu estou disposto a correr para acabar com aquele desgraçado.’
‘Você tem certeza?’
‘Absoluta.’ Takeda respondeu com o rosto sério. ‘Prepare-se mestre. Faremos o ritual para a viagem pelo tempo hoje à noite ainda.’
‘Tentarei mandá-los para antes do Caos.’ Smith falou.
‘Será o suficiente. Ele não terá se tornado um demônio ainda e eu poderei derrotá-lo.’
‘Você vai com outra pessoa.’ Observou o rapaz e o viu soltar um suspiro contrariado. ‘Preciso ter certeza que não deixará sua vingança pessoal se sobrepôr à sua missão de destruir o Guardião.’
‘Uma pessoa a mais só me atrapalhará.’ Ele falou. ‘Mas o senhor é quem decidirá.’
‘Lembre-se que deve apenas matar Syaoran Li. Não toquem em Sakura Kinomoto.’
Takeda desviou os olhos do seu mestre.
‘Está me ouvindo, Takeda?! Usem Kinomoto apenas como garantia para matar Li, mas ela não deve morrer. Entendeu?’
‘Sim, mestre. Assim será.’
‘Ótimo.’ Smith falou satisfeito, caminhando até uma estante e pegando uma das anotações de Clow que havia sido investigada à exaustão por um grupo de estudiosos. Com o uso de outras fontes, conseguiram finalizar um dos feitiços para viagem ao passado. ‘Mirena irá com você. Ela possui um nível de magia elevado que será muito útil. Além de se destacar em lutas.’
Takeda não comentou nada, apenas assentiu com a cabeça, acatando a ordem de seu mestre.
‘Descanse esta tarde, Takeda. Hoje à noite você, finalmente, terá sua vingança contra Li.’
Takeda finalmente conseguiu levantar o canto dos lábios. Esperava há muito tempo por aquele momento.
*~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~KK~*~*~*
Marie caminhou pelo hotel seguindo a presença de Shaolin. Franziu a testa, estranhando ao perceber que ele estava do lado de fora. Tentou localizar a presença de Kazuo, mas não a encontrou. Sentiu-se incomodada com isso. Ultimamente era bem fácil identificar a presença do menino que estava perigosamente intensa.
Passou pela recepção do hotel e olhou para a porta de vidro giratória. Para variar, estava chovendo. Não parava de chover nunca naquela cidade, até parecia Londres. Soltou um suspiro, irritada por ter que sair para se encontrar com o primo. Colocou o casaco à prova d’água e passou pela saída. Levantou o capuz e abraçou-se, tentando em vão espantar o frio. Ventava muito. Guarda chuva seria inútil. Sua vontade era invocar escudo para protegê-la daquela chuva, mas estava dia e havia muitas pessoas na rua.
Caminhou por pouco tempo e encontrou o primo no meio de uma das praças da cidade, sentado na base do monumento aos vikings. Ele olhava para as pessoas que andavam pela praça, já acostumadas com os dias chuvosos. Parecia não se importar com o aguaceiro, mas Shaolin também sempre detestou chuva.
Franziu a testa, observando que a aura dele estava expandida de tal forma que chegava a deixá-la assustada. Estava realmente mais forte do que antes de ter destruído a chave de Heimdall. Parecia estar prestando atenção nas pessoas com curiosidade. Percebeu a aproximação da presença de Kazuo e a sentiu parando ao seu lado.
‘Ele está aí há, pelo menos, duas horas.’ Kazuo falou incomodado.
‘O que ele está fazendo?’ Marie perguntou com o tom preocupado.
Kazuo deu de ombros. ‘Não sei. Ele está quieto demais.’
‘Ele sabe exatamente o que está acontecendo com ele. Shaolin-kun tem cara de bobo, mas…’ Ela soltou um suspiro. ‘É mais esperto do que se pensa.’
‘Ele comentou comigo que o tal de Heimdall explicou sobre o processo de destruição das chaves.’
‘Então ele contou para você o que acontece quando está naquele transe.’ Marie falou, voltando-se para Kazuo.
Kazuo assentiu com a cabeça. ‘Testam o caráter dele.’
Marie franziu a testa. ‘Como é? Como assim? O treinamento dele sempre foi para evoluir na magia. Ele foi treinado para isso. Magia e luta. Ojisan sempre cobrou um bocado dele inclusive.’
O rapaz soltou um suspiro e levantou os olhos, observando o céu cinzento. Achava curioso estar num lugar onde do céu, descia água sendo que viveu sempre num lugar onde o céu era de chamas.
‘É… Ele comentou isso um pouco decepcionado também.’
‘Mas ele comentou como são os testes? Ele sofre?’ Ela voltou a interrogá-lo.
‘Isso ele não quis falar. Disse apenas para que eu não me preocupasse.’ Falou e soltou de forma irônica. ‘Como se vê-lo em transe por vários minutos, com a temperatura baixa e com os sinais vitais fracos fosse a coisa mais normal do mundo.’
‘É… Dá muita agonia.’ Marie soltou.
‘Muita.’ Ele concordou.
Ficaram em silêncio, observando o menino que se mantinha sentado, atento a alguma coisa que só ele conseguia ver.
Kazuo reparou que o irmão sorriu de lado e depois desviou os olhos, constatando outra coisa. ‘Ele está estudando alguma coisa.’ Falou, tentando identificar em que o irmão prestava atenção. ‘Está tentando entender alguma coisa.’
Marie forçou a vista, observando o primo. Conhecia-o o suficiente para saber que Kazuo estava certo. Shaolin parecia estar tentando entender algo que estava vendo. A magia em torno dele estava muito forte, devia ter dado a ele alguma percepção que antes ele não tinha.
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‘Gabriel-baka ainda não apareceu para dizer onde está a próxima chave?’ Ela perguntou de repente.
‘Ainda não.’ Kazuo respondeu. ‘Melhor… Shaolin está menos cansado, mas…’ Ele reteve-se e voltou a fitar o irmão.
‘O que foi?’
‘Ele não está bem. Deve estar sentindo falta dos pais, não é? Sempre esteve ao lado deles.’
Marie meneou a cabeça. ‘Sim… Pode ser isso. Ainda bem que você está aqui com ele, não?’
Kazuo soltou um suspiro. ‘Ele não me considera irmão dele de verdade. Ele apenas me aceitou.’ Falou e encolheu os ombros. ‘Ele tinha uma vida perfeita até eu chegar. Baguncei tudo.’
Marie sentiu a voz chateada. ‘Você gosta dele.’
‘Como eu disse antes… É fácil gostar dele. Como é fácil gostar de Sakura e de oyaji.’
A jovem sorriu de leve. ‘Ele gosta de você também, Kazuo-kun.’ Ela falou com a voz doce e o fitou. ‘Você tem dificuldade a beça de aceitar isso, não é?’
‘Sou um demônio, Marie. Não se gosta de um demônio como alguém da família.’
‘Você realmente é um demônio e, pelo jeito, baka também.’ Ela falou incomodada. ‘Ter esta natureza não interfere nisso.’
Kazuo olhou novamente para o irmão. ‘Nossas magias são completamente diferentes. Completamente opostas. A magia dele lembra a daqueles anjos idiotas e agora está tão brilhante como a de Sakura. A minha presença é que destoa de tudo.’
‘Sua presença é parecida demais com a do seu pai quando tinha a mesma natureza que você.’ Marie assegurou.
‘Mas ele não é mais como eu.’
‘Isso não importa. Quando se gosta de alguém, você gosta e pronto.’
‘Isso não faz sentido.’ Fitou-a, franzindo a testa.
‘Não é para fazer sentido.’ Ela falou e depois suspirou. ‘Eu já desisti de entender como funcionam os sentimentos.’
‘Por que alguém gostaria de um ser como eu?’
‘Hum.’ Ela murmurou, desviou os olhos do rapaz a sua frente e voltou a fitar o menino. ‘Acho… Acho que você não deveria pensar assim. Se não se importassem com você… Seu pai não o teria impedido de voltar para o mundo das trevas, Sakura-ba-san não o consideraria da família, Shaolin-kun não o respeitaria... como irmão mais velho.’ Ela frisou, vendo-o desviar o olhar. ‘Ele poderia ter simplesmente entrado na casa de Aarhus-san, mas preferiu entrar em um acordo com você primeiro.’
Kazuo soltou um riso irônico novamente. ‘Ele sabia que aconteceria alguma coisa que daria mais tempo para ele.’ Fez um gesto em direção do garoto. ‘Como você falou, ele é mais esperto do que parece.’
Marie encolheu os ombros de leve, sentindo as bochechas esquentarem. ‘Talvez… bem, E-eu… eu também gosto de você. Se você não estivesse aqui, as coisas seriam muito mais difíceis de suportar.’ Disse, desviando o olhar e balançando devagar o corpo. ‘Eu fico feliz por você estar aqui…’
Kazuo sorriu de leve. ‘Apesar da situação… Também estou feliz por estar aqui.’ Ele balançou a cabeça de leve, olhando para baixo. ‘Pelo menos, sinto-me muito mais útil do que matando demônios no mundo das trevas para conquistar novos domínios para Midoriko.’ Ele soltou um suspiro. ‘Para mim… Estar aqui com você faz mais sentido.’
Marie sentiu o coração acelerar e olhou para o rapaz que se voltou para ela, sorrindo. Reparou em como o sorriso dele era bonito. Ele era um rapaz muito bonito. Se frequentasse a escola, com certeza, chamaria a atenção das garotas assanhadas. Mordeu de leve os lábios, constatando isso de forma clara pela primeira vez. Além disso, o jeito que ele agia, de forma clara e genuinamente sincera em tudo, deixava-a ainda mais encantada.
Demônios, em sua maioria, eram ardilosos, persuasivos como ela bem sabia de suas recordações como Khala’a. Kazuo era completamente diferente. Era violento e impiedoso em combate. Forte e rápido, como precisava ser para sobreviver no Mundo das Trevas. Mas como conseguia ainda olhá-la daquela forma doce?
Percebeu que tinha prendido a respiração por alguns segundos, apenas admirando-o, entreabriu os lábios, soltando o ar devagar, ainda confusa com seus pensamentos.
O que realmente estava sentindo por ele? Por que sentia-se daquela forma quando estava ao lado dele, sendo que, até pouco tempo, só de perceber a presença dele ficava irritava? Agora, simplesmente sentia-se perdida quando não conseguia identificar a presença dele por perto.
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Shaolin desviou os olhos da energia que envolvia uma mãe com seu bebê, a qual ele estava admirando, com saudades da sua mãe. Observou o irmão e a prima, que estavam parados debaixo da chuva, olhando um para o outro a alguns metros de distância dele.
Estreitou os olhos neles, percebendo a energia que vibrava em volta dos dois. Parecia que o “moleque irritante” e a “ruiva metida” sentiam muito mais um pelo outro do que queriam admitir.
Inclinou a cabeça de leve e não pode deixar de se perguntar se, quando estivesse com Kasumi, perceberia o mesmo. Estava com saudades dela. Não teve coragem ainda de ligar por receio de ter que voltar a mentir para ela. Soltou um suspiro, pensando que sentia uma apreensão constante dentro do peito e sabia que isso estava ligado a Kasumi.
Não aguentava mais de saudades. Queria voltar o quanto antes. Fechou os olhos e pensou que queria desesperadamente voltar a abraçá-la. Não conseguia entender o porquê daquele sentimento de apreensão. Aquele medo constante de não ser capaz de sentí-la novamente entre seus braços.
Pensou que Gabriel tinha que aparecer logo e lhe dar o maldito paradeiro da próxima chave. Queria voltar logo para casa.
De olhos fechados, conseguia perceber melhor ainda as energias e novamente prestou atenção tanto nas presenças do irmão e da prima como da energia que os ligava. Abriu um sorriso largo e balançou a cabeça, abrindo os olhos e fitando-os. Talvez devesse explicar de uma vez para o irmão como era o tal “contato específico e especial” ou eles nunca sairiam disto.
Conhecia Marie o suficiente para saber que a prima não tomaria a iniciativa. E, conhecendo o irmão, Kazuo não tinha ideia do que deveria fazer. Bem… Ele sempre quis ter um irmão mais novo e Kazuo, no final, em muito se assemelhava exatamente a isso. Teria que conversar com ele.
Observou os dois com interesse, mas logo eles se deram conta do que estavam fazendo e disfarçaram, virando-se para ele, ambos com os rostos corados. Sorriu de lado e, como imaginou, recebeu dois olhares de reprovação e constrangimento por perceberem que ele os estava observando.
Desceu da base do monumento onde estava sentado e caminhou devagar até os dois, parando a frente deles que o fitaram. ‘Acho que podemos passear pela cidade hoje.’ O garoto falou e olhou para o lado. ‘Gabriel não apareceu, então deve estar tudo bem, por enquanto.’
‘Você deveria descansar.’ Marie comentou. ‘Está há tempo demais debaixo da chuva. Pode pegar um resfriado.’
Shaolin ergueu uma sobrancelha e voltou a encarar a prima. ‘Se eu ficar trancado dentro do hotel, vou enlouquecer. Melhor eu dar uma volta na cidade. Vocês dois podem ficar lá... sozinhos, se quiserem.’
Os dois entreolharam-se constrangidos pela colocação do garoto.
Shaolin soltou um suspiro e rodou os olhos, realmente era melhor fazer alguma coisa. ‘Hum…’ Ele falou, balançando o corpo de leve. ‘Eu vou dar uma volta com o Kazuo. Você parece cansada, nee-san. Acho que você é quem deveria descansar um pouco.’
‘Só estou com uma dor de cabeça chata, não preciso descansar.’ Ela retrucou, cruzando os braços.
Kazuo franziu a testa, olhando para a jovem. ‘De novo? Não acha que está há muito tempo sentindo isso?’
Marie desviou os olhos dele sentindo-se encabulada. ‘É só uma dor de cabeça… Nada demais…’
‘Mesmo assim. Por que não toma uma daquelas pílulas? Elas funcionam muito bem para mim.’ Sugeriu, referindo-se aos analgésicos.
Ela mordeu o lábio inferior de leve. ‘Eu já tomei.’ Murmurou.
Shaolin observou a prima sem falar nada. Tinha alguma coisa errada com ela. Marie não era de sentir aquilo. Estreitou os olhos e conseguiu ver um brilho diferente no meio do peito dela que contrastava totalmente com a aura púrpura da jovem. O que era exatamente aquilo?
Como se soubesse que estava sendo analisada, Marie levou uma mão até o peito e virou o rosto, fitando o primo que olhava-a seriamente. ‘O que foi?’ Perguntou, na defensiva.
Shaolin balançou a cabeça de leve, dissipando os pensamentos. ‘Nada não.’ Respondeu por fim e voltou a fitá-la. ‘Então… acho que deveria esperar um pouco até a medicação fazer efeito, além disso… Sei que não gosta de chuva… lembra Londres, não é?’ Shaolin mencionou, fazendo Marie estreitar os olhos nele. ‘Já Kazuo deve achar bem interessante ver a água caindo do céu.’
Kazuo voltou a levantar o rosto, observando o céu acinzentado. ‘Realmente é bem diferente.’ Concordou, sorrindo de leve. ‘Eu gosto de chuva.’
‘Viu?!’ Shaolin falou, sentindo-se satisfeito. ‘Eu e Kazuo vamos dar uma volta e você descansa agora. Não sabemos quando Gabriel vai aparecer. Melhor usar este tempo para recuperar as energias.’
Marie semicerrou os olhos no menino. Conhecia o primo e sabia quando ele estava planejando algo. Não sabia exatamente o quê, mas aquela ideia de passear com Kazuo, tentando descartá-la não estava cheirando bem. O pirralho estava aprontando alguma. Soltou um suspiro cansada, realmente estava sentindo novamente aquele incômodo. Concordou com a cabeça.
‘Ótimo.’ Shaolin falou. ‘Acompanhamos você até o hotel e de lá partimos.’ Ele falou, começando a caminhar e voltou-se para trás. ‘Vamos?’
Kazuo e Marie se entreolharam novamente.
‘Ele está animado demais.’ Marie estranhou.
Kazuo deu de ombros, começando a caminhar atrás do irmão. ‘Muito melhor do que vê-lo dormindo o tempo inteiro.’ Comentou, sorrindo para ela.
Marie concordou com a cabeça, sorrindo também de leve para ele. ‘Isso é verdade.’
Continua.
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