Fênix - Até as cinzas voarem
10 O ponto mais baixo
A virada para 2021 trouxe um conjunto de regras ingrato para as equipes do fundo do grid. Para cortar custos durante a pandemia, a FIA congelou grande parte dos chassis de 2020 e introduziu o sistema de tokens de desenvolvimento, além de novos cortes no assoalho para reduzir a pressão aerodinâmica. Para a Vortex GP, isso significava que o carro seria basicamente o mesmo "tanque de guerra" lento de 2020, mas com uma aerodinâmica traseira ainda mais instável se alguém não redesenhasse o fluxo de ar com extrema precisão.
E a equipe precisava fazer isso sem o olhar genial de Gilberto.
A Caça ao Novo Projetista
No galpão da equipe em São Paulo, o silêncio de janeiro era interrompido apenas pelo som do telefone fixo e pelos passos de Eduardo entre as pranchetas vazias. Ele precisava desesperadamente de um engenheiro-chefe.
Grandes nomes do automobilismo europeu estavam fora de cogitação — os salários cobrados em euros eram proibitivos. Eduardo recorreu a contatos da época de faculdade de engenharia e ao automobilismo nacional, procurando alguém com mente aberta, disposto a trabalhar com recursos escassos e a honrar o projeto original de Gilberto.
Foi assim que ele chegou ao nome de Marco Santoro, um jovem engenheiro aeronáutico brasileiro de 32 anos que havia trabalhado na divisão de protótipos de uma grande fabricante nacional e feito especialização em aerodinâmica na Inglaterra. Marco tinha fama de ser pragmático, obsessivo com dados e, acima de tudo, corajoso o suficiente para aceitar o abacaxi.
A reunião no escritório de Eduardo foi direta:
— O orçamento para os tokens de desenvolvimento é praticamente zero, Marco—, disse Eduardo, mostrando o modelo em escala do VT-01. — A FIA cortou a borda do assoalho e reduziu as aletas do difusor. Nosso motor Renault já é fraco de reta. Se a gente perder a estabilidade de traseira que nos salvou na Áustria, o carro vira um sabonete.
Marco pegou o modelo do carro, analisando as linhas desenhadas por Gilberto com um mistério respeitoso.
— O Gilberto fez uma estrutura brilhante para suportar impacto e poupar pneu, Eduardo —, pontuou Marco, ajustando os óculos. — O problema é que o ar que sai dos pneus dianteiros está sujando toda a lateral. Com os dois tokens que a FIA nos deu, a gente não vai reconstruir o chassi. Vamos focar exclusivamente em redesenhar os dutos de freio traseiro e as placas laterais da asa dianteira. Se eu conseguir recuperar 5% do downforce que a FIA tirou na canetada, a gente mantém o carro dirigível.
— Quando você pode começar? — perguntou Eduardo, sentindo pela primeira vez em meses uma faísca de esperança.
— Ontem — respondeu Marco.
A Pressão na Sala de Reunião
Mas se a parte técnica parecia encontrar um rumo, a parte financeira era um campo de minado.
Na tarde de quinta-feira, Hunter e Nicolas convocaram uma reunião presencial no escritório temporário da equipe, acompanhados por dois representantes do grupo de investidores que havia bancado os custos de frete na temporada passada.
Hunter bateu com a pasta de documentos sobre a mesa, sem meias-palavras:
— Eduardo, nós precisamos saber onde estamos pisando. O Gustavo e o Rafael não podem passar mais um ano arrastando o carro no fundo do grid. O mercado é cruel. Se eles ficarem mais 23 corridas levando volta da Mercedes, a carreira dos dois morre antes de começar.
— Nós contratamos um novo engenheiro-chefe, o Marco Santoro. Ele já está trabalhando no pacote de aerodinâmica para os novos regulamentos da FIA — argumentou Eduardo.
— Um engenheiro do automobilismo nacional e dois tokens de desenvolvimento vão fazer o carro ganhar um segundo e meio por volta? —, ironizou Nicolas, o empresário de Rafael. — Não seja ingênuo, Eduardo. Os patrocinadores estão exigindo garantias de performance. Se a Vortex GP não mostrar evolução nos testes de pré-temporada no Bahrein, a cota de patrocínio do meio do ano não vai cair na conta.
O investidor principal, um homem de feições frias que representava o consórcio de empresas, inclinou-se para a frente:
— A conta de 2020 só fechou por causa do prêmio do 9º lugar no Mundial de Construtores, que vocês conseguiram por puro alinhamento de planetas na Áustria. Para 2021, a Williams e a Haas injetaram dinheiro. Se vocês ficarem em 11º no campeonato, a equipe quebra. É simples assim. Vocês têm fundos para pagar a taxa de inscrição da FIA e os motores Renault até a metade do ano. O resto depende do que esse carro novo fizer na pista.
O Peso nos Ombros de EduardoQuando todos foram embora, Eduardo caminhou até a fábrica escura.
Marco já estava lá, iluminado apenas pela luz do monitor de CAD, rabiscando no computador os novos contornos do assoalho cortado para atender às exigências da FIA.
Ao lado da mesa de Marco, o chassi do VT-01 de 2020 descansava sob uma lona. No bico, a frase "Obrigado, Gilberto" continuava lá, um lembrete silencioso de onde tudo tinha começado e do tamanho da responsabilidade que Eduardo carregava nas costas.
A temporada de 2021 nem havia começado na pista, mas a Vortex GP já estava correndo contra o relógio e contra a falência. Marco havia passado os últimos dias estudando os dados de 2020 e os novos cortes no assoalho impostos pela FIA. Ele não prometeu milagres, mas sua postura fria trazia um contraste marcante com o estilo mais intuitivo e humano de Gilberto.
O Primeiro Contato
Na noite anterior ao início dos testes de pré-temporada em Sakhir, Marco reuniu Gustavo e Rafael no fundo da garagem. O chassi atualizado, agora batizado de VT-01B, repousava sobre os cavaletes.
— Eu vi o que vocês fizeram no ano passado —, começou Marco, com um tom de voz firme e sotaque carregado. — Vocês pilotavam um carro duro, pesado, mas previsível. A notícia ruim é que o regulamento de 2021 destruiu essa previsibilidade. O corte no assoalho tirou pressão aerodinâmica exatamente de onde esse carro tirava a estabilidade dele.
Gustavo cruzou os braços, encarando o engenheiro com certa desconfiança:
— O que isso significa na prática, Santoro?
— Significa que o "tanque de guerra" acabou —, Marco foi direto. — O carro que vocês vão pilotar amanhã é mais arisco. Ajustei a suspensão traseira e as placas da asa dianteira com o que tínhamos de tokens, mas o fluxo de ar na traseira agora é instável. Vocês vão precisar adivinhar quando a traseira vai desgarrar.
Rafael olhou para Gustavo, engolindo em seco.
Dia 1 de Testes no Bahrein: O Pesadelo da Instabilidade
Quando a pista foi liberada e o VT-01B ganhou o asfalto sob o sol escaldante de Sakhir, o diagnóstico de Marco se confirmou de forma brutal nas primeiras voltas.
Diferente do ano anterior, onde o carro era apenas lento no seco, agora o VT-01B era imprevisível.
Na entrada das curvas de alta velocidade, a traseira soltava sem nenhum aviso prévio. Ao acelerar nas saídas de curva, o carro traseirava violentamente, forçando os pilotos a brigarem com o volante como se estivessem em um carro de rali.
— O que diabos aconteceu com esse carro?! — esbravejou Gustavo pelo rádio, após rodar na Curva 4 e fritar o jogo de pneus macios novos — A traseira simplesmente some no meio da curva! Não dá pra confiar no carro!
No box, Marco acompanhava os gráficos na telemetria sem mudar a expressão, apenas anotando dados em sua prancheta. Hunter e Nicolas, assistindo de trás das telas, trocavam olhares desesperados.
À tarde, foi a vez de Rafael ir para a pista, e a situação não foi diferente. Ao passar pela sequência de curvas rápidas (5 e 6), a perda repentina de downforce fez o carro chicotear. Rafael precisou de um reflexo absurdo para não bater o VT-01B direto no muro de proteção.
— Ele tá inguiável, Eduardo! — gritou Rafael no rádio, a respiração afobada pelo susto. — Ano passado o carro era lento, mas a gente sabia o que ele ia fazer. Agora ele é lento E quer matar a gente a cada volta!
A Reunião de Emergência no Box
Ao final do dia de testes, a tabela de tempos confirmou o desastre: a Vortex GP ficou na última colocação, mais de 3,2 segundos atrás da liderança e acumulando pouquíssimas voltas completadas devido às constantes saídas de pista.
No fundo da garagem, a discussão esquentou. Gustavo tirou o capacete e o balançou no ar, visivelmente frustrado, de frente para Eduardo e Marco:
— A gente tá andando no escuro, chefe! Na primeira volta a frente escapa, na volta seguinte a traseira roda sozinha. Se a gente alinhar esse carro no GP do Bahrein daqui a duas semanas, a gente vai bater na primeira volta!
— O Gustavo tem razão —, apoiou Rafael, enxugando o suor do rosto com uma toalha. — O carro antigo era uma rocha. Esse aqui parece que tá flutuando no óleo.
Hunter deu um passo à frente, cobrando Marco diretamente:
— Santoro, você foi contratado pra corrigir os estragos da FIA, não pra transformar o carro num sabonete! Os patrocinadores viram a transmissão dos testes, eles viram o Gustavo rodando sozinho!
Marco Santoro os aguarda de braços cruzados, segurando a prancheta com ar de superioridade e sem um pingo de preocupação no rosto.
Tom irônico, Santoro os olhou friamente.
- Olha só os dois... Sobreviveram. Pensei que soubessem contornar uma traseira um pouco mais solta.
Gustavo, Tirando o capacete com força e jogando sobre o banco), esbravejou:
-Um pouco solta, Marco?! O carro está ingovernável na entrada da Curva do Sol! A traseira escapa sem aviso prévio. A gente está quase se matando lá fora!
—O carro está perfeito. Os dados de aerodinâmica e downforce que eu calculei no simulador são impecáveis. O pacote de modificações que eu fiz entrega o máximo de pressão aerodinâmica que esse chassis aguenta.
Rafael Interveio, a voz alterada:
-Dados de computador não pilotam na pista, Marco! A realidade é outra! A suspensão rígida demais com essas asas novas está fazendo o carro quicar nas zebras e perder a aderência. É física básica!
—A física está certa, Rafael. O problema não é o carro, são vocês. Vocês dois simplesmente não sabem pilotar com a eficiência que meu acerto exige. Estão pilotando como se ainda estivessem com o carro do ano passado. Adaptem-se.
—Adaptem-se?! Você quer que a gente force um carro instável até bater no muro a 250 km/h só para inflar o seu ego?! Se você não mexer nessa geometria agora, a gente nem volta pra pista!
Essa fala fez Marco sorrir com desdém.
-Se não voltarem, a responsabilidade pelo fracasso da equipe na classificação vai cair nas costas de vocês. O meu trabalho foi feito com precisão. Cabe a vocês provarem que são pilotos de verdade.
A tensão no boxe fica insustentável, com os mecânicos trocando olhares receosos enquanto Gustavo e Rafael encaram Marco Santoro, percebendo que não terão a ajuda do próprio engenheiro para resolver o problema técnico antes da corrida.
A atmosfera na sala de reuniões da Vortex GP era de puro gelo. Marco Santoro nem esperou a poeira dos testes no Bahrein baixar; chamou Eduardo para uma conversa a portas fechadas, jogando um relatório denso sobre a mesa.
O Ultimato no Escritório
— Eduardo, seja racional — começou Marco, ajustando as abotoaduras do terno com uma calma irritante — O projeto do VT-01B é uma obra-prima de eficiência aerodinâmica dentro das limitações da FIA. Mas ele exige refinamento, leitura de telemetria em tempo real e uma pilotagem de nível de elite. O Gustavo e o Rafael são dois garotos românticos. Eles ganharam a vida guiando no braço na Fórmula 3, mas não têm estofo técnico para a Fórmula 1 moderna.
Eduardo encarou o engenheiro, sentindo o sangue subir.
— Eles colocaram a equipe no top 10 na chuva no ano passado, Marco. Eles salvaram esta equipe.
— O ano passado acabou — cortou Marco, com um sorriso desdenhoso. — Se você mantiver os dois, vai passar a temporada 2021 recolhendo cacos de carbono do muro e levando bronca de investidor. Se quiser que essa equipe seja respeitada no paddock, precisa de veteranos. Homens que saibam ajustar um carro no limite sem chorar no rádio.
— E de onde você acha que eu vou tirar veteranos a essa altura do campeonato?
— O mercado está cheio de talento disponível —Santoro inclinou-se para a frente, a voz calculada — Kevin Magnussen foi dispensado da Haas no fim do ano e está louco por um assento. Nico Hülkenberg é o maior super-sub da categoria e sabe exatamente como desenvolver um chassi. Sebastian Vettel é tetracampeão do mundo e sabe pisar no acelerador apenas no instinto e não quando o carro pede. Aquele japonês, Kamui Kobayashi também era ótimo. Traga-os para a equipe, você que é o dono da equipe! Ou é isso... ou você pode procurar outro projetista-chefe, porque eu não vou rasgar minha reputação por causa do ego de dois pilotos amadores.
A Demissão Mais Dolorosa
A conversa com Gustavo e Rafael aconteceu na própria garagem, com as luzes já apagadas e as ferramentas guardadas. Eduardo mal conseguia olhar nos olhos dos dois jovens que haviam carregado o sonho de Gilberto nas costas.
— Chefe... você não tá falando sério — disse Gustavo, a voz falhando enquanto a ficha caía. — Você tá jogando a gente no olho da rua porque aquele arrogante não aceita que o carro dele tá instável?
— Gustavo, eu não tenho escolha — desabafou Eduardo, a voz embargada. — O conselho de investidores comprou a ideia do Marco. Se eu não mudar a dupla agora, eles cortam o orçamento do meio da temporada. A equipe quebra antes de chegar na Europa.
Rafael estava encostado na mesa de trabalho, de braços cruzados, encarando o chão com um sorriso amargo de incredulidade.
— A gente engoliu o porpoising, pilotou carro com asa colada na resina, não reclamou de um centavo atrasado... — murmurou Rafael, levantando o olhar, queimando de frustração — E no primeiro sinal de dificuldade, você entrega a gente de bandeja pra um cara que acabou de chegar?
— Eu sinto muito, rapazes. De verdade —, disse Eduardo, engolindo em seco. — As portas da Vortex sempre vão estar...
— Poupa o discurso, Eduardo — cortou Gustavo, pegando sua mochila no chão com violência — A gente achava que essa equipe tinha alma. Que era pelo Gilberto. Mas no fim das contas, é só mais um negócio frio como qualquer outro.
Os dois saíram da garagem em silêncio, deixando Eduardo sozinho na penumbra da oficina, cercado pelas ferramentas e pelo silêncio ensurdecedor do fracasso moral.
A Ligação para a Europa
Mais tarde naquela noite, no quarto do hotel, Eduardo encarava a tela do celular. As mãos tremiam levemente. Ele sabia que estava prestes a dar um passo sem volta, mudando drasticamente o rumo da Vortex GP.
Ele discou o primeiro número internacional.
— Hello? —, atendeu uma voz grossa e serena do outro lado da linha, diretamente da Alemanha.
— Nico? Aqui é o Eduardo, da Vortex GP —, respirou fundo. — Eu sei que é em cima da hora para a abertura da temporada no Bahrein... mas nós temos dois assentos vagos e precisamos urgentemente do melhor piloto de desenvolvimento do mercado.
Do outro lado da linha, Nico Hülkenberg fez um breve silêncio antes de responder com uma risada curta:
— Você tem a minha atenção, Eduardo. Mas me diga uma coisa... quanto aquele carro de vocês realmente tá balançando na pista?
— Você descobre amanhã se aceitar o contrato —, respondeu Eduardo. — E aproveita e avisa o Kevin Magnussen. Eu vou precisar dos dois.
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